Templo do
Senhor! Templo do Senhor!
Já se disse o que será dito aqui e vem
a ser repitido por força de retórica: a imaginação é um recurso poderoso que se
tem, o qual permite ao imaginativo migrar ficticiamente em meio a universos
dificilmente transitáveis por outros meios; imaginar não é mentir, não é errar,
não é tão pouco acertar ou falar a verdade e muito menos uma técnica de
simulacro.
Como exemplo cita-se um fato que
ocorreu faz alguns anos. Neste tempo um facilitador foi colocado diante de uma
‘turminha’ de crianças baianas – meninos e meninas de 8 a 10 anos – com o
propósito de fazê-las discutir a questão da auto-estima, para tanto ‘criou’ um
‘pseudo-espelho’ que imaginativamente se propunha a realidade, algo que representasse na mente da
criança seu próprio reflexo. Este se ‘encontrava’ no meio daquele espaço lúdico
e irreal. Todas elas sabiam o que se desejava delas, sabiam que não havia
espelho e que elas estavam livres para não participar da brincadeira.
Pediu-se que cada uma delas, diante
daquela imagem representativa do espelho da alma, dissesse o que estava vendo,
como estava se vendo: o belo e o feio, o agradável e o desagradável, daquilo
que se fala e daquilo que se oculta, como se elas estivessem sozinhas naquele
mundo; um falar sobre si, para si, por si, em voz audível.
Não é lembrado do que elas falaram –
ainda que fosse lembrado, não seria dito -, mas que todas elas viram um espelho
naquele lugar e tempo, elas viram e além de verem, foram expontâneas, francas e
verdadeiras: surpreendentes.
Está proibido aos adultos tal
tentativa: olharem-se diante deste espelho, ainda que estejam de fato e
verdadeiramente sós! É constrangedor, deprimente e irrelevante: não há
expontaneidade, não há franquesa e não há verdade que se possa obter em tal experimento
viciado, que geraria uma simulação, ou ainda, um simulacro.
Isto trás à lembrança um texto, o
qual traz num mesmo contexto analítico, Adorno – filósofo alemão da Escola de
Frankfurt: Teoria Crítica – Foucault – filósofo francês pós-estruturalista – e
a Britney Spears – ops! -, numa aula de filosofia em uma universidade
americana. Em um determinado momento o professor – Michael Clark da Portland
State University – diz a respeito deste holograma de arte, deste espéctro
artístico, à luz das teorias filosóficas representadas: ‘Ela é alguém para quem ser uma celebridade é de longe muito mais
importante do que qualquer talento (ou a inexistência deste) intrínseco pode
ser. Ela é, realmente, uma estrela pós-moderna perfeita: totalmente imagem, mínima
substância’ (1).
Mais tarde, este mesmo professor,
viria a dizer: ‘Penso que grande parte do
mundo dos espectadores reconhece a falsidade do status dela como artista e,
mesmo assim, olham através do fato e focam desta forma no fato de sua
celebridade’ (1). Em outras palavras poderia ser dito que a imagem que ela
apresenta, em si é o produto a ser buscado e consumido: compra-se o frasco
ainda que não haja perfume dentro dele.
Parece claro que, caso alguém venha
a ler estas palavras sob a égide de sua própria moralidade, necessitará invocar
o código penal e enquadrar tal artista como falsária ideológica, pois, segundo
uma ótica rasa, ela vende ingressos para shows artísticos e musicais, não
entregando este produto, antes, oferecendo apenas imagem: mentira.
Ora, porque não se pode processá-la
como uma falsária, então? Primeiro por que seus advogados, sendo em maior
número e mais bem pagos do que o de um mortal qualquer, defenderiam e
provavelmente ganhariam a tese de que este intrépido acusador é quem estaria mentindo.
Segundo, por que ao se comprar o imgresso, não está suposto que se ouviria a
Maria Callas cantar. Não há em nenhum momento a presença daquela intenção
premeditada em lesar, uma consciência explícita ou implícita em produzir um
erro: uma mentira, por premissa - ‘não há
o desejo ou a vontade explícita de enganar’ (2), quando se entende, como
Agostinho, a diferença entre ação e intenção.
Isto faz lembrar o filme, ‘O
Mentiroso’, onde Jim Carrey representa o papél de um advogado mentiroso, que,
por isso obtém sucesso em sua carreira: subverte os fatos de forma intencional
visando prevalescer sobre os oponentes de seus clientes, pela manipulação da
informação, da história, dos fatos. A isto se pode chamar de mentira, assim,
como propõe Jacques Derrida, ‘a mentira
tem a haver com o dizer e com o querer dizer, não com o dito...pois o contrário
de mentira não é a verdade e nem a realidade, senão a veracidade, ou a
veridicidade, o dizer-verdadeiro, o-querer-dizer-verdadeiro, a Wahrhaftigkeit –
de Kant’ (2).
‘Mentir
não é errar’ (2), repetiria Jacques Derrida, pois quem mente não é inapto,
inábil, incompetente, ignorante, que falha, antes, daquele que mente se espera
que de antemão saiba a verdade e a distorce, omite, manipule, mude, sonege,
adultere, simule a verdade com o propósito premeditado em conduzir o outro ao
erro, a enganá-lo. O mentiroso acerta, ou pelo menos busca acertar, em seu
propósito de, mentindo, enganar e conduzir o outro ao erro. O ignorante erra
pois não sabendo fazer o que é correto, erra!
Por isso, contrariamente ao
personagem vivido por Jim Carrey, a Britney Spiers não mente, pois ela não
engana, não conduz seus ‘fãs’ ao erro: ninguém compra um ingresso de seu show
para ver uma performance artística, antes, e apenas, uma imagem de celebridade.
Não se busca lá a substância da arte, mas a imagem da celebridade pós-moderna.
A mentira pode ter muitas faces,
ainda que todas as faces carregem a imagem da mentira. Ela pode se dar por
omissão, quando ciente da veracidade, ou do contexto pleno da verdade, não se
declara tudo, sonegando, ocultando como forma de conduzir o entendimento dos
fatos.
Trazendo isto para a cena religiosa
- que é o interesse do dialogismo -, omiti-se quando é sabe que o ‘óleo de
unção’ em si nada é, antes e apenas é uma metáfora, uma sombra, uma
representação do Espírito, aquele que de fato pode produzir em no ser humano o
resultado que Deus projetou; mas o discurso eclesiástico pode vir a ‘vender’ a
verdade de que o óleo em si cura, salva, santifica, purifica, realiza, através
de um poder que lhe é próprio. Esta verdade – financeira e discursiva - é
vendida em pequenos frascos, cujo conteúdo, supostamente é proveniente do Monte
das Oliveiras.
O óleo é apenas isto, manipulação de
azeitonas, mais ingredientes trabalhados pela mão de um perito, ou por meio de
um equipamento. O Espírito não precisa do óleo, mas somente da fé.
A omissão vem quando aquele que
conhece o significado real que está por detrás do símbolo não declara a verdade
que subjaz a este, conferindo ao ícone o poder sobrenatural em si mesmo. A
verdade é que deve ser revelada, desmistificada, desvelada no uso, ou não, do
símbolo. A forma deve trazer um conteúdo simbólico a ser entendido pela
manipulação dela, a fim de possibilitar sinais claros e tangíveis que apontem
para o intangível.
Outra face da mentira é a simulação.
Simulação, emulação e simulacros são três eventos distintos.
Emulação - tomando o sentido das
ciências da computação - se dá quando um terminal opera trazendo ao usuário os
recursos que não estão nele, mas em uma outra máquina. Este terminal funciona
como mídia entre o cérebro do computador central e o usuário. O usuário não
percebe que a mídia é reduzida de recursos próprios, contendo apenas a
capacidade de ser mídia, isto é, trazer para o ambiente do usuário os recursos
do cérebro. O terminal, desta forma, emula o computador central afim de que o
usuário possa ter acesso a todos os seus recursos.
Simulação se dá quando um sistema
procura imitar outro mais complexo, desejoso de passar-se por ele. Como exemplo
citamos os simuladores de vôo. O treinando entra numa cabine simulada, com
todos os intrumentos, recursos e ambientação. Neste lugar ele é exposto à
condições adversas de vôo, visando treiná-lo ou avaliá-lo em suas habilidades
técnicas, psíquicas, etc. A simulação é uma pseudo-realidade, paralela à
verdade.
A religião simulada viria a ser
aquela em que projeta-se a ‘Casa de Deus’ com os recursos apropriados para
levar o crente a um êxtase emocional, conduzindo-o a pseudo-experimentar um ‘encher
do Espírito’, que apenas pode vir a ocorrer naquilo que convencionou-se chamar
de alma.
Assim, havendo horário e lugar
definidos pelo homem para que o Espírito realize aquilo que o homem disse que
Ele faria, a partir de uma sistemática ritualística, que se projeta para
conduzir a um êxtase emocional, há uma experiência simulada, em uma Casa
simulacro, de um Deus transcendido.
Deve-se saber que uma certa face a
mentira não possui: o mentir-para-si, pois o que se entende classicamente por
mentira está suportada sobre o discurso, isto é, aquele que mente sabe que está
alterando a ordem da veracidade, confiando que o outro que ouve, crê no
discurso que para ele é verdadeiro. Tem-se o que discursa e aquele que crê no
discurso; a mentira está apoiada nesta premissa: haver duas personagens, um
discurso que busca conduzir ao erro e uma crença que aquele que discursa não
deseja fraudar.
Havendo estes elementos na mentira,
não pode haver um mentir-para-si, pois quando se crê num discurso pessoal, num
conjunto de verdades próprias do indivíduo, quando se tem por verdadeiro um
enunciado, pode-se estar errado na crença, mas não estar mentindo, tendo em
vista que mentir não é errar.
Quando não se crê num discurso, ou
num enunciado pessoal, não se está enganando ou manipulando-se a si mesmo,
portanto, não há mentira. Não é possivel, concomitantemente, saber que algo não
é verdadeiro e dizer que é verdade, a fim de enganar-se, pois como é possível,
sabendo, tanto a verdade quanto a mentira, ser enganado, o máximo que posso é
fazer uma escolha.
Para crer nisto é necessário crer
que dentro do indivíduo há dois ‘eus’: o eu da mentira e o eu da verdade, e que
eles não operam simultaneamente, que há uma esquizofrenia do eu, dito isto,
pode-se confiar que mentir é, como novamente fala Jacques Derrida, ‘enganar intencionalmente ao outro,
conscientemente, sabendo que se oculta deliberadamente, sem mentir a si mesmo’
(2).
Como corolário desta colocação feita
anteriormente, pode-se dizer que pelo fato e no momento em que o crente confie
que o discurso é verdadeiro e por isso venha a errar, ele não é mentiroso, uma
vez que a fraude foi gerada pelo que proferiu o discurso. O crente erra, mas
não mente, assim como o que profere o discurso mente e não erra.
Mais uma vez Jacque Derrida: ‘Alexandre Koyré sugere que os regimes
totalitários e seus análogos de toda espécie, nunca se situaram verdadeiramente
mais além da distinção entre verdade e mentira...pois mentem no interior desta tradição,
de uma tradição que têm pleno interesse em manter intácta e em sua forma mais
dogmática, para por em ação o engano’ (2). E o próprio Alexandre Koyré,
segundo texto do Derrida, diz: ‘Também em
suas publicações, em seus discursos e por certo em suas propagandas, os
representantes dos regimes totalitários se preocupam muito pouco pela verdade
objetiva. Mais fortes que o próprio Deus Todo-poderoso, transformam a seu
prazer o presente e até o passado (no que interfere Derrida: por
esta re-escritura do passado histórico, superam até a Deus, o qual seria
impotente para mudar o passado). Poderia concluir – e o faço para vocês – que
os regimes totalitários estão mais além da verdade e da mentira’ (2).
Neste ponto, quando se afirma que
Deus Todo-poderoso é superado, ou transcendido, pode-se sugerir a mentira como
tecnologia dos simulacros, ou a ausência referencial da verdade e da mentira
como técnica de simulacros.
Entende-se a tecnologia dos
simulacros pela metáfora proposta por Jean Baudrillard e aqui parafraseada: na
industrialização de um produto, constroi-se um protótipo que servirá de padrão
a ser reproduzido nas linhas de montagens, mas, uma vez que o processo se
estabiliza, abre-se mão do protótipo, esquece o protótipo e passa a montar pelo
anterior. A verdade – o protótipo - é superada pela massificação e adota-se a
hiper-realidade: a realidade que transcende a verdade.
Não se objetiva o significado da
verdade, mas a reprodução indefinida, exaustiva, degenerativa da realidade da
imagem. A verdade não é mais objeto do trabalho do homem, mas a realidade,
antes, a hiper-realidade: a técnica da imagem sem substância, como diria Jean
Baudrillard: ‘deve-se jogar com a técnica
como com os signos, em pleno apagamento do sujeito, em plena eclipse do
sentido, logo, em plena afetação...é um desafio ao Ocidente em seu próprio
terreno, mas por uma estratégia infinitamente mais eficaz: a de um sistema de
valores que se dá ao luxo da técnica, a de uma prática técnica como
artificialidade pura, sem nada que ver com o progresso ou outras formas
racionais...essa forma é canibal: ela integra, absorve, imita, devora’ (3).
O simulacro é uma técnica e esta não
é mentira e nem é verdade, posto que transcendeu o protótipo. O protótipo foi
morto pelo excesso de manipulação – pelo canibalismo -, no jogo das linguagens,
nos discursos verdadeiros que se creram falsos e por isto induziram ao erro,
tornaram mentira; e nos discursos falsos que se creram verdadeiros e que ao fim
conduziram a erros, manifestando a mentira.
A mentira e a verdade misturaram-se,
amalgamaram-se, massificaram-se, oficializaram-se, sacralisaram-se,
transcenderam, vindo a tornar-se simulacro. Ainda que na omissão, na simulação,
no engano houvesse uma mentira no interior daquele que discursava, agora no
simulacro há a apatia: o reino da mentira verdadeira.
Que ingenuidade imaginar que a
pós-modernidade inventou a técnica dos simulacros, a superação de Deus visando
transcender a verdade e a mentira! Que meninice crer que o totalitarismo tirano
foi inaugurado no Século XX!
O totalitarismo tirano não estaria
ele no interior do discurso daqueles que submetem o homem ao peso despótico da
religião que exige submissão incondicional à instituição e ao clero, afastando
este mesmo homem do convívio direto com Deus?
Não seria o totalitarismo despótico
qualquer religião dogmática que apresentasse o símbolo, a imagem, o ícone
desprovidos de conteúdo e que mergulhasse o ser humano numa ritualização
infernal e mentirosa cujo propósito é a dominação e a perda de sentido
espiritual, pelo simulacro?
Não estaria sendo o simulacro
justificado pela pós-modernidade e nisto servido o símbolo como fonte da perda
do sentido de propósito e ao mesmo tempo que fonte de lucro?
Ativado por estas questões, como
poderia se compreender as palavras de Jesus, quando disse: ‘Vós sois do diabo, que é vosso pai, e
quereis satisfazer-lhe aos desejos. Ele foi homicida desde o princípio e jamais
se firmou na verdade, porque nele não há verdade. Quando ele profere a mentira,
fala do que é próprio, porque é mentiroso e pai da mentira’ (4). O diabo -
mais do que sua personificação, como desejam alguns – representando o princípio
de extermínio da verdade: o assassino do protótipo. O princípio de articulação
da hiper-realidade que é ativada por seus filhos.
Noutro lugar, o mesmo Jesus declara:
‘ai de vós também, intérpretes da lei!
Porque sobrecarregais os homens com fardos superiores às suas forças...ai de
vós! Porque edificais os túmulos dos profetas que vossos pais
assassinaram...desde o sangue de Abel até ao de Zacarias, que foi assassinado
entre o altar e a casa de Deus...ai de vós, intérpretes da lei! Porque tomaste
as chaves da ciência; contudo, vós mesmos não entrastes e impedistes os que
estavam entrando’ (5).
O simulacro proveniente da
transcendência de Deus, opera-se pela negação ao conhecimento da verdade e da
mentira pela tirania que assassina o significado em meio ao simbólico. De certo
mantém-se o símbolo como meio, hiper-meio, totalizante de alienação do crente e
de dominação processada através de discursos vazios, que não referenciam nada
além do que a instituição e o clero, com seus ritos, dogmas, patrimônios e
políticas.
Mas a quem cabe a responsabilidade
pelo assassinato do protótipo? Áqueles que mentem, sonegando, conscientemente o
acesso à verdade. Aqueles que produzem símbolos sem substância, ou cuja
substância não conduz à uma experimentação direta e natural de Deus, o Deus do
devir. Aqueles que omitem, distorcem e simulam significados aos símbolos
históricos ou eternos, por meio de discursos de apoderamento daqueles que creem
e buscam crer. A estes que creem e buscam crer, compete o erro efetivado na
ignorância. Mas ‘Deus não leva em conta
os dias da ignorância’ (6).
Aqueles que pela profusão
revelacionista vomitam verdades e mentiras como não-referencial ao crente,
aqueles assassinos do protótipo, aqueles são os implementadores das técnicas de
simulacros, que desde os tempos de Jeremias, o profeta do Velho Testamento,
diziam: ‘Templo do Senhor!’ (7) Confiavam
no edifício como símbolo mais que suficiente que os salvaguardavam da ruina,
abdicando dos significados que se deveriam conferir aos ritos, que pela
observação manifestariam o caráter ético da Lei.
O templo nada era, tendo em vista
que foi arruinado pelos invasores babilônicos, ainda nos dias de Jeremias,
assim como o ícone, o símbolo, o óleo, o sábado, o jejum, o batismo, a ceia, a
imposição de mãos, etc nada são em si mesmos, são como o espelho imaginativo
das crianças da Bahia, fontes referencias pedagógicas que podem e devem ser
utilizadas para facilitar a explanação e a apreenção dos significados e valores
reais do cristianismo.
1 – http://www.cefa.org.br/jornal/edicoesanteriores/detalhe.asp?CodNoticia=49
- Adorno, Foucault e Britney Spears -
artigo de Kristi Turnquist, do Gregorian
2 – http://personales.ciudad.com.ar/Derrida/mentira.htm
- História da Mentira: Prolegómenos – Jacques Derrida
3 – A Transparência do Mal – Jean
Baudrillard – Papirus Editora – 7ª edição
4 – Bíblia – João 8: 44
5 – Bíblia – Lucas 11: 45 a 52
6 – Bíblia – Atos 17: 30
7 – Bíblia – Jeremias 7: 4