Tellos, Ethos e Técnica.
O ser humano diante do imponderável, do
incontrolável, do imprevisível, do indomável.
Temos aquele gosto pelas teorias da
conspiração, aquele reduto onde podemos atribuir ao outro nossa má sorte.
Aquele lugar que, ainda que não explique, pelo menos silencia nossa sede
racional pelo ‘por que’. Está lá o motivo do por que no dia em que iríamos
finalmente fechar aquele salvador contrato com a Big Blue, a Nasdaq teve um
crack e o CEO decretou um “sine die” aos novos contratos.
Hegel e Marx apregoavam que a história
caminhava inexoravelmente para um clímax; ainda que um visse no Espírito a
força propulsora desta dialética e o outro visse na matéria esta energia do
triunfo final do trabalho. Adan Smith dizia que havia uma mão invisível que
regia as forças de mercado.
No meio cristão evangélico há a
teologia da “batalha espiritual”, onde Satanás, em eterna e constante luta
contra Deus, rege, juntamente com o Senhor, o nosso mau e bom destino. É o
Diabo quem determina nossa perda de emprego, nossas doenças, a loucura, a
guerra, etc, enquanto o Senhor se esforça o máximo possível para produzir o
bem.
Somos massa, para Marx; somos
mão-de-obra, para Smith; somos torcedores para a batalha espiritual. Nunca
somos agentes neste campo de construção do destino humano e de nosso destino: o
futuro está previamente destinado, cabendo-nos apenas a escolha por esta ou por
aquela casta ideológica e de poder.
O limite permissível para a nossa
existência está na escolha entre o bem e o mal, entretanto, o destino está
escrito nas estrelas. Podemos ver o filme na ‘sala 1’ ou na ‘sala 2’, mas nunca
seremos os atores deste enredo eterno e meta cósmico. Sentamo-nos, aplaudimos,
choramos, torcemos, gritamos, tememos, sorrimos, etc, mas não somos agentes,
antes, espectadores desta história pré-escrita, prescrita, proscrita.
Raciocinamos como se houvesse um
determinismo matemático, como se nossas vidas fossem regidas por leis
newtonianas: nosso futuro é projetado pelas escolhas e determinações do passado
e mediante o conjunto de leis que regem a vida, assim, antevemos o porvir na
certeza da imutabilidade do código legal.
A conspiração entra em cena quando
conhecemos as leis, as fórmulas, os códigos e as equações, entendemos a
pergunta e sabemos os dados do problema, mas o resultado não é o esperado. O
efeito não é o resultado da manipulação eficaz dos dados nas equações, visando
produzir uma resposta correta, antes é algo imprevisível, aleatório,
incontrolável. O futuro deixa de ser a continuidade do passado e apenas podemos
crer num espectro de possibilidades e num matiz de conseqüências.
As certezas da dialética, do mercado e
da batalha sucumbem diante da relatividade, dos quanta, dos fractais e do
estruturalismo filosófico, gerando aquele crença íntima num poder invisível,
transcendente e mau-humorado que agiu para acabar com a festa.
Não fomos convidados para entrar no
picadeiro, mas somos intimados a guardar a lona e migrar constantemente para
uma nova cidade, um novo público, novos espetáculos. Somos indivíduos que estão
migrando de um cosmos de certeza meta-histórica para micro-cosmos de máxima
probabilidade. Estamos penetrando num campo de existência onde o ser humano
deixa de existir no coletivo, individualiza-se, tornando ele um átomo de poder,
que nesta entropia cósmica vigia e é vigiado, domina e é dominado, conspira e
sofre conspiração.
Não há conspiração, mas a migração de
um campo de forças fundados na certeza para um orbital de probabilidades, onde
o poder é exercido por uma rede. Nosso universo deixa de existir com base nas
convicções absolutas sobre o espaço e o tempo, sobre o sujeito cognitivo,
fluindo para um ecossistema aberto onde o resultante último é o corpo do
indivíduo interativado, que produz verdade, exercendo poder.
Passamos, neste tempo de migração e
crise, a existir com o espírito fendido, esquizofrênico. Por um lado estão
nossas crenças em que o sujeito pode conhecer, compreender, controlar e dominar
a natureza – endógena e exógena – ou que Deus manterá, com mão forte, o
controle de todos os fatos, acontecimentos e fenômenos a fim de que ao fim -
quer pelo caminho humano, quer pelo caminho divino - obtenhamos o bom êxito que
projetamos previamente. A escolha até então era apenas entre a
confiança-auto-suficiente-humana ou a confiança-auto-suficiente-divina, para a
satisfação do indivíduo.
Por outro lado estão os fatos e as
ocorrências não controláveis, não previsíveis, não dominadas. Entre nossos
rascunhos - que projetam receitas, despesas, custos, aplicações, aquisições,
saldo final positivo - e o futuro, há a realidade imponderável que não é fruto
de nenhuma ação específica de um poder institucional (o Estado e seus
aparelhos) ou sobrenatural (Satanás e seus asseclas), aquele que conspiraria
contra nossa felicidade, mas, antes e apenas há o exercício da microfísica do
poder, que é o poder que os indivíduos se apropriam e determinam o arranjo
sub-atômico da vida.
Assim, caso fosse possível olharmos
para um espaço quântico humano, suporíamos estar diante do caos, da desordem,
mas apenas estamos diante de uma ordem que não é compreendida pela ordem prévia
newtoniana, hegeliana e calvinista, e a prerrogativa em adotar um conjunto de
leis clássicas a um espaço probabilístico, redunda na não obtenção de
resultados previstos pela certeza. Estamos vivenciando uma crise esquizofrênica
causada pela crença num conjunto de leis que funcionaram dentro de uma
jurisdição, que agora se torna obsoleta e um ecossistema que exige uma nova
ciência. Esta nova ciência não é a reforma ou a evolução da antiga ciência, mas
um novo conjunto de saberes.
Ruptura e desconstrução passam, então,
a fazer parte de nossa existência, assim como passará a fazer parte de nosso
circuito lingüístico. O trânsito do Ponto A para o Ponto B não se dá mais por
uma curva contínua, mas, agora, a migração do Ponto A para o Espaço Quântico
ocorre pela ruptura das leis prévias: há mais do que uma revolução há uma
descontrução.
Esta ruptura traz consigo a descrença
nos discursos científicos – que por séculos garantiram que o conhecimento,
trazendo luz, iria desmistificar, libertar o ser humano e conseqüentemente
torna-lo feliz, mas como nos fala Olgária Matos: a ciência domina a natureza abolindo matematicamente os acasos através
do cálculo estatístico, mas não controla a incoerência da vida. -, criando
um vácuo de crença e certeza. Este vácuo de crença e certeza lançam o sujeito
moderno para uma possibilidade de experiência religiosa, contudo, com um legado
iluminista: a razão como fonte e destino do saber: o saber se apodera da
verdade. Ao mesmo tempo lança o indivíduo para si, para uma experiência no
corpo do homem. Por um lado há a busca por significados e por outro há as
impossibilidades de vivenciá-los fora da dimensão empírica.
Voltamos ao tema da crise
esquizofrênica, que agora podemos chamá-la de crença esquizofrênica, pois tanto
a pessoa, que ainda é um sujeito moderno, que carrega uma demanda interna de
dominação do objeto de desejo – visando obtenção de liberdade e felicidade
individual, segundo uma ótica de dominação a qual descrevem Adorno e
Horkheimer: o racionalismo das Luzes
adota a mesma atitude com relação aos objetos que o ditador com relação aos
homens. Conhece-os para melhor domina-los. -, quanto ela não encontra na
proposta pós-moderna, positivista, materialista, suporte e meio para construir
seu projeto.
Esta crença esquizofrênica é portadora
de uma crise da técnica – não das tecnologias apropriadas pelas ciências
exatas, mas, das humanidades, dos modelos e meios de aplicação dos saberes que
redundem em justiça, inclusão, equidade, liberdade, equilíbrio, etc – que está
minando os fundamentos da ética – os princípios fundamentais que devem
suportar, limitar e determinar o uso da técnica; aqui vale citarmos Lyotard,
quando diz: O problema então é exposto:
os aparelhos que otimizam as performances do corpo humano visando administrar a
prova exigem suplemento de despesa. Portanto, nada de prova e de verificação de
enunciados, e nada de verdade, sem dinheiro. Os jogos de linguagem científica
vão tornar-se jogos de ricos, onde os mais ricos têm mais chances de ter razão.
Traça-se uma equação entre riqueza, eficiência, verdade! E, complementando
com Michel Foucault: somos obrigados pelo
poder a produzir verdade, somos obrigados ou condenados a confessar a verdade
ou a encontra-la. O poder não para de nos interrogar, de indagar, registrar e
institucionalizar a busca da verdade, profissionaliza-a e a recompensa...temos
que produzir a verdade para poder produzir riquezas...estamos submetidos à
verdade também no sentido em que ela é lei e produz discurso verdadeiro que
decide, transmite e reproduz, ao mesmo tempo em parte, efeitos de poder. -,
que conseqüentemente cegam o entendimento para a “telos” – o propósito divino
para o ser humano.
O momento positivista na história
humana numa primeira etapa se esforçou para tirar Deus do pensamento humano,
por meio das propostas de Conte, de Feurbach, de Freud, de Nietzsche e numa
segunda etapa tem se prestado a retirar a esperança do homem em si mesmo: a
possibilidade de se ver agente que está inserido numa comunidade que produz um
sonho, como nos fala Olgária Matos: se o
iluminismo pretendeu desmistificar a natureza, desenfeitiça-la, desencanta-la –
pelo recurso à razão explicadora e dominadora dos fenômenos naturais -, o
resultado foi, segundo Adorno e Horkheimer, uma triunfante desventura. A
religião que buscou defender-se deste assédio de des-credenciamento, de
delegação ao non-sense, aprimorou-se nas técnicas, abdicou da ética e perdeu o
propósito.
A religião que se produz sobre a crença
esquizofrênica é suportada por técnicas, que nada mais são do que simulacros de
Deus – os simulacros se expressam por um moralismo, por ritualismo, dogmatismo
e exclusivismo -, ou seja, a experiência religiosa passa a trazer consigo a
demanda moderna, onde o indivíduo, coletivo/massificado, deve dominar o objeto
de seu desejo: a religião da dominação, que domina Deus e o corpo do crente.
Tal dominação se faz sem a presença da telos divina e sem a ethos divina, sendo
apenas técnica e, portanto, materalista, pragmática e utilitarista: exerce-se
poder sobre o corpo do crente para que este seja eficaz na produção da verdade
institucional, via disciplina. A religião pós-moderna enquanto encena oposição
ao mundo, passa a representar o âmago desta crise esquizofrênica ao manter os
ideais modernos – que produzem os simulacros –, entretanto, sem consistência,
uma vez que não é suportada por ethos e telos.
A religião da dominação, que se exerce
sobre os simulacros de Deus, é uma religião da técnica e da representação. A
técnica lhe garante a produção de uma verdade, um saber, que possibilita o
exercício do poder, enquanto o poder demanda o saber. Esta verdade se funda
sobre a lei, o medo, a culpa, o juízo, a exclusividade, o clero e a
instituição. A representação se dá pelos discursos e pela teatralização do
culto. Estas técnicas e representações possibilitam um discurso que visa
simular uma teofania, entretendo o crente com ativismo seqüencial: campanhas,
jejuns, congressos, eventos, vigílias, cultos, reuniões, etc.
Ora, parece-nos uma questão de tempo
para que este castelo que se firma sobre areia movediça venha a ruir, ou, como
dissemos antes, venha a submergir como Atlântida: como nos dias de Noé, onde os
filhos de Deus casavam e davam-se em casamento com as filhas dos homens.
Mas Deus está no conduzindo para este
Espaço Quântico! Um lugar aonde se evidencie a existência de uma religião da
dominação e que Noé seja visto por seus contemporâneos, ele que era homem justo
e íntegro, o qual veio a produzir a Arca. Quantos homens não dominavam uma
técnica naval, nos dias de Noé? O que levou Deus a convidá-lo a participar
deste propósito? Seu padrão ético, que provocou uma descontinuidade, uma
desconstrução, uma ruptura na história bíblica. De fato, atendo-nos ao relato bíblico,
Noé não era construtor de barcos, antes, era agricultor, o que aponta para o
fato que numa desconstrução a detenção dos saberes prévios não garante o
pré-requisito para os novos saberes. Em outras palavras, saber física clássica
não garante ganhar Prêmio Nobel, por conta da Teoria da Relatividade.
Então, esperar a volta de Jesus, para
que possamos viver eternamente no céu cantando louvores a Deus, efetivamente
não é o propósito de Deus para a Igreja, pois o Senhor não fez o homem para o
céu, mas para a terra. O lugar da Igreja é na terra, no mundo, o qual Deus
amou, dando Seu Filho para que não fôssemos tirados do mundo, mas guardados do
mal. O propósito de Deus é que Cristo seja formado em nós, para isto nos
pré-destinou para sermos conforme a imagem do Filho de Deus.
Então, suplicar a Deus para que Ele
estabeleça Seu juízo sobre o ímpio - aquele que não crê ser Jesus o Senhor e
Salvador -, não espelha a ética demonstrada por Deus através de Jesus Cristo,
que, quando éramos pecadores morreu para restaurar o relacionamento entre Deus
e os homens, e isto Ele fez na terra: Emanuel. A ética divina é estabelecida
pelo Amor, Graça, Justiça, Perdão, Inclusão, Reconciliação, Relacionamento,
etc.
A partir de uma telos divina e de uma
ethos divina, devemos construir uma arca que nos leve a prevalecer aos dias de
trevas causados pelo dilúvio e sabermos que ainda estaremos na terra quando as
águas abaixarem.
Esta Arca não será construída por Deus,
segundo a esperança da confiança-auto-suficiência-divina. Esta Arca não será
construída pelo homem, segundo uma crença na confiança-auto-suficiência-humana.
Esta Arca deverá ser construída na Aliança que se faz na
confiança-necessária-suficiente estabelecida entre Deus e o Corpo. Esta é a
proposta original de Deus: Façamos o homem à nossa imagem.
Em todo o texto de Gênesis, capítulo 1,
está escrito: “disse Deus...”, “viu Deus...”, “chamou Deus...”, “fez Deus...”,
“criou Deus...”, “abençoou Deus...”, entretanto em Gênesis 1: 26 está escrito:
“disse Deus: façamos o homem à nossa imagem...”. O modo tradicional, segundo a
teologia cristã, de lermos este verso nos traz a idéia da trindade
(Pai-Filho-Espírito) chegando a um consenso sobre a criação do homem, e
dizendo: façamos. Entretanto a chave para a trindade está no nome adotado por
Deus: Elohyim, ou seja, Deuses. Em todo o tempo a trindade estava presente na
criação, em consenso, uma vez que o verbo é singular: “Elohyim disse...”,
“Elohyim viu...”, etc. A questão é que no Gênesis 1, todos os versos têm um
erro sintático, pois está escrito no original: “Deuses disse...”, “Deuses
viu...”, etc, excetuando em Gênesis 1: 26 que está escrito: “Deuses
façamos...”. Elohyim apresenta a trindade e o verbo no singular apresenta a
unidade, o consenso.
Entretanto, entendo que Gênesis 1: 26 é
o relato eterno que apresenta Elohyim diante do homem e fazendo-lhe um convite:
façamos você refletir a minha imagem. Homem, você aceita o desafio de juntos
trabalharmos para que a minha imagem seja vista na terra, através de ti?
Façamos (Elohyim e Aadaam) o homem para ser a minha imagem! O homem, segundo
esta premissa é cooperador com Deus neste projeto eterno de uma ethos divina na
terra, a qual não tem compromisso com moralismos, ritos, dogmas, teses, etc,
mas, e tão somente, com Caráter.
Não somos massa de manobra, consumidores reificados, ou espectadores vítimas neste
teatro cósmico de técnicas e representações, mas pontos desta rede microfísica
de poder, dotados de capacidade, responsabilidade e autoridade para
interagirmos contra esta entropia do Espaço Quântico.