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Uma quíntupla história.

História 1:Um amigo meu veio almoçar comigo e contou-me que havia ido a um culto, numa igreja, e que lá pelas tantas o encarregado da liturgia conduziu os participantes à oferta e aos dízimos. Para convencer a todos que a obediência a Deus era algo imprescindível, disse que certa vez um homem foi exortado a converter-se ao cristianismo, recusando-se por razões pessoais. Ao retornar para casa, sofreu um acidente e morreu. Concluiu, o encarregado, que os dízimos também era uma forma de expressão de fé e obediência devida!

História 2: Estava eu sentado no meu carro, com o rádio ligado, ouvindo um programa, no qual o locutor falava que os dízimos era a forma com que Deus salvava as finanças dos crentes! Sem que o crente desse os dízimos, Deus não podia impedir a ação dos demônios devoradores sobre a vida financeira dele.

História 3: Há um ditado que diz: “errar é humano...errar duas vezes é burrice!” Estava eu, novamente, escutando o rádio, noutra estação e ouvi o “pastor” dizer à sua platéia: “tragam os dízimos, que Deus se torna obrigado a te prosperar (financeiramente)”!

História 4: Desliguei o raio e liguei a televisão. Lá estava o pregador dizendo: todos os meus dizimistas/associados/gideões/mantenedores/etc levantem o envelope/carnê que eu vou abençoa-los. Os demais, aqueles que não são dizimistas/associados/gideões/mantenedores/etc, eu não vou abençoar, e blábláblá...

Algumas vezes, recebo e.mails de pessoas, as mais distintas, fazendo-me perguntas sobre temas diversos a respeito do entendimento de princípios contidos na Bíblia e discursos eclesiásticos, o que, invariavelmente, respondo em particular, entretanto, recebi um e.mail que me parece exemplar, que trata tanto de princípios, quanto de discursos, mas mais precisamente sobre o esforço clerical em matar Deus no coração e mente dos crentes, dentro da Casa de Deus.

Antes de escrever esta resposta aberta, procurei buscar autorização do remetente, para que pudesse utilizar seu e.mail como referência e reprodução do questionamento; neste meio tempo estive pensando, orando, meditando e fazendo uma varredura dos valores, conceitos, princípios, crenças, etc, que poderiam nortear este posicionamento pessoal, que espero, em Deus, seja um reflexo do pensamento do próprio Deus para mim, e, talvez, para você e vocês.

Diferentemente de outros textos, este não é um dialogismo alegre, conciliatório, esperançoso, simples, antes é nervoso, entristecido, esboçado entre conflitos interiores e exteriores, enraivecido, que traz oposição e opõe, endurecido e, espero, violento, como quem lesse: “não penseis que vim trazer paz, mas espada...”.

Faz algum tempo que tenho percebido que o discurso eclesiástico tem sido um que tem defendido a casa de Deus, a obra de Deus e os sacerdotes de Deus: a instituição eclesiástica. Dois outros discursos trazem substância e realidade a estes três: a obediência a Deus através de uma obediência inquestionável às autoridades clericais, que foram instituídas por Deus e que falam em nome de Deus. Isto traz substância ao discurso eclesiástico. Os dízimos como demonstração desta submissão à cobertura espiritual dos ungidos e ato de fé tangível. Isto traz realidade ao discurso.

Isto posto, podemos apresentar a História 5 (de um remetente) e então buscarmos tratar o assunto diante das premissas da Nova Aliança que nos é possível em Cristo Jesus:

Gostaria da sua opinião, como estudioso e entendedor da Bíblia, para essa questão.

Não consigo compreender a razão da obrigação do dizimo na igreja que freqüento e em outras. Na Bíblia fica claro que muitos dizimavam, mas na maioria dos homens que são citados, não se vê nada referente aos dízimos, por exemplo, os seguidores de Cristo (João, Pedro etc..).

Como podemos ver em Levíticos 27.30-32; Hebreus 7.1-10; Números 18.21-24; Deuteronômio 14.28-29, "a décima parte, tanto das colheitas como dos animais, que os israelitas ofereciam a Deus", o dízimo era usado para o sustento dos LEVITAS, dos estrangeiros, dos órfãos e das viúvas.

Não seria mais fácil a igreja ter um tipo de sócios, ou seja, pessoas dispostas a contribuir todos os meses para o sustento do pastor e demais membros que trabalham na igreja, sem a necessidade de usar a obrigação do dizimo? Ou seja, sempre é colocado que se a pessoa não dizima Deus não tem a obrigação de sustentá-las, só que é raríssimo vermos pessoas com uma vida abundante, em termos meterias, dentro da igreja, ou seja, pessoas de um alto padrão aquisitivo. Será que essas pessoas que estão ai fora, não são abençoadas por Deus?

Sou uma pessoa que sempre trabalhei muito, tinha uma vida considerada de classe alta, por motivos que não quero comentar, perdi tudo, posso dizer até que parte da minha vida foi perdida também neste incidente, como estava frágil, em todos os sentidos, converti-me, isso fazem 4 anos, durante três anos fiz tudo que era ordenado na igreja, dizimei, ofertei, servi ministério, ou seja, de verdade entreguei a minha vida no altar. Após três anos e meio percebi que nesse período eu me afundei cada vez mais, mal tinha o que comer. Fui um tipo de pessoa que não importava se tinha comida em casa ou não, o dízimo eu tinha que entregar!

O importante era fazer tudo certinho. Até o dia que acordei com um acontecimento que não deu para engolir, percebi que aquela pessoa (eu) que renascia, não importava o que acontecia, já não existia mais, anulei o meu querer, anulei as minhas vontades, anulei o meu ideal, revi o que fui e o que estava sendo, percebi que Abrão, Moises etc... viveram noutra época e que embora Deus não mude o mundo, os homens mudaram e mudam a cada dia.

Antes as igrejas e pregadores, podiam ser contados nos dedos, hoje são verdadeiras concorrências, na maioria delas não por vidas, mas para ver quem cresce mais. Senti vergonha de ser uma pessoa que se diz cristã, senti vergonha de mim! Não condeno a Deus por meus problemas, mas a mim mesmo, por deixar que tudo aquilo entrasse em minha cabeça, sem ao menos dar ao trabalho de usar a razão, como uma pessoa de profissão bem sucedida, pode virar um farrapo humano?

Mudei muitos conceitos dentro de mim, sobre a minha pessoa, sobre a Bíblia, sobre as pregações, etc. Continuo indo às reuniões na igreja, mas procuro ouvir com a emoção e razão e tirar os meus próprios conceitos.

Acredito em Deus, ainda estou muito fragilizada, ainda não conseguir ter a forca de luta e vontade que eu tinha, ainda preciso renascer um pouco de mim mesmo.

Na questão do dizimo, há muitas peças que não se encaixam. Parei de entregar o dizimo e estamos até conseguindo algumas economias. Ainda não dá para nada, mas para quem não tinha nada nem perspectiva, apesar de trabalhar e trabalhar...

Aqui seguem minhas considerações e posicionamentos pessoais sobre o tema da institucionalização da religião e o sacrifício dos dízimos.

Sabemos que o Emanuel, Jesus Cristo, significou muito mais do que apenas o nascimento do Messias esperado, de fato, o Messias esperado, que nasceu com o nome de Jesus e que era aguardado desde antes da fundação do mundo, trouxe consigo uma completa e profunda transformação, descontinuidade, desconstrução de um modelo de religião que foi estabelecida por meio da lei de Moisés, que até então estava baseada num Povo Escolhido, numa Herança Canaã, num Templo, num Sacerdócio, na Lei, em Ritos e Sacrifícios e na Obediência estrita ao rei, ao sacerdote e aos escribas e fariseus.

Toda esta estrutura de valores tem como elemento comum a capacidade de verificação exógena, a definição de padrões estritamente morais, uma moral religiosa: todas elas podiam ser percebidas pelos sentidos ou por manifestações exteriores. Por exemplo, fazer parte do Povo Escolhido, Israel, tinha como premissa e pré-requisito o ser descendente de Abraão. A Herança era um espaço físico geográfico chamado de Canaã, ou Palestina. O Templo era feito de pedras e estava situado no monte Sião, ou Moriá, no meio da cidade de Jerusalém, dentro de Canaã. O Sacerdócio era exercido por uma casta de linhagem levítica, ou seja, apenas os descendentes de Levi, filho de Jacó, filho de Isaque, Filho de Abraão, podiam ser sacerdotes. Os Ritos e os Sacrifícios eram a guarda de um dia da semana, o holocausto de um animal, etc. A Lei estava escrita na pedra, ou em livros. A Obediência era executar exatamente o que regia a Lei, a partir de atos visíveis.

Quando Jesus, o Messias, tem Sua Parousia (manifestação), inicia um processo de desconstrução de toda esta ordem religiosa vigente e legal, e o Novo Testamento é a descrição de um tempo e modelos que estabelecem uma Nova Ordem e arruína a Velha Ordem. Devemos ler o Novo Testamento não mais como escritos sobre doutrinas e normas, mas também como um conjunto de escrituras que demonstram que a Velha Ordem estava obsoleta e sem sentido: ilegalizada.

Aqueles homens e mulheres que viveram no primeiro século representam uma gente peculiar, pois estavam em meio a um trânsito, da Velha Ordem, para a Nova Ordem. Quatro acontecimentos decretam o fim da Velha Ordem e, concomitantemente, estabelecem o início de uma Nova Ordem: o nascimento do Messias, a morte do Cristo, o Pentecoste (o início da Igreja) e a destruição do Templo, fomentada por Tito Cezar e executada pelo clero judaico (segundo o historiador Israelita-Levita Flávio Josefo).

Há toda uma linguagem no Novo Testamento que visa libertar a Igreja no ranço judaico, determinando, deliberadamente, que ela não seja uma continuidade da religião de Israel, mas seja uma verdade nova e ainda não criada por Deus, que tem sua parousia a partir de Jesus, o Cristo e extensiva à Igreja, o Corpo de Cristo. A Igreja descontinua o judaísmo, como o meteoro descontinuou os dinossauros na terra.

Precisamos demonstrar, com brevidade, agora, que o Novo Testamento traz esta desconstrução do judaísmo, apontando escritos e relatos que fundamentem esta proposição.

1 - Povo Escolhido:

Jesus, embora os evangelhos sejam parte integrante do Novo Testamento, é o último Homem do Velho Testamento e o primeiro do Novo Testamento. Os Evangelhos são de fato um Testamento intermediário: um pós-pré-testamento. A pregação e ministério de Jesus foram todas historicamente dirigidas para os Israelitas, mas abre as portas para a universalização da Fé no Deus de Abraão.

Com a morte de Jesus e sua ressurreição, Felipe é conduzido pelo Espírito a batizar um Etíope; Pedro, pelo mesmo Espírito, é levado a receber na Igreja um gentio de nome Cornélio; e Saulo é levantado por Deus para pregar aos gentios, exclusivamente. Em nenhum destes casos, a circuncisão, marca do proselitismo judaico, foi exigida como marca da experiência cristã.

Nos livros do Novo Testamento a filiação divina se dá por fé e não por DNA. Assim Paulo escreve aos Romanos, que o judeu é o que é no espírito (Romanos 2: 29), os da fé é que são filhos de Abraão (Romanos 4: 1 a 25) e em Cristo somos família de Deus (Efésios 2: 11 a 22). Também Pedro, escrevendo para a Igreja toda, diz que somos povo de propriedade de Deus (I Pedro 2: 9).

Israel natural tendo cumprido seu papel na história de Deus, encerra seu ciclo e não mais é o povo de Deus, um Novo Povo é levantado, antes, uma Nova Ordem divina na terra, onde todo o que crê é Povo.

Uma Nova Ordem, um Novo Povo!

2 - Herança Canaã:

Quando lemos Paulo escrevendo para os Gálatas (capítulo 4: 21 a 31) dizendo que “Hagar (a escrava que teve um filho bastardo com Abraão) é o monte Sinai (lugar onde Moisés recebeu a Lei) na Arábia, e corresponde à Jerusalém atual (a cidade, capital de Israel) que está em escravidão com seus filhos (povo de Israel)”, podemos perceber a ruptura do sagrado com o lugar sagrado. Também João, ao escrever Apocalipse (capítulo 11: 8), chamou Jerusalém de Sodoma e Egito. Veja, ele não comparou Jerusalém a estes lugares, mas disse que Jerusalém era estes lugares. O que estes homens estão fazendo é des-sacralizar a dimensão física temporal.

O que é Jerusalém senão o lugar mais sagrado de Israel, centro espiritual, epicentro da fé e da fidelidade de Deus para o povo: o lugar que simboliza a promessa e a herança. O autor de Hebreus (capítulo 11, versículos 8 a 10) disse que Abraão, embora andando em Canaã, aguardava uma cidade espiritual. E em Romanos 8: 17 podemos ler que somos co-herdeiros de Cristo.

Uma Nova Ordem, uma Nova Herança!

3 - Templo:

Na Velha Ordem havia o Templo de Jerusalém, o qual era o único lugar no Mundo onde poderia ser encontrado Deus. Havia uma Casa de Deus, com endereço e CEP. Na Nova Ordem, o indivíduo tem em si a presença de Deus (João 14: 23), ou seja, é a Casa de Deus (Hebreus 3: 6), e o Corpo de Cristo (I Coríntios 12: 27), isto é, um conjunto de indivíduos ligados (Efésios 4: 16) em aliança, é o Santuário de Deus (I Coríntios 3: 16).

Cada indivíduo é uma pedra viva (I Pedro 2: 9) deste santuário vivo. Assim, o “lugar” onde pode ser encontrado Deus está pulverizado em centenas, milhares, milhões e bilhões de pessoas espalhadas no tempo e no espaço. Não se vai até Deus, como quem participa de uma peregrinação à um espaço geográfico, mas transita-se para dimensões do conhecer a Deus, que habita em Sua Casa: o ser humano ligado ao Corpo de Cristo por Aliança.

Uma Nova Ordem, um Novo Templo!

4 - Sacerdócio:

O livro de Hebreus trata a questão do sacerdócio Levítico como algo “antiquado e envelhecido, que está prestes a desaparecer” (Hebreus 8: 13) e estabelece um Novo Sacerdócio, de Cristo, segundo uma Ordem eterna e imutável: Ordem de Melquisedeque.

Um Sacerdócio que não mais trata de oferecer sacrifícios e observação de ritos, pois não há mais sacrifícios possíveis e superiores a oferecer. Um Sacerdócio que é exercido por Cristo, pelo Corpo de Cristo, pelos seres humanos que estão ligados ao Corpo de Cristo. Sacerdócio Universal.

A mais contundente afirmação contra o sacerdócio da Velha Ordem, e seu apego aos ritos e sacrifícios, encontra-se em Filipenses 3: 1 a 8, quando Paulo diz: “Acautelai-vos dos cães; acautelai-vos dos maus obreiros; acautelai-vos da falsa circuncisão. Porque a circuncisão somos nós, que servimos a Deus em espírito, e nos gloriamos em Cristo Jesus, e não confiamos na carne. Se bem que eu poderia até confiar na carne. Se algum outro julga poder confiar na carne, ainda mais eu: circuncidado ao oitavo dia, da linhagem de Israel, da tribo de Benjamim, hebreu de hebreus; quanto à lei fui fariseu; quanto ao zelo, persegui a igreja; quanto à justiça que há na lei, fui irrepreensível. Mas o que para mim era lucro passei a considerá-lo como perda por amor de Cristo; sim, na verdade, tenho também como perda todas as coisas pela excelência do conhecimento de Cristo Jesus, meu Senhor; pelo qual sofri a perda de todas estas coisas, e as considero como refugo (no grego é Skubalon, que significa literalmente...bom literalmente eu não ousaria falar, mas mais polidamente é estrume animal, fezes animal, é...Paulo teve coragem de escrever, eu não), para que possa ganhar a Cristo.”

Uma Nova Ordem, um Novo Sacerdote!

5 - A Lei:

O autor do livro de Hebreus é taxativo: “quando se muda o sacerdócio, necessariamente há de se mudar a lei.” (Hebreus 7: 12).

Paulo escrevendo aos Gálatas disse: “mas, antes que viesse a fé, estáveis sob tutela da lei...de maneira que a Lei vos serviu de aio...mas, tendo vindo a fé, já não permaneceis subordinados ao aio...para a liberdade foi que Cristo nos libertou. Permanecei, pois, firmes e não vos submetais de novo a jugo de escravidão.” (Gálatas 3: 23, 24, 25 e 5: 1).

O mesmo Pulo escrevendo aos Coríntios disse: “vós sois a nossa carta, escrita em nossos corações, conhecida e lida por todos os homens, estando já manifestos como carta de cristo, produzida pelo nosso ministério, escrita não com tinta, mas pelo Espírito de Deus vivente, não emtábuas de pedra, mas em tábuas de carne, nos corações.” (2 Coríntios 3: 2 e 3).

Em Romanos 8: 2 diz que há a Lei do Espírito de Vida, em Cristo e a lei do pecado e da morte. Duas leis opositoras entre si!

Uma Nova Ordem, uma Nova Lei!

6 – Ritos e Sacrifícios:

Em Colossenses 2: 16 e 17 lemos que “ninguém, pois, vos julgue por causa de comida e bebida, ou dia de festa, ou lua nova, ou sábado, porque tudo isto tem sido sombra...” .  Em Hebreus 9: 6 a 10, lemos que “entram no primeiro tabernáculo os sacerdotes, para realizar os serviços sagrados...é isto uma parábola para a época presente; e, segundo esta, se oferecem assim dons e sacrifícios, embora estes...sejam ineficazes para aperfeiçoar. E não passam de ordenanças da carne...impostas até o tempo oportuno...quando, porém veio Cristo...”

Cristo na Cruz encerra todo sacrifício e torna ineficaz qualquer ato humano que vise obter “bênçãos e justiça” via sacrifício pessoal. O Sacrifício na Cruz despoja principados e potestades, expondo-os ao desprezo, pelo triunfo da Cruz (Colossenses 2: 15).

Qualquer pregação que diga que o sacrifício na Cruz não é suficiente e que em determinadas áreas de nossa existência faz-se necessário um outro sacrifício, está estabelecendo uma doutrina skubalon de demônios, pois a Cruz encerra toda a obra de Deus, e não há nada e ninguém que possa fazer algo que complemente, se associe, termine, ou vá além da Cruz. Doutrina do anticristo, doutrina skubalon de demônios!

Todo ritual e todo sacrifício foram abolidos, ilegalizados, na Parousia de Cristo. Há, entretanto, um Novo Sacrifício, que é a expressão de uma vida que manifeste o Caráter de Deus (Romanos 12: 1 e 2 e Hebreus 13: 15).

Uma Nova Ordem, um Novo Sacrifício!

7 – Obediência estrita à Lei e aos Profetas:

Este é um tema muito delicado neste trânsito que se deve fazer da Velha Ordem, para a Nova Ordem. Em Hebreus 13: 17 diz que devemos obedecer aos nossos guias e sermos submissos para com eles, dando a entender, à primeira vista, que devemos nos sujeitar às determinações de homens, entretanto, em Gálatas 1: 8 lemos que “ainda que nós, ou mesmo um anjo do céu vos pregue evangelho que vá além do que temos pregado, seja anátema”, dizendo que não é a homens que seguimos, mas ao evangelho de Cristo, e que se o pregador fala algo que colida com a Verdade de Deus, que ele seja anátema, e não o evangelho que deve prevalecer em nós.

A Velha Ordem era absolutista, a Nova Ordem é democrática. A Velha Ordem era hierárquica, a Nova Ordem é matricial. A Velha Ordem era vertical, a Nova Ordem é horizontal. A Velha Ordem era singular, a Nova Ordem é plural. A Velha Ordem é moralista, a Nova Ordem é ética. A Velha Ordem é personalista, a Nova Ordem é Corpo.

Jesus falando aos seus discípulos, os futuros apóstolos, disse: “Sabeis que os governadores dos gentios os dominam, e os seus grandes exercem autoridades sobre eles. Não será assim entre vós; antes, qualquer que entre vós quiser tornar-se grande, será esse o que vos sirva; e qualquer que entre vós quiser ser o primeiro, será vosso servo; assim como o Filho do homem não veio para ser servido, mas para servir, e para dar a sua vida em resgate de muitos.”

Uma Nova Ordem, uma Nova Obediência!

No ano trinta e três e meio, Cristo morre na Cruz e o véu do Templo é rasgado, tornando acessível a presença de Deus a todos. No ano setenta o exército romano entra em Jerusalém e destrói o Templo, deixando apenas um muro: das Lamentações. No ano trinta e três e meio, Deus ilegaliza a Velha Ordem e no ano setenta a sentença é executada.

Entre o ano setenta e o ano trezentos e cinqüenta, depois de Cristo, não havia Templo, não havia Sacerdócio, não havia instituição. No ano 350 d.C., aproximadamente, Constantino, rei de Roma, adota o cristianismo como religião oficial do Império e institucionaliza a Igreja, a partir de uma leitura do Velho Testamento, descontextualizada com a obra de Cristo na Cruz. Ergue templos (basílicas, que vem do grego Basiléia, que significa reino), estabelece Sacerdotes, criando a falsa doutrina que fende a Igreja entre clero (que vem do grego klerós e significa herdeiro) e leigos (que vem do grego laikós, que significa ignorante, desconhecedor).

Tratamos de forma introdutória, este assunto, no texto  “Arqueologia de Palavras”.

Constantino introduz a heresia institucional e aprisiona o Corpo de Cristo ao poder da instituição política. A política secular se associa ao clero ingênuo ou ambicioso por poder, a fim de criar um Estado Religioso. De fato o Estado Religioso não foi uma inovação de Constantino, o que ele fez foi fazer a religião oficial de Roma se tornar monoteísta e conferir-lhe individualidade divina na terra, coisa anteriormente tentada por Akenaton e Nefertiti, no Egito.

A Igreja até então vivia no underground, numa tática pseudo-terrorista de transformar a sociedade a partir de suas bases e raízes, pelas beiradas, à margem do poder, fora do alcance do sistema legal; um organismo fluídico, móvel, invisível, intangível: virtual. A Igreja era virtual em sua estrutura organizacional e forma de operação. Não foram seu patrimônio, seus planejamentos estratégicos, seu poder mobilizador, quem garantiu o crescimento e influência no mundo de então, mas foi a excelência do Caráter de seus indivíduos e a coesão do Corpo.

A influência nefasta e sincrética de Constantino conduziu a Igreja ao esquecimento de sua utopia genética. Mas temos em Francisco de Assis, Martinho Lutero, John Wesley e outros, a insatisfação, o antagonismo, o basta e a busca de descontinuidade deste processo de aprisionamento da utopia cristã, executada pela política do Estado Religioso.

Como diz Shakespeare: “o mal que o homem faz, permanece após sua morte...”, assim o ranço institucional permanece até nossos dias e a obra de Constantino re-interpretou, re-inventou e estabeleceu uma nova Elitização, Cidade Santa, Templo, Sacerdócio, Ritos e Sacrifícios, a Lei e a Obediência Cega.

Estes demônios que tem suas bases no desejo de poder e riqueza, que se disseminam pela manipulação doutrinária e simulacros ritualísticos, ainda operam e requerem sacrifícios sobre-humanos dos fiéis, que buscam com coração sincero relacionamento com Deus.

Mas, avançando sobre a temática do entendimento sobre a Igreja, cabe ressaltar que a instituição em si, ou seja, as empresas legalmente instituídas que são os instrumentos contemporâneos de legalidade civil, que visam operar para traduzir princípios cristãos em ações concretas, para manifestar o Caráter coletivo de Deus e assim referenciar a humanidade em Cristo, ainda que sejam institutos, não estão necessariamente institucionalizadas pelos demônios da constantinolização, mas, apenas criam um ambiente profícuo e relativo ao mundo, onde a Igreja possa ser relevante e efetiva.

O que criticamos e denunciamos é uma instituição travesti de Igreja, lobo em pele de cordeiro, com o propósito, ainda que não declarado, de seduzir o povo a uma obediência a um sistema anti-cristão, apontando como meio e fim, a si mesmo.

Faz-se premente separar a Igreja do instituto legal. A Igreja são pessoas que, estando em aliança, compartilham de um propósito comum, crêem em um conjunto de conhecimentos revelados, similares e dialogados, operando para traduzir o Caráter de Deus em sua inserção no mundo. O instituto legal é uma forma de organização contextualizada, o qual visa agregar pessoas num objetivo comum e partilhado, maximizando recursos e potenciais, a fim de executar um determinado “projeto”.

Duas coisas devem ser ressaltadas, sempre: primeiro, a Igreja não é aquela empresa que tem estatuto social, CGC, organograma, cargos, funções, endereço, custos fixos, investimentos, receias, reuniões domingo às 19hs e dízimo; a Igreja são as pessoas, independente de estarem lá, ou não. Segundo, a Igreja pode se valer de inúmeras formas de organização legal, a fim de se tornar efetiva e eficaz: Sociedade Civil sem fins lucrativos, ONG-OSCIP, Escola, Editora, Centro de Treinamento, TV, Rádio, etc, assim como pode se organizar como Indústria, Centro Médico, Web Site, Supermercado, Empresa Agrícola, etc.

Uma vez que a Igreja são pessoas que buscam a manifestação do Caráter, então, onde estas pessoas se encontrarem e manifestarem este Caráter de Cristo, ali a Basiléia de Cristo passa a ser estabelecida.

De forma complementar e não excludente, devemos dizer que a Igreja pode prescindir do instituto legal e peremptoriamente afirmar que a Igreja pode ser definida como uma reunião de amigos num boteco, numa festa de aniversário, num grupo familiar, no Pavilhão 9, num fórum da internet, numa noite de prazer e amor entre marido e esposa, num período de férias com os filhos, etc. Onde estiverem dois ou três, reunidos em nome de Jesus...Igreja!

Não é o “Como?” que define a Igreja, mas é o “O Que?” e “Para que?”. Repetindo: “A Igreja são pessoas que, estando em aliança, compartilham de um propósito comum, crêem em um conjunto de conhecimentos revelados, similares e dialogados, operando para traduzir o Caráter de Deus em sua inserção no mundo.”

O instituto legal pode ser um caminho adotado por uma parcela da Igreja que necessita, pelo caráter de seu projeto, de uma visibilidade social organizada, legalizada e contextualizada, mas também e concomitantemente, mas ele pode ser posto à margem da expressão da Casa de Deus.

A grande reforma que Martinho Lutero fez, foi dizer: “aquilo (a igreja Católica Romana, de sua época) não é a Igreja!”. A reforma por que vamos passar, inexoravelmente, nos levará a entender que a Igreja vai além da forma, para dentro do mundo!

Ora, quando descontinuamos, deconstruímos o signo semântico de “igreja”, ou “casa de Deus”, que está interno a nós, em nossa mentalidade eclesiástica, à reboque, devemos desconstruir o significado de “obra de Deus”, que tem sido utilizado para manter a organização funcionando, dar visibilidade operacional aos crentes zelosos e garantir a coerência interna dos discursos.

Ninguém melhor para definir o que é a obra de Deus, do que o próprio Jesus, definição esta que pode ser extraída de um diálogo com os seus discípulos, quando estes perguntaram: “que faremos para realizar as obras de Deus?”, ao que Ele respondeu: “a obra de Deus é esta, que creiais naquele que por Ele foi enviado.” (João 6: 28 e 29).

A obra de Deus não é dízimos, ofertas, jejuns, reuniões, panfletagens, cargos, funções, organogramas, diretrizes, normas, patrimônios, orações, vigílias, ensaios, corais, boletins, arrumações, faxinas, etc, a obra é interna, é a construção de um Caráter Cristão no Corpo de Cristo.

É a árvore que gera os frutos, ainda que pelos frutos conheçamos a árvore. A árvore que garante um determinado fruto e não o fruto que garante uma determinada árvore. O fato de enxertarmos uvas na laranjeira não a transforma em parreira, mas é a natureza intrínseca da parreira que faz com que esperemos que ela produza uvas.

A ética, os valores intrínsecos, os princípios internos produzidos por uma transformação do homem interior é que é a obra. A obra é a fé produzida pelo conhecimento da verdade que está em Cristo: a vida é conhecer a Deus.

Todo esforço sacrificial humano, que visa oferecer a Deus uma obra de justiça que O pressione contra o muro de Sua própria Palavra, é anátema! Tudo o que pudermos fazer, que vise impingir em Deus uma obrigação miraculosa será ao fim um discurso do “sobre-homem”, do “lupus- ex-homine”, que decreta a morte de Deus em seu coração e a pretensa auto-suficiência humana em obter vantagens sobrenaturais. A morte de Deus está sendo pregada em meio a instituição eclesiástica, quando dizemos que a obra de Deus são nossas ações de justiça.

Diríamos então que tal fé nos torna separados do mundo? De maneira alguma, antes, espera-se que o ramo da árvore gere incontinente um certo fruto. Qual fruto? O fruto da árvore que o nomeia: a humanidade de Cristo no ser humano, aquela em que o Justo se deu por todos e serviu a todos.

A obra é o Caráter de Cristo que, via conhecimento, vai sendo formado em nós; os meios, as técnicas, as tecnologias para execução desta obra é que variam de projeto a projeto. Ainda mais, o projeto define a técnica, e tanto projeto quanto técnica devem ser sub-produtos da obra.

Neste contexto que o indivíduo deve ser inserido: saber qual é o projeto específico, quais as técnicas e tecnologias incorporadas e a cultura daquele ambiente, e ai perceber a dependência da parte ao todo: do projeto à Obra.

O que devemos salientar é que quando concordamos que a Casa de Deus são pessoas, devemos então perceber que a Obra de Deus se faz na Casa de Deus, portanto nas pessoas. E a Obra é tornar disponível um Conhecimento que seja potencializador de relevância e efetividade no mundo. Para que esta Obra seja eficazmente executada, a Casa de Deus pode se valer de recursos institucionais e/ou informais.

Não devemos esquecer que a fé vem pelo ouvir, pela instrução (Romanos 10: 17), poderíamos dizer, pelo conhecimento da palavra de Deus, assim, a obra que é crer em Cristo, vem pelo conhecer a Cristo, não em tese, em teoria, em informações, mas numa experimentação contextual, no mundo.

A expressão da Obra de Deus então passa a estar desvinculada do espaço e tempo, de fato, passa a estar vinculada do espaço e do tempo, quando entendemos que o espaço é todo lugar e o tempo é a toda hora.

Neste contexto de desconstrução do entendimento da Casa de Deus e da Obra de Deus, valeríamos de um chavão que diz: “se não eu, quem? Se não agora, quando? Se não aqui, aonde?”. Dele voltaríamos para a questão do sacerdócio clérigo versus o povo leigo.

O Corpo é uma figura constante e que representa a Igreja nos escritos do Novo Testamento. Esta figura simbólica traz algumas conseqüências no entendimento teológico sobre a forma estrutural da Igreja.

Paulo escrevendo aos Efésios diz que somos um só Corpo e aos Coríntios diz que somos Corpo de Cristo e individualmente membros deste Corpo. As implicações imediatas são que não há uma fenda, uma dicotomia, um dualismo no Corpo, antes, há uma unidade multifuncional.

Desta forma, podemos afirmar que não há “eles” e “nós”, clero e leigos, antes há a Igreja e responsabilidades dentro deste Corpo Vivo e Virtual. Todos nós estamos diante do Cabeça, como co-herdeiros. Como certa vez afirmou Rinaldo Texidor Jr, co-herdeiro significa igualmente herdeiros, ou seja, caso haja Cristo e mais noventa e nove herdeiros, então cada qual receberá 1% da herança.

O modelo militar romano, incorporado à Igreja por Constantino e ratificado na revolução industrial pelo taylorismo fordista, não encontra guarida aceitável no Novo Testamento e na Nova Ordem de Cristo e para isto temos os exemplos:

1 – A palavra Igreja vem do grego ecclésia e significa assembléia. Uma ecclésia grega era um grupo de cidadãos gregos que deliberavam sobre a Polis (cidade) grega. A cidade grega era uma cidade-estado, ou reino: Basiléia. Não é por acaso que Jesus nos chama de Igreja (Mateus 16: 18) e que seja um termo corriqueiro nas epístolas. A idéia subjacente ao uso do vernáculo ecclésia é que a comunidade dos crentes, a Basiléia, deva ser governada por ecclésia, por assembléia.

2 – Quando Pedro, o líder da Igreja Primitiva, leva o evangelho a Cornélio, o gentio, ele é argüido por um grupo de pessoas dentro da Igreja sobre a legalidade e legitimidade de seus atos. (Atos 11: 1 a 18).

3 – Quando Paulo declara que tem um chamado missionário junto aos gentios, ele não “acerta as coisas” com o presidente da Igreja, mas é convocada uma ecclésia e num diálogo franco e aberto, chega-se a um veredicto (Atos 15: 6 a 29).

4 – Em Éfeso Paulo admoesta os presbíteros (no grego presbuteros, ou seja, os anciãos, conforme Atos 20: 17), e os bispos (episkopos, que significa as pessoas responsáveis por coordenar as atividades de um grupo, líderes. Atos 20: 28). O fato é que eram presbíteros e bispos.

Enfim, poderíamos buscar uma série de exemplos bíblicos que colaborassem conosco nesta empreitada, mas, muito mais do que estabelecer um modelo participativo e democrático de governo na Igreja, queremos mostrar, neste momento, que o modelo sempre privilegiará o Corpo, em detrimento do indivíduo. A Nova Ordem estabelecida no Novo Testamento é uma que está fomentando o Corpo de Cristo e não os “ungidos” de Cristo.

Este termo, “Ungido”, é outro que reflete a elitização do clero e a marginalização do leigo, não obstante, em Joel 2: 28 e repetido em Atos 2: 17, lemos: “acontecerá...que derramarei do meu Espírito sobre TODA A CARNE...”. O que seria “unção” se não uma tradução do ato de derramar um óleo específico sobre uma pessoa (isto no Velho Testamento), simbolizando uma ação divina sobre um indivíduo, colocando-o responsável por um “projeto” dentro da Obra de Deus. Este óleo simboliza o próprio Espírito de Deus, o qual cremos estar sobre toda a carne, então não existe “O UNGIDO” na Nova Ordem, como se falássemos de um indivíduo, mas há “O UNGIDO”, quando cremos que a unção está no Corpo de Cristo: a Nova Ordem.

Como lemos em Isaias 61: 1, a unção é unção para, ou seja, o Espírito é derramado sobre o Corpo de Cristo para que os membros desempenhem múltiplas funções para que a Obra de Deus seja erguida no mundo.

Assim, não há “o ungido” quando nos referimos a indivíduos, mas “O Ungido” quando olhamos para o Corpo de Cristo. Há diferença na operação, mas não no Espírito que confere recursos ao Corpo. O Corpo é um, o Batismo é um, e o Espírito é um; os dons, as manifestações, os projetos e as execuções é que são múltiplas.

Ao fim podemos afirmar que o apóstolo Paulo é tão ungido quanto eu, ou, eu sou tão ungido quanto o apóstolo Paulo, o que altera é o caráter e a relevância do projeto de cada um; mas Deus não olha para o caráter e a relevância do projeto individual, mas para o cumprimento dele.

Conforme já citamos anteriormente, Jesus diz que aquele que estiver disposto a servir com a vida, disposto à morte, será servo e sendo servo será o primeiro. O apóstolo Paulo escrevendo aos Coríntios disse que ele era entregue à morte, para que a Igreja alcançasse a vida (II Coríntios 4: 7 a 12).

O caráter do projeto divino para o indivíduo requer uma prévia disposição sacrificial: o sacrifício por manifestar o Caráter de Cristo no mundo. Líderes sem o caráter sacrificial, antes, que apregoam a elitização do sacerdócio clerical, não falam em nome da utopia cristã.

Foi assim que Jesus, em Atos 1: 8 fala: “Mas recebereis poder, ao descer sobre vós o Espírito Santo, e ser-me-eis testemunhas, tanto em Jerusalém, como em toda a Judéia e Samária, e até os confins da terra.”. A Unção do Espírito nos confere poder, a fim de sermos testemunhas...

Testemunhas no grego é “marthus” ou mártir no português. A Unção do Espírito confere à Igreja poder para suportar o martírio da fé e não destaque elitista diante do leigo.

O testemunho foi uma constante na vida de Elias, Eliseu, Jeremias, João Batista, Jesus Cristo, os doze apóstolos, Estevão, Francisco de Assis, Martin Luter King, Desnond Tuto, Irmão André, etc e uma miríade de testemunhas que ousaram estabelecer a ética cristã acima e além da moral vigente.

Que arrogância e soberba a minha se dissesse que sou “O Ungido”  de Deus, hoje, diante deste quadro virulento de desarranjo social provocado pela exclusão generalizada e pelo materialismo do sistema sócio-econômico global e neo-liberal. Antes, prefiro dizer que sou um menino com peixes e pães, que ao ver a fome da multidão, oferto estes recursos para serem potencializados pelo Senhor.

A institucionalização, ou, a constatinolização da religião, que cria um discurso sobre o Templo, a Operação e o Clero, passa a exigir uma subserviência absoluta aos que detém os códigos herméticos, o acesso aos oráculos, para que não se decifrem os sofismas e as falácias discursivas.

Este hermetismo traz em seu bojo a proibição de acesso, o domínio de uma linguagem mística e uma iniciação curricular teológica.

A proibição de acesso, no primeiro momento deste fenômeno de institucionalização da religião, foi literal, ou seja, paulatinamente incorporou-se uma sistemática que visava inibir o acesso ao conhecimento contido nas Escrituras e outras literaturas, pelos chamados leigos. Com este modelo pode-se manter o leigo cativo em sua ignorância e fundamentar a retórica da existência de um sacerdócio clerical sapiente, responsável único pela condução dos cegos e inaptos leigos à verdade de Deus.

Num segundo momento cria-se e crê-se num código hermético, indecifrável pela mente e espírito do leigo, demandando um ser consagrado para este mistério. A Bíblia passa a ser um livro de mistérios, símbolos, códigos secretos que a mente comum não pode alcançar em nenhuma fase de sua experiência pessoal.

O clero, possuidor exclusivo da chave de acesso dos mistérios ocultos do Livro, deve restringir uma leitura direta do leigo, visando seu próprio bem, e a revelação da Palavra de Deus que se dará a partir da boca do sacerdote.

A de se ter uma linguagem espiritual, para que se possa conferir espiritualidade à coisa? A coisa espiritual não estaria quando o Caráter de Cristo é manifesto no mundo? E qual é a linguagem que pode expressar mais espiritualidade do que a vida que traduz a Palavra Viva? Não seria a Igreja um livro aberto escrito, não por mãos e cuja tinta é o sangue?

Caso eu caminhasse segundo a graça e nesta graça manifestasse o Caráter de Cristo, não estaria, em minha contingência, sendo um centro referencial do amor de Deus ao e no mundo? Qual sacerdote seria este que estaria apontando para a re-ligação entre Deus e o homem/mulher, senão aquele que permite que sua vida seja testemunhal?

Que título necessita este indivíduo, senão o de filho de Deus?

Negar o sacerdócio seria negar os apóstolos, profetas, evangelistas, pastores e mestres? Claro que não, pois não negamos o sacerdócio, apenas declaramos que este é universal, e como tal, é responsabilidade do Corpo. Negamos o clero e reafirmamos o sacerdócio.

Negar o clero não seria negar a liderança? Novamente diríamos que não, pois não negamos a liderança, mas a hierarquia, a divisão, a exclusividade, o elitismo, a dicotomia platônica entre aquele que pensa e aquele que faz. A Igreja é única, cujos membros são todos igualmente herdeiros. A diferença é de projeto e não posicional.

Caso haja algum apóstolo nesta terra, que o testemunho dele revele seu apostolado. Caso haja algum sacerdote nesta terra, que a vida dele manifeste seu sacerdócio.

“O que também aprendestes e recebestes, e ouvistes, e vistes em mim, isso praticai; e o Deus de paz será convosco.” (carta de Paulo aos Filipenses 4: 9).

Devemos, então, neste ponto, relembrarmos que a Igreja pode, caso lhe seja necessário em vista do caráter de seu projeto, operar por meio de um instituto legal. Este instituto legal tem, segundo o desenho particular de cada projeto, uma hierarquia, um organograma, um código de condutas interno, um planejamento, um budget, uma cultura, modelos operacionais, etc, uma visão local. Este instituto legal estará servindo aos propósitos de Deus, caso o projeto e a visão local contribua eficientemente para a Obra de Deus: a manifestação do Caráter de Cristo, no Corpo de Cristo.

Assim, quando nos filiamos, associamos, participamos, relacionamos, com um instituto legal, devemos saber que nos relacionamos com aquela organização e com todo o peso e requisição que ela demanda.

Gostaria de fazer um pequeno resumo do que dissemos anteriormente, antes de entrarmos, finalmente na questão dos dízimos, propriamente.

O que procuramos demonstrar em linhas gerais é:

1 – A manifestação de Jesus Cristo descontinuou, desconstruiu uma Velha Ordem (baseada no Povo, na Herança, no Templo, no Sacerdócio, na Lei, nos Ritos e Sacrifícios e na Obediência: numa experiência exógena) e levantou a virtualidade de uma Nova Ordem que está baseada em um novo conjunto de valores que visam o relacionamento direto de Deus no ser humano, produzindo a realidade do Corpo de Cristo que manifeste o Caráter de Cristo no mundo: uma experiência endógena que se realiza de forma exógena, na terra.

2 – A Velha Ordem foi re-estilizada por Constantino e opera ainda no mundo através da adulteração e prostituição do sentido semântico dos símbolos: Casa de Deus, Obra de Deus e Sacerdócio, e outros. Nesta re-estilização da Velha Ordem, houve a separação do clero e do leigo, assim como esta Velha Ordem, ilegal, exige sacrifícios complementares e paralelos ao de Cristo na Cruz, fruto de uma doutrina skubalon de demônios.

3 – Definimos quatro grandes sistemas: a instituição religiosa cujo propósito é a manutenção da Velha Ordem, seus símbolos, suas hierarquia e seus discursos. O instituto legal, que pode estar ao serviço da Velha Ordem e seus valores, ou ao serviço da Nova Ordem, quando o caráter de seu projeto demandar. A informalidade, que pode conviver de forma inter-dependente do instituto legal, ou de forma paralela ao instituto legal; aquilo que deve ser manifesto é o caráter de seu projeto. Finalmente há a Igreja, a Casa de Deus, o Corpo de Cristo, o Povo de Deus, que pode e deve se valer de qualquer recurso ou modelo, que atue ética e legalmente, para manifestar de forma contextualizada o Caráter de Cristo.

4 – A Velha Ordem se vale de uma mentalidade que esteve presente em Constantino, isto é, ler o Velho Testamento apenas à luz de seu contexto histórico, ignorando que a manifestação de Jesus Cristo encerra a Lei, seus fundamentos, sua mentalidade e que esta deve ser lida à luz da Nova Ordem. A Velha Ordem é sombra, metáfora e sinal para a Nova Ordem.

Diante deste diagnóstico podemos adentrar na questão em si dos dízimos.

A primeira vez que a palavra dízimo é usada na Bíblia está em Gênesis 14: 20, quando Abrão dá os dízimos de tudo o que tem para o rei de Salém, sacerdote do Deus Altíssimo, a Melquisedeque. O que é Salém, senão Jerusalém, ou seja, Melquisedeque era rei e sacerdote de Deus sobre Jerusalém.

Esta é, com certeza, uma linguagem simbólica, metafórica, uma sombra de uma realidade que iria se manifestar na Nova Ordem. Nestes termos que o escritor de Hebreus lê este texto e nos fala: “...Jesus, como precursor, entrou por nós, feito sacerdote para sempre, segundo a ordem de Melquisedeque... sendo primeiramente, por interpretação do seu nome, rei de justiça, e depois também rei de Salém, que é rei de paz; sem pai, sem mãe, sem genealogia, não tendo princípio de dias nem fim de vida, mas feito semelhante ao Filho de Deus, permanece sacerdote para sempre.” (Hebreus 6: 20 e 7: 2 e 3).

O que é Salém, senão o nome arqueológico de Jerusalám? O que é Jerusalém, sob a ótica da Nova Ordem de Cristo, senão a Igreja, como lemos em Gálatas 4: 26 a 31, Hebreus 11: 9 e 10 e Apocalipse 21: 2 e 3.

Caso entendamos que Salém represente, na linguagem profética, a Igreja, e Melquisedeque seja uma tipologia de Jesus Cristo, então Abrão está entregando os dízimos de tudo o que tem para uma Nova Ordem de Deus que estava para se levantar sobre a terra: Jesus Cristo, rei da Igreja.

Neste contexto histórico, de Melquisedeque e Abrão, podemos perceber um simbolismo que aponta para significados na Nova Ordem, portanto, poderíamos esperar que os dízimos também fossem um simbolismo que apontasse para significados novos?

Antes de abordarmos diretamente esta questão, que de fato é a questão central para o entendimento dos dízimos na Nova Ordem, é mister que atentemos para outro símbolo central da aliança de Abrão e Deus: a circuncisão.

Para este mesmo homem, Abraão, o Senhor ordenou que circuncidasse todo ser humano masculino, como sinal da aliança. Desta forma, ele circuncidou a Isaque, seu primogênito e herdeiro (Gênesis 17: 9 a 14 e 23 a 27).

Sabemos que Jesus Cristo veio estabelecer uma Nova Aliança, conforme lemos em Mateus 26: 28, Marcos 14: 24 e Lucas 22: 19.

Na velha aliança, a da carne, havia o sinal na carne, que era a circuncisão, mas este sinal, esta tipologia, aponta para o que na Nova Aliança? Em Romanos 2: 29 lemos: “Mas é judeu aquele que o é interiormente, e circuncisão é a do coração, no espírito, e não na letra; cujo louvor não provém dos homens, mas de Deus.” O que seria então a circuncisão? O sinal da justiça e da verdade de Deus em nosso espírito, como lemos em Romanos 4: 11: “E recebeu o sinal da circuncisão, selo da justiça da fé que teve quando ainda não era circuncidado, para que fosse pai de todos os que crêem, estando eles na incircuncisão, a fim de que a justiça lhes seja imputada”.

A circuncisão de Isaque representa a marca da justiça de Deus em nosso espírito. O sinal da aliança na carne é uma tipologia de um sinal da Aliança que temos em Cristo.

Sabemos que ainda permanece em aberto a questão: mas o que são os dízimos?

Podemos antever que os dízimos devem representar um símbolo tangível, da carne, na Velha Ordem, que aponta para uma realidade plena na Nova Ordem.

Os textos que nos falam de dízimos estão em Levíticos 27: 30 a 32 (o dízimo é santo ao Senhor), em Números 18: 21 a 32 (os dízimos, Deus os deu aos filhos de Levi, pois esta é a herança que lhes pertencem por fazerem a obra na casa do Senhor), em Deuteronômio 12: 1 a 19 (os dízimos devem ser levados ao Templo, o qual iria ser construído em Jerusalém e deveria suprir o sacerdócio levítico), em Deuteronômio 26: 13 (os dízimos são levantados de três em três anos e são para sustento dos levitas, estrangeiros, viúvas e órfãos), 2 Crônicas 31: 5, 6 e 31 (o rei Ezequias re-estabelece os dízimos para sustento dos sacerdotes e levitas), em Neemias 10: 37 e 38 (dízimos entregues aos sacerdotes e levitas e estes entregam os dízimos dos dízimos na casa de Deus), em Neemias 12: 44, 13: 5 e 12 (os dízimos sendo entregues na casa de Deus).

Em quase todos estes textos temos os dízimos relacionados com a casa de Deus, ou o Templo, e o sacerdócio e os levitas. Em nenhum deles liga os dízimos a qualquer sistema de recompensa ou de prosperidade. Os textos sobre dízimos não estabelecem uma relação de troca com Deus, onde Ele promete riqueza financeira. Os dízimos faziam parte, na Velha Ordem, de uma obrigação do povo para o sustento do Templo e dos sacerdotes e levitas.

Em Amós 4: 4 até 7 nos fala que o povo transgredia, mas fazia sacrifícios e multiplicava as transgressões e pagava os dízimos, por conta desta forma de agir diante de Deus, o Senhor reteve a chuva, enviou peste, deixou que o povo fosse levado cativo, etc. Os dízimos e os sacrifícios, não fizeram cessar a calamidade.

Em Malaquias 3: 8 a 10 as Escrituras nos perguntam: como o homem pode roubar a Deus? E logo vem a resposta: nos dízimos e ofertas. Mais adiante fala: trazei os dízimos à casa de Deus.

Trazei os dízimos e provai-me, experimentai-me, degustai-me, tenham uma experiência comigo no fato de que Eu, o Senhor Deus, irei abençoar o trabalho de suas mãos, seus negócios, suas atividades produtivas. Tragamos os dízimos para a Casa de Deus e tenhamos uma experiência com a bênção, produtividade, felicidade e deleite em Deus.

O Velho Testamento termina não fazendo nenhum cruzamento dos dízimos com a prosperidade!

Nos evangelhos, o pós-pré-testamento, há apenas três textos que se utilizam da palavra grega “apodekatoo” (pagar o dízimo): em Mateus 23: 23, Jesus está dizendo aos fariseus que eles dão valor aos dízimos mas desprezam a justiça, a misericórdia e a fé, e que deveriam fazer isto e aquilo. Lucas 11: 42 descreve Jesus falando aos fariseus, pois eles cobram os dízimos com hipocrisia. Em Lucas 18: 12 Jesus fala que o fariseu soberbo e arrogante, diz que não peca, cumpre a Lei, jejua e dizima.

Nos três textos que há referência aos dízimos, nos evangelhos, Jesus está dizendo que os dízimos têm valor secundário na Lei da Velha Ordem. Jesus está num período de transição da Velha para a Nova Ordem e ali já declara que esta doutrina pode se tornar um artifício religioso de manipulação e imposição de uma canga no Povo de Deus, obviamente, não autorizado por Deus.

Assim termina a Velha Ordem! Na Nova Ordem a palavra dízimo é banida do dicionário bíblico, excetuando num único texto:

Hebreus 7: 4 a 10: “Considerai, pois, quão grande era este, a quem até o patriarca Abraão deu o dízimo dentre os melhores despojos. E os que dentre os filhos de Levi recebem o sacerdócio têm ordem, segundo a lei, de tomar os dízimos do povo, isto é, de seus irmãos, ainda que estes também tenham saído dos lombos de Abraão; mas aquele cuja genealogia não é contada entre eles, tomou dízimos de Abraão, e abençoou ao que tinha as promessas. Ora, sem contradição alguma, o menor é abençoado pelo maior. E aqui certamente recebem dízimos homens que morrem; ali, porém, os recebe aquele de quem se testifica que vive. E, por assim dizer, por meio de Abraão, até Levi, que recebe dízimos, pagou dízimos, porquanto ele estava ainda nos lombos de seu pai quando Melquisedeque saiu ao encontro deste.”

O que nos diz este texto sobre os dízimos é que Abrão se submete a Melquisedeque, quando lhe dizima. Assim, quando Abraão se submete a um sacerdócio eterno, todo o Israel está também submetido, inclusive Levi, a este sacerdócio. Quando o Sacerdote eterno, segundo a ordem do sacerdócio Profético de Melquisedeque, se levanta, Ele (Jesus Cristo) estabelece uma Nova Ordem Sacerdotal superior a Ordem de Levi, e a substitui.

Os dízimos simbolizam, representam a submissão. Na Velha Ordem o povo pagava dízimos à Ordem Levítica, pois tinham que, por obediência, estar submissos aos sacerdotes que prestavam cultos e ofereciam sacrifícios no Templo. Na Nova Ordem todos os sacerdotes se submetem ao Sumo Sacerdote, que é Cristo, o qual ofereceu sacrifício único, eterno e irrevogável.

Da forma como a circuncisão não mais é na carne, e sim no espírito, por fé, os dízimos não são na carne, mas de uma vida comprometida em oferecer um sacrifício vivo, santo e agradável que é um culto racional: a manifestação do Caráter de Cristo sendo formado em nós.

A Nova Ordem, que é proveniente de um Novo Sacerdócio, estabelece uma Nova Lei, a qual diz: fim ao Templo, fim aos sacrifícios, fim à guarda dos sábados, fim à circuncisão, fim aos dízimos, etc!

A Igreja de Cristo não está sujeita aos rudimentos da carne: os dízimos são ilegais na Nova Ordem, em Cristo Jesus.

Esta verdade perigosa e contundente, que apresentamos acima, deve ser vista à luz da Nova Ordem e da demanda espiritual que paira sobre a humanidade, após a Parousia de Jesus Cristo, isto é, os dízimos como instrumento obrigatório de suporte econômico-financeiro do projeto da Igreja é uma prática ilegal, pois sua imposição determina a manutenção de um código que foi substituído no Novo Sacerdócio, inaugurado por Jesus.

O que resta então, no que tange ao envolvimento econômico-financeiro e a realidade das demandas de investimento e cobertura de custos do projeto eclesiástico?

Devemos entender, então, como a questão do dinheiro era tratada na vida e no cotidiano da Igreja que está inserida no Novo Testamento e quais os princípios norteavam esta Ordem que substituía a antiga.

O primeiro relato sobre o uso dos recursos econômico-financeiro na Nova Ordem, está em Atos 2: 45, dizendo que as pessoas que possuíam algum recurso entregavam-no, o qual era dividido igualmente entre os necessitados. O patrimônio era revertido em assistência aos necessitados.

A questão que permanece oculta neste texto é: qual regra, ou código moral/ético regia tal disposição comunitária? Esta é a pergunta que deve ser respondida na busca de uma ordem prática que rege o manuseio das finanças na Igreja e que estamos buscando, uma vez que esta comunidade não se pautava pela obrigatoriedade dos dízimos.

Esta verdade está latente neste texto, uma vez que aqueles que tinham recursos, não davam os dízimos deles ou respondiam a apelos pela obrigatoriedade da obediência, antes, ofertavam tudo e passavam a estar numa condição igual: homogeneidade comunitária.

A segunda menção sobre o assunto está em Atos 4: 32 a 37, dizendo o mesmo, isto é, ninguém considerava que possuía algo, antes tudo era comum, desta forma, não havia necessitado, pois os recursos eram distribuídos entre os carentes.

Duas coisas salpicam em ambos os textos: primeiramente que não há um código de obrigatoriedade para este tipo de conduta comunitária, segundo que os recursos são canalizados para os carentes da comunidade. A Igreja não possuía patrimônio.

Em Atos 5: 1 a 11 lemos sobre Ananias e Safira que “entrando na onda”, venderam uma propriedade e depositaram, parte do valor, diante da Igreja, dizendo ser a totalidade. Algumas coisas devem ser ressaltadas: primeiro, não há no texto nenhuma declaração de que eles foram induzidos, exortados, ou obrigados a fazerem tal coisa, foi uma decisão pessoal. Não há menção, como nos textos anteriores, sobre o percentual da oferta: 100% , 10% ou qualquer outro valor. A sentença proferida contra eles não foi devida a retenção do valor, mas em virtude da mentira.

A própria instituição dos diáconos (garçons em grego) foi uma ordenação da questão da distribuição de auxílio aos necessitados. Lemos em Atos 6: 1 a 7 que homens foram ordenados para gerir a distribuição de auxílio às viúvas da comunidade, liberando deste encargo os apóstolos, ou seja, a questão financeira não deve ser uma preocupação e atributo dos apóstolos, profetas, evangelistas, pastores e mestres, mas dos bispos, presbíteros e diáconos.

Mais adiante, em Atos 11: 27 a 30 lemos sobre a revelação profética de Ágabo e o socorro levantado entre os discípulos, para a Igreja que estava na Judéia. Este socorro (que o texto não deixa claro se foi financeiro, econômico, alimentício, roupas, etc) foi enviado por intermédio de Barnabé e Saulo e entregue aos presbíteros. Novamente não estamos falando em dízimos, ou obrigatoriedade da Lei, mas em ofertas voluntárias para socorro e assistência aos necessitados da Igreja.

Caminhando um pouco mais, vamos para Atos 20: 33 a 35 quando Paulo está deixando a cidade de Éfeso e dá as últimas instruções aos bispos e presbíteros daquele lugar dizendo que “ de ninguém cobiceis prata, nem ouro, nem roupa...trabalhando assim, é mister socorrer aos necessitados e recordar as palavras de Jesus: melhor é dar do que receber”. Mais uma vez os recursos financeiros da Igreja devem ser canalizados, visando o socorro e o suporte aos necessitados.

Estes são os relatos onde pudemos reconhecer princípios que devam nortear o propósito e gestão dos recursos econômico-financeiros na Igreja, assim sendo, podemos dizer que os princípios que podemos extrair do livro de Atos são:

1 – Não há dízimos em Atos, antes a oferta é voluntária, regida por um código ético, e não regida por um código moral, isto é, os valores que conduzem uma pessoa a ofertar não estão baseados em lei e obrigatoriedade, mas no compromisso comunitário, visão de corpo e aliança.

2 – As ofertas voluntárias e graciosas devem servir para o socorro dos necessitados da Igreja.

3 – Há um grupo de gestores - bispos, presbíteros e diáconos – que são responsáveis pelo recolhimento, administração e distribuição dos valores, liberando os responsáveis pelo ensino e educação na Palavra, desta burocracia econômico-financeira.

4 – A Igreja, dentro do contexto do primeiro século da era cristã, não convivia com a problemática de custos, despesas, patrimônio, manutenção, investimentos, etc, atendo-se tão somente ao serviço social e à educação cristã.

Entretanto, também nas cartas de Paulo encontramos textos que nos falam da questão do dinheiro, das ofertas e dos necessitados da Igreja.

Escrevendo aos romanos, no capítulo 12, ele apresenta um corpo com múltiplas funções (versículo 4) onde estas funções, operações, são de igual relevância e valor para o desenvolvimento do Caráter Cristo. Assim, ele apresenta os dons de profecia, ministério, ensino e exortação, em medida de importância igual aos de contribuição e governo.

Ainda escrevendo aos romanos (capítulo 15: 25 a 27) ele declara que as Igrejas na Macedônia e Acácia perceberam que era necessário levantar uma oferta para a Igreja que estava em Jerusalém (coleta em benefício dos pobres), pelo fato de perceberem que deviam tal serviço. O serviço que deviam, era o serviço do amor mútuo.

Esta questão da coleta para os pobres em Jerusalém, Paulo volta a falar à Igreja que estava em Corinto, referindo-se a esta coleta em 2 Coríntios 8: 1 a 15, no que diz que os macedônios, embora também pobres, por amor e graça divina, foram além de sua pobreza e levantaram uma oferta para aqueles que precisavam.

É dentro deste contexto que Paulo fala à Igreja que estava em Corinto que aquele que semeia pouco, também pouco ceifará (2 Coríntios 9: 6). O princípio de semeadura aqui ressaltado, não leva em conta a casa de Deus (Templo), nem muito menos a obra de Deus (ofícios religiosos), mas à Casa de Deus (os pobres e necessitados na Judéia) e à Obra de Deus (a manifestação de um Caráter onde não haja desigualdade, exclusão, pobreza, e miséria no Povo de Deus).

Não esqueçamos que a Igreja que se encontrava na Judéia estava sendo impiedosamente perseguida pelos judeus e romanos que ali habitavam, e, por conta disto, estavam passando por necessidades profundas.

O princípio que está explícito e implícito neste texto (2 Coríntios 8: 1 até 2 Coríntios 9: 15) é que Deus, segundo a Sua Graça e Misericórdia, gerou abundância em uma Igreja, para que ela supra a miséria de outra Igreja. A Aliança que se produz no Corpo, gera fluxos de recursos (semente e plantio).

Escrevendo à Igreja em Filipos, Paulo diz que somente ela se dispôs a se associar com ele e nisto suporta-lo materialmente. Esta associação, transformada em suporte material, é tida como um sacrifício aceitável e aprazível a Deus, um aroma suave: o sacrifício está não em que se cumpra uma Lei, mas no associar-se em amor e graça, percebendo a relevância do projeto Paulino. (Filipenses 4: 15 a 18).

O teor das cartas de Paulo é ressonante com os princípios extraídos dos textos de Atos, ou seja, não há menção de dízimos, antes o termo é coleta. Estas coletas, ofertas voluntárias, destinam-se aos pobres e necessitados, com o propósito de fazer manifesta a graça de Deus no suprimento de carências de alguns, via abundância de outros.

A semeadura não é um modelo de suprimento financeiro da instituição eclesiástica, do instituto legal, mas é uma tecnologia onde a Casa de Deus, supre a Casa de Deus, a fim de que, pelo amor mútuo, o Caráter de Cristo seja manifesto ao que necessita e ao que dá.

O uso ilegítimo e ilegal do termo, ou conceito, de semeadura por parte daqueles que desejam encontrar guarida em sua cobiça por pata, ouro e roupas, pela manipulação da crença dos fiéis, é algo abominável e que deve ser revelado pela luz do evangelho e colocado à parte da fé na verdade que deve ser manifesta no Corpo de Cristo.

Também o apóstolo Tiago, inspirado pelo espírito, mostra-se preocupado com a questão do suprimento das viúvas e órfãos (Tiago 1: 27), do suprimento ao pobre e necessitado, como forma de manifestar a graça divina (Tiago 2: 14 a 18) e do dinheiro mal ganho e sonegado ao trabalhador (Tiago 5: 1 a 6), mas em nenhum momento é mencionada a palavra dízimo.

Paulo também trata da questão das viúvas e órfãos em 1 Timóteo 5: 3 a 16.

Encontramos nas cartas de Paulo e Tiago a preocupação da Igreja com os pobres, os necessitados, as viúvas e os órfãos, que devem ser socorridos e supridos por meio de ofertas voluntárias, vindas daqueles que têm maior abundância.

Entretanto há uma outra abordagem que deve ser feita e que é relevante no entendimento dos princípios bíblicos sobre o destino dos recursos financeiros, quando tratamos do sustento daqueles que tem em sua atividade exclusiva o serviço para a Casa de Deus.

Vale a pena insistir, neste momento, que a Igreja no primeiro século não possuía patrimônio, despesas, investimentos, organograma, budget, assalariados, impostos, etc, o entendimento daqueles cristãos era o de que a Casa de Deus era a unidade em aliança do Povo de Deus e a Obra de Deus era a fé em Cristo, proveniente do saber e exercício prático do conhecimento.

Estes cristãos do primeiro século não se reuniam em Templos próprios, mas nas casas, catacumbas e outros lugares onde pudessem estar em segurança, ou que tornasse sua pregação mais eficaz.

Em dois textos encontramos bases afirmativas, para que algumas pessoas façam jus ao sustento material, por conta de seu ofício, ou ministério: 1 Coríntios 9: 5 a 17 e 1 Timóteo 5: 17. Aqueles que por conta do ofício do ensino da Palavra, estão vivendo exclusivamente para estudar e transmitir o conhecimento ao povo de Deus, servir pastoralmente, evangelizar, operar no ministério apostólico ou profético, além dos presbíteros, bispos e diáconos que governam as coisas públicas que são relativas à Casa de Deus, podem ser supridos materialmente por recursos advindo do Povo de Deus.

Enfim, sempre, os recursos oriundos da Casa de Deus devem servir para suprir às necessidades da Casa de Deus, a fim de que a Obra de Deus seja consolidada na terra.

Mas, diante de nós está uma outra realidade, aquela que nos diz que há institutos legais que operam para colaborar com a Casa de Deus e a Obra de Deus. São agentes operacionais do Povo de Deus, que visam dar respaldo aos valores sociais contemporâneos e que se faz imperativo, neste momento, existirem. Como irão fazer frente às demandas dos custos, despesas, investimentos e impostos?

Primeiramente, nesta abordagem, devemos re-lembrar que estes institutos não são a Casa de Deus e nem lá se faz necessariamente a Obra de Deus, mas que são tecnologias contemporâneas que a Igreja pode vir a se apropriar, para maximizar e legalizar um projeto específico do Povo de Deus. Esta tecnologia carrega em si um ônus e este ônus requer compromisso. Compromisso de quem? Daqueles que conscientemente entendem que aquele instituto legal é necessário para o fim que ele se propõe e que todos que compartilham do mesmo entendimento, visão e responsabilidade, diante do projeto da Igreja, devem ratear o ônus.

Em segundo lugar, caso não acreditemos que haja responsabilidade pessoal no compromisso do instituto legal, então não compartilhamos da crença naquele projeto da Igreja e, portanto, não devemos participar daquela parcela da Igreja, isto é, se freqüentamos um espaço eclesiástico, então denota que compartilhamos das mesmas crenças, valores e propósitos (um projeto comum), então somos solidariamente co-responsáveis pela manutenção daquele projeto.

Esta responsabilidade solidária somente cederá lugar à valores éticos superores que nos impossibilitem de receber: pobreza, necessidade, viuvez e orfanato.

O que apregoamos é que os institutos legais devem trazer luz e verdade em seus discursos e dizer: nós necessitamos pagar as contas de luz, água, telefone, salários, IPTU, etc para continuar nosso projeto para o Povo de Deus e conclamamos, convidamos, chamamos as pessoas que desejam que este projeto continue operacional da forma como está atualmente e desenvolvamos novos projetos, que nos ajudem no rateio destas despesas, custos e demandas de investimento.

Quando a Povo de Deus clamar por ofertas voluntárias, que a Igreja saiba priorizar recursos para a Casa de Deus, manifestando, assim, a Obra de Deus: o Caráter de Cristo.

Não é a Casa de Deus para suprir os projetos do Povo de Deus, mas são os projetos do Povo de Deus que devem, inexoravelmente, suprir a Casa de Deus.

Voltamos a re-interar: a Igreja está livre do pagamento dos dízimos.

O que resta? O compromisso de Aliança que opera pela Graça e amor, oriundo de Deus e manifesto no Corpo de Cristo.

O resumo da ópera:

1 – Jesus Cristo desconstruiu toda a Velha Ordem e está edificando uma Nova Ordem fundamentada na fé, esperança e amor.

2 – A Nova Ordem suscita uma Nova Lei, que requer um Novo Entendimento sobre os símbolos e significados para a Palavra de Deus. Desta forma a Casa de Deus são pessoas que estão em Aliança, a Obra de Deus é a fé que vem do conhecimento de Cristo, a Igreja é o Corpo de Cristo operando segundo o Caráter de Cristo.

3 – Não há dízimos na Nova Ordem, antes há ofertas voluntárias de um Povo de Aliança que deseja suprir os pobres, necessitados, viúvas e órfãos, e também suportar aqueles que vivem exclusivamente do ensino da Palavra e serviço ao Povo de Deus.

4 – A Igreja, como um corpo multi-membros, em função de projetos específicos, pode vir a constituir institutos legais (empresas) que visem trazer eficiência e legalidade a estes projetos. Estes projetos estarão lastreados por uma visão e propósito próprio, devendo estar subordinado à Obra de Deus.

5 – As empresas pelas quais a Igreja vier a operar, irão requerer do Povo sacrifícios específicos, tanto financeiros, quanto de agenda, adequação cultural, etc. Este fenômeno se deu em Israel, quando decidiu constituir um rei sobre eles (Saul e depois Davi, conforme poderá ser lido em I Samuel 8: 1 a 22).

6 – Os institutos legais, por conta de seus projetos próprios, estão confundindo a Igreja com aquilo que eles estão fazendo lá e “dando um jeito” nas Escrituras, o que traz ao povo um ônus de culpa, quando este não consegue responder a contento.

7 – Assim como a Igreja não é esta coisa que tem sido chamada de igreja, também Deus não é esta figura antropomórfica que tem falado nos cultos dominicais (os pregadores dos dízimos) e nem a Palavra de Deus é esta skubala de demônios que prega a necessidade de sacrifícios adicionais à Cruz, para vencer tanto o mal quanto o mau.

Desta forma minha conduta tem sido:

1 – Não dou dízimos

2 – Oferto recursos que Deus tem colocado em minhas mãos, em projetos que percebo conduzam à manifestação da Obra de Deus. Estes recursos podem ser: financeiros, talentos, técnicas, tempo, energia física, etc, sabendo que são projetos que requerem ofertas de Aliança.

3 – Não compartilho da visão destes pregadores que, voluntariamente ou involuntariamente, não tem percebido o dano que tem causado na Casa de Deus. Não os escuto e busco ouvir gente que busque a verdade, em detrimento do interesse.

4 – Oro a Deus, para que toda esta desconstrução, iniciada por Jesus, continuada pelos primeiros apóstolos, possa vir tomar corpo no Corpo de Cristo: único agente virtual, com potencial de destruir a Velha Ordem que opera através das doutrinas de Constantino.

5 – Busco estabelecer uma rede de alianças dentro da Casa de Deus.

6 – Sei que não conheço a plenitude e totalidade da verdade, mas apenas acessei um extrato dela, que está misturada com valores, crenças, sistemas, entendimentos, preconceitos que me são próprios.

7 – Creio que Cristo é a verdade e somente podemos conhecer a verdade por meio de revelação.