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Nós cegos.

Não há graça um exercício de matemática já resolvido. O prazer da matemática está no desvendamento dos enigmas propostos por seus problemas; os exercícios, uma vez que conseguimos resolvê-los, perdem a graça e demandam que busquemos o próximo, o novo enigma.

Passei a perceber isto quando estava estudando para o vestibular, há algumas décadas atrás. Uma vez que conseguia resolver um exercício, independente de seu grau de dificuldade, este perdia seu mistério, seu fascínio, seu imã e passava a ser, como diria Mané Garrincha à respeito dos laterais que desejam marcá-lo, um “João”, algo sem identidade, sem fascínio, sem existência.

Muitas coisas de nossas vidas são mais ou menos assim, lutamos para desatar um nó, mas, uma vez que este nó se desfez, o barbante perde a graça.

É claro, pelo menos para alguns de nós, que aquilo que passamos a chamar de barbante é algo bastante tedioso, entretanto, para outras pessoas pode, concomitantemente, vir a se chamar de nó e com isso servir-lhes de desafio. Por esta cadeia de nós-barbantes-nós que a matemática resolvida não traz alívio para o engenheiro, antes e apenas produz para ele ferramentas para que os nós próprios da engenharia possam ser enfrentados.

Neste desatar próprio de cada nó é que se produz uma rede intrincada de pensamentos e idéias, que tem como finalidade o enfrentamento da angústia do ser humano; um ser humano que abdicou de seu direito à liberdade e à felicidade quando desejou ser auto-suficiente na sua busca, sem Deus.

Isto parece ser o grande nó do ser humano: como obter liberdade, felicidade e sentido de existência, no mundo e na terra, um ser que, antagonicamente, rompeu com a vida? Como obter vida quando se optou pela morte?

A opção pelo conhecer o bem e o mal como auto-afirmação de nossa independência, criou uma armadilha que se dá pela crença no potencial auto-suficiente do homem em equacionar e resolver a equação.

Este ser humano que num tempo esteve no mundo sem perceber-lhe o encantamento, estando rompido com a razão, projetando-se para uma transcendência do mundo, isto é, olhou para o mundo como expressão da carne, do pecado, a qual deveria ser morta, rompida, vencida e buscou, como ideal ascético, o espírito como única expressão de vida verdadeira: somente na morte há o bem absoluto real. Este ser humano, num outro tempo se re-encantou com o mundo, buscando estabelecer um projeto epistemológico sobre o mundo: conhecer o mundo.

Encantamento é o olhar admirado sobre o objeto de seu desejo e nesta admiração buscar conhecê-lo, apreendê-lo. Encantar-se é olhar para a chuva e perguntar: como um volume tão grande de água pode estar represado pelo ar e depois vir a cair em gotas tão grandes e pesadas?

Num dado momento as ocorrências que se apresentavam na criação eram situações submersas sob os signos do mistério, do misticismo e da jurisdição única de Deus e dos deuses, não cabendo aos homens perguntar os “porquês”. Num outro momento os fenômenos verificáveis na natureza eram objeto de uma ação do conhecimento humano.

As ciências procuravam interpretar os fenômenos e descrevê-los em uma linguagem própria, visando o conhecimento. O encantamento do mundo possibilitou uma ciência que produziu leis sobre a natureza. Todo este re-encantamento era um encantamento do ser humano, pelo ser humano, para o ser humano: um encantamento livre das amarras do divino. Um encantamento moderno e iluminista.

Enquanto este encantamento do e no mundo implicava num projeto de desnudamento do mundo, produzindo um conhecimento sobre o mundo, algumas peças desta armadilha se encaixavam e produziam um efeito letal e colateral: morte do sujeito moderno, desencantamento do mundo, virtualidade do real e entropia sistêmica. Que apenas evidenciam a opção pela morte na busca auto-suficiente de vida.

O sujeito moderno, narcisista, mergulhando no “conheça-te a ti mesmo”, deparou-se no fundo do poço com o vazio da impossibilidade de saber a verdade, de conhecer-se a si mesmo, tendo como ferramenta a razão. Quanto mais o sujeito mergulhou em si mesmo, mais fundo ia para o saber que não pode saber: além do “sei que nada sei”, há o sei que não consigo saber. O sujeito moderno é um Narciso suicida, que proclama a sua morte ao decretar a insuficiência, incapacidade, impossibilidade de saber o que é verdade, abdicando do direito à verdade. Ao animal humano basta dizer: humano, demasiado humano.

O sujeito moderno - aquele que dizia possuir uma razão com recursos a priori para conhecer a verdade que está no objeto – morre, dando lugar a um animal - “bípedes sem penas” - que pela linguagem elabora teorias, cuja verdade única é não ser verdadeira, a priori. O ‘a priori’ que se aplicava à razão, a qual era instrumento para se conhecer uma verdade real, agora é o ‘a priori’ de não ser possível o conhecimento desta verdade, que não se sabe se está em algum lugar. O sujeito que duvidou de Deus, agora duvida de si mesmo. O animal que decreta a morte metafórica de Deus, estabelece a morte real do ser.

Pelo tempo em que o cientista desnuda o objeto, ainda que não obtenha verdade sobre ele, desencanta-se novamente com a natureza. Toda vez que se resolve o exercício, o problema perde a graça. O conhecimento desnuda e desgraça o objeto, dentro da ótica moderna onde o sujeito pode por si conhecer o objeto. Desgraça, pois, o objeto passa a ser imagem e semelhança do sujeito: aquele que desnuda não obtém a verdade, antes projeta sua imagem sobre o objeto, lançando a sombra de si mesmo sobre aquilo que diz desejar conhecer.

Uma vez estabelecendo esta similitude, desencanta-se, pelo desnudamento de si mesmo projetado. O sujeito moderno morto carrega para a mortalha a natureza.

Ora, quando o homem olhando para o objeto deseja obter a verdade, entretanto, não a obtém porque apenas lança sobre ela a sombra própria deste animal de linguagens, assim ele comete três crimes: um projeto de domínio do real, um projeto de virtualização do real e um projeto de extermínio do real.

O homem moderno acreditou que havia um recurso implantado nele - a priori por Deus, que é a sua razão -, que lhe conferia poder e autoridade para, ao se encantar com o mundo, apreender o mundo. Conhecer o mundo é produzir uma linguagem que explique o mundo, é descrever os fenômenos que estão no mundo a partir de enunciados, relatos, discursos, teoremas, leis, etc, que estão no sujeito e que projetam o mundo. Entretanto, quando este sujeito descreve o fenômeno ele reduz o fenômeno à sua linguagem.

Quando, por exemplo, por encantamento literal, dizemos que uma mulher é “linda”, estamos reduzindo a mulher ao padrão de beleza que está em nós, isto é, a “lindeza” que falamos não é a “lindeza” dela, mas a “lindeza” que está nos nossos juízos de valores e que verificamos numa projeção de similitude nela. Assim, reduzimos e dominamos a beleza daquela mulher pela lente axiológica que nos é própria. A “lindeza” da mulher é a imagem e semelhança dos valores de “lindeza” que temos em nós.

Esta é uma parte do projeto moderno: dominar o mundo pela projeção axiológica da razão do sujeito. É dominar o objeto pelo padrão prévio, ainda que não a priori, que temos a respeito dele, segunda a linguagem própria do sujeito.

Uma vez dominada a realidade, pela linguagem, pelos símbolos e pelos significados semânticos que temos, então o próximo passo é virtualizar o real. Virtualizar o real é descrevê-lo, é criar um discurso sobre ele e oferecer este discurso ao mundo. Agora que dominamos a “lindeza” da mulher, reduzindo-a à “lindeza” que está em nós, dizemos que é linda: branca, alta, loira, olhos azuis, charmosa, sensual, pouco inteligente, sorriso fácil e meigo, etc. Estaremos descrevendo não mais o real, antes e apenas, estaremos virtualizando o real, conferindo uma descrição que passa pela lente de nosso domínio.

Os predicados descritivos da realidade são virtuais, ou seja, dominamos, reduzimos e descrevemos o real para o tamanho de nossa linguagem e códigos de valores. A negação da capacidade da razão humana, do poder intrínseco, a priori, do ser humano em descrever o real em verdade, conduz a uma descrição virtual do real: simulacros do real. Neste ponto é que verificamos a morte do sujeito moderno, pois ele decreta a sua auto-falência, sua impossibilidade de descrever o real com a verdade, reduzindo a si mesmo ao papel de animal de linguagens que limita-se a uma aproximação ao real pela linguagem que é pública.

A sujeito moderno domina o objeto e a pessoa pós-moderna virtualiza o real, cabendo ao indivíduo corporificado, o extermínio do real.

Este extermínio se faz num projeto de descaracterização do real, produzindo uma realidade que é projeção do virtual, assim, quando uma mulher quer ser “linda” segundo a projeção virtual que se dá na realidade que a domina, ela ‘empeita-se’ com silicone, ‘desrruga-se’ com botox, ‘desgordura-se’ com lipo-aspiração, ‘enloira-se’ com tinturas, ‘formata-se’ com plásticas, ‘esconde-se’ com grifes, ‘makeupei-se’ com batom, etc. Enfim, podemos, radicalizando, denominar este projeto de extermínio do indivíduo real pela virtualidade, de “Projeto Michel Jackson”, ou, “Projeto Trasgênico”.

A Transgenia nada mais é do que o domínio da bio-tecnologia, a virtualização científica da planta ideal e o extermínio da flora real.

Não estamos, aqui, estabelecendo nenhum juízo ético ou moral sobre isto, apenas descrevendo o que nos parece ser o real. Temos gasto horas, dias, meses na busca de conhecimento, para dominar o objeto de nosso fascínio e agora estamos virtualizando este real que a nós se apresenta, uma vez virtualizado, exterminamos o indivíduo num projeto de uma nova ‘ethos’ do corpo que está no mundo.

Então podemos resgatar um sentido do conceito marxista de ‘reificação’ e entender que o corpo se torna objeto dominado, virtualizado e em extermínio, e o objeto se torna o padrão, o desejo, o ser. Não se consome mais o objeto, antes, o corpo o é quando não há mais o sujeito, o ser: o corpo é o objeto reificado para o consumo. Suscita-se, aí, uma pergunta: quem serão as pessoas, os indivíduos, os animais, que habitarão a terra onde o real estiver plenamente virtualizado?

Em cem, duzentos, trezentos anos, quando Gátaca não for mais ficção e sim passado, nossa raça poderá não existir por ter sido exterminada por um predador mais adaptado: o homem transgênico e clonado.

A decisão do ser humano que o levou a escolher a morte, que está em sua auto-suficiência, introduziu no mundo um viés entrópico, um arranjo que conduz à desordem, tornando o homem escravo do sábado, antagonista com os ditos de Jesus: o homem não foi feito para servir o sábado, mas o sábado para servir ao homem.

Para Jesus, não cabe negar o sábado, antes, negar o senhorio do sábado. O sábado como tipologia, símbolo da lei, da ordem e do modelo humano, transcendendo o entendimento apenas religioso. O sábado que não é apenas a religião, mas é a ciência, é o capital e é a ordem jurídico-social. O sábado que é o recurso que se obtém com a Moeda de César. O sábado que é a lógica humana que domina, virtualiza e extermina o real: o ser humano não animalizado.

O corpo do animal objetivado, reificado, que se torna objeto de consumo adaptado ao mercado que o domina e o virtualiza. O poder virtual, o qual é a Moeda de César, imposto pelo dominador que é Ninrode, age no sentido de exterminar o real: o ser que é humano, apenas humano. A Moeda de César que age não apenas na razão, antes também na crença.

A crença dogmatizada é uma extensão das fronteiras do império de Ninrode sobre a liberdade da fé. A crença dogmatizada é uma redução da fé até o limite potencial de domínio do animal. Ninrode trabalha para reduzir a Moeda de Deus ao lastro da Moeda de César, para com isto poder virtualizar a fé, descrevendo-a pela teologia e exterminando a Graça, exterminado o homem agraciado. O homem agraciado por poder ter fé num Deus que não é explicável, explicado, apenas crido.

Quando dizemos ‘Deus é Santo’, podemos estar fazendo da mesma forma que ao dizermos ‘a mulher é linda’; Deus torna-se, para nós, um conjunto de atributos rígidos e inflexíveis, dogmatizados que traduzem nossa expectativa e desejos sobre Ele. Deus deixa de ser o indizível, o a-idiomático, o a-lingüístico, o inominável, para ter um nome: Jeová, El Shadai, Elohyim, Deus, etc. Apesar destas nomenclaturas serem vistas na Bíblia, lá elas apenas procuram demonstrar a diversidade, a amplitude, a impossibilidade de retê-Lo num nome singular, numa razão humana.

O projeto de domínio sobre Deus, pelo sujeito moderno que somos, reduz Aquele-Diante-De-Quem-Devemos-Nos-Calar à imagem e semelhança que freudianamente e feuerbachianamente temos dEle. Quando dizemos “Deus”, lastreados pela Moeda de César, decidimos dominar “Deus” através de nossa razão, de nossa linguagem, coisa que tanto Freud, quanto Feuerbach, Marx e outros fizeram com a maestria da arrogância da razão moderna; quando dizemos “Deus”, conferindo-O atributos racionais, teológicos, matamos Deus em nossa fé e colocamo-Lo como um “Gênio” dentro da lâmpada; quando dizemos “Deus” e não rompemos com os limites empíricos e lógicos, estamos a dois passos de extermina-Lo de nossa fé.

Encoberto sob a afirmação do sujeito moderno e pós-moderno, que diz que Deus é uma projeção de nossa razão, um desejo por paternidade, uma impossibilidade, está a própria impossibilidade deste animal em afirmar a verdade: é aquele que não pode falar a verdade e sobre a verdade, afirmando ser verdade a suas palavras.

Há dois mil anos atrás a matemática e a física desconheciam qualquer coisa que fosse além da tri-dimensionalidade (altura, largura e profundidade) e mesmo o número zero era um ente místico. Neste contexto histórico do saber, foi que Paulo falou aos Efésios: “para que Cristo habite pela fé em vossos corações...estando arraigados e fundados em amor, poderdes, perfeitamente compreender...qual seja a largura, e o comprimento, e a altura, e a profundidade, e conhecer o amor de Cristo que excede todo o entendimento, para que sejais cheios de toda a plenitude de Deus.”

Na dimensão epistemológica da tri-dimensionalidade, a proposição de uma tetra-dimensão apenas auxilia a condução do crente à compreensão de que Deus e Seu amor estão além das fronteiras cognitivas do sujeito e da razão. Entendemos que dizer ‘Deus’ e em dizê-lo, conceber uma linguagem que O circunscreva, é um projeto de Deus-transgênico.

Ninrode, o dominador de Deus, o sujeito pensante que diz, ‘Deus’, passa a teorizar sobre o Inominável, passa a estabelecer ‘enunciados verdadeiros’ sobre o a-racional, passa a virtualizar Deus, dizendo: “...é Santo!”

O que é ‘santo’ senão a expressão da santidade que concebemos. Será que Deus é tão santo quanto a santidade que eu estabeleço para Ele, ou a santidade que Ele tem é segundo uma dimensão que excede todo o entendimento?

Caso nosso conceito de santidade de Deus seja separação, ou não mistura, então como imaginá-Lo habitando em mim? Podem duas coisas separadas estarem juntas? Podem dois ambientes heterogêneos serem homogêneos? Deveríamos voltar às questões medievais e perguntar: a mosca que cai na água benta se torna pura, ou contamina a água?

Conceber atributos a Deus é virtualizá-Lo!

Ninrode dominou Deus; Ninrode virtualizou Deus; Ninrode está matando Deus.

O Intangível agora tem uma casa: o Templo; O Além-Todo-Poderoso passou a ter contas-a-pagar e requer dízimos; o Supra-Criador do senhorio deve satisfazer às demandas humanas; o Além-da-Onipresença está restrito ao sacerdócio; Aquele que é Amor direciona alguns ao inferno e outros para o céu (?).

Para que um de nós, mortais, acessemos a Deus, devemos estar sob a tutela sacerdotal, obedecermos aos cânones, freqüentar as reuniões, fazer a obra, tomar a ceia, passarmos pelo batismo nas águas, falarmos em línguas de anjos e tantas outras ordenanças que percebemos que ao fim estamos exaustos, enfraquecidos e não encontramos a Luz. Enterramos Deus sob os escombros da religião, a qual passa a ser o inimigo de nossas almas.

Como nos libertar deste postulado moderno, pós-moderno e entrópico? Apenas crendo que Ele existe e que vai além, aquém, acima, abaixo, diante e antes, fora e dentro, com e separado de tudo e de nada que somos e pensamos, projetamos e fazemos. É desconstruir o dogma das teologias sistemáticas, históricas, etc e, tornando-nos como crianças as quais acessam o Reino dos céus por desejarem o Alfa, sabendo serem remetidas inexoravelmente ao Omega.

Quando dizemos Deus, saber por fé que Ele está sendo além do ‘Deus’ que minha linguagem fala. Quando declaro ‘santo’, compreender que é apenas e tão somente um parâmetro humano limitante de alguém que pode a qualquer instante demonstrar que é Sobre-Santo. Quando falo, penso, imagino, creio em qualquer atributo divino, devo fazê-lo humildemente, atendendo à minha limitação e não a dEle. Que, ao fim, ao se esgotarem toda a linguagem, os signos, os símbolos, os sentidos, as falas, os discursos, os enunciados, as hipóteses, os teoremas, os ‘achômetros’, devemos dizer: isto ainda não é Deus.

Não negando a busca de conhecer Aquele-Diante-De-Quem-Devemos-Nos-Calar pela linguagem, mas é saber que ela não o retém.