Alegoria das moedas.
Consideremos este ponto e digamos o seguinte: "Ou Deus
existe ou não existe." Mas qual das alternativas devemos escolher? A razão
não pode determinar nada: existe um infinito caos a nos dividir. No ponto
extremo desta distância infinita, uma moeda está sendo girada e terminará por
cair como cara ou coroa. Em que você aposta? Blaise Pascal, Pensamentos
(edição póstuma, 1844).
Uma moeda tem dois lados, um deles
aponta para quem a emitiu, para aquele que a lastreia e lhe dá credibilidade, legalidade,
aceitação e possibilita que ela seja instrumento de troca. O outro lado
apresenta o valor venal, aquele que possibilita a troca em si, sua
quantificação. De um lado está o Estado como emissor legal e lastro, e de outro
está o valor atribuído pelo Estado à moeda.
De um lado estão os valores não
tangíveis da moeda: o Estado e tudo o que ele representa. De outro lado estão
os valores quantificáveis, empíricos da moeda: sua venialidade. O fato é que os
dois lados da moeda não são excludentes, nem independentes e muito menos
separáveis. O conjunto moeda é quem tem valor comercial, financeiro, econômico,
social e cultural.
Para que utilizemos este instrumento de
troca, cabe-nos, ao estarmos envolvidos nas transações comerciais, tanto aquele
que possui quanto o que receberá o crédito, crer que o Estado avaliza a moeda,
que ele tem credibilidade e que de fato a moeda foi emitida por ele, repassando
a credibilidade para o instrumento de troca. Também devemos crer que o valor
estampado na moeda define o crédito daquele que a possui. Assim sendo, a moeda
é um instrumento que requer fidelidade, crença.
A moeda não é o meio físico – metal,
papel, ou outro qualquer -, mas é a crença no significado que ela carrega: no
Estado que a emitiu, no poder de troca que representa e na posse real de quem a
tem. A moeda torna-se cada vez mais real em seu simbolismo.
Uma moeda tem valor dentro do âmbito de
soberania de uma nação, embora possa ser reconhecida fora das suas fronteiras,
desde que haja um acordo comercial e político que possibilite o câmbio, ou que
a credibilidade daquele Estado extrapole suas fronteiras e passe a gerar
significado dentro de fronteiras de outra nação.
Assim, uma moeda passa a valer tanto
pelo que foi atribuído a ela pelo Estado que a emite, dentro das fronteiras de
uma nação, quanto pelo valor comparado entre a de outras moedas de outras
nações. O câmbio é a expressão desta comparação de valor que traduz a
credibilidade inter-nações, internacional, estabelecendo um juízo de valores
sobre o Estado, o Governo, a Sociedade, os meios de produção, etc.
Uma casa de câmbio é um instrumento
micro-econômico, onde podemos perceber os significados relativos atribuídos
pelo mercado aos valores comparados entre moedas. O valor atribuído pelo câmbio
num determinado instante é um referente, mas as variações de câmbio no decorrer
do período, apontam para outro referencial. Este agente econômico, o câmbio, é
quem possibilita as relações de troca entre as nações. O câmbio funciona como
um dicionário cuja tradução não é estática, antes variável.
Mais do que escrever um tratado sobre
moedas, nós gostaríamos de refletir, por alegoria, sobre o fato de que uma
mesma moeda exige fidelidade, ou seja, traz um componente de crença, um valor
não tangível e um componente pragmático, ou seja, uma quantidade de crédito
para troca. A mesma moeda, tendo dois lados inseparáveis, traz o intuitivo e o
empírico.
A segunda questão alegórica refere-se
ao fato de que uma moeda é concebida para circular dentro de uma nação,
traduzindo a soberania econômico-financeira dela e uma potência da população,
da sociedade em efetuar transações comerciais dentro do território nacional. A
Sociedade confere poder ao Estado para que ele emita moedas e estas tenham
legalidade, credibilidade e valor dentro das trocas mercantis que se fazem na
Nação. A Sociedade se submete ao Estado e a sua moeda.
Em terceiro lugar gostaria de pensar
sobre o câmbio que confere fluidez às moedas para fora das nações e os valores
relativos entre elas que são conferidos, ao longo do tempo, pelos agentes
fiduciários.
Jesus Cristo olhando para uma moeda,
disse: “Dai, pois, a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus.”
Jesus não está falando que uma mesma
moeda deve satisfazer a dois reis, ou a dois reinos, mas está falando de duas
moedas. Não está dizendo que uma moeda substitui a outra, que uma se opõe a
outra, que uma invalida a outra, apenas está dizendo o que diz: a moeda que tem
o Estado Romano como lastro, deve servir para satisfazer as demandas de César e
a moeda que tem o lastro em Deus, tem os valores que satisfazem ao Senhor e aos
cidadãos deste Reino.
Há a moeda de César e há a moeda de
Deus. Ou, por acaso, achamos que a moeda onde estava estampado o rosto de César
possuía pretensos valores que satisfariam o Reino de Deus?
Possivelmente Jesus olhando para aquela
moeda e o rosto de César ali estampado, falou aos que o perguntavam sobre pagar
ou não os impostos: os seres humanos, que desejaram criar um sistema de valores
próprios, devem arcar com o ônus do sistema que criaram, e Deus que criou um
sistema de valores absolutos, requer dos seus a posse de valores absolutos para
circularem nesta dimensão.
Jesus não tem respostas óbvias para
perguntas com pegadinhas. Ele as responde com outras pegadinhas mais sofisticadas.
Caso perguntemos se devemos pagar os impostos ou dar os dízimos, Ele responde
que devemos cumprir com a demanda do reino no qual estamos.
Vamos procurar trazer um pouco de luz
de entendimento sobre esta alegoria da moeda de César, procurando compreender
que transação é esta possível no “daí a César...”
A moeda de César traz cunhados os
valores de um tempo dos Césares. Por um lado e de outro traz a metafísica e a
pragmática de uma dimensão César: todo o peso do Império Romano em seu auge e
esplendor, que se impõe sobre as nações dominadas, e, naquele tempo, sobre
Israel. Roma impõe a língua, a cultura, o sistema legal, o domínio, os deuses,
o Estado, também traz as palavras, a lei, os palácios, as armas, os ídolos, o
Governo, a “burocracia estatal”, os custos e os impostos.
A moeda de César é aquela em que cabe o
abstrato e o concreto. A moeda de César é a alegoria do platonismo, que contém
o intuitivo e o empírico, que fala do verdadeiro e do real. A moeda de César
traz a religião e a ciência como lados não excludentes, pois sua moeda é
fundada no materialismo e na deificação do homem.
O Estado Romano e o Capital Romano, no
Século XXI, é o Estado neoliberal que mingua diante do pragmatismo do Capital
global, fazendo com que os órfãos bastardos do Império se desloquem em busca de
uma razão conspiratória, contra a força do pensamento materialista, que os
marginaliza e os exclui.
Num tempo onde o pragmatismo
materialista se impõe como solução última para as trevas niilistas que
angustiam o ser humano, que se acha só, o misticismo e a busca pela razão da
existência num mundo fantasmagórico avança.
Enquanto o Estado Romano do Terceiro
Milênio, diz “Deus morreu”, o populacho da mesma Roma fala: “os deuses
ressuscitaram”. Enquanto Roma produz ciência, técnicas e desenvolve tecnologias
exatas e arrisca nas biomédicas, deixa um vazio, ou “terra arrasada”, nas
respostas às humanidades e sociais. Este vazio cria uma necessidade de
referência no meta-cosmos.
Esta nova referência está ainda na
moeda de Roma, que traz a religião e a ciência estampadas em lados distintos do
mesmo metal. Mas agora a ciência passa a incumbir-se de responder como se fosse
religião e a religião torna-se pragmática.
Desta
forma é que nos fala Anna Verônica Mautner, autora de "Cotidiano nas
Entrelinhas": "Abandonamos a era do pecado e nos instalamos na era do
insalubre. Hoje o que orienta o nosso bem-estar são os ditames da medicina. Se
ela diz que faz mal, então não pode. A saúde vence a ética, apoiando-se na
estética." Já a religião nos orienta sob a égide da teologia da
prosperidade que diz: “a riqueza financeira é um medidor da presença
abençoadora de Deus na vida do indivíduo.”
Dois lados da moeda de César do Século
XXI: de um lado o corpo como lei e referência das relações e dos valores
pós-modernos e do outro os ritos e valores religiosos como uma nova estética da
religião. O empírico absorve o intuitivo e se misturam, como se o Estado fosse
absorvido pelo Capital, como se a moeda perdesse o lastro, mantendo somente a
venialidade: ou seja, um crédito virtual na rede cibernética: credit card.
A religião e sua teologia têm que
responder à filosofia de Roma – o pensamento que funda a moeda romana.
Filosofia e teologia são os lados de uma moeda só. A religião, ainda que
válvula de escape dos excluídos marginais de Roma, deve garantir os valores de
Roma, como falaria Louis Althusser: “é um aparelho ideológico do Estado”.
Como tal deve valorizar o corpo e seus
sentidos como fonte referencial da experiência religiosa, buscar expressar esta
experiência em resultados tangíveis e empíricos, como o dinheiro e a
prosperidade financeira, assim como aviltar a emoção nos cultos, simulando a
presença do sobrenatural e colocar os holofotes sobre os novos deuses, o clero
ungido, garantindo a deificação do homem. A religião oficial de Roma tem que
transmitir os valores oficiais de César: o corpo deificado.
Esta religião, que tem o lastro na
teologia e na filosofia, deve responder a César, dizendo “Deus morreu”, assim
como diz “o Estado acabou”, para que o
corpo de César seja glorificado. O Capital, o empirismo e o corpo triunfam:
César triunfa sobre Roma. Deus morre na religião de Roma porque a moeda não
mais deve ser paga a Roma, mas a César: “daí a César...” Como poderia vir a
dizer um filosofo pragmatista contemporâneo: “morre Deus, mas a religião deve
continuar como expressão dos valores da sociedade.”
Os jogos de linguagens na
pós-modernidade, que se dá no corpo de César continua. A igreja, arauto da
religião romana, quer que o clero seja César, implantando o reino dos deuses no
lugar do reino de César, cunhando moedas, nas quais de um lado vai sua teologia
e de outro sua moral: fórmula já tentada e fracassada.
O que de fato permanece é que mesmo que
a religião de Roma assuma o poder de cunhar moedas, o fará com base nos mesmos
simbolismos de Roma, substituindo apenas a imagem que se cunha e não valores,
os quais continuarão válidos: o corpo do clero deificado. É como no clássico de
George Orwell, “A revolução dos porcos”.
Roma somente vê a Roma. César somente
enxerga a César. O corpo é o de Narciso: o homem-deus.
Tal limitação humana à esfera da razão
lhe impede de ver a fé. A fé é o câmbio que permite que o Homem não olhe apenas
para Roma e veja a César, mas que se dê conta que há uma outra moeda em
circulação, que se cunha fora das fronteiras do Império e que traz valores
superiores de um outro Reino, para dentro de Roma.
A soberba do Estado Romano, que é a
razão romana, não tem recursos em si para ver a moeda que circula no
underground de seu império, não admitindo, por não vê-la, que ela exista. Esta
moeda terrorista, uma vez em uso e circulação, traz um impacto desestabilizador
sobre o status quo de Roma, pois opera fora das garras do fisco romano, pelo
Amor e Graça que se executa em Aliança.
Neste ponto vale a afirmação de Jesus:
“...daí a Deus, o que é de Deus.”
A moeda de Deus de um lado traz o
Espírito, seus dons e fruto, como penhor, e de outro o Corpo de Cristo, como
agente potencial e legal de manifestação dos valores do Reino. De um lado traz
a Palavra, o Logos da Criação, como código ético e verdadeiro e de outro a
vida, como ambiente de expressão desta ética real. De um lado traz a autoridade
e poder do Caráter de Deus e de outro os filhos herdeiros desta promessa.
Contra os frutos e dons, contra a ética
e a verdade, e contra o caráter não há lei!
O que Jesus está nos falando é que uma
é a lógica do sistema chamado Império Romano, que tem seu deus em César e outra
a fé num sistema do Reino de Deus, que tem como Senhor a Cristo. Uma lógica
procura entronizar o homem como se ele fosse um deus, ou deuses, e a fé procura
emanar Deus no homem. Não se vive no Reino a partir da lógica do Império e não
se deifica em Roma a partir dos valores de Deus.
Enquanto Roma, e o césares-deuses (os
lobisomens), desumanizam o ser humano, pela exclusão e marginalização, sendo
infiéis com suas promessas utópicas de liberdade e felicidade pelo trabalho e
pela técnica, esquecidas pela conveniência de uma nova não-verdade, o Reino
mantém sua promessa utópica messiânica de restaurar a humanidade pela
manifestação dos filhos de Deus, pagando o preço da inconveniência da
fidelidade.
A moeda de Deus não se realiza na
estética, antes no ser e daí manifesta no Corpo. Como tal possui valores
absolutos os quais vão além da moral, da lei, do certo e do errado, do isto ou
aquilo, do bem e do mal. A moeda de Deus está concebida fora da metafísica,
pois se estivesse nela seria um dos lados da moeda de Roma. A moeda de Deus é
cunhada em Deus. Deus não está na metafísica, mas como Criador do mundo, gerou
o espaço para a concepção metafísica. Deus e seus absolutos estão além de Roma
e invadem o Império por possuir valores mais excelentes.
Por isso não se dá a Deus a moeda de
Roma, pois seus valores são inferiores e sem lastro, mas a moeda de Deus tem
câmbio no Império.
A grande questão que se apresenta é que
somos cidadãos de um Reino e temos nossos bolsos cheios de moedas de Deus, mas
vivemos sob o Império Romano, que não reconhece e não aceita outra moeda a não
ser as suas, então, como cambiar nossos recursos para que possamos viver de
forma relevante, efetiva e real, manifestando nossa origem e valores?
De fato, esta é a questão central para
o cristianismo atual, na busca de relevância e efetividade e nem de longe
pretendo introduzir esta abordagem agora, não obstante, tenho buscado falar
disto em todos os meus escritos. Entretanto a própria moeda traz o recurso
eficaz e a fé é a chave hermenêutica da transação de câmbio.
Voltamos a Pascal, famoso matemático,
estatístico, filósofo cristão e a moeda que gira com uma pergunta: cara ou
coroa? Teísmo ou ateísmo? Deus ou não Deus?
Ousaríamos dizer que Pascal
equivocou-se ao olhar para uma única moeda. Caso tivesse percebido que de fato
temos duas que giram, saberia que as respostas são inequívocas e certas.