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À igreja em Atlântida

Há coisas intrigantes acontecendo por aí. Outro dia estava vendo no Discovery Channel uma reportagem que me levou do mundo do ades para um mundo do logos em questão de minutos. O relato misturava investigação científica e policial, e claro, no meu mundo, uma investigação sobrenatural, infernal: pessoas que entravam em auto-combustão.

Enquanto os repórteres explicavam que na Inglaterra, de forma aleatória, pessoas pegavam fogo enquanto dormiam, consumindo quase todo o corpo, restando apenas parte dos membros e a cabeça, “cremando” tecidos, órgãos e mesmo os ossos por inteiro, minha mente desenvolvia uma teoria fundamentada na crença em que a ação de demônios e o “fogo do inferno” haviam feito o trabalho devastador.

Então, “meu mundo caiu”! Entrou em cena um cientista que, a partir de uma experimentação com um porco envolto num cobertor de lã, demonstrou que da mesma forma como a vela queima a parafina antes de queimar o pavio, assim, um pequeno fogo localizado numa roupa ou cobertores de algodão e lã, derretem a gordura humana encharcando o tecido e reproduzindo o efeito de uma vela, ou seja, o tecido incandescente derrete a gordura que o encharca, impedindo a queima instantânea dele, que ao embebedar-se em gordura animal faz com que a “incineração” seja prolongada, mas completa nas áreas do corpo onde há tecido adiposo, o que exclui partes dos membros e a cabeça.

Aquele programa foi uma revelação para mim, que por conseqüência desempregou legiões de demônios mentores, levando-me à busca por entender não mais a forma de ação e poderes das trevas no mundo, mas entender a consciência de mundo de quem está no mundo: eu.

O mundo, tanto no conceito bíblico-teológico neotestamentário, quanto no filosófico, advém da palavra grega “kosmos”, que significa arranjo ordenado, arranjo harmonioso, ordem, governo, decoração, adorno. O mundo é a presença de um modelo que ordena harmoniosamente, estabelecendo um tipo de governo, também é um adorno ou decoração. É daí que vem a palavra cosmético: um adorno que harmoniza e dá um senso de ordem estética. O kosmos é a presença de uma ordem governamental, sem a qual não há mundo.

Falando em mundo e cosmética, nenhuma metáfora expõe melhor este conceito do que o outdoor que traz a propaganda de uma marca de sabonete, onde uma mulher está diante de um espelho que reflete a imagem da Gisele – o ícone da mulher fashion.

Quem, porventura, vestiria melhor a idéia de mundo nesta peça publicitária? A Gisele, ícone da mulher reificada, que é um produto de consumo, não em si mesma, mas em seu significado contemporâneo? O espelho, como mídia entre o real e o concebido? A mulher que se põe diante do espelho e não se vê, antes reproduz o ícone midiatizado? O mundo seria a criação da peça publicitária e a ordem transcendente? O mundo seria eu, que ao comprar o sabonete e dar para minha esposa, imagino que ao estar com ela, de fato estarei com a outra?

O entendimento da vida e de como ela é percebida tem sido profundamente afetado pela elaboração de mundo que temos desenvolvido. O mundo que está em nós, faz-nos ler o mundo que está fora de nós; e o mundo no qual estamos, influencia o que somos. De forma constante e sistemática, o entendimento sobre Deus e sobre o Homem, tem sido alterado na medida em que a percepção de mundo e a inclusão do ser humano, sendo e estando no mundo, se alteram.

O mundo é uma ordem, um arranjo, um modelo de governo, e ainda que esta ordem possa estar propensa ao mal, ela existe; negar a ordem é negar o mundo; negar o mundo é negar que Deus tenha feito algo efetivo; negar a efetividade divina é negar o Seu amor: pois Deus amou o mundo de tal maneira que deu Seu Filho...O caos é a ausência da ordem. Negar a ordem que está propensa para o mal é também negar a ordem recriada para a vida, concebendo o caos: a absoluta falta de ordem. O caos somente existe quando no nosso mundo não há mundo. Desta forma quem deixa de existir é o “eu”. O caos é a ausência da consciência de mundo que está no “eu”.

Como dissemos a pouco, podemos entender que o mundo que está em nós produz a percepção do mundo que está fora de nós, isto é, a estrutura estética, de conhecimentos, de crenças, de valores, de idéias, ou seja, a ordem que está em nós gera um modelo de leitura da ordem que está fora de nós. Seguiremos esta idéia nos apropriando do entendimento kantiano de razão pura e inata, que é obra dos modernos.

Para procurarmos entender isto, devemos, ainda que sucintamente e assumindo alguns erros de interpretação histórica, destacar as diferenças de entendimento sobre a ordem da vida no pensamento pré-moderno, na modernidade e na pós-modernidade.

No pré-modernidade todos os fenômenos que ocorriam tinham uma explicação sobrenatural e eram regidos por seres, ou deuses, bons e/ou ruins. As pestes, os cataclismos, o prazer, a vitória, a colheita, etc, tudo era proveniente da ação de seres sobrenaturais e para eles eram oferecidos cultos e dádivas, a fim de se obter suas benesses, ou aplacar sua ira.

Um exemplo ainda vívido deste mundo medieval, que perdura na sociedade tecnológica atual, pode ser visto em práticas de “batalhas espirituais”, onde demônios e seres malignos dominam a existência humana - a qual está submetida a principados, a poderes e a potestades -, que aguardam o mínimo desvio de conduta para terem acesso a todo e qualquer campo da existência do indivíduo. Estes seres de trevas estão aquartelados nos nossos pecados, culpas e imperfeições. Para impedir o acesso certeiro à nossas vidas, cabe-nos ritualizar a fé pelos dízimos, jejuns, vigílias, campanhas, coberturas espirituais, cultuações, memorização de textos sagrados, declarações repetitivas de textos, como se fossem mantras, sujeição incondicional a instituições e seus líderes, etc. Enfim, uma gama de coisas que substitui a graça da Cruz.

Toda esta parafernália religiosa ainda está sujeita às limitações da fé do indivíduo e ao confronto cósmico (mundo) entre o Bem (Deus) e o mal (Satanás), que digladiam a respeito do direito ao domínio dos frágeis humanos sem recursos, os quais aguardam ansiosamente que porventura o Bem prevaleça, no último dia, conferindo-nos o direito à felicidade e liberdade plenas. A pergunta que se mantém aberta é: “e se por acaso o MAL vencer?”

A modernidade veio avassaladora sobre este status de crenças, as quais foram sincretisadas ao cristianismo pela filosofia maniqueísta e fluidez nas fronteiras do pensamento evangelista cristão, que incorporava costumes e crenças pagãs, re-lendo-as à luz da bíblia e buscando reduzir os ruídos na comunicação proselitista.

Os modernos acreditavam que o mundo, por ser um arranjo ordenado, uma ordem estruturada, deveria, pela razão iluminista, ser apreendido e explicado, a partir de leis fundamentais e generalizáveis. Tudo isto sob o guarda-chuva das metas-narrativas. Assim podemos ler a Física Clássica Newtoniana e sua Lei Universal da Gravitação. É uma Lei e é Universal: aplica-se a qualquer corpo no universo independente da massa e das distâncias. Michael Faraday utiliza a Lei da Gravitação para desenvolver uma outra que pretende explicar a atração de corpos carregados eletricamente.

A Dinâmica da Personalidade, segundo Carl Jung, teorizava que a energia psíquica é realizadora do trabalho da personalidade e esta psicodinâmica se constrói sobre dois princípios fundamentais: da equivalência e da entropia. O princípio da entropia Jung sacou da Segunda Lei da Termodinâmica, que trata do equilíbrio térmico entre dois corpos em contato. O fato é que a Segunda Lei da Termodinâmica era entendida na Modernidade como uma Lei Universal e, portanto, aplicável a qualquer área da ciência: a Psicanálise.

Os modernos criam que o ser humano poderia desenvolver uma técnica para cada problema e que o conhecimento de todas as técnicas iria produzir a liberdade e felicidade para o maior número de pessoas. Com a técnica veio a tecnologia e o homem de esperançoso pela liberdade e felicidade a ser conquistada pelas técnicas, foi reificado e escravizado à máquina. Todo bem que fez, redundou em mal.

A filosofia moderna de Kant e Hegel é universalista, apegada à idéia de razão inata, ou seja, estamos no mundo dotados de uma razão a priori, inata. Decartes disse: “penso, logo existo.” O mundo é percebido e apreendido pela razão, que era recurso supra e auto suficiente para entendermos e conhecermos a ordem geral das coisas. Todos estes homens, entretanto, guardavam em seus discursos epistemológicos um fundacionismo que remetia, em última análise para: deus, criador, motor elementar, origem da origem, energia, etc, mas esta idéia fala de um ser transcendente e não imanente, ou seja, a razão pode ser uma obra criada por Deus, que traz a Sua imagem, entretanto, e por isso, é soberana.

Na alcova eclesiástica notamos algumas tendências legalistas universalistas e posturas clericais, que, porventura, são suportadas pela noção de “Razão Pura Kantiana”.

As explanações tradicionais da Bíblia em púlpitos eram recheadas de leituras do tipo das “quatro leis espirituais”, estudos bíblicos expositivos que destacavam os “cinco princípios da oração”, “sete passos para ser feliz” e assim por diante. Regras rígidas que nos queriam fazer crer que se no passado tivéssemos uma conduta pautada por certos tipos de comportamento, colheríamos no futuro algumas bem-aventuranças pré-destinadas pelos princípios inatos, suportados pelo fundamento maior: Deus.

A idéia intrínseca de que se tivéssemos um conjunto de equações universais, uma vez alimentadas pelos dados corretos - conhecimento e fé – produziriam inexoravelmente um futuro controlável, pré-visível.

Não raro, até mesmo hoje, ouvimos líderes eclesiásticos dizerem que sua posição de púlpito o faz falar em nome de Deus, ou seja, naquele instante há uma “Razão Pura Sobrenatural” que interpreta e declara verdades como sendo o próprio Deus. Assim, discordar do púlpito é discordar de Deus. O pregador de posse da palavra somente traz a Palavra, é como se o púlpito fosse um portal para dimensões onde a natureza humana e o mundo do pregador fosse implacavelmente suprimido, vindo à tona tão somente Deus, Sua Palavra e Seu Espírito.

Também a teologia do “livre-arbítrio” se construiu sobre o fundamento de uma razão supra-suficiente para julgar o bem e o mal, tendo como elemento de juízo o homem que segue como imagem de Deus, ou seja, portador dos recursos divinos, a priori, que o capacita a dizer sim e não para o plano salvador em Cristo.

Alguns fatos científicos passam a por em dúvida o edifício filosófico moderno e, portanto, o mundo, conforme se vê. O mundo moderno entra em crise.

A Teoria da Relatividade de Einstein e a Física Quântica.

A Física Clássica Newtoniana, principalmente a cinemática, tinha como referência o absoluto do tempo e da massa, coisas que serviam de suporte e fundamento para todo o desenvolvimento teórico adjacente e deduzido. Desta forma, com algumas poucas equações e dados elementares era possível prever a posição e a velocidade de qualquer corpo no universo, a qualquer tempo.

A Física Clássica trazia embutida a idéia de controle: se conhecermos as equações que explicam um determinado fenômeno e os dados elementares sobre o corpo em questão, então controlamos o estado futuro deste corpo. O Homem passa a ser o controlador do mundo e do futuro deste seu mundo ideal: o mundo está submetido à episteme humana e à razão humana, a partir de um conjunto básico de equações e dados absolutos e fundamentais, ou deduzíveis.

Entretanto, Einstein demonstrou matematicamente que o tempo não é um absoluto, antes, é elástico, ou seja, um corpo viajando a velocidades próximas a velocidade da luz faz com que o tempo seja “esticado”. Similarmente ocorre com a massa.

Este novo campo teórico trouxe duas novas possibilidades para o campo das idéias e do pensamento: o fim dos absolutos e a noção de que o conhecimento novo não é necessariamente a evolução de conhecimentos anteriores, assim, o conhecimento pode se dar por ruptura, desconstrução, como viriam, mais tarde, advogar, no campo filosófico, Foucault e Derrida.

Pelo mesmo mundo das idéias, a Lei da Gravitação Universal de Newton influenciou Rutherford, que propôs um modelo atômico onde um elétron de carga negativa e massa quase zero, descreve uma órbita circular ao redor de um núcleo de carga positiva e com massa concentrada, como se fosse a Terra ao redor do Sol. Este espaço controlável e previsível para o elétron, ele chamou de orbital.

Niels Bohr demonstrou que Rutherford estava errado e que um elétron poderia estar numa região de máxima probabilidade ao redor do núcleo do átomo. Esta região de máxima probabilidade também foi chamada de orbital, embora não seja uma órbita. O que Bohr diz é que a Lei da Gravitação não é universal e que a posição futura de um elétron não se obtém por exatidão, mas probabilisticamente.

Enquanto a Teoria da Relatividade dissipa a idéia de absolutos, a Física Quântica põe fim no conceito de Leis Universais e às meta-narrativas.

Freud, por sua vez, introduzindo a psicanálise e a teoria do inconsciente, duvida da “Razão Pura” de Kant, ao dizer que há valores escondidos na mente que influenciam a percepção de mundo e a sua apreensão. Isto quer dizer que o ser humano não tem, nele mesmo, recursos para ter uma ação epistemológica sobre a verdade, pois há uma cortina, véu, que nubla sua capacidade racional. Mais tarde Marx, baseado nos conceitos de inconsciente de Freud apresenta suas idéias sobre ideologia pondo fim na isenção da razão e sua leitura sobre o mundo: o mundo interno distorce o mundo externo.

Nisto chegamos num ponto crucial onde a verdade como ela é, é percebida e apreendida por uma ordem que a distorce, que lê a realidade a partir de valores que servem como véus da consciência de mundo: a imagem a qual vemos no espelho não é a verdade refletida, mas é a realidade que o mundo que está em nós cria e crê.

Como um exemplo extremo do que falamos, podemos citar os adolescentes que sofrem de anorexia. Embora seus corpos estejam com níveis de gordura muito próximo de zero, eles, ao olharem-se no espelho, se vêem gordos. Obviamente estamos falando de uma disfunção, entretanto mostram como padrões (mundo externo) de beleza exteriores, interiorizados (mundo interno), afetam a leitura da realidade.

A conjunção de todos estes fatores fomenta uma grande crise de valores que tem polarizado a discussão filosófica e que, inexoravelmente, afeta a efetividade do discurso eclesiástico: desde Epicuro e Platão que a filosofia oscila entre as teses empiristas e inatistas. Na modernidade o debate se dá entre Kant e David Hume. Na pós-modernidade verifica-se a crise ocasionada pela redução da densidade do discurso kantiano e hegeliano e o ímpeto pragmático, materialista da filosofia analítica.

Assim, podemos, como elemento introdutório ao entendimento do momento empirista na filosofia, destacar as palavras do Prof Renan Springer de Freitas: “Alexandre Koyré denominou a revolução científica do século XVII "a desforra de Platão". Eu sugiro que o século XX assistiu a uma desforra bem menos espetacular, a do naturalismo de David Hume. Refiro-me, com este termo, à tese de que qualquer projeto epistemológico concebível está, de saída, fadado ao fracasso uma vez que não há nada a ser dito a respeito do conhecimento a não ser aquilo que possa vir a resultar de uma investigação sobre as origens das crenças das pessoas.”

Ludwig Wittgenstein, dando continuidade a Hume, diria: “o mundo consiste de fato”, o que significa que o mundo “é a totalidade de fatos e não de coisas”, onde fatos são “afirmações verdadeiras sobre coisas”, e “é a linguagem que constrói nosso senso de mundo, nosso meio e nossas experiências”, assim sendo “problemas filosóficos tradicionais, relativos a conceitos tais corno "ser" e "verdade", são meramente confusões que surgem a partir do jargão filosófico e a tentativa equivocada de descobrir a "realidade" que ele supostamente "representa".”

O desenvolvimento do pensamento naturalista pode estar potencializado pelo pragmatismo materialista da filosofia analítica de Richard Rorty, que segundo Paulo Ghiraldelli Jr “a formulação de uma nova noção de subjetividade segue dois passos estratégicos. O primeiro passo resulta da aplicação do seu holismo...o indivíduo humano se apresenta como corpo que vive...no âmbito das regularidades e contingências do mundo completamente natural e desencantado...”. Em outras palavras, o ser humano é um animal cuja existência e experiência está restrita ao espaço e tempo de sua vida biológica, social, psíquica, cultural, etc: existência e experiência empírica.

“O segundo passo resulta da adoção do ponto de vista da terceira pessoa. O indivíduo humano, imerso completamente no mundo natural – o único que existe -, é observado pelo seu comportamento, e não por introspecção. Os eventos que ocorrem no interior do seu corpo são tomados como da mesma ordem dos eventos causais que ocorrem fora....Tais causas incluem elementos que descrevemos com tipos diferentes de vocabulários: elementos micro-estruturais e macro-estruturais; mentais e físicos – hormônios, sinapses neurais, pósitrons, crenças, desejos, estados de ânimo, enfermidades, múltiplas personalidades.” Em outras palavras: resta ao animal homem suas experiências no campo físico-químico-biológico-social e como a mente organiza estas experiências, segundo as regras lingüísticas.

Mais adiante lemos: “observa-se aqui a neutralidade ontológica, de modo que crenças e desejos são estados fisiológicos numa descrição com o vocabulário da ordem do mental do mesmo modo que certos relatos neurais são estados psicológicos numa descrição com o vocabulário da ordem do físico.”

Assim, a consciência é, para Rorty, um ato mental, que remete a pessoa a pensar sobre si mesma, não havendo aquele fundamento metafísico do “eu”. Desta forma afirma Rorty: “o uso de sentenças tal como ‘eu creio que p’ é ensinada do mesmo modo que sentenças tal como ‘eu tenho febre’. Não há uma razão especial para separar os ‘estados mentais’ de ‘estados físicos’ como estados que tem uma relação metafisicamente íntima com uma entidade chamada ‘consciência’.”

Diante deste desembaraço filosófico, levanta-se a questão: “qual a utilidade prática (pragmática) de se saber sobre a existência ou não sobre Deus?” O estudo sobre a influência religiosa passa a ser sociológica, antropológica e psicológica, uma vez que Ele não faz parte da esfera do real: realidade material pragmática da filosofia analítica de Rorty e seus discípulos.

Uma vez que se exclua Deus e a metafísica, então os conceitos sobre verdade, ética e bem passam a ser elaborados não mais no absoluto, antes, pela práxis. De fato, para Rorty, a busca de saber o que é a verdade é uma perda de tempo, uma vez que o homem não tem elementos em si (“Razão”) para discerni-la. E John Dewey, filósofo pragmatista, diz que “a ética está profundamente comprometida em resolver problemas práticos” ou seja, problemas da ordem do “chão de fábrica”, como diriam meus colegas engenheiros.

Toda esta transformação do pensamento humano, do mundo, sobre a consciência de mundo de quem está no mundo, tem cavado um abismo lógico entre uma realidade construída sobre um fundamento chamado árvore da vida e uma opção chamada conhecimento do bem e do mal, introduz em nós, que desejamos estar enxertados na oliveira que está no mundo, uma questão sobre nossa efetividade e relevância na terra, ao mesmo tempo em que reduz os espaços teológicos de uma igreja que teima em manter-se à margem do projeto divino.

Neste arranjo de mundo, o que resta ao animal homem é o seu corpo e as experiências que se possam obter no corpo: as emoções, as sensações, o conhecimento, a experimentação, etc. Poderíamos dizer: o desejo e o poder, como diria Foucault.

Neste espaço cósmico, nesta ordem onde o “corpo” se torna a fronteira, há um mundo e um discurso eclesiástico se desenvolvendo, que prega subliminarmente a morte de Deus em meio aos simbolismos discursivos, à retórica dos púlpitos e aos simulacros. A experiência mística do culto é a emoção estressante conduzida por mantras rítmicos, palcos, shows, alegorias e orações calorosas regadas a choros de culpa, de faltas ainda não perdoadas. A verdade de Deus só se faz perceptível nas curas físicas, na riqueza econômico-financeiro dos dízimos, na habilidade agregadora de líderes portadores de unção, etc.

O deus morto dos cristãos é apenas um serviçal que se torna amarrado ao desejo e poder humano, que pretensamente se torna portador dos oráculos divinos, via sua própria interpretação e utilização de códigos herméticos restrito a um grupo de iniciados escolhidos, com vistas à solução de problemas que, em via de regra, foram causados pelo desregramento e falta de coragem em assumir posições de confrontação com o mundo das coisas.

A experiência com o divino (mundo da religião) é uma experiência corporal, sensual, pragmática, material.

Há, também, a possibilidade de cremos num Deus transcendente, que apenas está em Sua obra acabada, na história e no Livro Sagrado, como um espectador de nossa tentativa humana de ajuste, por obediência, aos valores expressos na Bíblia. Nossa relação com a Palavra é autônoma, crendo ser um conjunto auto-suficiente de projetar a verdade, independente de qualquer outra ação divina em nós.

Deixamos de nos relacionar com o Deus imanente, que estando em nós e ciente de nossa “Razão Impura”, age com vistas a ensinar e lembrar os valores essenciais para a geração de vida.

O Deus que apenas transcende é um que não tem poder e autoridade de influencia no e a partir do homem. Somos, ainda, depois de dois mil anos que Cristo disse: viremos e faremos morada em ti, uma gente que habita num mundo criado por um Deus que transcende nossa existência e experiência. Dependemos da nossa “Razão Pura” para sacarmos a verdade que está na Letra Morta.

Creio que seja imperativo estabelecer um parêntesis neste ato e dizer que entender a triste realidade da “morte de Deus” na igreja contemporânea deve ser uma vontade de ação de quem quer conhecer Deus. Pensaremos sobre isto em outro lugar.

Conforme anteriormente já disse Rudolph Bultmann, em seu texto sobre a desmitologização do kerygma, o crente moderno vive num estado de esquizofrenia, tendo em si uma leitura moderna e científica da realidade, contra-pondo à crenças religiosas que se configuram incompatíveis com os fatos, quer sejam eles a observância da ocorrência e da apreensão, quer seja a leitura de mundo que se faz. Tal antagonismo assume o sentido semântico para esquizofrenia, ou seja, de uma fenda no espírito.

Podemos não estar concordantes com o todo do projeto proposto pelo teólogo, mas temos que admitir certa eficiência em seu diagnóstico, uma vez que a leitura do kerygma (evangelho) é feita através de um entendimento todo ele submerso em uma cosmologia absolutamente sobrenatural, e não no fato de que o texto bíblico fosse mitológico ou sobrenatural, em si mesmo.

Estamos diante de um tempo onde a ciência não somente avança em sua proposta técnica e tecnológica, empurrando o saber para campos mais amplos e diversificados do conhecimento, como ela aprende com erros, tomando-os como fonte inspiratória, permitindo-se romper sistematicamente com saberes esgotados, gerando novas fronteiras inéditas, como, por exemplo, a teoria do caos.

Esta ciência processual, sistemática e avassaladora, assegura a exploração do infinito e do infinitésimo, remete à exclusão aqueles que não tem valia num mundo pragmático. O rico, o belo, o branco, o jovem, o bem-dotado, o saudável, o detentor do saber, o poderoso, excluem o resto, como se resto fossem.

Por um lado há todo o mistério a respeito de ocorrências não explicadas pela humanidade que se mantém no mundo pré-moderno, que serve como suporte da religião e mantenedor de uma fé ocultadora; por outro lado há o avanço presunçoso e arrogante da ciência trazendo certa luz sobre fenômenos e mistérios. Estaria Deus aprisionado neste campo infinitesimal gerado na lacuna existente pela evolução por vir da ciência?

Uma igreja que trouxesse o pior dos três mundos seria concebível na pós-modernidade? De certo que os arautos desta igreja levantariam suas fortalezas sofismáticas contras os hereges impenitentes que ousam falar contra a Igreja de Deus, mas perguntaríamos, quem está falando contra a Igreja de Deus? Nosso diagnóstico carrega a semente da dúvida temática: relevância e eficácia de uma Igreja na pós-modernidade.

O pior dos três mundos que nos referimos não seria uma linguagem medieval e maniqueísta de ocultamento da verdade, para que a ignorância servisse como fundamento da manutenção do poder clerical e institucional sobre a Igreja? Todo um discurso que trata de colocar para baixo do tapete a revelação libertadora, que consiste na obra concluída de Cristo contra toda sorte de poder e força que mantinham o homem escravo.

O discurso que aprisiona o crente ao líder e à sua instituição infalível, que, supostamente, é o detentor de chaves e tradutores de códigos secretos vindos do mundo/cosmos espiritual, carregando em si enigmas e coisas ocultas, somente interpretáveis pelo sacerdote. As visões espirituais, que somente têm os escolhidos, colocam a Igreja dependente destes seres elevados e amigos de Deus: os hermeneutas.

O pior dos três mundos não seria um modelo taylorista de organização do trabalho, hierarquizando, outorgando poder piramidal, gerando distanciamento entre os seres pensantes e seres obedientes? A Igreja é convertida, neste mundo, na instituição eclesiástica, supostamente teocrática, onde aqueles que deveriam estar servindo, passam a deliberar códigos morais e sanções corporativas aos hereges impenitentes e punindo de culpa aqueles que se dobraram aos pecados veniais e mortais. Um lugar onde a interpretação toma lugar da Palavra de Deus e o estrela se senta no trono de Graça. Os luminares da noite, eles e somente eles, ouvem a Deus e fazem a ponte (pontífices) que conecta o eterno ao temporal.

Neste mundo da fantasia e despropósito, a igreja continua fazer o que aos discípulos foi vetado: olhar para o céu e aguardar a volta de seu Senhor. Esta que deveria ser sal e luz, abdica do dever outorgado por Deus e ora pedindo que se abrevie o tempo de seu estado no mundo, no qual teme ser contagiada delo mundo dos ímpios, negando que Jesus veio em carne e como fruto do amor ao mundo, salvou o homem que está no mundo.

O pior dos três mundos não estaria gerando uma igreja que ao olhar para o espelho visse a Gisele? Um mundo onde o homem olha o espelho e vê o homem iconizado, perfeito por si mesmo: o homem em seu corpo, suas sensações, emoções, volição e desejos de poder. O discurso se dá para que o crente tire o foco nos valores do Caráter e experimente pragmaticamente possibilidades tangíveis em seu corpo natural.

A tangibilidade quantitativa percebida pelos sentidos é a base referencial para a prova de se estar movendo pelo espírito eclesiástico. O ícone humano é refletido no espelho da consciência dos séqüitos.

Neste momento deveremos parar e fazer uma auto-crítica, perguntando-nos se não estaríamos, nós mesmos, seguindo a Nistzche, requerendo a implosão de toda religião e proclamando que Deus morreu.

Deus está vivo, e muito vivo, como diria aquele adesivo infame: Jesus está vivo, falei com ele hoje de manhã. Toda esta contingência está sob controle gracioso de Sua Palavra.

Entretanto, cremos que há a premência de re-elaborarmos nossos discursos, não para re-editarmos a superficialidade dos evangelistas medievais que ao sincretizarem o paganismo ao kerygma, criaram um “Frankenstein”, mesmo porque se acharmos que a filosofia analítica materialista e pragmática prevalecerá no mundo das idéias, não haverá acordo. Ambiguamente, um mundo eclesiástico refratário ao mundo natural é uma postura monástica de quem tornou irrelevante a obra “Emanuelizadora” de Deus.

Como conseqüência deste diagnóstico sobre o novo mundo para onde estamos transicionando, sabendo que ele rompe e descontinua o velho mundo, cabe re-configurar a Igreja, tendo como referência, quem sabe, Noé.

Seria a Igreja Pós-Moderna um Noé, que vivendo numa sociedade onde os filhos de Deus, misturando-se às filhas dos homens, perderam sua relevância e eficácia, tornado-se carnais e buscando a satisfação de seus desejos cotidianos e tangíveis – casavam e davam-se em casamento -, culminando numa proposta violenta do uso do poder? Seria a Igreja Pós-Moderna, aquela que antevê uma catástrofe sem precedentes, dispõe-se a trabalhar num projeto que assegure a todos os seres, inclusão e inserção no “day after”? Seria a Igreja Pós-Moderna aquela que entende os três tempos e mundos que se foram e estão sendo, e saca de lá recursos valiosos para a construção de um único constructo de mundo, que traga da pré-modernidade o Espírito, da modernidade a Razão e da pós-modernidade o Corpo e tudo em unidade submetida a Cristo?

Por acaso estaria a Igreja Pós-Moderna sendo uma divulgadora de uma teologia catastrófica e finalista, tendo Ele mesma um papel messiânico, deixando com isto de executar sua obra primordial: a arca? Diríamos que não; pois o mundo que nos referimos não é a Terra, antes a estrutura ordenada, organizada, adornada interna no ser humano que o faz um ser no mundo. Então a catástrofe não se entende, neste mundo de Nóe, ou da Igreja da Pós-Modernidade, como um cataclismo Apocalíptico, mas a implosão de um edifício de idéias sem Deus, onde o Homem, senhor de si mesmo, da história e do futuro, vê-se deus, senhor de um Deus morto.

Uma nova espiritualidade que brota da verdade criadora de Deus: no princípio criou Deus o céu e a terra. O céu sendo o espaço das experiências eternas, soberanas, inefáveis, imateriais, que traga a certeza de Deus e da vida que é gerada em mim, por meio do Espírito que vivifica a Palavra eterna e verdadeira; um Deus imanente na Igreja: o ser humano. A terra sendo o espaço das experiências tangíveis, o lugar onde o ser humano se faz real: a dimensão das experiências humanas, naturais e reais.

Um discurso que declare que o Deus que fez o espírito, criou a matéria; o Deus que fez as leis espirituais, também fez as naturais; todas as coisas foram criadas por meio dele e para ele: o amor, a paz, a alegria, a benignidade, a fé, e também o pósitron, o fóton, a energia, os planetas, os animais, os neurônios, etc. Não há nada fora de seu domínio e nada fora da possibilidade delegada do ser humano.

No mundo em que o homem foi colocado, o espiritual não é o campo do mistério, mas é o campo da experiência imanente de Deus. A sobrenaturalidade não é, para o crente na pós-modernidade, uma experiência sem pensamento, mais do que o conhecimento cognoscível. O relacionamento com Deus abrange a totalidade da experiência de ser humano.

Tal experiência que o homem no mundo pós-moderno irá experimentar é a realidade iluminada pelo Princípio da Incerteza de Heisenberg, ou seja, o homem não tem recursos em si mesmo para controlar e prever o futuro. Concomitantemente à realidade que foi trazida à luz pela Teoria do Caos, que diz que há no mundo uma certa aleatoriedade que introduz erro sistemático nas previsões matemáticas. Ou seja, ainda que tenhamos os dados necessários e o equacionamento correto, haverá ocorrências não previsíveis que distorcerão a previsão.

A experiência com Deus, neste mundo pós-moderno, não será a partir do mistério e nem do controle, antes será uma experiência na graça soberana de Deus. A mensagem do Salmo que diz, “ainda que eu ande pelo vale da sombra e da morte...” deixará de significar possibilidade remota e será vista como: “no tempo em que eu estiver numa dimensão de aparente caos, após conhecer, crer e executar tudo, visando causar o bem, e vier a colher o descontrole, estarei certo que meu mundo estará nas mãos de Deus.” As trevas para Deus são luz.

Dissemos antes – no texto “A velhinha do Mississipi” – que a Igreja que foi treinada a projetar sua ação pelo movimento contínuo de um ponto chamado “A”, para um ponto chamado “B”, traçando este percurso por uma equação newtoniana, deverá entender que estamos num labirinto n-dimensional, onde a saída do labirinto está em nós e não nele. Saímos do labirinto quando, estando nele, entendermos a relevância e responsabilidade de nossas decisões e que elas estarão afetando nossa existência – próximas etapas do labirinto - e daqueles que se inter-conectam a nós e nunca produzindo o fim do labirinto.

A instituição eclesiástica que reúne o pior dos três mundos, que se encontra na iminência de se tornar um dinossauro, antes um “Atlântida”, está quase a ser destruída, tal qual foi o mundo dos contemporâneos de Noé e o Templo de Jerusalém, ainda que reste um edifício legal e institucional, ícone de um tempo de apostasia. Isto poderá dizer que, assim como o cristianismo original rompeu e descontinuou o judaísmo de 2.000 anos atrás (restando apenas um muro: “o Das Lamentações”), assim, a ação de Deus, no mundo da Igreja Pós-Moderna poderá submergir a igreja Atlântida: às suas próprias águas de juízo.

Num mundo pragmatista, materialista, as idéias fundacionistas, ontológicas e sobrenaturais, estão sendo entendidas como denaveios daqueles que insistem em negar a realidade buscando um escapismo teológico-fictício, como diria Auguste Conte em seu positivismo lógico.

O paralelo será pragmático em todas as frentes e será cósmico para aqueles que teimarem crer num Deus imanente e verdadeiro. Entretanto, tal verdade imanente se experimentará na parousia real da Igreja Pós-Moderna. Como ainda fala Calvino: “sua vida fala tão alto, que não ouço sua palavras.” A relevância de sua presença no mundo não será notada pela elaboração de seus sistemas de pensamentos ontológicos, mas na eficácia de suas operações éticas, fundadas em parâmetros eternos e que demonstrem as virtudes da vida de Deus.

A instrumentalização eclesiástica deverá migrar da obtenção de recursos para o culto solene, obra cujo fim será o culto para Si, para um aparato tecnológico, técnico, financeiro, logístico, epistemológico, social, etc, cujo fim é a transformação do homem na imagem de Deus, cujo ícone é Cristo.

Desconstruir o mundo que nos faz ver a Igreja como igreja e permitir ver a Igreja como gente que se reúne, que estabelece vínculos de aliança, para manifestar o Caráter de Cristo. A igreja, que cada vez mais é transcendente, deve se tornar Igreja que passa a ser imanente na sociedade, fazendo sentir nos porões da “polis” sua influencia ética por causa dos seus membros, e não de suas instituições. A instituição igreja morre, como uma semente que cai no chão, e ressuscita numa multiplicidade operativa dentro do espírito da Pós-Modernidade.

Uma igreja multifacetada, multiorganizada, multiobjetivada, que é Igreja não por seu enquadramento a priori, mas por aquilo que é, ontologicamente, e faz, pragmaticamente.

Chamaremos de Igreja as reuniões grandiosas de adoração, os pequenos grupos temáticos de estudo, os médicos que doam parcela do tempo aos projetos sociais, os políticos que lutam pela elaboração de leis justas, os empresários que se aplicam à distribuição da riqueza, os pais que educam seus filhos à luz de Cristo, as escolas que tratam a ética e a responsabilidade diante de Deus, as ONGs ambientalistas, educacionais, sociais, e todos os grupos que se infiltrarem na “polis” fazendo com que esta se cristianize, tenha vontade ética, verdade existencial, traga o bem aos excluídos.

O Homem, que no Éden se viu na virtualidade de ser deus, caminhou em seu mundo mítico das experiências sobrenaturais, talhando deuses e forjando demônios, tecendo rituais religiosos que o permitisse sobreviver a seus medos e trevas interiores, viu-se esgotado neste modelo sem substância. O Homem, que mesmo tendo saído do Éden, caindo em uma terra amaldiçoada, ergueu Torres de Babel, tecnologias que o colocava acima das nuvens de Deus, tentativa de perpetuar seu nome na eternidade do “kronos”, excluiu, separou, escravizou, mutilou, desesperançou e se viu mutilado, dilacerado entre a verdade e a realidade, entre a consciência e a inconsciência, em si mesmo. O Homem que enfim diz: “deus morreu”, atitude que o torna livre para não mais responder à verdade e, assim, como sempre houvera projetado em seu cérebro signos lingüísticos e semióticos da Babilônia, mãe de todas as meretrizes, está a construir seu novo reduto: o sobre-Homem, aquele que mais uma vez declara: colocarei meu trono acima do trono de Deus, serei semelhante ao Altíssimo.

Certamente que não cabe a Igreja o papel de julgamento moral, sabendo que as cortinas que caem trazem luz sobre a verdade que jaz oculta no underground da existência humana. Não cabe, tão pouco, uma ação de confrontação, imaginando que velhas práticas de caças às bruxas e inquisições trarão a pureza moral e social que revele o Reino, antes, uma postura de fé que saiba ser Deus soberano sobre o desenrolar da história humana e que à Igreja cabe ser luz em meio as trevas da negação lógica da verdade e sal para um mundo sem esperança.

A luz da pós-modernidade dissipa toda a hipocrisia religiosa que esconde atrás dos véus toda mistura que fala contra a santidade. A luz da pós-modernidade é Deus que rasga como um bisturi a pele, a gordura e os músculos, fazendo que seja vista as vísceras de nossa realidade, que devem ser tratadas. A luz da pós-modernidade, são águas profundas que submergem filhos de deuses, filhas de homens, animais e qualquer outro bicho, homem ou não, que não esteja alinhado com uma obra que garanta a vida num mundo que se levantará.