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O ateu, o desenho contemporâneo e Deus.
A modernidade propôs, na expressão de seus filósofos, cientistas, articulistas, que a ciência e o conhecimento iriam prover o ser humano de todos os recursos necessários para que ele mesmo, senhor de sua história e detentor do direito inalienável do livre-arbítrio, viesse a promover a sua liberdade e manifestação de seu potencial pleno e indistinto.
A pós-modernidade passou a ser estabelecida sob a égide do “Deus morreu”, dizendo ao ser humano que, além de ter todos os recursos necessários para valer-se da possibilidade da auto-redenção, teria a si mesmo como fonte geradora das infinitas possibilidades, sendo ainda o detentor do código de valores que pautaria as discussões sobre a agenda humana e a ética operativa das realizações, por fim, do alinhamento dos recursos que promovem o bem estar sobre a terra.
Mas a afirmativa de que “Deus não existe” não somente implica numa determinação da não existência em si de um Criador, de um ambiente espiritual que contraponha ao material, numa vida que se estende após a existência física, libertando-o de dilemas sobre o que seria dele após sua existência efêmera, neste planeta perdido entre os bilhões de sistemas solares, nas inúmeras galáxias, dentro de um universo, embora finito, inescrutável, mas, e principalmente, a inexistência de Deus faz ruir toda uma ótica de uma justiça absoluta e numa responsabilidade diante da eternidade, de prumos e padrões éticos que vão além da falibilidade humana. Em outras palavras: “Se Deus não existe, tudo é permitido.”
A armadilha que o ser humano se colocou, tem como elemento de aprisionamento, a crença falaciosa de que a educação e o conhecimento, providos pela própria modernidade, poderia gerar uma raça de seres humanos cívicos, super-homens, de tal monta que levaria ao ajuste fino de todas as relações, quer do homem consigo mesmo (psiquiatria, psicologia, psicanálise e afins), do homem com o próximo (sociologia, antropologia, direito, política, economia e afins), do homem com o meio ambiente (ciências biológicas e ambientais), do homem com as técnicas (ciências exatas e afins) e do homem com o saber (filosofia, pedagogia e outras), em fim, resolveríamos tudo pela capacidade do pensar científico, que estaria somente dentro da ação criativa do ser humano e sua capacidade individual e coletiva de produzir conhecimento científico, quantificáveis e qualificáveis, percebidos, controlados e reproduzidos pela técnica.
A religião, ou melhor, Deus, passa a ser, por não ser mensurável e detectável pelos instrumentos criados pela mente humana, uma falácia gerada pela argumentação primitiva de nossos antepassados. Como tal, partindo das premissas darwinianas, a evolução natural do pensamento humano levaria, inexoravelmente, ao abandono de tal crença mística e metafísica, cujo valor, dentro de uma lógica pragmática, é, se não descartável, indesejável.
No bojo desta discussão, desta escolha pelo encaminhamento da formação do caráter humano, está o embate sobre a verdade, principalmente quando Cristo representa, para nós cristãos, o “caminho, a verdade e a vida”. De fato, parte da discussão passa a ser sobre a verdade, como obtê-la e assegurar-se de sua integridade, e a vida, origem, significado e plenitude, que por um lado são definidas pelo espiritual, por outro por valores a serem estabelecidos mediante modelo e tecnologia humanas.
A partir do momento em que as ciências sobre as técnicas e as ciências sobre os saberes, adotaram os princípios da incerteza e os da relatividade e, lançando mão destes, deduziram que a verdade é relativa e agregaram a isto a inexistência de Deus, não havendo vida após a vida, bastando-nos nós mesmos ao nosso tempo, passamos a gerar um novo tipo de ser humano: relativista, circunstancial, hedonista e individualista, cuja ética e valores morais são estabelecidos pela dialética (educação) e fóruns (política) geridos pelos grupos (democracia) de interesses (agentes multinacionais) e domínios (estruturas bélicas) econômico-culturais.
Sendo a verdade relativa, advindo as implicações sugeridas acima, e em virtude da inexistência de Deus, pela propositura teórica, que produz uma permissividade absoluta, então podemos, de alguma forma, ter uma luz na problemática do crescimento do apartheid econômico-social-cultural, não somente no Brasil, como também no mundo, assim como de outros problemas correlatos a este desenho contemporâneo.
Tendo como premissa que a verdade é fruto dos arranjos lógicos dos integrantes de um grupo que sobre ela dialoga e a concebe pela dialética, e não dos absolutos eternos, ou mesmo da correspondência entre o fato e o conto, atrelando a disposição humana de desvincular-se do peso da eternidade, então é concebível que de um lado vejamos surgir ilhas de riqueza sem compromisso com a vida no globo e com os interesses no bem estar humano, mas, antes, na maximização de seus desejos próprios, grupais, individuais; por outro lado, vemos guetos de miséria desesperançada, seres humanos lançados ao léu da lei do extermínio do mais fraco, do inepto. A extinção de seres humanos, por não estarem aptos a participarem do jogo global que premia uma cultura dominante.
Cresce o fosso de separação eminentemente forjada na aparência da lógica econômica, mas que se fundamenta nas premissas da transitoriedade e efemeridade da vida individual, valendo-se da “ética” da degustação plena dos recursos alcançáveis pelo indivíduo.
Dito isto, lançamos as questões: qual a centelha que poderá ser o estopim explosivo desta tensão planetária que se avoluma por conta da ótica temporal e científica? Como não justificar, diante das premissas adotadas, os Hobin Wood do Século XXI? Porque a verdade da fome e da desesperança tem que estar submetida à verdade do neoliberalismo pragmático? Porque a verdade econômica sobrepõe à verdade da exclusão?
Nossa perplexidade tem que se estender até que a pergunta correta venha à mente sensível e possa produzir a busca verdadeira pelo conhecimento da pragmática divina, que sendo perfeito, puro, santo, possuidor de toda vida e de todos os recursos, recusou-se reter para Si esta verdade, materializando-se em um miserável e excluído, participou da miséria a fim de redimir, oferecendo vida.
Mais do que fato histórico, torna-se modelo experimental, fenômeno reproduzível a ser reproduzido; o dar sem expectativa financeira; o repartir sem a premissa do reconhecimento; o plantar sem a espera da colheita, o distribuir por amor. A lógica da eternidade é a lógica do Deus que se humanizou e do convite ao homem a se “divinizar”.
Quando o ser humano, na ânsia legítima de romper com o inferno eterno de sua agonia, rompe com a excelência da vida produzida pela verdade divina e de Sua existência, traz para si, no tempo presente a promulgação deste Ades contemporâneo, deste convívio presente com o Geena, e passa, em sua loucura nietzschiniana, a co-habitar o Seol, enquanto Deus o convida a experimentar a riqueza do Éden, a plenitude do céu, pelo reconhecimento de Sua exemplificação material.
Refletir sobre a eternidade e a divindade é mais do que retroceder à crenças místicas infundadas, antes é perceber a crise de sustentação da vida a partir do enfoque auto-antropofágico do ceticismo científico, do esgotamento do modelo que tem produzido a perda do dom mais precioso de Deus: a vida. Não a minha vida, mas a vida compartilhada, existida somente na redefinição do nosso. Refletir sobre a eternidade e a divindade, e esta manifesta em Cristo, é a adoção de valores que ajusta a criação ao Criador, o falível ao infalível, o perene ao eterno, o mortal à vida.
Refletir sobre Deus, não é optar pelo científico ou pelo espiritual, mas ajustar os dois, sabendo que Aquele que fez um, fez o outro, e diante dEle não há um e outro. É desenvolver a vida no planeta hierarquizando a vida sobre a posse, o ser sobre o poder. Deus sobre o ser humano e todo ser humano com Deus.
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