Atravessando
rios
“A
ponte reúne enquanto passagem que atravessa”.
Martin
Heidegger
Não há pontes
na Bíblia!
Não há
pontífices na Bíblia!
Há apenas duas
formas de atravesar as águas: por cima e por dentro!
Em outras
palavras: somente dá para atravesar as águas, mantendo contato com elas.
A palavra
religião, segundo os etimologistas, vem do latin e provavelente traduz a idéia
de se fazer pontes, aonde o mestre contrutor era chamado de pontifex. (Houtart.
2003, pg: 20)
Retornando um
pouco.
O poeta e o
crente, por vezes, tem o direito de se apropriar do simbolismo, a fim de
expressar os significados transcendentes de sua fala. O crente, entretanto, não
tem o direito de abandonar o significado, mantendo, desta forma, apenas o
símbolo.
Novamente: não
há pontes e não há pontífices na Bíblia, sendo-nos oferecido apenas uma maneira
de atravesar as águas: mantendo contato com elas.
É daí que nos
propomos a olhar quatro relatos, nos quais o crente em seu trânsito, em seu
ponto de mutação é desafiado a atravesar águas, segundo os relatos escolhidos,
não contando com tecnologias, ou, construções eficientes e seguras que possam
garantir seu sucesso. Lá, o sucesso não estava na tecnologia de passar sobre,
mas na fé do passar por meio de...
O primeiro
relato é o do Êxodo: o crente deixa seu cativeiro e se vê diante, não de um
rio, mas, de um mar que o separa da liberdade, a qual tem fundamento na
esperança utópica da ‘terra prometida’. O desafio está em por os pés na água e
atravesar pelo meio do mar.
O apóstolo Paulo
disse que alí houve um batismo; ele foi além do símbolo, ou da leitura histórica
do texto e captou o significado daquele ato: houve uma imersão nas águas do
mar, como momento imprescindível da fé na esperança utópica da promessa.
Uma vez
ocorrida esta imersão simbólica, processa-se uma mutação de caráter daquele
crente: de escravo para liberto pela esperança; aquele crente passa a estar em
meio a numa nova peregrinação, agora, porém, no deserto.
Neste lugar,
YHWH lhe propõe a possibilidade de desconstrução do sagrado: um sacerdócio
universal. A proposta é mais ou menos assim: no lugar aonde você estava cativo,
por tanto tempo, você foi acostumado à uma instituição religiosa clériga, de
dominação dogmática. Entretanto, minha proposta é que aqui seja diferente:
todos serão sacerdotes, pois não haverá pontes para construir.
O crente não
‘topou a parada’ e negociou com Deus a instituição de pontífices: algumas
pessoas normais que iriam tratar de fazer pontes. A distância que o separava de
Deus era maior que a largura do mar morto; assim, ele somente cria numa ligação
que fosse estabelecida por meio de uma tecnologia e de um tecnólogo: de
religere e pontifex. No entanto, a distância que separa YHWH do crente é aquela
que separa o amor e a graça, da culpa e do medo: a fé.
A culpa e o
medo são as colunas sobre as quais os crentes institucionalizados ergem as
tenologias de religere. A fé, poderíamos simplificar, é este duto por onde
escoa a agraça amorosa de Deus.
O segundo
relato é a entrada em Canaã: depois de circular por um bom tempo no deserto de
suas fantasias e medos, de fantamas e enganos, de saudades do passado e
indiosicrasias, de mentiras e disatinos, de deuses e demônios, de pecados e
culpa, o crente chega às margens de Canaã. Entre a esperança e a realidade há o
rio Jordão. Entre uma margem e outra do rio há águas e não pontes.
Novamente YHWH,
desejoso de imanar e transcender em meio a realidade construída pelos crentes,
faz uma nova proposta: escolham doze garotos não pontifex, nomais, destes que
estão aí na margem do rio, que eles entrem na água e aguardem. Então irei
mostrar como que se atravessa de uma margem à outra dos rios, sem construir
pontes.
Assim, com numa
nova imersão, eles atravessaram pelo meio do rio: do deserto para uma terra ‘que
mana leite e mel’. Transitaram de realidades distintas: peregrinos por
excelência. A única realidade que eles conheciam, até então, era a do trânsito.
Agora que eles
haviam atravessado o rio, estavam realisando a esperança e construíndo uma nova
utopia: sem reis, sem palácios, sem exércitos. A única instituição era
representada por uma tenda, uma arca, alguns utensílios, um conjunto simples de
leis e um corpo de sacerdotes que não possuiam patrimônios tangíveis (que
estavam alí por escolha dos crentes).
Quando havia
problemas específicos, era, de alguma forma, definido um homem ou uma mulher
(lembremo-nos que Débora que julgou Israel, após terem entrado em Canaã), que
julgaria o litígio.
A proposta que
estava subjacente à vida cotidiana daqueles crentes era que o sacro e o profano
se misturassem na realidade. Eles não necessitariam de tecnologias e aparatos
que os impingisse à obediência, como contra-ponto à insegurança do pecado e o
terror do inferno. Enquanto caminha, ou nas praças, ou mesmo em tua casa, fala
com teu filho, apresentando um YHWH que está espalhado, distribuído, misturado
na realidade cotidiana.
O terceiro
relato é a poesia profética de Ezequiel: profetas orbitam na insanidade. Dizem
ver coisas que não se dá muito crédito. Freqüentemente são mortos pelo que
falam e vêem. Os profetas contemporâneos morrem diferente: na geladeira.
Retomando o fio da meada: estamos falando de margens, rios e travessias sem
tecnologias e tecnólogos.
Este visionário
está diante de um ‘templo virtual’ de cujo altar saem águas; ele é convidado a
medir as distâncias e a profundidade das águas; quanto mais ele mede, mais
profundas são as águas. Em um determinado ponto é tal a profundidade que não se
pode atravessar o rio, a não se à nado.
Nesta visão,
ele retorna à margem e percebe que tanto o rio, quanto as margem estão plena de
vida, vida abundante: de um lado e de outro. A vida prolifera abundantemente
nas margens de um rio que, saindo do altar, deve ser atravessado à nado.
Não há
tecnologias, não há culpa, não há pecado, não há inferno, não há medo, não há
eu, não há eles. Apenas a vida que brota de um rio que se deve atravessar à
nado. Apenas uma experiência lunática de um utópico.
Mas, ainda há o
quarto e mais intrigante relato: a travessia do rio Jordão, saindo da Galiléia
e indo para o deserto, feita por Jesus. Naquele tempo Jesus talvez fosse um
auxiliar de seu pai nos negócios da família, quando o relógio de seu destino
desperta; ele parte para o rio Jordão a fim de ser batizado por João. Após ser
batizado ele sai pela outra margem e se dirige ao deserto, invertendo o caminho
que Josué havia feito anteriormente. Talvez porque havia um assunto inacabado
no deserto: ainda havia deserto em uma das margens do rio, habitado pelos
demônios dos homens.
Neste momento
gostaria de olhar como um poeta, um profeta, para Jesus o carpinteiro, o qual
agora é Jesus o Messias: a manifestação do Emanuel, do Deus que está entre nós.
A experiência de Jesus confere veracidade às visões proféticas, às palavras dos
lunáticos, aos sonhos dos insanos: o Verbo, o Logos, a Verdade prometida, a
Emunah se fez carne: agora é Alethéia, Verdade presente. O Homem e YWHW estão
inseparáveis, homogeneamente amalgamamdos. A experiência da travessia do rio
‘transformou’ o carpinteiro no Emanuel! O batismo de Jesus promoveu a
possibilidade de junção das margens: céu e terra. Embora o rio ainda exista,
ele não mais divide, apenas realiza a vida das margens.
Não há pontes
para Cristo!
Não há
pontífices para Cristo!
Não há tecnologias
e tecnólogos que possam realizar o milagre que se dá no homem, o qual vem a experimentar
a revelação de YWHW na terra.
Caso, num
arroubo profético, poético, pudermos insamamente, ultragemente assumir que esta
travessia é a experiência revelatória do Logos da Graça e do Amor, que é YWHW, nas
entranhas do espírito do homem, como sendo a água, agora, esta imersão às
profundesas da fé de cessação das distâncias. Mas, indo mais adiante, numa
desconstrução insana, permitindo-me crer, isto é, sem medo e culpa, que sou colocado
numa margem de vida abundante, mas que isto apenas me confere o direito de
olhar para o outro com o mesmo olhar que fui olhado por Deus, por YHWH:
gracioso, amoroso.
Seria ainda
concebível a esta débil voz das catacumbas gélidas, dizer que ainda que tendo
mergulhado e saido numa margem plena de vida, há um deserto obscuro, nebuloso,
endemonizado pela minha humanidade, o qual me esbofeteia a face, ferindo a
carne e angustiando a alma; e que, desta forma, este deserto me faz tanto
dependente de YHWH, quanto do rio, ao qual devo retornar freqüentemente. Mas que
os temores do meu deserto, se aplacam com a co-dependência ao próximo, como
crianças que com medo de escuro se abraçam.
Por fim, seria
possível crer que a experiência do rio é a experiência divinamente legitimada
que confere a todos o direito sacerdotal a-religioso, o qual promove a
aproximação de margens distintas: da divindade e da humanidade que deve ser
revelada na terra, no indivíduo que está com o próximo. Que o papel daquele que
atravessou o rio, e sempre atravessará, é conferir, promover, fomentar,
estabelecer e crer no diálogo entre margens antagônicas até que, utopicamente,
a esperança da vida seja abundante em ambos os lados. Que a experiência da fé é
a da reconciliação pela graça e pelo amor, de Deus com o homem, do homem
consigo, do homem com o próximo e da humanidade com a criação.
Glossário
Clero: vem da palavra grega
‘klerós’ e significa herdeiro, e, normalmente, é posta em oposição à palavra
leigo (laikós) que significa ignorante. Não nos parece possível alguém ser
leigo e pertencer a uma fé que pressupõe um saber experimental, o qual ocorre
por meio do conhecimento a Deus. Portanto, inexistindo o leigo, inexiste o
clero. Um bom exemplo da universalidade clériga da fé encontra-se em I Pedro 5:
3: “[...] não como dominadores da herança
(klerós) divina, mas sendo exemplo do rebanho”. Entendemos que o clero
institucionalizado domina, o pastor protege; o clero impõe doutrinas, o mestre
apresenta caminhos para o conhecimento; o clero amedontra e inferniza, o
evangelista agracia; o clero culpa e acusa, o profeta possibilita a esperança;
o clero doma e reprime, o apóstolo comissiona e envia. (Efésio 4: 11 a 16)
Referências
1-
Gênesis 14: 1 a 14
2-
Êxodo 19: 1 a 8
3-
Êxodo 20: 18 a 21
4-
Josué 3: 1 a 17
5-
Ezequiel 47: 1 a 12
6-
Mateus 3: 13 a 4: 1
Houtard, François. Mercado e Religião. São Paulo. Cortez Editora, 2003