www. marcosnicolini .com.br
Home
Biografia
Bibliografia
Textos
Vídeos
Agenda
Contato

Templo do Senhor! Templo do Senhor!

Já se disse o que será dito aqui e vem a ser repitido por força de retórica: a imaginação é um recurso poderoso que se tem, o qual permite ao imaginativo migrar ficticiamente em meio a universos dificilmente transitáveis por outros meios; imaginar não é mentir, não é errar, não é tão pouco acertar ou falar a verdade e muito menos uma técnica de simulacro.

Como exemplo cita-se um fato que ocorreu faz alguns anos. Neste tempo um facilitador foi colocado diante de uma ‘turminha’ de crianças baianas – meninos e meninas de 8 a 10 anos – com o propósito de fazê-las discutir a questão da auto-estima, para tanto ‘criou’ um ‘pseudo-espelho’ que imaginativamente se propunha a  realidade, algo que representasse na mente da criança seu próprio reflexo. Este se ‘encontrava’ no meio daquele espaço lúdico e irreal. Todas elas sabiam o que se desejava delas, sabiam que não havia espelho e que elas estavam livres para não participar da brincadeira.

Pediu-se que cada uma delas, diante daquela imagem representativa do espelho da alma, dissesse o que estava vendo, como estava se vendo: o belo e o feio, o agradável e o desagradável, daquilo que se fala e daquilo que se oculta, como se elas estivessem sozinhas naquele mundo; um falar sobre si, para si, por si, em voz audível.

Não é lembrado do que elas falaram – ainda que fosse lembrado, não seria dito -, mas que todas elas viram um espelho naquele lugar e tempo, elas viram e além de verem, foram expontâneas, francas e verdadeiras: surpreendentes.

Está proibido aos adultos tal tentativa: olharem-se diante deste espelho, ainda que estejam de fato e verdadeiramente sós! É constrangedor, deprimente e irrelevante: não há expontaneidade, não há franquesa e não há verdade que se possa obter em tal experimento viciado, que geraria uma simulação, ou ainda, um simulacro.

Isto trás à lembrança um texto, o qual traz num mesmo contexto analítico, Adorno – filósofo alemão da Escola de Frankfurt: Teoria Crítica – Foucault – filósofo francês pós-estruturalista – e a Britney Spears – ops! -, numa aula de filosofia em uma universidade americana. Em um determinado momento o professor – Michael Clark da Portland State University – diz a respeito deste holograma de arte, deste espéctro artístico, à luz das teorias filosóficas representadas: ‘Ela é alguém para quem ser uma celebridade é de longe muito mais importante do que qualquer talento (ou a inexistência deste) intrínseco pode ser. Ela é, realmente, uma estrela pós-moderna perfeita: totalmente imagem, mínima substância’ (1).

Mais tarde, este mesmo professor, viria a dizer: ‘Penso que grande parte do mundo dos espectadores reconhece a falsidade do status dela como artista e, mesmo assim, olham através do fato e focam desta forma no fato de sua celebridade’ (1). Em outras palavras poderia ser dito que a imagem que ela apresenta, em si é o produto a ser buscado e consumido: compra-se o frasco ainda que não haja perfume dentro dele.

Parece claro que, caso alguém venha a ler estas palavras sob a égide de sua própria moralidade, necessitará invocar o código penal e enquadrar tal artista como falsária ideológica, pois, segundo uma ótica rasa, ela vende ingressos para shows artísticos e musicais, não entregando este produto, antes, oferecendo apenas imagem: mentira.

Ora, porque não se pode processá-la como uma falsária, então? Primeiro por que seus advogados, sendo em maior número e mais bem pagos do que o de um mortal qualquer, defenderiam e provavelmente ganhariam a tese de que este intrépido acusador é quem estaria mentindo. Segundo, por que ao se comprar o imgresso, não está suposto que se ouviria a Maria Callas cantar. Não há em nenhum momento a presença daquela intenção premeditada em lesar, uma consciência explícita ou implícita em produzir um erro: uma mentira, por premissa - ‘não há o desejo ou a vontade explícita de enganar’ (2), quando se entende, como Agostinho, a diferença entre ação e intenção.

Isto faz lembrar o filme, ‘O Mentiroso’, onde Jim Carrey representa o papél de um advogado mentiroso, que, por isso obtém sucesso em sua carreira: subverte os fatos de forma intencional visando prevalescer sobre os oponentes de seus clientes, pela manipulação da informação, da história, dos fatos. A isto se pode chamar de mentira, assim, como propõe Jacques Derrida, ‘a mentira tem a haver com o dizer e com o querer dizer, não com o dito...pois o contrário de mentira não é a verdade e nem a realidade, senão a veracidade, ou a veridicidade, o dizer-verdadeiro, o-querer-dizer-verdadeiro, a Wahrhaftigkeit – de Kant’ (2).

Mentir não é errar’ (2), repetiria Jacques Derrida, pois quem mente não é inapto, inábil, incompetente, ignorante, que falha, antes, daquele que mente se espera que de antemão saiba a verdade e a distorce, omite, manipule, mude, sonege, adultere, simule a verdade com o propósito premeditado em conduzir o outro ao erro, a enganá-lo. O mentiroso acerta, ou pelo menos busca acertar, em seu propósito de, mentindo, enganar e conduzir o outro ao erro. O ignorante erra pois não sabendo fazer o que é correto, erra!

Por isso, contrariamente ao personagem vivido por Jim Carrey, a Britney Spiers não mente, pois ela não engana, não conduz seus ‘fãs’ ao erro: ninguém compra um ingresso de seu show para ver uma performance artística, antes, e apenas, uma imagem de celebridade. Não se busca lá a substância da arte, mas a imagem da celebridade pós-moderna.

A mentira pode ter muitas faces, ainda que todas as faces carregem a imagem da mentira. Ela pode se dar por omissão, quando ciente da veracidade, ou do contexto pleno da verdade, não se declara tudo, sonegando, ocultando como forma de conduzir o entendimento dos fatos.

Trazendo isto para a cena religiosa - que é o interesse do dialogismo -, omiti-se quando é sabe que o ‘óleo de unção’ em si nada é, antes e apenas é uma metáfora, uma sombra, uma representação do Espírito, aquele que de fato pode produzir em no ser humano o resultado que Deus projetou; mas o discurso eclesiástico pode vir a ‘vender’ a verdade de que o óleo em si cura, salva, santifica, purifica, realiza, através de um poder que lhe é próprio. Esta verdade – financeira e discursiva - é vendida em pequenos frascos, cujo conteúdo, supostamente é proveniente do Monte das Oliveiras.

O óleo é apenas isto, manipulação de azeitonas, mais ingredientes trabalhados pela mão de um perito, ou por meio de um equipamento. O Espírito não precisa do óleo, mas somente da fé.

A omissão vem quando aquele que conhece o significado real que está por detrás do símbolo não declara a verdade que subjaz a este, conferindo ao ícone o poder sobrenatural em si mesmo. A verdade é que deve ser revelada, desmistificada, desvelada no uso, ou não, do símbolo. A forma deve trazer um conteúdo simbólico a ser entendido pela manipulação dela, a fim de possibilitar sinais claros e tangíveis que apontem para o intangível.

Outra face da mentira é a simulação. Simulação, emulação e simulacros são três eventos distintos.

Emulação - tomando o sentido das ciências da computação - se dá quando um terminal opera trazendo ao usuário os recursos que não estão nele, mas em uma outra máquina. Este terminal funciona como mídia entre o cérebro do computador central e o usuário. O usuário não percebe que a mídia é reduzida de recursos próprios, contendo apenas a capacidade de ser mídia, isto é, trazer para o ambiente do usuário os recursos do cérebro. O terminal, desta forma, emula o computador central afim de que o usuário possa ter acesso a todos os seus recursos.

Simulação se dá quando um sistema procura imitar outro mais complexo, desejoso de passar-se por ele. Como exemplo citamos os simuladores de vôo. O treinando entra numa cabine simulada, com todos os intrumentos, recursos e ambientação. Neste lugar ele é exposto à condições adversas de vôo, visando treiná-lo ou avaliá-lo em suas habilidades técnicas, psíquicas, etc. A simulação é uma pseudo-realidade, paralela à verdade.

A religião simulada viria a ser aquela em que projeta-se a ‘Casa de Deus’ com os recursos apropriados para levar o crente a um êxtase emocional, conduzindo-o a pseudo-experimentar um ‘encher do Espírito’, que apenas pode vir a ocorrer naquilo que convencionou-se chamar de alma.

Assim, havendo horário e lugar definidos pelo homem para que o Espírito realize aquilo que o homem disse que Ele faria, a partir de uma sistemática ritualística, que se projeta para conduzir a um êxtase emocional, há uma experiência simulada, em uma Casa simulacro, de um Deus transcendido.

Deve-se saber que uma certa face a mentira não possui: o mentir-para-si, pois o que se entende classicamente por mentira está suportada sobre o discurso, isto é, aquele que mente sabe que está alterando a ordem da veracidade, confiando que o outro que ouve, crê no discurso que para ele é verdadeiro. Tem-se o que discursa e aquele que crê no discurso; a mentira está apoiada nesta premissa: haver duas personagens, um discurso que busca conduzir ao erro e uma crença que aquele que discursa não deseja fraudar.

Havendo estes elementos na mentira, não pode haver um mentir-para-si, pois quando se crê num discurso pessoal, num conjunto de verdades próprias do indivíduo, quando se tem por verdadeiro um enunciado, pode-se estar errado na crença, mas não estar mentindo, tendo em vista que mentir não é errar.

Quando não se crê num discurso, ou num enunciado pessoal, não se está enganando ou manipulando-se a si mesmo, portanto, não há mentira. Não é possivel, concomitantemente, saber que algo não é verdadeiro e dizer que é verdade, a fim de enganar-se, pois como é possível, sabendo, tanto a verdade quanto a mentira, ser enganado, o máximo que posso é fazer uma escolha.

Para crer nisto é necessário crer que dentro do indivíduo há dois ‘eus’: o eu da mentira e o eu da verdade, e que eles não operam simultaneamente, que há uma esquizofrenia do eu, dito isto, pode-se confiar que mentir é, como novamente fala Jacques Derrida, ‘enganar intencionalmente ao outro, conscientemente, sabendo que se oculta deliberadamente, sem mentir a si mesmo’ (2).

Como corolário desta colocação feita anteriormente, pode-se dizer que pelo fato e no momento em que o crente confie que o discurso é verdadeiro e por isso venha a errar, ele não é mentiroso, uma vez que a fraude foi gerada pelo que proferiu o discurso. O crente erra, mas não mente, assim como o que profere o discurso mente e não erra.

Mais uma vez Jacque Derrida: ‘Alexandre Koyré sugere que os regimes totalitários e seus análogos de toda espécie, nunca se situaram verdadeiramente mais além da distinção entre verdade e mentira...pois mentem no interior desta tradição, de uma tradição que têm pleno interesse em manter intácta e em sua forma mais dogmática, para por em ação o engano’ (2). E o próprio Alexandre Koyré, segundo texto do Derrida, diz: ‘Também em suas publicações, em seus discursos e por certo em suas propagandas, os representantes dos regimes totalitários se preocupam muito pouco pela verdade objetiva. Mais fortes que o próprio Deus Todo-poderoso, transformam a seu prazer o presente e até o passado (no que interfere Derrida: por esta re-escritura do passado histórico, superam até a Deus, o qual seria impotente para mudar o passado). Poderia concluir – e o faço para vocês – que os regimes totalitários estão mais além da verdade e da mentira’ (2).

Neste ponto, quando se afirma que Deus Todo-poderoso é superado, ou transcendido, pode-se sugerir a mentira como tecnologia dos simulacros, ou a ausência referencial da verdade e da mentira como técnica de simulacros.

Entende-se a tecnologia dos simulacros pela metáfora proposta por Jean Baudrillard e aqui parafraseada: na industrialização de um produto, constroi-se um protótipo que servirá de padrão a ser reproduzido nas linhas de montagens, mas, uma vez que o processo se estabiliza, abre-se mão do protótipo, esquece o protótipo e passa a montar pelo anterior. A verdade – o protótipo - é superada pela massificação e adota-se a hiper-realidade: a realidade que transcende a verdade.

Não se objetiva o significado da verdade, mas a reprodução indefinida, exaustiva, degenerativa da realidade da imagem. A verdade não é mais objeto do trabalho do homem, mas a realidade, antes, a hiper-realidade: a técnica da imagem sem substância, como diria Jean Baudrillard: ‘deve-se jogar com a técnica como com os signos, em pleno apagamento do sujeito, em plena eclipse do sentido, logo, em plena afetação...é um desafio ao Ocidente em seu próprio terreno, mas por uma estratégia infinitamente mais eficaz: a de um sistema de valores que se dá ao luxo da técnica, a de uma prática técnica como artificialidade pura, sem nada que ver com o progresso ou outras formas racionais...essa forma é canibal: ela integra, absorve, imita, devora’ (3).

O simulacro é uma técnica e esta não é mentira e nem é verdade, posto que transcendeu o protótipo. O protótipo foi morto pelo excesso de manipulação – pelo canibalismo -, no jogo das linguagens, nos discursos verdadeiros que se creram falsos e por isto induziram ao erro, tornaram mentira; e nos discursos falsos que se creram verdadeiros e que ao fim conduziram a erros, manifestando a mentira.

A mentira e a verdade misturaram-se, amalgamaram-se, massificaram-se, oficializaram-se, sacralisaram-se, transcenderam, vindo a tornar-se simulacro. Ainda que na omissão, na simulação, no engano houvesse uma mentira no interior daquele que discursava, agora no simulacro há a apatia: o reino da mentira verdadeira.

Que ingenuidade imaginar que a pós-modernidade inventou a técnica dos simulacros, a superação de Deus visando transcender a verdade e a mentira! Que meninice crer que o totalitarismo tirano foi inaugurado no Século XX!

O totalitarismo tirano não estaria ele no interior do discurso daqueles que submetem o homem ao peso despótico da religião que exige submissão incondicional à instituição e ao clero, afastando este mesmo homem do convívio direto com Deus?

Não seria o totalitarismo despótico qualquer religião dogmática que apresentasse o símbolo, a imagem, o ícone desprovidos de conteúdo e que mergulhasse o ser humano numa ritualização infernal e mentirosa cujo propósito é a dominação e a perda de sentido espiritual, pelo simulacro?

Não estaria sendo o simulacro justificado pela pós-modernidade e nisto servido o símbolo como fonte da perda do sentido de propósito e ao mesmo tempo que fonte de lucro?

Ativado por estas questões, como poderia se compreender as palavras de Jesus, quando disse: ‘Vós sois do diabo, que é vosso pai, e quereis satisfazer-lhe aos desejos. Ele foi homicida desde o princípio e jamais se firmou na verdade, porque nele não há verdade. Quando ele profere a mentira, fala do que é próprio, porque é mentiroso e pai da mentira’ (4). O diabo - mais do que sua personificação, como desejam alguns – representando o princípio de extermínio da verdade: o assassino do protótipo. O princípio de articulação da hiper-realidade que é ativada por seus filhos.

Noutro lugar, o mesmo Jesus declara: ‘ai de vós também, intérpretes da lei! Porque sobrecarregais os homens com fardos superiores às suas forças...ai de vós! Porque edificais os túmulos dos profetas que vossos pais assassinaram...desde o sangue de Abel até ao de Zacarias, que foi assassinado entre o altar e a casa de Deus...ai de vós, intérpretes da lei! Porque tomaste as chaves da ciência; contudo, vós mesmos não entrastes e impedistes os que estavam entrando’ (5).

O simulacro proveniente da transcendência de Deus, opera-se pela negação ao conhecimento da verdade e da mentira pela tirania que assassina o significado em meio ao simbólico. De certo mantém-se o símbolo como meio, hiper-meio, totalizante de alienação do crente e de dominação processada através de discursos vazios, que não referenciam nada além do que a instituição e o clero, com seus ritos, dogmas, patrimônios e políticas.

Mas a quem cabe a responsabilidade pelo assassinato do protótipo? Áqueles que mentem, sonegando, conscientemente o acesso à verdade. Aqueles que produzem símbolos sem substância, ou cuja substância não conduz à uma experimentação direta e natural de Deus, o Deus do devir. Aqueles que omitem, distorcem e simulam significados aos símbolos históricos ou eternos, por meio de discursos de apoderamento daqueles que creem e buscam crer. A estes que creem e buscam crer, compete o erro efetivado na ignorância. Mas ‘Deus não leva em conta os dias da ignorância’ (6).

Aqueles que pela profusão revelacionista vomitam verdades e mentiras como não-referencial ao crente, aqueles assassinos do protótipo, aqueles são os implementadores das técnicas de simulacros, que desde os tempos de Jeremias, o profeta do Velho Testamento, diziam: ‘Templo do Senhor!’ (7) Confiavam no edifício como símbolo mais que suficiente que os salvaguardavam da ruina, abdicando dos significados que se deveriam conferir aos ritos, que pela observação manifestariam o caráter ético da Lei.

O templo nada era, tendo em vista que foi arruinado pelos invasores babilônicos, ainda nos dias de Jeremias, assim como o ícone, o símbolo, o óleo, o sábado, o jejum, o batismo, a ceia, a imposição de mãos, etc nada são em si mesmos, são como o espelho imaginativo das crianças da Bahia, fontes referencias pedagógicas que podem e devem ser utilizadas para facilitar a explanação e a apreenção dos significados e valores reais do cristianismo.

1 – http://www.cefa.org.br/jornal/edicoesanteriores/detalhe.asp?CodNoticia=49 - Adorno, Foucault e Britney Spears - artigo de Kristi Turnquist, do Gregorian

2 – http://personales.ciudad.com.ar/Derrida/mentira.htm - História da Mentira: Prolegómenos – Jacques Derrida

3 – A Transparência do Mal – Jean Baudrillard – Papirus Editora – 7ª edição

4 – Bíblia – João 8: 44

5 – Bíblia – Lucas 11: 45 a 52

6 – Bíblia – Atos 17: 30

7 – Bíblia – Jeremias 7: 4