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A soberania da Graça

Há aquele ditado que diz: “todo homem tem que ter um filho, plantar uma árvore e escrever um livro” (não necessariamente nesta ordem).

Plantei uma árvore, ou algumas, quando tinha algo em torno de dezesseis anos; tive quatro filhos entre meus vinte e seis anos e trinta e três anos; e escrevi um livro com quarenta anos. Espero contribuir mais com os projetos ecológicos e sociais, escrever mais livros e textos diversos e encerrei a fábrica, deixando para vocês, e meus filhos, a façanha de aumentar a população mundial.

Freud diz que há um contra-ponto entre o sexo e o trabalho! Não que eu viva para o trabalho, é claro.

Escrever, compartilhar realidades interiores, que é o assunto em questão, é uma atividade de esvaziamento, uma busca em traduzir por símbolos gráficos e sonoros compreensíveis por outras pessoas, os sentimentos, os valores, as dúvidas, as verdades, uma miríade de coisas que estão contidas somente em nós e que de alguma forma desejamos formatar, organizar, dividir. O sentimento que vem a mim após escrever algo é como se pequenos pacotes de “eu era” fossem morar no apartamento em frente.

Há processos internos de elaboração de idéias: a busca de um tema, levantamento e ordenação de informações pertinentes e reflexões aborrecidas, compartilhadas com a mulher de aliança que dorme incontinente ao som de minhas divagações.

Há vezes que ao sentar-me para escrever, tudo o que deve ser escrito está articulado, mas as palavras que vão surgindo não correspondem ao que está em mim. Outras vezes as palavras brotam como se tudo já estivesse escrito e apenas faço uma cópia do material interior. A maioria das vezes é quase um parto a fórceps, de idas e vindas, escritas, leituras, correções. Também há aqueles textos que são escritos a revelia de minha vontade: desejo falar sobre algo e me pego escrevendo sobre outra coisa, como se tivessem vida além da minha própria. Por fim, há aqueles momentos onde as palavras, os símbolos lingüísticos e as estruturas lógicas formais, não são suficientes para traduzir as fronteiras das coisas que vejo mais além.

Foi num desses momentos que me peguei pensando em Deus.

Quantas coisas podemos pensar sobre Deus? Na busca desta resposta procurei a via formal, tentei partir pela fórmula da mais tradicional academia evangélica e refletir sobre Seus atributos, Seu caráter, Seus nomes, etc. Parei naquele que elegi como o primeiro atributo que deveria ser pensado: Soberania.

Naquele instante percebi que tudo o que se pode escrever sobre Deus traz um erro sistêmico: a tentativa quase arrogante do ser humano em reduzir o Todo à parte. Não é possível dogmatizar uma teologia sobre Deus, nem mesmo quando buscamos na Bíblia os atributos ali descritos e exemplificados. É possível que os exemplos contradigam os atributos; que um atributo seja aparentemente antagônico a outro.

Estava tentando cruzar - como se fossem equações de um mesmo problema matemático - o entendimento sobre “Soberania” com o de “Todo-Poderoso” e “ver” estes dois atributos à luz da Sua “Palavra Revelada”, ou seja, eu estava encaminhando uma proposta teológica - para mim mesmo, é claro –, uma conceituação, uma frase que pudesse conter e descrever o sentido destes atributos e com isto, conhecer um pouco mais do infinito de Deus.

Cheguei ao momento apoteótico e dialoguei comigo mesmo: Deus é Todo-Poderoso para fazer tudo aquilo que Ele declarou que iria fazer e, que, portanto, dentro dos limites estabelecidos por Sua expressa Palavra, Ele é Soberano. Em outras palavras, quando Deus declara, revela, que irá fazer algo, Ele tem tudo necessário e suficiente para fazer aquilo que falou e ninguém tem autoridade, poder e recursos para impedi-lo, tornando assim Sua declaração mais verdadeira do que a realidade na Terra.

Claro que desta minha ingênua proposição surgiram uma infinidade de perguntas, muitas das quais são respondidas de imediato, outras são respondidas após algum trabalho e outras perguntas criam furos que são preenchidos por acomodação e imaginação, mas umas coisinhas fugiram a minha lógica reducionista e humana, e a capacidade de flutuar no campo protético.

Estas coisinhas incômodas, que não permitem que Deus seja controlado pelo meu raciocínio, apresentam-se no desenrolar da história, em Sua decisão em tocar na Terra e o Mundo.

Quando o povo de Israel deixa o Egito, após seu exílio e escravidão, Deus lhe dá a Lei, através de Moisés. A Lei representava as fronteiras legais estabelecidas pela Palavra de Deus para o homem, a amplitude da Soberania divina a partir da qual o israelita poderia se mover, tendo a garantia de que o Senhor iria usar Seu Todo-Poder para honrá-lo com bênçãos e rechaçar malditos e maldições - algo mais ou menos por aí.

É claro que a Soberania de Deus ia, e vai, além dos termos da Lei, mas a vida de obediência irrestrita dentro das fronteiras legais garantia as benesses da Aliança que o Senhor tinha com aquele povo. Em contra-partida, as ações de desobediência e não observância da Lei remetia o povo a um conjunto de maldições: fuga da esfera da Soberania da Palavra de Deus ocasionando o não compromisso do Todo-Poder divino em socorrê-lo.

Esta Lei definia um conjunto de normas sociais, jurídicas, religiosas, econômicas e políticas. Por exemplo: um israelita somente poderia se casar com uma mulher israelita, nunca com uma estrangeira e mulheres da terra onde eles haveriam de viver(a). A Lei também dizia que o juízo para a prostituição e adultério era o apedrejamento, tanto para homem como para mulher (b). A mesma Lei dizia que um moabita não teria nunca parte no meio do povo de Israel, ou seja, seus descendentes nunca seriam tidos como verdadeiros israelitas sendo vetado o direito de participar da vida religiosa e política em Israel(c).

Esta era a Lei, o ambiente de Soberania de Deus sobre aquele povo, que garantia o Todo-Poder de Jeová.

Algumas décadas após a promulgação deste estatuto legal Moisés morreu e Josué assumiu a liderança de Israel, tendo como propósito entrar em Canaã, hoje Palestina, e expulsar seus moradores, assumindo o governo e autoridade absoluta daquela região, tendo como premissa a obediência à Lei. A Lei era o regimento e estatuto único e imprescindível para o povo de Israel ter sucesso em sua empreitada físico-espiritual na terra da promessa.

No momento em que o povo cruza o rio Jordão e efetivamente inicia sua caminhada de conquista da promessa, tem diante de si a cidade fortificada de Jericó. Para lá o novo líder envia dois homens a fim de espiarem os recursos e estruturas do inimigo, sendo acolhidos na casa de uma prostituta cananita, que os protege da fúria do guardas daquela cidade fortificada. Como recompensa deste auxílio concedido ao povo de Israel, ela (e sua família) é poupada do extermínio e passa a integrar a nação israelita.

Esta mulher, ex-prostituta cananita, agora integrada ao povo de Israel, casa-se com um israelita e tem um filho chamado Boaz. Este homem por sua vez se casa com uma moabita (seu nome era Rute (d) e os moabitas eram um povo hostil e que faziam guerra constante contra Israel e que habitavam na Palestina) e tem um filho chamado Obede, deste homem veio Jessé, o qual teve oito filhos, cujo mais novo foi Davi, que por escolha e determinação direta de Deus, ao profeta Samuel, se torna rei em Israel, sendo chamado de o “homem segundo o coração de Deus.”

O Rei Davi é da quinta geração de uma prostituta cananita e da quarta geração de uma moabita.

Isto é uma heresia, ou uma não verdade: ou Deus não conhecia a Lei que Ele mesmo deu a Moisés, ou Samuel – profeta que ungiu a Davi como rei – cometeu algum deslize legal e ético, ainda que estivesse obedecendo ordens diretas de Jeová, ou então, a Soberania de Deus está suportada por princípios ainda mais profundos que não se percebem através da obediência irracional do dispositivo legal interpretado pela superficialidade, ingenuidade e legalismo.

Precisamos nos lembrar que israelita não é aquele que tem herança hereditária de Abraão, o gentio, antes, é aquele que crê na promessa: Cristo Jesus, conforme Paulo nos fala em Romanos(e). A Soberania de Deus está na Sua Palavra e esta é Cristo e não a Lei. A Lei fala do erro, a Soberania fala da Graça e esta é Cristo. A Palavra é suportada pela Graça, desta forma a Soberania somente pode ser entendida à luz da Graça e esta fundamentada no Amor: pois Deus é amor.

Raabe, a prostituta cananita, uma vez que creu ser a nação de Israel o povo que carregava a promessa e, portanto, a linhagem messiânica de Cristo, pela graça, ela, tornou-se mais israelita do que todos os descendentes de Abraão, e isto por fé (f), visto que Abraão é pai da fé e ela mesma é da linhagem de Jesus (g).

A Soberania de Deus não se faz pela Lei, mas pela Graça e está em amor. O Amor fundamenta a Graça e por Deus ter amado o mundo, Ele ofereceu a vida eterna (h). Deus amou o mundo*, que está morto no maligno** (i).

Então, Deus ama, além de nossa capacidade de entender (j), aquele sistema de pensamento capaz e estruturado que está morto, separado de Deus, em virtude de sua propensão para conceber o mal por sua deliberação de ser independente de Deus. Em outras palavras, Deus amou o ser humano, que desejoso de ser o criador de um sistema de valores e princípios paralelo ao divino, e, portanto, sem Deus e anti-Deus, viu-se, por sua limitação e impossibilidade, separado do seu Criador, dilacerado interiormente, conflitado com seu próximo e amaldiçoado em suas experiências empíricas. Este amor divino conduziu um projeto, uma meta-narrativa histórica, que culmina na manifestação real de seu propósito: Cristo no ser humano e o ser humano segundo a imagem do Filho de Deus.

Ora, a meta-narrativa escatológica não está concebida para destruir aquilo que Deus amou, antes para estabelecer o propósito dEle: levar todo o ser humano a ser conforme (k), clone do caráter de Seu Filho, que é a expressão exata do ser de Deus (l). Soberania de Deus não será conhecida pela exclusão, antes, pela inclusão (m) e Seu Todo-Poder está revelado em Cristo, tornando-O o primeiro de uma espécie, o primogênito dentre muitos irmãos (k).

Assim, a Soberania de Deus passa a estar, mais uma vez, submissa à fé messiânica, que, entretanto, agora não mais é suportada pela vinda daquele que iria vencer a serpente e cravá-la na cruz, mas, agora, nós e a natureza gememos na expectativa da revelação dos filhos maduros de Deus (n), restaurando a ordem que se encontra numa crise entre ordens cósmicas conflitantes, oscilando entre o mundo que está morto na propensão ao mal e o mundo que foi restaurado por Jesus Cristo.

Ainda que possamos entender estas coisas e entendendo-as re-direcionar nosso ser para que esta realidade que está contida na verdade de Deus, que é Cristo, possa ser manifesta em nós, sabemos que Deus é infinitamente maior do que pensamos e que sendo assim, de certo viveremos a eternidade para que a plenitude projetada para nós seja realizada.

Enquanto isto, devemos ter a humildade de dizer que nosso dialogismo imperfeito e limitado, requer revisões constantes pelos recursos que já habitam em nós, pelo atrito causado nesta interferência com outros que tem refletido e buscado compreensão da matéria e pelo tempo, enquanto estivermos no tempo.

*Mundo no grego é “kosmos” e que significa arranjo ordenado, decoração, adorno, mundo. Não confundir com “século”, conforme lemos em 2 Coríntios 4: 4, e que é a palavra “aion” que significa período de tempo, era, século.

**Maligno no grego é “poneros” que significa uma condição ou natureza má, no senso ético seria um mal exagerado e não justificado. A palavra grega para diabo é “diabolos” que significa falso acusador.

(a)Deuteronômio 7: 3 a 5
(b)Levítico 20: 10
(c)Deuteronômio 23: 3
(d)Rute 1: 4
(e)Romanos 2: 29
(f)Romanos 4: 16
(g)Mateus 1: 5 e 6
(h)João 3: 16
(i)I João 5: 19
(j)Efésios 3: 19
(k)Romanos 8: 29
(l)Hebreus 1: 3
(m)Efésios 1: 9 a 11
(n)Romanos 8: 18 a 25

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Teixeira - Arujá-SP