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Stress

Estava diante da televisão, naqueles dias que ficamos com o controle remoto turbinado em nossas mãos, trocando de canal de forma frenética e instantânea, quando parei num destes canais com programação religiosa evangélica.

Era uma mesa redonda, triangulada por um “âncora”, um psicólogo e um pastor. Estariam discutindo sobre o stress e como confrontá-lo. Fiquei pensando naqueles homens e suas colocações e em algum momento percebi que a discussão, dentro em mim, se passava pela premissa do modelo de existência que temos adotado, como este modelo afeta o pólo focal desta existência, daí provocando uma hierarquização de valores e uma confrontação, do que os economistas chamariam, de oferta e demanda.

Como que numa matriz de análise, coloquei no outro eixo a questão do esforço, ou trabalho, a questão do descanso e a questão do medo existencial, ou insegurança e seus derivados.

Hoje, no meu grau de conhecimento das coisas do espiritual, não sendo arrogante, dizendo das coisas de Deus, tenho o entendimento que o que ocorreu no Éden é que um casal deixou de focalizar sua vida no espírito, optando por focá-la na possibilidade da sua própria existência material, independente. Aquele tal fruto da árvore do conhecimento do bem e do mal, apenas levou-os a estabelecer a sua existência pela via das experiências perceptíveis pelos sentidos. Passaram a valorar o tempo e o espaço, em detrimento, ou até mesmo em anulação da eternidade e o espiritual.

Por tempo, entendo a prisão que o ser humano se colocou ao imaginar estarmos limitados às translações e rotações terrestres, e lunações. Com base nestes fenômenos físicos, determinamos o dia de irmos à “Casa de Deus”, no “Dia do Senhor”, e o tempo de repensarmos nossas vidas e planejarmos mais um ano à frente. Em função desta lei, que os astros obedecem, festejamos a vida e alguns até homenageiam os mortos. A partir desta prisão o ser humano começou a contar a idade e temer a morte.

Por espaço, entendo o cárcere da consciência tridimensional do ser humano; não falo do cárcere do corpo, mas da consciência. O ser humano passa a estar subjugado aos seus sentidos apenas, ao meio onde está inserido, seu ecossistema social, cultural, político, geográfico, profissional, religioso, e à capacidade de sua alma em estabelecer juízo sobre Deus, sobre si mesmo e sobre seus demais relacionamentos. A consciência de espaço que o ser humano foi dotado, ao preferir o sonho da liberdade de Deus, trouxe a ele uma percepção de sua nudez, diante de si, de Deus e da mulher.

O subproduto inevitável desta escolha por um estilo de vida que muda o pólo focal é obter recursos via stress. De fato como entendo isto? Limitando-nos ao tempo e espaço, passamos a ter uma agenda que é hierarquizada pela demanda externa, isto é, os fatores de ordem religiosa, cultural, social, profissional, financeira, etc, determinarão as nossas escolhas e pelo que devemos nos esforçar, passamos a estar constantemente “correndo atrás do prejuízo”. Há uma demanda determinada unicamente por fatores externos, que não podem ser supridas por recursos internos, do ser.

Há uma demanda acelerada de ter, que cresce num ritmo superior à nossa capacidade de suprí-la.

Este abismo crescente, entre demanda exterior e oferta interior, gera medo que num tempo sejamos achados obsoletos; obsoletos socialmente, quando não possuímos os símbolos de status e aceitação de um determinado grupo; obsoletos culturalmente, ao não possuirmos informações relevantes; obsoletos profissionalmente, por não equipararmos “skills” necessários; obsoletos diante de nossos pares religiosos, por não nos movermos como eles; enfim, medo da obsolescência.

Estamos, ao fim, comprimidos neste ambiente que determina que aquilo que devemos ser é estabelecido pelas contingências ou determinantes externos. Passamos a, firmemente, acreditar que devemos trabalhar arduamente para ter, a fim de suprirmos para com as exigências do ecossistema que estamos inseridos. Daí resultam, no meu entendimento, o medo da obsolescência e o stress.

Stress decorrente do esforço brutal em reduzir a velocidade de alargamento do abismo – abismo entre demanda e oferta – e stress ocasionado pelo esforço repetido, contínuo, ininterrupto, prolongado, em atividades não prazerosas.

Em fim, mudamos o pólo, passamos a olhar referencialmente para fora e adaptarmos nosso interior ao que percebemos pelos sentidos e ajuizamos na alma. O espaço determinando o ser e o tempo limitando a resposta. Esta equação me parece estar conduzindo ao medo estrutural, ao stress contemporâneo e a loucura ocasional.

Mas, dentro de uma linha científica de pensamento, se conseguimos isolar o vírus, devemos procurar desenvolver um antídoto, ou seja, se nesta ponderação chegamos a propor que o stress é fruto do medo e este advém do desequilíbrio crescente da demanda externa com a oferta interna, e isto decorrência do lugar para onde estamos “olhando”, então poderíamos apresentar um modelo que rompesse com este ciclo.

Para tanto, gostaria de chamar a atenção para as seguintes palavras de Jesus: “O reino de Deus não vem com aparência exterior...nem dirão: Ei-lo aqui! ou: Ei-lo ali! pois o reino de Deus está dentro de vós.” (Lucas 17: 20 e 21). E para as seguintes palavras de Paulo: “porque o reino de Deus não consiste no comer e no beber, mas na justiça, na paz, e na alegria no Espírito Santo.” (Romanos 14: 17).

Enquanto a escolha adâmica fez o ser humano olhar para o meio externo e dali obter padrão existencial, a escolha de Jesus fez o ser humano olhar para Deus, sem véu, sem ritos, sem cronogramas, sem instituições, sem lugares geográficos, mas para um lugar espiritual, que é o próprio ser humano. “O Reino está dentro de nós!”

O antídoto passa por olharmo-nos e ao fazer isto percebermo-nos portadores de uma intensa e poderosa vida, que está potencializada em Cristo, mas que deve ser dinamizada por fé. Esta fé vem quando cremos que o “Reino” é o conjunto de valores de Deus: Seu ser, Sua Palavra, Seu Espírito, Amor, Caráter, poder, autoridade, justiça, sabedoria, fruto, dons, etc. Este conjunto de recursos instalados em nós, potencializados em nós, aguardando ativação da fé.

O estopim deste tipo de fé vem da intensidade da busca em responder, de forma simples, prática e contextual, a seguinte questão, sobre o propósito de nossa existência singular: o que eu amo ser? O que, em toda manhã, me faria levantar pleno de satisfação ao ter certeza que aquele dia me levaria a realizar mais uma etapa de meu destino? O que não teria um preço tão alto a pagar, que não estaria disposto a pagar muito mais? Quais são os reais valores da minha existência, que valem a pena serem buscados? Quais são os tesouros que devo buscar, que produzirão uma vida realmente prazerosa? Como nos disse Jesus: “o reino dos céus é tomado a força, e os violentos o tomam de assalto.” (Mateus 11: 12).

Um dos elementos inibidores do stress é ao reformarmos nosso centro focal, tirando-o do meio externo e colocando-o para dentro de nós, na vida que flui em nós. Vem de realizarmos nossa existência para suprir destino e não a demanda externa. É desenvolvermos o que somos, com toda a intensidade e determinação, com justiça, paz e alegria interior, pelo fato de que o fruto da obra de nossas mãos ser resultado de uma demanda interna que foi suprida.

Este olhar para dentro, não é um olhar introspectivo egocêntrico, mas um olhar introspectivo cristocêntrico, que visa maximizar e otimizar o potencial divino colocado em nós. É a busca do real valor que temos, em Cristo, e do potencial de vida que nos foi outorgado pelo Espírito.

Em fim, as convicções e certezas de nosso propósito existencial, que chamamos de fé, atrelados aos recursos do Reino, são supra-suficientes para realizar a promessa de Jesus: “Mas buscai primeiro o seu reino e a sua justiça, e todas estas coisas vos serão acrescentadas. Não vos inquieteis, pois, pelo dia de amanhã; porque o dia de amanhã cuidará de si mesmo. Basta a cada dia o seu mal.” (Mateus 6: 33 e 34).

O mundo, as organizações, a sociedade, os matrimônios, de fato, não carecem apenas de portadores de conhecimento científico, quer do saber produtivo, quer do saber acadêmico, mas, antes, necessita de pessoas íntegras, de caráter, que busquem a excelência, produtividade, eficácia, compromisso, mas agreguem humanidade, retidão, ética, valores estes que, como cristãos, somos instados e supridos por Deus a ter.

Deus nos chama a, com ousadia, determinação, força, coragem, romper com este modelo falacioso de premissas materiais e, mediante uma transformação de nossa mentalidade, levantar, diante dos homens, um modelo de ser em essência, produzindo qualidade existencial cotidiana.