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Arqueologia: carta a Ló.

Hebrom 08 de fevereiro de 2004 d.C.

Meu caro sobrinho Ló,

Estou lhe enviando esta carta pelas mãos de dois amigos meus, que me disseram estar indo justamente para a cidade onde você se encontra. Há algum tempo que estou para lhe escrever e falar sobre o tempo em que vivemos.

Quando nos separamos, posteriormente pude constatar coisas que, acredito, você não pôde perceber naquela época, mas que hoje talvez venha a compreender; pudera, também depois de tanto tempo e tantas experiências mal fadadas. Percebi que quando nos separamos você foi muito pragmático e utilitarista na escolha e olhou para a terra do oriente, de onde viemos e fomos convidados a sair e viu nela o retorno para o ‘jardim do Senhor’. No momento em que você teve saudades do Éden, olhou para a campina do Jordão e a fertilidade do lugar, decidiu ir para lá, como quem retorna para um passado que se tem saudades. De fato, empiricamente falando, sua escolha foi muito correta, pois nada melhor do que querer um lugar de segurança num tempo de crise, mas esqueceu de olhar para seus novos vizinhos e seus estilos de vida.

Gente má, estes sodomitas!

Já ouvi falar muitas coisas sobre estas pessoas, sobre suas condutas morais, ou melhor, imorais, e seus desvios de comportamento sexual, entretanto, dois amigos meus dizem coisas diferentes sobre eles, que gostaria que você prestasse atenção e ponderasse as conseqüências.

Um dos meus amigos, a quem você deveria conhecer, que se chama João, ele é dos nossos, vê coisas que ninguém vê, mas, o que é importante por agora é que ele disse que estes sodomitas são assassinos, mataram um homem bom, de fato mais do que bom, ele era a própria encarnação de Deus, mataram este homem numa cruz sendo ele inocente, com um agravante de ter sido julgado de forma falaciosa, fraudulenta e premeditada. Segundo João este homem tinha amado prostitutas, ladrões, desempregados, marginais, soldados, gente do governo, todo mundo, da mesma forma. Ele falava de amor, de paz, de perdão, de inclusão, de justiça, de um reino de Deus que está dentro de nós e não nas catedrais e muitas outras coisas, que os sodomitas chamavam de heresias, pois punha em dúvida sua religião, seu estado e sua forma de vida. Enfim, ele foi morto pelos sodomitas porque eles são gente má, que amam o poder mais do que a vida. Eles matam até Deus para justificar seus atos, pela falta de uma ética humanizadora.

Inicialmente pensei que João estava exagerando, mas lembrei-me de quando falei com Bera - aquele político importante de Sodoma -, logo após eu ter enfrentado seus inimigos para livrar você e a eles da cadeia. Ele me disse que eu poderia ficar com todo o dinheiro e riqueza, que ele queria era dominar sobre as mentes e corações das pessoas. As pessoas, para eles, são moedas num jogo de poder e dominação, apenas massa de manobra, instrumentos de trocas, consumidores, produtos de consumo, objetos reificados. Os homens, para os sodomitas, são objetos sobre os quais devem controlar, dominar, subjugar e normatizar seus atos e desejos, para com isto garantir que comprem seus produtos e sua cultura consumista, individualista e materialista. Quem se recusa, opõe-se ao domínio, é excluído, marginalizado e até morto, como o amigo do João, que sinto ser como se fosse meu próprio herdeiro, que tenho aguardado por tanto tempo.

Ouvi falar também – nestes papos de açudes – que nos últimos cem anos os sodomitas enriqueceram com a indústria da guerra. Eles fabricam armas, arranjam uma guerra e vendem as armas, se possível, para os dois lados. Tem até um serviço secreto, chefiado por um tal de Ninrode, que é especialista nisto. Esta história eu não posso confirmar, mas é o que dizem por ai.

Grandes pecadores, estes sodomitas!

O outro amigo, um pouco mais velho que o primeiro, cujo nome é Ezequiel disse o seguinte sobre Sodoma: “eis que esta foi a iniqüidade de Sodoma: soberba, fartura de pão e próspera tranqüilidade, mas nunca amparou o pobre e o necessitado, foram arrogantes...”.

Você sabe que entendo a soberba como sendo aquele sentimento que nos faz imaginar sermos superiores aos demais, fruto de nossa capacidade auto-suficiente de produzir excelência, sermos independentes. É desejar por o nosso trono acima das estrelas de Deus e sermos semelhante ao Altíssimo, sermos um sobre-homem que, sem esperança, domina a natureza, o próximo e simula Deus.

Imagino que a soberba comanda nossas ações quando a riqueza que temos em nossas mãos é igual ou superior a soma das riquezas de todas as outras pessoas que nos rodeiam e passamos a nos gabar disto. Quando vamos a outros planetas apenas com nossa tecnologia e proclamamos isto, como forma de reduzirmos a auto-estima do próximo. Quando invadimos nações soberanas, baseados em mentiras e desprezando acordos e convenções internacionais. Quando nos recusamos a assinar protocolos ambientais que possibilitem o bem do planeta inteiro, pelo fato de poder significar sacrifícios mínimos de nós mesmos. Quando há fartura de pão, isto é, nossos gordos são mórbidos, enquanto milhões de pobres de outras nações morrem de inanição.

Somos soberbos quando estamos tranqüilos no fato de que nossa superioridade bélica, econômica e tecnológica é garantia de perpetuação de nossa espécie, de nossa verdade, de nosso estilo de vida. Somos soberbos quando nossa religião produz uma prosperidade tranqüilizante validada por um discurso de dominação, que impede os outros povos dizerem não a nós.

Ah! Sodoma. Que nega amparo ao pobre e ao necessitado. Quando Sodoma nega amparo? Quando saqueia com juros abusivos. Quando sonega o emprego, o trabalho, a saúde, a segurança, a dignidade àquele que clama por comida e roupa e que não nasceu dentro de seus muros. Quando compra uma Ferrari por US$1,000,000.00 e se nega a comprar um Big Mac de US$3.00 para um faminto estrangeiro. Quando polui e destrói a camada de ozônio, aumentando a temperatura global, a fim de produzir mais, consumir mais, regalar-se mais, determinando o desaparecimento de cidades e nações que pagarão com a vida de seus cidadãos pelos erros que não cometeram.

Sodoma é arrogante e contra Deus é quem tem feito abominações!

Ló, meu sobrinho, peço a você que saia de Sodoma, abandone as fronteiras desta cidade má e fortificada, de fato peço que você tire a Sodoma que está dentro de você. Ouço dizer que o fim desta cidade está próximo e assim como no futuro não se lembrarão de Nínive, de Babilônia e de Roma, também não haverá mais lembranças de Sodoma.

Ló, meu querido sobrinho, não fomos feitos para o Éden e não devemos buscá-lo, deixando de olhar para as possibilidades que diante de nós se apresentam e assim sermos peregrinos, hebreus, ou aqueles que cruzam os rios. Nosso sentido de existência está em sermos peregrinos e forasteiros, sendo luz e sal nos caminhos que trilharmos, focando na vida que a nós foi dada, pregando boas-novas aos excluídos, curando os feridos de guerra, libertando os dominados, pondo em liberdade os apoderados, consolando os que choram e os que estão em luto, alegrando ao que pranteiam pelo pão e trabalho, renovando o espírito do desraizado e abatido.

Ló, meu amado sobrinho, nossa alegria não está nas casas, mas nas tendas. Nosso canto de júbilo se ouve no trânsito e não nas fortalezas. Neste trânsito somos convidados a demonstrar com nossas vidas que o coração do homem já pode estar religado com a paz de Deus; somos desafiados a fazer pontes que promovam a justiça entre os povos; somos instigados a sermos, nós mesmos, sinais que apontam para a estrada aberta que liga a humanidade e a divindade.

Suplico que se dispa da Sodoma sem olhar para traz, sem ter saudades do jardim do Senhor, sem desejar manter ou retornar para o que lhe consome, lhe escraviza, lhe faz objeto e produto. Desnude-se de Sodoma mesmo que isto signifique sair como quem não saiba para onde vai, como quem não tem planos, alvos, objetivos, sendo guiado apenas por valores eternos que humanizem as relações, que valorizem as pessoas, que hierarquizem a ética sobre a técnica, sobre a tecnologia, sobre a propriedade.

Negue Sodoma e não retorne mais. Ouça meus amigos que lhe entregam esta carta e carregue consigo tua mulher e filhas. Não permitam que façam mal aos portadores desta carta, protegei-os, alimentai-os, ouvi-os.

Abraão.

Esta carta foi baseada nos seguintes textos:

Gênesis 13: 1 a 13

Gênesis 14: 1 a 24

Apocalipse 11: 8

Ezequiel 16: 49 e 50

Isaias 61: 1 a 11

Isaias 1: 10 a 17