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Pai, eu vou à igreja!

Esta foi a frase que ouvi de meu filho. Ela tem, entre muitos outros, dois aspéctos peculiares que me levam a pensar sobre o meu papel como contribuidor da formação cristã-cívica de meus filhos. E por falar em contribuição para a formação, gostaria de fazer um apanhado histórico.

Meu avô era cristão Metodista – grupo religioso evangélico que teve sua origem no movimento liderado por John Weley, na Inglaterra – do tipo abridor de igrejas, lá no Vale do Paraiba, entre o Estado de São Paulo e o Rio de Janeiro. Hoje, com certeza, dependendo do grupo religioso que ele viesse a pertencer ou criar, seria “ungido” apóstolo, mas como não abriu igrejas no Século XXI, antes, no início do Século XX, em 1925, vindo a morrer pobre e figura entre os tantos anônimos que por romantismo, idealismo e convicção do dever da fé, fizeram tudo por amor a uma causa que lhes era verdadeira.

Pelo impacto testemunhal de meu avô e por experiências pessoais, minha mãe também enfileirou o rol dos cristãos metodistas: lider da juventude local, professora de escola dominical e referência de conduta e padrão de fé, lá pelo ano de 1950. Segundo suas palavras, nós, seus filhos, fomos ensinados a ir para a igreja ainda no ventre materno. Como meus pais mudavam com freqüência de cidade, as igrejas locais (Metodista, Presbiteriana e Batista) eram as referências indispensáveis nos novos lugares.

Na terceira geração de metodistas, da família, estou eu. É verdade, entretanto, que nunca fui metodista de fato: era obrigado por minha mãe a ir aqueles intermináveis cultos dominicais, cuja única função era estragar o dia de folga. O pior da história é que ela, sendo muito crente, nos impunha a obrigação de irmos no domindo de manhã e no culto noturno. Era um inferno! Músicas velhas e ultrapassadas, histórias e mais histórias e tinhamos que fechar os olhos para orar: até hoje não sei porque.

Igreja para mim era um disperdício da alegria que se poderia ter brincando com os amigos da rua.

Quando estava com meus quatorze anos comecei a fugir daquele desagradável ambiente sério e irrelevante, entretanto, minha irmã passou a se envolver cada vez mais com os ETs e eu era obrigado – agora pelo meu pai: até então machista e ateu – a acompanhá-la quando fosse nas reuniões. Ela ia semanalmente a um grupo de jovens chamado MPC (Mocidade para Cristo) e junto com ela, eu.

Cabe um hiato nesta história para dizer como era minha família de então. Família de classe média: não nos faltava comida, roupa, casa, transporte e, principalmente, presente de natal, páscoa e aniversário. Estudavámos em escola particular, curso de inglês e instrumento musical. Mãe extremamente amorosa e presente, e pai durão, rígido, inegociável. Suas palavras eram: sim, você pode fazer o que estou ordenando, ou, não, você não pode fazer o que quer. Mas havia aquele anjo do Senhor, aquela santa que era o espelho contextualizado da Maria dos católicos: pede para a mãe que o pai deixa. Por vezes havia um não, aqui e ali, que virava sim.

Nunca ouvi um palavrão em minha casa, meu pai nunca ficou bêbado, nunca apanhei dele (não precisava, seu olhar era mais pesado do que as mãos), não havia vícios, brigas e gritaria: era o céu na terra! Somente fui descobrir que meu pai e minha mãe brigavam (como todos os casais) quando eu tinha dezoito anos: suas brigas se davam no quarto, tarde da noite, após as ‘crianças’ dormirem, em voz inaudível, sem sons, ruídos, palavras e quando saíam do quarto não comentavam sobre o assunto, simplesmente não ficávamos sabendo do entrevero cívico.

Para completar o paraiso divino na terra, tenho que falar dos anjos da guarda: minhas avós. Elas não eram seres humanos, mas imagens de contos de fadas: apesar dos vinte e tantos netos que cada uma tinha, faziam tudo e mais um pouco do que cada um queria.

Apesar deste quadro - mãe crente, pai ateu; detestar cultos/igreja, vivendo no paraiso; nenhum trauma, nenhum vício, nenhum problema -, quando tinha quinze anos (1975), peguei-me, sem que nem porque, chorando em minha cama, tarde da noite, dizendo ao Deus que não cria existir:  Cara (assim que eu chamava Deus) quero, preciso te conhecer.

De psudo-ateu, tornei-me super-crente e em certos momentos de minha trajetória me tornei mais santo do que o prórpio Cara, tendo o ‘dever’ de orar listando aqueles que reputava como desviados da fé, os quais deveriam ter um re-encontro com Ele; aqueles que eram pecadores rumo ao inferno; e queles que eram santos e dignos de bênçaos celestiais.

Com esta minha experiência em por Deus ao serviço de minha fé, mais tarde pude compreender que é possível que venhamos a transcender Deus, isto é, irmos além da existência de Deus, tornando-O nosso instrumento de ordenação da vida, assim como vim a compreender, em minhas falhas e desvios tardios, que o maior pecador que comete a maior atrocidade, em não conhecendo a Deus, é menos pecador do que um super-crente que conhecendo a Deus falha em sua desonestidade espiritual consciente.

Como não perdoar se sou eu o mais carente da Graça divina? Como não amar se é pelo Amor de Deus que mantenho minha parca lucidez?

Certa vez me peguei num dilema, que para mim era muito intrigante: em vários relatos veiculados nas diversas mídias – rádio, TV, jornal, revista e púlpitos – ouvia sobre as experiências com Deus que tiveram os grandes líderes da Igreja: Caio Fábio, Darlene Glória, Ed René, Zé Bruno, etc, que antes de tererm uma experiência cristã, alguns foram travestis, prostitutas, traficantes de drogas, viciados em drogas, assassinos, ladões, sofreram traumas na infância, etc, etc, e eu, nada. Alguns foram espancados pelos pais, foram aidéticos, excluídos socialmente, perseguidos por causa da fé, etc, etc, e eu, nada.

Como justificar a legitimidade de minha experiência cristã diante dos relatos autênticos destes homens e mulheres? Minha vida não dá para roterizar um filme hollywoodiano e nem mesmo uma propagandinha de quinze segundos na TV Gazeta. Indagando Deus, vim a saber que tanto o dia quanto a noite necessitam igualmente do Criador.

Onde entra a quarta geração de Metodistas nesta história? Em primeiro lugar não há quarta geração de Metodistas, pois não há a terceira geração. Dai vem a primeira heresia que procuro demonstrar empiricamente aos meus filhos: a Igreja somente realiza o sonho de Deus quando está disposta a despir-se do denominacionalismo (ranço das denominações) e realizar o caráter de Deus no mundo. Como diz Ed René: mundanizar a igreja. Como eu prefiro dizer: emanuelizar – Deus revelado no e para o mundo.

O cristianismo cívico é aquele em que o crente é agente divino no mundo, para servir o mundo de autenticidade e verdade, que se opõe aos ritos e dógmas: é o Caráter Ético e a Graça Amorosa de Deus.

O projeto que tenho, e meus filhos são os ratos de laboratório, objetiva despir a quarta geração da instituição eclesiástica, fazendo-os experienciar a parousia de Deus que deve ser verificada na praxis dos pais e na experimentação pessoal deste Deus ilimitado, e somente a partir dai gerar um discurso que explique o fenômeno.

Uma quarta geração mundanizada cujo propósito é emanuelizar.

Este projeto visa despertá-los para uma busca de Deus que limitadamente vêem na vida dos pais e que são relatados pelos pais, mas que pode e deve ser objeto de uma experiência pessoal, não imputada externamente.

Experiência esta que somente se torna legal e legítima no mundo, tal qual Jesus que somente pode fazer a vontade do Pai no mundo, pois o Pai amou o mundo e para lá eviou Seu Filho.

Então, quando meu filho me disse: pai, eu vou à Igreja, eu lhe disse: não, você não vai à Igreja, pois para a Igreja não se vai, antes, se é, então, filho, você vai para a reunião das pedras que formam este edifício espiritual e você sendo pedra viva, vai à reunião das pedras que formam a Igreja, que por acaso se dá num endereço rotinizado.

A intenção é descontinuar um padrão de freqüência mental, uma mentalidade, de que Deus está restrito a um espaço arquitetônico e que a vida cristã se realiza fora do mundo: duas mentiras institucionais. Desta forma propor a eles que a vida cristã se realize na vida no mundo, fazendo convergir o céu e a terra pela qualidade existêncial do indivíduo corporificado.

O cristão passa a perceber-se como um indivíduo contido, compromissado e agregado com a vida que ocorre no mundo e neste lugar ele é instado a contribuir trazendo os valores éticos do caráter gracioso e amoroso de Deus, para as múltiplas relações que se faz no mundo. O cristão carrega em si a proposta divina para a cooperação na reconstrução e resgate do mundo, não para a ordem eclesiástica , mas para Deus. O cristão não precisa de rótulo, de rito, de dógmas e de arquiteturas, mas precisa do mundo como o ambiente legal de emanuelização.

Talvez – certamente – há uma radicalidade nesta proposta mundanizadora para a quarta geração e aqueles que a lêem com atenção, devem ironicamente perguntar: mas a quarta geração está desejando ir para um modelo com o qual você antagoniza – se opõe?

A quarta geração – e não me refiro apenas aos meus filhos – passa quatro horas por semana na reunião da Igreja e cento e oito horas por semana em outros lugares (além de cinquenta e seis horas dormindo), portanto, neste modelo não há eficácia na formação de um cristão efetivo e relevante para a sociedade, demandando um agente que se disponha compromissadamente, responsavelmente, com motivação e com intuito de transformar o processo educacional numa prática pedagógica vivencial, onde o exemplo, o estilo de vida, o cotidiano existencial preceda a racionalização e motive a argumentação.

A radicalidade não está apenas na negação da Igreja como fenômeno dominical, mas também na mentalidade de delegação de responsabilidade para a formação cristã e cívica da quarta geração. Embora a terceira geração tenha crenças na terceirização dos serviços e nestes incluem-se os de formação da quarta geração, cabe-nos rediscutir este modelo.

Mas, na afirmação de meu filho há dois valores essenciais que gostaria de destacar e finalizar: primeiramente, que a experiência com Deus deve se dar no mundo e posteriormente ser alvo de formalização e racionalização, sendo que esta experiência se torna eficaz quando a fonte é o cotidiano da família. Em segundo lugar que a experiência com Deus deve instrumentalizar o cristão a desenvolver um papel cívico no mundo.

Poderá ainda se dizer que esta minha experimentação radical não é legítima, pois confronta a norma e padrão do composto eclesiástico, promovendo a dispersão e a perda de identificação grupal, eu proporia que meditássemos sobre o fato de que tal qual a radicalidade de minha experiência com Deus, em 1975 no meu quarto, sem pastor, sem pregação, sem cânticos, sem templo, sem nada, sem anjos, sem luzes, sem vozes, sem arrepios, sem nada, sem traumas, sem vícios, sem temores, sem nada, também confronta a normalidade das experiências extremas que outros tiveram: Deus não é Deus de normalidades e nem de radicalidades, simplesmente é Deus.

Também cabe atentarmos para o fato de que os grupos que mais crescem nas estatísticas são os dos ateus e dos sem religião, aquele exército que cresce exponencialmente por conta de uma não resposta pragmaticista e prática daqueles que deveriam, pelo estilo e padrão de vida, oferecer uma alternativa real. É possivel que nossas quartas e quintas gerações estejam repletas de ateus e a-religiosos, por não terem visto em seus pais e avós um caráter ético e cívico que possam ser cotados como luz do mundo.