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Os fantasmas e o tempo

Não há nada mais aterrorizante do que, quando éramos pequenos, dormir à noite, sozinhos no quarto escuro e imaginar que debaixo da cama haveria um plasma sinistro que iria sair e nos pegar. Quem nunca leu as historinhas do Calvin e do Haroldo e não se retratou nelas? Nossa imaginação infantil amedrontada, temendo que esta coisa saísse de lá e nos levasse para um mundo tão terrível, que somente era superado pela imagem do monstro que vivia sob nosso colchão.

Depois nós crescemos e vieram os filmes que nos falavam de seres, que tendo morrido, não deixaram de assustar a vida das pessoas e tentar levá-las para as profundezas das trevas. Quem não foi ver o filme Poltergeist? Aquele, onde uma família norte-americana compra uma casa num condomínio, feito sobre um cemitério e que, no transcorrer do conto, os “proprietários da terra” vem para reclamar seu descanso e possessão?

Então novos dias vieram e amadurecemos um pouco mais e surgiram os fantasmas da inflação, do fisco, do desemprego, da aids, do divórcio e, é claro, o fantasma do chifre. Vivemos num mundo natural, cheio de fantasmas, mais terríveis do que os fictícios. Claro que há fantasmas que ainda, para alguns, como eu, não saíram do cemitério, ou seja, o fantasma da impotência, que espantamos com o Viagra.

Mas, há um fantasma que é o mais terrível de todos: o fantasma do fomos-seremos, ou o fantasma do devemos-ser-(pseudo-)perfeitos que vindo das catacumbas de nosso passado que se conclama perfeito, projeta o nosso futuro impossível.

Este é uma imagem ilusória, que, similarmente aos outros moradores deste mundo límbico, habita os cemitérios de nosso passado coletivo, mas paira nas trevas de nosso medo de não ser, o qual remonta nossos ancestrais e mais profundos temores, invadindo nossos delírios noturnos em sua iconicidade e de um pré-destino da humanidade nele, que não se dá, por ser inalcançável.

Como é terrível viver debaixo desta sombra, deste espectro falacioso e putrefato de um tempo que não houve, mas quer se fazer crer que reclama seu retorno, para o qual não fomos destinados. Como se andássemos, em nossos pesadelos, em meio a um cemitério à meia-noite e mãos cadavéricas vindas de tumbas, agarrassem nossos pés impedindo que prosseguíssemos e avançássemos para um outro lugar.

Que terrível é este ser de outro mundo que nos assusta com a determinação de sermos o que nunca fomos! O pesadelo do eterno retorno. Ser o que fomos, num ciclo infinito, cujo destino é a origem. Meu Deus! Livrai-me desta morte.

Esta alma penada invade nossa noite e sussurra continuamente: “eu fui perfeito, tal qual você deveria ser”, escondendo fatos e maquiando meias-verdades. Olhamos para ele, para a imagem que ele faz de si mesmo, em nossas mentes envoltas na penumbra e vemos a silhueta de uma pretensa harmonia, paz, relacionamento sem atritos, falta de conflito, equidade, beleza, inteligência, poder, domínio, sabedoria e tantos outros atributos de sua incursão amedrontadora e cuja voracidade “vampiresca” suga nossos sonhos e conspira contra nossa suposta imperfeição frágil, culminando em possuir nossas vidas, para que se torne um pesadelo da não completude plena: irrealizável.

A perfeição fantasmagórica é a impossibilidade da perfeição que pode ser realizada, ou, como diriam meus colegas engenheiros: o ótimo é inimigo do bom.

A quimera do ser perfeito, que nunca o foi plenamente, pois morreu imperfeito, este ser que não é, mas se faz apenas na imaginação de nossas falsas demandas perfeccionistas, esta ilusão de uma perfeição estática, absoluta e pré-programada que se projeta como massa inercial que retira nossa energia vital e impede nossa realização real.

Este ser espectral se aloja nos nossos medos e funda-se nos porões de nossa insegurança, chamando-nos continuamente para as catacumbas escuras de nossas culpas e impotências, não nos permitindo ver a luz das possibilidades que estão em aberto diante de nós: coisas propostas por Deus a todos os humanos.

Se acendêssemos um candeeiro e descêssemos aos lugares lúgubres, perceberíamos que estes fantasmas são assim mesmo, somente existem nas sombras do desconhecido, na imaginação, na fertilidade da mentira. Não está lá este absoluto de perfeição. Não está lá este lugar imóvel e acabado. Não está lá este ser sem migração. Não está lá porque o mundo é devir, é mutação, é trânsito: sempre o foi. Criado por Deus para estar em perpétuo movimento, em contínuo ir, em ondas, em feixes.

O medo, que é o risco do futuro, a probabilidade de não podermos controlar o presente de tal forma a garantir um futuro pré-destinado, este medo nos faz crer num fantasma perfeito, que ele sabe ser perfeito enquanto imperfeito. Perfeito, enquanto sabe-se imperfeito, para abrigar o que será menos imperfeito.

Houve um lugar de acesso tipológico, um exemplo e portal que se abre, na eternidade, a uma perfeição que se demonstra na relação do ser e da resposta. Um lugar que demonstra a demanda pela guarda e trabalho, cultivo, transformação, a ser ampliado, alargado, expandido. A perfeição está na construção contextual e na capacidade de dar respostas para seu próprio tempo e não nos fantasmas.

O tempo particular daquele que passa e constrói é a história na terra, aquela que conta a vida dos viajantes, dos trabalhadores e de seus parceiros, seus cantis, suas linguagens e suas marcas. A perfeição dos viajantes e dos trabalhadores estava não no absoluto que eram, nas obras imaculadas que faziam, mas no olhar para o tempo de resposta.

A resposta para o seu tempo. Para uns era começar, para outros terminar. Para uns continuar, para outros romper. Para uns fazer, para outros desfazer. Para uns edificar, para outros implodir. Para uns viver, para outros morrer. Para uns esperar, para outros agir. Para uns e outros, a resposta de seu próprio tempo. Para todos a obra inacabada que exige uma próxima geração, como se ainda ouvíssemos ressoar a voz inaudível que fala: “farão obras maiores do que aquelas que eu fiz”. Para todos o caminho não percorrido, o lugar não visitado, o espaço não conhecido.

Sempre, cada geração, cada tempo, está em seu jardim diante de suas árvores, diante de seu cálice. Mas é o seu próprio tempo e não o do outro. É a sua escolha e não a do outro. É a sua cruz e não a do outro.

Perceber-se no tempo de demanda e respondê-la. Responder não ao tempo, mas ao que pergunta no tempo. Estar no tempo e ser pelo que demanda. Desafiar o tempo sem ausentar-se dele; marcar e responder; migrar e edificar.

O passado e seus fantasmas são amarras que exigem respostas fora do tempo, que nos impedem de sermos para a demanda que está em de nós, projetando-nos para o que está diante de nós. Nosso tempo traz suas próprias questões que nos desafiam para as repostas.