Há uma tendência em atribuir ao passado, qualidades românticas que apenas quem o viveu e o tem em verdade, sabe que ele não possui. Há uma predisposição em assumir uma visão mística sobre os heróis antigos e suas odisséias, que somente estes homens, em carne e osso, poderiam descredencia-la.
Esta tendência e predisposição, converge-se em uma saudade do Éden. Tal lugar aonde não se pode mais estar, torna-nos prisioneiros de um desejo não realizável; é uma lascívia do inconsciente coletivo, um apetite fomentado por nosso romantismo lúdico, que não pode ser suprido por nossa fé, a qual deve nos projetar ao futuro. O Éden jaz no devir da História de Deus, assim como a Nova Jerusalém está soterrada no porvir da religião, da filosofia e do animal humanóide.
Malditos homens pós-modernos, sem passado a resgatar e sem futuro para sonhar! Pressionados na eternidade, entre o futuro e o passado, como o carbono entre as rochas. Sabemos que o tempo, caso exista, é o tempo que está, o presente; é a fração entre o que já não é mais e o que ainda não é, uma fração tão ínfima quanto possamos sugerir. Este tempo que está, ou se tornou tempo que não é mais, ou provavelmente será tempo que ainda não se fez.
Queremos crer, como fundamento e referência que pode produzir segurança presente, que o passado está lá, como filmes e quadros da biblioteca de Alexandria. O passado, em um símbolo primordial, é como a Lisboa dos Cabrais, que está lá e estará lá quando conseguirmos regressar. Confiamos que, caso achemos a bússola e leiamos corretamente os mapas, poderemos re-descobrir as rotas e re-viver o sonho da segurança pátria. O que se foi, passa a ser a única verdade que se pode tomar.
Onde está Alexandria? Onde está a sua biblioteca? Onde estão os “frames” fragmentados do tempo que julgamos estarem lá e que nos confiarão segurança?
Acreditamos que podemos, como nos filmes, inventar uma engenhoca qualquer e penetrarmos num frame deste filme que continua rodando num cinema da eternidade. Podemos entrar no filme e re-viver a história como se ela ainda estivesse ali, sendo vivida continuamente, eternamente, instante por instante, numa monstruosa tela sobrenatural.
Nesta tela está o Éden, está Adão e sua Mulher. Sonhamos com uma nau, sua bússola e seus mapas, que possa nos levar novamente para o sexto dia da criação.
Ah! Como é belo o Éden! Adão, habitante único deste lugar, podia andar em meio a Criação e estar repleto de harmonia. Sua Mulher, sua companheira idônea, extensão e mix de si mesmo. Tão bela mulher, feita do que era mais sublime, mais elevado, mais perfeito.
Perfeito era o ser humano que habitava o mais perfeito dos lugares terrestres. Sem mácula, sem mancha, sem culpa, sem dolo, sem erro: a imagem e semelhança de Deus. Homem e Mulher foram criados a imagem e semelhança de Elohyim! Estes seres, nossos ancestrais, acessavam a Deus, conversavam com o Criador, relacionavam-se com o Senhor. Exerciam domínio sobre os animais, produziam e trabalhavam com prazer, compartilhavam sua presença na terra em paz.
Olhar para eles, naquele frame, era olhar para o próprio Deus: toda sabedoria, toda inteligência, toda santidade, toda integridade, todo caráter, toda capacidade criativa, toda justiça, toda competência, toda retidão, todo livre arbítrio, toda incorruptibilidade, toda impossibilidade ao erro, etc. Olhar para Adão e sua Mulher, era ver o reflexo do Senhor: perfeição!
Mas o perfeito se tornou imperfeito e o imaculado caiu. Pode o Perfeito se tornar imperfeito e o Santo vir a ser misturado? Como a imagem deixou de ser semelhante, quando o Original não pode deixar de ser Ele mesmo? Como, mesmo que após muitas escolhas corretas, veio a escolher o erro? Poderemos esperar, atônitos e desesperançados, que venha Deus a escolher o erro, a injustiça, o pecado num fragmento da eternidade? Como posso olhar para um e outro e conferir-lhes similitude, quando a Um Lhe é impossível a escolha pelo erro e ao outro se lhe conferiu tal realidade?
Como pode alguém ser a imagem d’outro, quando o Original possui atributos de conhecimento que o outro não possui? Como é possível que o maior tenha atributos de inteireza e arbítrio que o faz acima do erro virtual e o assemelhado está ao nível do erro acessível, acessado? Pode alguém ser a imagem e semelhança e, concomitantemente, não o ser? Pode alguém ser perfeito e também não ser?
Caso ousemos romper com paradigmas absolutos e trilhemos caminhos não ortodoxos da dogmática sobre a operação cronológica e sobre a perfeição, então, poderá vir a estarem viáveis, diante de nós, as possibilidades da criação processual, da maturidade, do estar, mas não plenamente ser, e então, e somente então, veremos o imperfeitamente perfeito que tendo a semente da similitude, ainda que projetado pela imagem, não realizou a expressa plenitude da árvore.
Poderia Deus, ao se transformar em homem, vir a ser homem, despindo-se da divindade, Ele mesmo em pessoa, essência incorporada, vir, ainda que por absurdo, a escolher a árvore do conhecimento do bem e do mal, quando, num outro tempo, Ele mesmo havia decretado que dela não se poderia comer? Poderia vir Ele, após a exaustão, a solidão e a debilidade, vir a escolher em favor do rompimento e auto-suficiência, a fim de suprir suas necessidades e se auto-justificar, aí? Se em Deus não foi verificada esta possibilidade, quem é este semelhante que possuía tal atributo não divino, não similar a Deus?
Seria possível acreditarmos que o ato criativo se dá, não nas obras das mãos, mas no campo do ser, das idéias e da fé? Que antes de um edifício ser habitado, ele existiu num insight criativo de um arquiteto? Que entre o momento do insight e o “habite-se”, há a construção do edifício? A fé como certeza de fatos que se esperam, reivindica para si a arquitetura, a priori, do sonho, da visão, da projeção das idéias, para que ela seja desenhada, planejada, construída e terminada em tempos por vir. Sem a essência não há a idéia, sem a idéia não há o futuro, sem futuro não há a fé, sem fé não há a declaração, sem a declaração não há a terra, sem a terra não há o ser humano. Sem o ser humano não há a projeção da imagem de Deus na terra, num tempo propício.
Nas mãos de um semeador sábio e trabalhador, uma semente é uma árvore potencial, virtual, que se projeta no futuro. Entre o tempo decorrido entre a posse da semente e a colheita, há uma série de ações sistemáticas, deliberadas e processuais que garantirão o sucesso do empreendimento, que devem ser executadas em tempos propícios. Nas mãos do semeador não está uma semente, mas a fé numa árvore carregada de frutos. Em si há a convicção sobre o futuro e este projetado pela semente lançada no chão: na terra.
O entendimento dos tempos nos confere a sabedoria sobre a perfeição de cada tempo. O processo e a perfeição.
A perfeição está na árvore ou está na semente? A semente carrega a idéia, o sonho, a visão, a imagem ou ela é a imagem, a árvore? Haveria árvore sem a semente? Mas, é por acaso, a semente, árvore?
A perfeição é o produto acabado ou seria uma resposta eficaz sobre algo, diante de suas possibilidades intrínsecas? Deus é perfeito por ser obra acabada, ou porque Ele responde de forma ajustada, eficazmente às demandas que Se impõe?
Na dinâmica, e não na estática, se apreende a perfeição divina. Deus é perfeito porque Ele Se propõe desafios e os suplanta: Meu Pai trabalha até hoje e Eu também trabalho. A perfeição de Deus está em que Ele executa perfeitamente todas as Suas idéias. Deus é um Deus que executa sempre coisas novas. Nisto podemos entender, um pouco mais o Gênesis 1: 1 (No princípio criou Deus...), pois, em sendo Deus perfeito e auto-suficiente, Ele cria, pois Sua perfeição está na dinâmica e não na estática.
Nenhuma metáfora parece exprimir melhor a perfeição do que o ser humano, quer seja ele visto em sua micro história, quer seja extrapolado este entendimento para sua macro história.
Um bebê nasce perfeito quando seus sinais vitais estão presentes, seus sentidos respondem aos estímulos básicos, seu corpo possui todos os órgãos e membros necessários e sua saúde está consistente; além do mais, este bebê perfeito deve ter todo potencial para se tornar uma criança. Uma criança é perfeita quando aprende a andar, a falar, a expressar sentimentos básicos, a resolver pequenos desafios básicos, a distinguir os parentes, os amigos e os desconhecidos, etc e tem potencial interno para se tornar um adolescente. Um adolescente é perfeito quando consegue corresponder a uma série de expectativas e tem potencial para se tornar um jovem perfeito. Assim também, um jovem deve corresponder a uma série se exigências e se tornar um adulto perfeito e este deve ser produtivo, reprodutivo, solidário, responsável, etc, cuidando para que a nova geração de bebês perfeitos, seja por ele guardada e educada, a fim de se tornarem adultos perfeitos.
Não é na prisão da moralidade e do desvio e erro, que se confere perfeição a um ser humano em desenvolvimento, mas na capacidade interna que o habilita a responder aos desafios próprios de cada idade, a suplantação das próprias dificuldades e no potencial intrínseco que o faz migrar inexoravelmente para novas posições de perfeição. É a projeção de vida e construção de futuro que definem a perfeição e não a morte, o erro, a angústia, o medo, etc.
Tal qual o indivíduo cumpre um ciclo de maturidade, perfeição, também o ser humano avança abandonando posições de menor maturidade para outras de maior maturidade. Nesta linha histórica que se apresentam dois Homens tipológicos; significando a perfeição interrompida e a perfeição em processo: o primeiro e o segundo Homem.
Três ponderações devem ser feitas sobre o primeiro Homem e o segundo Homem.
O primeiro Homem, mesmo antes de sua escolha imatura, não contava com um arsenal de conhecimento, técnicas e tecnologia que contamos atualmente, quer seja no campo das ciências exatas, quer seja no campo das ciências sociais e humanidades. O primeiro Homem, olhando para sua historicidade, é um ser primitivo comparado com o Homem contemporâneo.
O primeiro Homem tinha um relacionamento endógeno com Deus, ou seja, Deus lhe era um Deus transcendente, externo; o segundo Homem tem um relacionamento exógeno com Deus, ou seja, Deus é imanente, um fato interno.
O primeiro Homem, ainda metaforicamente, é o primeiro filho de um Trabalhador. Este filho sofreu um acidente ainda bebê e tornou-se incapaz de crescer e tornar-se um adulto perfeito, estando restrito a ser uma lembrança de um ser potencial. Este Trabalhador tem um segundo filho e este cresce em estatura, sabedoria e graça, diante dos homens e de Deus. Embora este não sendo o primeiro, torna-se o primogênito e herdeiro do Pai, pois é, como adulto perfeito, varão perfeito, a imagem e a semelhança, expressa do Pai. É nele que está a perfeição, o adulto perfeito.
O segundo é Israel, que objetivou a primogenitura e a herança, enquanto o primeiro é Esaú, que desejou a satisfação de suas carências imediatas, desviando da meta-história divina. O segundo é Davi, que embora sendo um homem moralmente desqualificável, tinha seu coração segundo Deus, e o primeiro homem é Saul que rejeitou escrever a história de Deus, determinando ser senhor de sua própria história. O segundo é Abel, é Raquel, é Efraim, é Anna, é Salomão, é a Igreja e é Jesus Cristo.
Não é para o Éden e em Adão que Deus nos aponta, pois estes estão lançados no passado e nos escombros das lembranças do inacessível. O convite é sobre a perfeição proposta para o futuro: a capacidade de respondermos às demandas próprias dos tempos que se farão presentes e a liberdade de sermos peregrinos sempre.
A história de nossos heróis serve como lembrança dos homens que suplantando seus medos, angústias, desvios de condutas, erros, inabilidades, tornaram-se perfeitos para fazer valer a história de Deus na terra. Nós, se não rejeitarmos os projetos e idéias arquitetadas por Deus a serem implementadas na terra em favor do mundo, também seremos contados como heróis que migraram no interior de um tempo de trevas profundas que se avizinham.