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Um lugar chamado linguagem

Então chegamos naquele lugar chamado linguagem...

O que seria a linguagem e até que ponto ela pode falar com exatidão a verdade? E sobre a realidade? Mas o que é verdade e realidade? Aquilo que podemos perceber pelos sentidos e ajuizar na mente, pela linguagem? Ou seria a verdade aquela que está fora da linguagem? O que é non-sense?

Quando falamos em linguagem nos lembramos da Torre de Babel (a), aquele lugar que, segundo o relato da Bíblia, está colocada numa geografia a qual chamamos hoje de Estados Unidos do Iraque. Foi neste lugar esquecido e num tempo impreciso que houve, segundo a Bíblia, a confusão das linguagens. Algumas pessoas lêem como se fosse a confusão idiomática, preferimos ler como a confusão da linguagem.

Confusão idiomática é aquele negócio que ocorre quando uma pessoa fala “the book is on the table” e o outro diz “não! O livro está sobre a mesa”, e por não haver tradução, as pessoas não se entendem. Apesar de ambos estarem falando a mesma coisa, não conseguem estabelecer comunicação. Confusão de linguagem está ligada aos significados, ou aos usos que damos às frases, ou, mais propriamente, ao uso que fazemos das sentenças, assim, dizemos: “filho, vamos comprar um carro para você.” Ele imagina que poderíamos ir comprar uma Ferrari novíssima e imaginamos que poderíamos comprar um “popular 1.0”, usado.

Confusão idiomática pode ser resolvido com tradutores e dicionários, mas confusão de linguagem pode não ter solução, causando ruptura, desencontros, separação.

Quando alguém percebe que as linguagens não são similares, então, estará dizendo que os usos que damos às palavras não são os mesmos, ou melhor, que as palavras não representam a mesma coisa, assim, podemos simplificar dizendo que não compartilham dos mesmos pensamentos: os meus pensamentos não são os teus pensamentos. Não pensamos palavras, mas, com certeza, pensamos a partir de linguagens, seus usos, seus símbolos, valores, significados, etc.

Idiomas estão presos às palavras, linguagens confundem-se com corpos, gestos, idiomas, culturas, sons, cores, gostos, mímicas, expressões, formas, etc.

Babel é - embora podendo haver proximidade física - o distanciamento lingüístico.

Um bom exemplo de Babel são as empresas familiares que vêem o patriarca fundador falecer sem definir a transmissão de poder e gerência, e seus filhos negociarem o comando. Muitas delas não subsistem, pois o choque de poder e interesses é tão intenso que inviabiliza a continuidade da empresa. Os herdeiros têm uma leitura da realidade (da herança), que os levam a criar nichos de linguagens antagônicos, ainda que estejam falando o mesmo idioma, utilizando as mesmas palavras: “eu vou ter o poder para mim”.

Babel também aponta para o distanciamento entre a linguagem divina e a linguagem humana. O relato do Éden (b) é aquele em que pela primeira vez o ser humano diz: “eu quero ser deus”. O relato de Babel é aquele em que o ser humano cria uma linguagem comum para edificar um lugar onde ele seria deus. Babel é, concomitantemente, o lugar onde a linguagem única cede espaço para o poder individual: queremos ser deuses!

Conforme diria mais tarde Salomão: não há nada de novo debaixo do céu.

A Torre de Babel é o construto humano lingüístico que forja símbolos e valores, os quais remanescem na Babilônia e em Roma. A Torre de Babel é a primeira moeda global feita pelo ser humano, com o intuito de demonstrar sua deificação. Babel traz de um lado de sua moeda a cunha de Ninrode – as técnicas da edificação e aprimoramento da linguagem - e de outro a linguagem humana como suporte do projeto de Adão: “ser deus”.

Embora no mundo haja diversos idiomas, esta linguagem de Babel tem sido sistematicamente trabalhada para ser um edifício único que comporte o projeto humano de sentar-se no trono e ser auto-suficiente para planejar, controlar e edificar sua história: o Adão, senhor único da história e de si mesmo. Este não é um projeto dos demônios, ou de Satanás, mas um projeto de Adão. Este projeto de um Olimpo feito de tijolos ganhou sua versão de Mytho na Grécia e tem no Século XX, da cultura Ocidental, sua expressão refinada pela linguagem do Círculo de Viena: os neopositivistas.

Estes habitantes do Olimpo - a cultura helenista Ocidental (Carnap e outros) - defendem uma linguagem sensata, cujas proposições são sentenças empiricamente comprováveis e a linguagem insensata, onde a linguagem religiosa foi rejeitada para a esfera do puro e simples non-sense. Palavras como Deus, realidade absoluta, inferno, céu, etc., não têm significados e o problema de Deus se dissolveria porque os termos mesmos do problema seriam carentes de sentido.(c)

Neste ínterim Wittgenstein diz: “não peçam o significado, peçam o uso.” O sentido de uma proposição não deve estar hierarquicamente subordinado às ciências e ás provas empíricas, antes, os sentidos se dão nos jogos das diferentes linguagens, como o da ética, dos juristas, dos poetas, da teologia, da metafísica. O princípio da verificação (a linguagem sensata que poderia ser empiricamente comprovado) foi rejeitado por ele por ser auto-contraditório e incapaz de dar conta das sentenças universais das teorias científicas.(d)

A questão das proposições científicas é central no entendimento da impossibilidade do princípio da verificação, pois “a palavra elétron, para o epistemólogo analítico, em princípio, tal investigador da natureza está assumindo um compromisso com a existência de tais partículas, e o problema, obviamente, é que elas estão fora do domínio da experiência, assim como os universais.”(e) Desta forma, assumir como linguagem sensata e seus símbolos apenas as proposições empiricamente comprováveis, coloca em risco a possibilidade da própria ciência, ou nega o princípio da verificação.

Os neopositivistas afirmam que as coisas que contam na vida são aquelas das quais podemos falar, entretanto Wittgenstein dizia que o seu “trabalho consistia de duas partes: aquilo que escrevi e, além disso, aquilo que não escrevi. Esta segunda parte é que é importante.” (f) Em outro lugar diz ele que sobre o que não se pode falar, deve-se calar.

É este silêncio que traz os valores da moeda de Deus. Neste lugar que se saca os recursos do Reino, é daí que Jesus, o Cristo, responde a Pilatos quando lhe pergunta: o que é a Verdade? (g) A Verdade está no campo do indizível, da expressão do Ser de Deus revelado no devir humano: no silêncio que se faz a linguagem de Deus, a moeda de Deus.

Este silêncio que o Indizível fala a Moisés: “Eu sou o YHWH”. Ali o Inexprimível não estava dizendo: “ordeno-te que não fales meu nome”. Antes, dizia o Indizível: “Estou além da linguagem do homem, além da metafísica; sou O Incognicível, O Indecifrável, O Indizível, Sou aquele que está além do ser e do ente, Sou Aquele que criou o ser, o ente, o visível e o invisível e nada e nenhuma linguagem, de anjos e de homens, pode limitar o Além-do-Eu que eu YHWH”.

Não é a linguagem de César, expressa pela razão ou pela poesia que define, conceitua e “fronteriza” YHWH, antes, é o silêncio de Jesus.

Antes do silêncio há, porém, a linguagem!

Mas não há “a linguagem”, mas “as linguagens” e seus jogos, seus símbolos e significados, seus valores e recursos. Estas linguagens se encontram em círculos concêntricos, onde, no centro nos movemos bem e resolvemos nossos negócios e vivemos, mas à medida que, entediados com o centro, nos movemos em direção das fronteiras, encontramos os paradoxos e podemos passar a viver em seus limites: corremos o risco de cair (h), segundo Paul M. van Buren (O significado secular do Evangelho).

Os que vivem os paradoxos e andam nos limites da linguagem: os profetas, os poetas, os pintores, os humoristas e os amantes (J. Wisdom e Buren – h -). Este andar nos limites da palavra, da linguagem é ir onde não se foi, é dar uso que ainda não foi dado, é esgotar o anterior e criar o novo, até o lugar do indizível, do dever se calar, do sussurrado, do gemido...do incompreendido, do incompreensível.

É ver o filho que nasceu e apenas deixar a lágrima correr no rosto. É acordar de madrugada e perceber a mulher amada ao lado e apenas abraça-la. É amar e crer, e dizer: Deus!

Deus, não é mais “Deus”, limitado pela teologia e pela experiência, pela linguagem e pelo místico, mas é a ausência da linguagem.

Neste lugar, nesta fronteira última, não existe filosofia, não existe teologia, não existe linguagem que possa expressar, demonstrar, mas apenas a loucura do profeta, a paixão do poeta, a matizes do pintor, a explosão do humor e o amor, podem revelar Deus. Não há Deus na filosofia (i), na moeda de César, Deus somente há no silêncio da experiência daquele que crê: na moeda do Reino.

Deus deixa de ser aquele que se explica, que se define. Ele é aquele que vai sendo! (j) A Deus não se deve atribuir nada, dele não se fala nada, não se pode limitar a expressão de Deus. Deus não é antropomórfico; suas mãos, seus olhos, seus ouvidos, seus pés, apenas demonstram nossa limitação em conhecer e crer naquele que “vai sendo”. Qualquer tentativa de conhecer a Deus pela teologia, é especulação frívola. A única forma de conhecer a Deus, a única logia sobre Théos se dá por apokálypsis. Chegar-se a Deus, somente por fé. Conhecer Deus, somente por revelação.

Deus é a Verdade que não se explica, se crê. Deus é a verdade que se crê, quando, pois, é vista no Corpo. O Corpo é o habitat da Verdade que deve ser vista no mundo e crida pela práxis.

A experiência da fé, entretanto, não é a da transcendência, mas da imanência, da revelação, da manifestação, da linguagem que se expressa no Corpo. É o Corpo que fala, o silêncio da linguagem que oferece ao Corpo o direito de manifestar que o “ser de Deus está no devir” (k), ou seja, que o ser de Deus se conhece pelos eventos, pelo que Ele faz e se dá a conhecer, cujo epicentro é Jesus Cristo, mas que tem sua continuidade no Corpo: O devir no Corpo onde Deus se manifesta.

É nesta dimensão de moeda de Deus, da linguagem revelada por Deus que somos concebidos para sermos, a expressão da revelação de Deus no devir. É assim que Paulo escreve aos Coríntios: “Vós sois a nossa carta, escrita em nossos corações, conhecida e lida por todos os homens, estando já manifestos como carta de Cristo, produzida pelo nosso ministério, escrita não com tinta, mas pelo Espírito de Deus vivente, não em tábuas de pedra, mas em tábuas de carne, isto é, nos corações. E é por intermédio de Cristo que temos tal confiança em Deus”.(l)

A linguagem de Deus, o Logos de Deus, a episteme sobre o “estar sendo” de Deus, não se faz apenas pelos jogos de linguagens e os usos que se dão às palavras, este conhecer sobre a manifestação de Deus se faz, com certeza para o mundo, pelo Corpo, pela expressão da Graça de Deus que se compreende através do Corpo. O Corpo é a moeda que Deus deixou no mundo para manifestar o Logos do Senhor do Reino.

Sem que o Corpo “emanuelize” o Cristo, não há linguagem que suporte o conhecer a Deus, não há moeda que traga os valores que expressam os valores daquele que a cunhou. A moeda de Deus é aquela que carrega o silêncio do indizível e do que se expressa pela Graça e pelo Amor: Deus amou o mundo e emanuelizou. Deus continua amando o que criou e quer ser visto naquele que Ele criou para expressa-lo; que o Corpo seja Emanuel.

Noutros tempos Deus falava pelos patriarcas, pela Lei e pelos profetas. Hoje Ele fala pelo Filho e pelo Corpo do Filho. Caso o Corpo não fale a linguagem de Deus, então, há silêncio no abismo: de fato, o kaos na terra.

O corpo que se faz animal, pois é o corpo sem dar conta do espírito que possui, está diante do Corpo que é chamado a emanuelizar, ao crer no Espírito. O corpo que está cego por sua soberba de auto-suficência e não pode ver a luz da Graça que está presente, revelada. Como ver a luz se está cego? Como saber da Verdade se não crê? Como obter a revelação que transcende, se somente sua razão tem vontade de potência? A fé virá pela linguagem pregada e esta se manifesta pela vida daqueles que são chamados de filhos de Deus.

(a)   Gênesis 11: 1 a 9

(b)  Gênesis 3: 1 a 7

(c)   Deus na Filosofia do Século XX – A Filosofia Analítica sobre a Religião – Dario Antiseri – pg 533

(d)  Deus na Filosofia do Século XX – A Filosofia Analítica sobre a Religião – Dario Antiseri – pg 534

(e)   Filosofia Analítica, Pragmatismo e Ciência – O Caráter Pragmático dos Termos Teóricos – Luiz H A Dutra – pg 145

(f)     Tratactus – Wittgenstein – introdução

(g)  João 18: 38

(h)  Deus na Filosofia do Século XX – A Filosofia Analítica sobre a Religião – Dario Antiseri – pg 542

(i)     Filosofia e experiência religiosa – Luigi Pareyson

(j)     Êxodo 3: 14

(k)   Deus na Filosofia do Século XX – Deus na Teologia do Século XX – Rosino Gibellini – pg 640

(l)     2 Coríntios 3: 2 a 4