O Travesti e a Miss Universo
Dizem
que na Venezuela há uma indústria da “Miss”. Esta indústria é responsável por
produzir algo singular: mulheres com um corpo perfeito, que as possibilite
ganhar o concurso de “Miss Universo”. Neste evento, mulheres de diversas
nacionalidades, uma de cada nação, são apresentadas ao público e a um juri, o
qual escolherá aquela com o corpo mais perfeito: o concurso do corpo perfeito
de mulher.
Alguém,
na Venezuela, predispos-se a transformar mulheres em ícones, tendo como
referência as imagens vencedoras de mulheres de corpo perfeito de anos
anteriores, que foram iconizadas. A mulher de corpo perfeito é aquela que
reproduz o corpo perfeito de uma mulher que já obteve sucesso em concursos
precedentes. A vencedora será, a partir de então, ícone que se juntará ao
conjunto iconográfico, para que as futuras pretendentes a ícones se igualem a
elas. A referência é circular: o eterno retorno.
É algo
que nos convida à uma certa reflexão: uma mulher olha para outra mulher e busca
tornar-se imagem e semelhança desta, para que ao final, outras mulheres olhem
para ela e tomem-na como modelo a ser reproduzido.
Neste
processo de clonagem do corpo da mulher, usa-se todos os aparatos técnicos que
se dispõe, a fim de que a silueta feminina seja transformada na silueta do
corpo perfeito de mulher: botox, silicone, lipo-aspiração, cremes, tinturas,
depilações, malhações, regimes, operações plásticas, etc. Altura, peso,
dimensões, timbre de voz, posturas, idade, cores, formas, etc, devem estar
enquadradas ao modelo.
Quando a
mutação é finalzada, conclui-se a produção de mais um corpo de mulher que
pretende-se ser tida como perfeita em seu corpo, estando, assim, apta a
concorrer com outras idênticas, ao título do corpo mais perfeito de mulher.
Entretanto, este corpo perfeito de mulher já não é de uma mulher, pois, o que
se produziu não tem como referência a mulher e sua beleza natural, antes e
apenas, busca-se a conformação ao ícone, obtida no final da linha de produção.
É a estética do corpo perfeito, hiper-real, que se sobrepõe ao corpo natural,
real. É a estética que não tem como referência o corpo da mulher, antes, o
corpo da mulher é a matéria-prima da indústria da “Miss”, a qual produzirá um
ícone do corpo perfeito de mulher. A referência para se produzir o corpo
perfeito de mulher é o corpo perfeito de mulher, que tem no corpo da mulher um
dos insumos de sua produção.
Talvez
reste a esta mulher, que se apresenta por meio de um corpo perfeito, o ser
mulher. Mas o que é ser mulher? Aqui, podemos nos lembrar de um livro, cujo
título é: “tudo que os homens sabem sobre as mulheres”. O interior do livro são
páginas em branco. O fato é que se o próprio Freud se negou a estudar as
mulheres (em outras palavras: não quiz por a mão na cumbuca), quem somos nós
para termos a arrogante pretensão de fazê-lo. Portanto, não há resposta que se
pretenda dar a esta pergunta, entretanto, ela se mantém aí.
Mas,
assim como há a “Miss Universo” e esta orgia hiper-moderna da clonagem referenciada
numa hiper-realidade, há também o Travesti.
Vamos
adotar um tipo ideal de Travesti, aquele menino que se ama como menina: uma
pessoa que nasceu com os órgãos sexuais masculinos, mas tem estruturas de seu
psiquê como de um livro com páginas em branco.
Este
menino passa a se utilizar das técnicas, a fim de alterar seu corpo segundo a
imagem que está em sua mente e na semelhança das mulheres que estão diante de
si. Para isto ele faz uso do botox, silicone, lipo-aspiração, cremes, tinturas,
depilações, malhações, regimes, operações plásticas, mutilações, ormônios,
etc., tudo com o propósito de ver em seu próprio corpo a reprodução da imagem e
semelhança que adotou para si. Também alterará sua postura, timbre de voz,
roupas e tudo o que for necessário para que ao ser visto o seja como uma
verdadeira mulher.
O que
restará para esta pessoa que agora se apresenta por meio de um corpo de mulher?
O ser mulher? Mas, o que é ser mulher? Com certeza, mulher não é aquela pessoa
que tem o potencial de estar grávida, pois se assim fosse, as estéreis não
seriam mulheres. Podemos, então, pensar a partir de dois aspéctos, ainda que
não excludentese e neste caso, tão pouco são complementares: por um viés
metafísico e por um viés pragmático.
No viés
metafísico nos caberia pensar numa descrição da verdade sobre ser mulher; uma
descrição da mulher ideal; um absoluto; um universal descritivo que valeria em
todos os tempos, lugares, culturas e ideologias. Neste ponto valeria a pergunta
de Pilatos a Jesus: o que é a verdade?
No viés
empírico, pragmático, deveremos submeter aquela pessoa a testes de domínio da
bio-físico-química e comparar os resultados aos padrões médios, que se obteve
numa amostra significativa de mulheres, previamente verificado. Mas, por mais
absurdo que pareça e em se tratando de amostras, é possível que algumas
mulheres estejam nas regiões tidas como desvios-padrões estatísticos e,
portanto, ainda que sejam mulheres, estatisticamente podem não vir a ser?
Mas,
mais do que estabelecer um metodo de verificabilidade do status sexual de um
indivíduo, podemos olhar para a Miss Universo e para o Travesti à luz do que
culturalmente chamamos de mulher e perceber uma possibilidade de metáfora
social, ainda mais, uma metáfora religiosa.
Nesta
pretensão metafórica, contextualizada pelas técnicas da Sociedade Tecnológica,
poderíamos propor um certo olhar sobre o Travesti como se fosse ele mesmo uma
simulação e sobre a Miss Universo como se fosse ela um simulacro.
Podemos
entender a simulação como uma técnica em que, após termos dominado certo objeto
do desejo, desenvolvemos uma tecnologia que procura reproduzir, o mais
precisamente possível o próprio objeto, mas que ao fim deixe transparecer que
aquele aparato técnico não é o objeto em si que o desejo objetivou. Assim, em
nossa metáfora tecnológica, o Travesti que é tomado como uma simulação de
mulher, parte de uma matéria-prima não-mulher, o corpo do homem, e usando a
tecnologia produz uma nova estética, para vir ser identificado o mais
perfeitamente possível como um corpo de mulher. Mas, ao fim, o exótico e o
intrigante no Travesti é que nele ainda há um homem naquela mulher.
O
simulacro, por outro lado, pode ser entendido como a técnica que não tem como
referência o objeto em si, a verdade, mas tem como referência a estética das
coisas, ou, o ideal estético das coisas. O simulacro opera pelo abandono da
necessidade de verdade; é uma tecnologia de transcendência da verdade e que é
auto-referenciado; o simulacro, em sua forma sem significado, pretende ser a
referência de veracidade hiper-real. Ao se estabelecer um olhar sobre o
simulacro, não se pode distingüí-lo da verdade.
Então,
nossa metáfora pretende estabelecer um olhar sobre a Miss Universo e tomá-la
como um simulacro de mulher, ou seja, aquela que tem diante de si uma
referência iconográfica, transforma a matéria-prima mulher, por meio da
tecnologia, vindo ser, ela mesma, o próprio ícone: hiper-mulher. O produto não
é uma mulher, mas uma hiper-mulher.
A
simulação, em nossa proposta, é uma técnica de ocultamento da verdade e o
simulacro uma técnica de desreferenciação da verdade. Tanto o Travesti sempre
estará em busca de tornar-se uma mulher que não será, quanto a Miss Universo
visará conformar-se à um padrão de hiper-mulher, que jamais existiu. Seus
ideais poderão torná-las em matéria-prima a ser industrializada pela
tecnologia. Em outras palavras, poderíamos dizer que a tecnologia é a
cosmologia idealizadora destes indivíduos e é por meio desta cosmovisão, aonde
a técnica domina, que se transforma e subverte o objeto (o corpo), o qual
reifica o indivíduo e o transforma pela tecnologia.
Como
podemos estar tratando de ocultamento e desreferenciação, estaremos olhando
para a ideologia da Sociedade Tecnológica, ou seja, é a satisfação do
insaciável; é um ter, não sendo; é um consumir esvaziador; é um ir além, indo
aquém. É assumir, a priori, uma dívida sem patrimonialização verdadeira.
É na
indústria do consumo, na Sociedade Tecnológica, que estas metáforas alcançam os
paradigmas de suas cosmosvisões: um corpo a ser transformado para um padrão
estético exógeno. A lógica, nos parece ser, a da busca formal e do esvaziamento
ético. Há, por certo, uma referência à uma estética sem significado, à uma
reprodução da própria forma. Há uma verdadeira orgia da técnica, a qual já não
está aí para libertar e produzir felicidade, por meio do acesso e distribuição
dos bens. Há uma orgia da técnica como causa, meio e fim em si mesma.
Esta
orgia da técnica é a religião da Sociedade Tecnológica, cujo deus é a imagem
iconográfica transcendente. Esta, também, é a orgia religiosa técnica da Igreja
Tecnológica, cujo deus é palavra mágica de acesso ao ícone adorado. Do clero
que simula Deus, em meio a uma Igreja Travesti e da instituição simulacro de
Igreja, a Noiva de Cristo descrita pelos sacerdotes. Tecnologias de ocultamento
e desreferenciação da verdade, que é o Logos, que por meio das técnicas de
hiper-sensibilidade espiritual, revelam coisas do espírito do homem, para o
homem. Aparatos estéticos, que alienam o crente da demanda ética requerida por
Deus à Igreja.
Haverá
fé na terra?