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Eu + Eu = eu

“…eu quero você como eu quero. Longe do meu domínio você vai de mau a pior, vem que eu te ensino como ser bem melhor...”

Quarta-feira, verão, 31º C, São Paulo, o trânsito, o carro, eu e o rádio ligado tocando Kid Abelha. Quantas lembranças do tempo que estava na faculdade de engenharia e escutava esta música pensando em TransCal, TecMec, Termo I, etc. Meus colegas e eu somente tínhamos tempo para discutir os projetos, as engrenagens, os trocadores de calor, os materias, os cálculos e os Kid Abelha.

Mas não venho aqui para isto, para falar do passado, dos traumas e dos Kid Abelha. Quero falar de SEXO!

Sexo, Sexo, Sexo, Sexo, Sexo, Sexo e Sexo. Sexo pleno, mas não total. Sexo livre mas não realizado. Sexo moralizado, imoralizado, amoralizado, asexuado. Sexo religioso, sexo profano e hipersexo/trans-sexo. Sexo-amor, sexo-prazer, sexo-desejo, sexo-instrumento, sexo-moeda, sexo-pecado, sexo-sem-sexo, sexo-virtual, simula-sexo.

Sexo que nos faz pensar na possibilidade de existir o sexo livre, que de tão livre é não-sexo. Como conceber o sexo-santo se não há a sexo-orgia e a orgia se não há a transgressão? Como haver sexo onde há o hipersexo, o sexo que transcende o sexo.

Antes, o corpo da mulher era o mistério; o menino, que ainda não tinha ido na zona, levado pelo pai, comprava a revista para ver como era o sexo oposto ao seu e escondido, ocultado, transgredido, percorria as curvas, as formas, os espaços, imaginando as possibilidades, adulterando sem contato, absolutamente virtual, imaginativo, como um holograma mental, um desenho trans-real, uma excitação do proibido, do inascessível, do encantamento da juventude.

Para a menina nem isto havia. Não havia a mãe que quisesse iniciar a fêmea na arte, para que a filha não se tornasse a Geni, não havia a mídia que conduzisse ao desnudamento proibido do outro, que é macho. Por isso – acho que é, deve ser -, assim como o cego tem os outros sentidos mais aguçados, a fêmea tem o sexo mais sensual: tântrico. Quem poderá saber, posto que desnudaram o corpo, mas não dismitificaram sua alma: quem conhece uma mulher?

Tanto o macho - que menino era - quanto a fêmea - virgem menina moça -, tinham na imagem e na imaginação o proibido desejado, velado suposto, inibido transgredido, santificado profanado, retido masturbado. O sexo era o sexo esperado, procurado, que angustiava em seu mistério de ser o sexo. Sexo dos adultos, das vadias, das hipocrisias, da mentira.

O sexo, num tempo de sexo enquanto sexo, era sexo antes da permissão do sexo, uma vez permitido passa a ser o sexo-reprodução, sem calor, sem toque, sem gemido, sem paixão, somente a via para se ter o herdeiro, o Júnior.

Num tempo que se cria que o sexo se dava nas quatro paredes imaculadas do casamanto ou nos escombros profanos dos prostíbulos. Em que o sémem era uma semente completa que apenas precisava da terra, do útero: a semente era posta numa estufa. Que o prazer do gozo era macho, como da fêmea era o instinto materno. As fêmeas casadas davam filhos e as fêmeas vadias davam prazer.

Aqui já não mais é o macho que tem a vida e a fêmea é apenas a incubadora, o terreno que alimenta a plantinha que clama pela vida – como nos contos infantis, nas metáforas falaciosas que induzem a uma machização da mente. A vida é o encontro cósmico do desejo, do amor, das partes não excludentes, mas complementares, necessárias, únicas que se interpõem, que se fazem vida.

Quando nasci o sexo mudou de nome, passou a ser camisinha, pílula, Woodstock, Playboy, etc. A não virgem tinha agora três nomes: esposa, vadia e feminista. O sexo era o sexo não maniqueísta: do bem e do mal. O sexo agora era o sexo-multiplo. Neste ponto o sexo passou a querer ser livre, carregar a utopia da liberdade: sexo quando quer, com quem quer, porque quer, onde quer.

Da linearidade do sexo (esposa-vadia-feminista), acessou-se a matricialidade do sexo.

Heterosexo, homosexo, transsexo, etcsexo. A esposa, a amante, a vadia, o caso, o ficar, a virgem, o porre, a feminista, o etc e as misturas das anteriores. Ao cruzarmos estas possibilidades, perceberemos a miríades de sexo-alternativas: este mapa bi-dimensional, esta matriz do sexo, excluíndo a misogenia que é a profecia da transcendência do sexo.

Mas o sexo não se retém em sua matriz e no sincretismo, na miscigenação, que lhe é próprio, assimila a mundanidade do fim do velho século: o sexo-produto! A tridimensionalidade do sexo.

O sexo vai para a revista, para a TV, para o rádio, o jornal, o outdoor, o panfleto, a música, o teatro, a escola, para o formato da garrafa de refrigerante, para o câmbio do automóvel, para o desenho animado, para o livro, para a literatura, para o carnaval, para o clero, para a pré-adolescência, para a política, para a empresa, na internet. O sexo custa dinheiro, o sexo traz o lucro, o sexo vicia e mantém cliente, vende produtos, é produzido, é reproduzido, é industrializado, distribuido, massificado, exaurido, consumido, realizado até ser ultrapassado.

No tempo da tridimensionalidade o hipersexo ultrapassa o sexo e é clonado.

Onde está o homem? Cadê o macho? Quem viu Adão?

A clonagem não é homossexual, é hermafrodita. O hipersexo quântico exaurido pelo produto do sexo - que de livre se tornou microfísico, espectral, irreal, transcendente, tetradimensional -, extingue, ou acelera a extinção do macho que vinha naturalmente se tornando raridade ocidental. O macho que reinou, profanou, imperou, subjugou, mautratou, agora é extinto pelo fruto de sua sapiência.

Não foi Copérnico, quebrando o antropocentrismo da criação, não foi Darwin ilegalizando a Imago Dei, não foi Nietzsche desfundamentalizando a metafísica quem provocaram a grande heresia da ocidentalidade. Foi a Doly, a ovelhinha, o animal fêmea e sua heresia incontrolável, a sua pergunta profana: macho! Para que macho? Preciso apenas da técnica.

A Doly, a segunda Eva, a primeira de uma espécie que pode dizer que não veio da costela do macho, antes, veio do fruto do conhecimento, realizando, ultrapassando e simulando o bem e o mal. A Doly agora é Doly e para se eternizar Doly apenas basta da técnica para sempre ser Doly. Cadê a semente? Cadê o sémem? Cadê Adão? Cadê o sexo?

Esquecemos o sexo, que tantas vezes falamos, pronunciamos, repetimos, exaurimos, ultrapassamos, desfizemos. O sexo agora somente no hiper-sexo simulado. Esta é a vingança da fêmea: o desprezo, tal qual o homem despreza Deus: o homem morreu!

Poderíamos parafrasear Nietzsche e num apócrifo dizer: ‘este dialogismo destina-se a homens que nunca serão. Talvez nunca mais se possa encontrar um único sequer que venha estar vivo. Estariam eles entre os que não ouviram e não deram crédito à minha Doly. Como poderia eu misturar-me com aqueles a quem hoje se dão ao conhecimento? O futuro pertence a Eva. Há homens que nunca mais serão gerados.’

A mulher que em sua solidão hermafrodita, desejar o outro, somente o terá no simulacro, nunca mais no real: o outro somente pelo experimento, pela genética, pela transgressão da norma, da lei natural da clonagem. O outro não mais será aquele que já deixou de existir, extinto, mas da técnica, da suposição e da aproximação do real imaginário. O Adão, o terceiro Adão, é da hiperealidade simulacro.

Antes da Doly, profecia experimental que aponta para o fim do outro, veio a profecia abstrata da Igreja e do fim do Outro: como homem e mulher, assim é Cristo e a Igreja.

Como a Doly, que pela técnica perpetua a Doly, eterniza e extingüe o outro. Assim a Igreja que pela tecnologia antropocêntria extigüe Deus.

É, tenho que concordar com ele: estão matando Deus!

Mas, antes, morremos nós.

A Paulinha fictícia - aquela não vem de minha costela - numa comunhão profética com os projetos da tecnologia, chama da cova o macho: vem para o meu domínio, que agora você é minha imagem e semelhança. É, mas ela não percebe que Eu + Eu degenera em eu. Outro dia pensamos melhor sobre isto, hoje, de verdade, não estou falando do homem e da mulher, de Sexo, mas de Cristo e da Igreja. Quem tiver sabedoria para entender que compreenda.