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Tecnologias e Transcendências.

Sento-me com minha esposa para pensarmos nossa viagem no fim de semana prolongado. Afinal estes quatro dias são esperados à muitos meses. Desejamos ir para um lugar que ainda não fomos e que um amigo disse ter ido e ter sido maravilhoso.

Depois de analisarmos os pró e os contra, as relações custo-benefício, sonhos e realidades, poder-vontade, decidimos que nosso ponto B é a cidade Destino: aquela que ouvimos pelo relato do amigo. Esta fica a algumas dezenas de quilômetros do ponto A, a cidade Origem, permitindo que viagemos de carro.

Por decidirmos ir de carro, devemos levá-lo até uma oficina especializada, aonde será feita uma revisão geral: motor, suspensão, pneus, freios, óleos, refrigeração, elétrica, lâmpadas, etc e lavar o veículo. De lá, iremos para o posto, a fim de completar o tanque com gasolina adtivada.

Enquanto o carro está parado, neste dia na oficina, estamos, via internet, acessando a página do hotel em Destino e fazendo a reserva “on line”. Por meio de um “home banking”, efetuamos a transferência dos valores financeiros correspondentes à estadia com meia-pensão: dormitórios, café da manhã e jantar.

Ainda plugados, entramos em outra “Home Page” que nos sugere o melhor traçado entre a cidade Origem e a Destino: peguem a Rodovia Noel Rosas até o quilômetro 128, próximo à cidade Intermédia acessem a Rodovia Hebert Marcuse e percorram 600 quilômetros até a Estrada de Damasco por mais 49 quilômetros. A cidade Destino é uma estância que fica no alto da montanha: 3.000 metros de altitude, com restaurantes, shoppings, calçadões, trânsito, filas. Lugar ótimo para fugir da monotonia do stress.

Fazemos um check-list das coisas que devemos levar: meias, calções, calças, cuecas, camisetas, camisas, casacos, pijama, tenis, spatos, chinelos, desodorantes, sabonetes, shampoos, perfumes, pasta-de-dente, escova-de-dente, pente, gel, máquina fotográfica, livros, cartões-de-crédito, cheques, dinheiro. É claro: a Palavra de Deus e os filhos.

Como estaremos longe de Origem, separamos 21 CDs com música Gospel que ouvimos todos os dias na rádio: Renascer Praise 1, 2, 3, 4..., Rebanhão, Oficina G3, Resgate, Cristina Mel, Mara Maravilha...isto me faz lembrar das palavra heréticas de um pregador: “imagine passar a eternidade no céu ouvindo Mara Maravilha e não Tom Jobin”.

Finalmente chegou o dia: quata-feita, 18 hs. Vamos partir!

Que maravilha a rodovia, toda asfaltada, duas pistas para o sentido que estamos e duas para retornar. Há uma faixa branca e contínua pintada no asfalto, tanto na extremidade esquerda, quanto na da direita da pista e ao centro uma linha não contínua. A cada 2 quilômetros há uma placa indicando a distância percorrida e de quando-em-quando placas sinalizando a velocidade máxima, curvas perigosas, postos de gasolina, indicações de acesso, etc. Tudo favorecendo para que tenhamos a viagem mais segura, rápida, confortável e correta possível. Obviamente que a cada 50 quilômetos tivemos que pagar pedágio, como efeito desta eficiência objetivadora. Radares foram postos a cada 10 quilômetros para garantir mutas pesadas àqueles que ultrapassam o limite permitido de velocidade, além da polícia rodoviária que, por amostragem, para veículos com a finalidade de conferir documentos e regularidade dos automóveis: auferir mais multas.

Precisamente como nos demonstravam os mapas, chegamos a Destino às 3 horas da manhã. Conforme o “guia” que pudemos fazer “download” na “home page” do hotel, chegamos facilmente no ponto B e rapidamente fizemos o “check-in”, com uma moça sorridente e simpática. Fomos gentilmente informados sobre nossos quartos, de que o café-da-manhã iria até às 10hs:30’ e deram-nos um “folder” dos agentes e programações de lazer.

Fomos para o quarto, mas antes combinamos nos encontrar às 7hs:30’ no restaurante do hotel, a fim de iniciarmos nosso dia traçando um plano de atividades. Devemos otimizar nossa estadia, maximizar nossa agenda e buscar a eficácia máxima por lazer e alegria. Passeios, compras, alimentação, fotos, lembranças, etc, tudo pensado a priori a fim de marcar nossa passagem por aquele paraiso.

A tecnologia não são os computadores, os softwares, os automóveis, os hoteis e as rodovias. A tecnologia são aparatos (e poderia, escorregando, dizer, lógicos) que tem a intenção garantir, com a máxima eficiência, um determinado fim. A técnica é uma determinada leitura da vida, do mundo: como o indivíduo interage com o mundo.

A tecnologia está nos modelos decisórios, na fragmentação dos especialistas, na linguagem, nos check-list, no sorriso plástico, na gentileza utilitária, nas placas, nos guias, nos cronogramas, nos planejamentos holísticos, nas dinâmicas e buscas inconscientes por eficácia, otimização, racionalização, maximização, etc. As engenharias apenas tornam tangíveis os aparatos tecnológicos, mas eles já estão no homem moderno.

Quem te deu o direito de nos tirar do paraiso e nos por num chips? Estava ótimo no Destino e agora somos transportados para a Origem!

Tendo em vista que um fato não previsto tenha ocorrido em nossa viagem, decidimos retornar à tempo de irmos ao culto das 19hs na Igreja Sede. Cegamos lá cinco para as 7. Na frente do Templo tem um grande “outdoor” escrito: domingos às 10hs, 15hs e 19hs, culto da família; segundas-feiras às 19hs:30’, reunião dos empresários; terças-feiras às 19hs:30’, cura e libertação; quartas-feiras às 20hs, prosperidade; quintas-feiras às 19hs:30’, culto do Espírito Santo; sextas-feiras às 18hs, batalha espiritual; sábados às 19hs quebra de maldições.

Viemos para a reunião certa, pois estávamos, excepcionalmente, todos juntos neste dia. Nossos filhos nunca vêm à Casa de Deus, preferem as coisas do mundo; eles dizem que aquelas pessoas dalí não vivem o que pregam. Como podem saber? Não conhecem ninguém.

A igreja já estava parcialmente cheia, pintura impecável, luzes aconchegantes, ar condicionado ligado, bancos enfileirados, um telão projetava textos bíblicos e avisos, alguém tocava um instrumento quase que imperceptível. O diácono nos conduziu até os lugares que deveríamos sentar e alí percebemos que havia dois envelopes: um deles escrito ‘dízimos e ofertas’ e outro escrito ‘pedidos de oração’. Nenhuma das três mil pessoas que alí estavam nos coprimentou.

Ficamos orando para que o “ungido do Senhor” pudesse falar algo que convertesse nossos filhos e eles se tornassem ativos na “obra de Deus” e que também pudesse trazer uma “palavra poderosa” que nos desse força para atravessarmos a semana.

Um moço bonito, com um sorrisso simpático e voz de locutor, convidou a todos que ficassem em pé, para que ele pudesse fazer uma oração. Na oração ele amarrou os demônios, liberou a Deus, convocou os crentes, honrou a pessoa do pastor e enalteceu o lugar santo e o tempo sagrado: o santuário.

Cantamos três músicas. Elas ministravam para nosso coração, dizendo como somos fortes, prevalecemos sobre as trevas e sobre os ímpios, e conquistamos as bênçãos que estão escritas na Bíblia. Músicas alegres, ritmo marcado, som alto e letra simples e repetida.

A esposa do apóstolo, a episcopisa, tomou a palavra e, abrindo em I Crônicas 21: 18 a 27, disse: a Palavra de Deus diz que os sacrifícios que o Senhor aceita devem custar algo; para obter a prosperidade de Davi, o crente tem que dar o dízimo e ofertar. Deus se move a nosso favor quando dizimamos e ofertamos. Sem que dizimemos algo que nos custe, Deus não pode amarrar a boca do devorador e liberar as bênçãos.

Minha esposa e eu nos entreolhamos e pegamos o cheque que iríamos utilizar no pagamento da escola das crianças e colocamos no envelope que estava escrito: “dízimos e ofertas”. Em nosso coração estava a Palavra dita pela Episcopisa e tinhamos fé que Deus iria honrar a Sua palavra, dando-nos cem vezes mais. Um grupo de moças e rapazes alegres passaram recolhendo os envelopes

Cantamos mais duas músicas: melodias mais pausadas, intimistas, suaves, com letras que nos convidavam a louvar a Deus por Ele nos ter feitos herdeiros do Seu Reino; adorar a Deus por nos guardar do mal; engrandecer a Deus por nos fazer justos e santos. Neste ambiente de adoração, o Apóstolo começou a orar em línguas. Depois de uns 20 minutos orando, começou a pregar.

Tema: sete passos que garantem a ação de Deus na vida de Seu filho.

1-       Você deve deixar o mundo e vir para a Casa de Deus;

2-       Você deve convidar seus amigos à virem a Casa de Deus;

3-       Você deve honrar as autoridades que Deus instituiu na Igreja;

4-       Você deve crer na Palavra de Deus que é dita pelos ungidos do Senhor;

5-       Você deve ser fiel no dízimos e ofertas;

6-       Você deve fazer a Obra de Deus;

7-       Você deve estar presente em todas as campanhas, atividades e eventos promovidos pela Igreja.

Neste momento ele começa a falar da campanha de jejum de 21 dias de Daniel 10, pela liberação de bênçãos retidas. Tema do evento: ano da porção dobrada de Daniel.

Tecnologia não são os robos que estão nas indústrias, os transgênicos da agroindústria, a bioengenharia, os urânios eriquecidos, as sondas espaciais, os chips. Tecnologias são construções humanas que são destinadas a produzir algo com o máximo de eficácia. Pontes são tecnologias.

“A tecnologia, como modo de produção, como a totalidade dos instrumentos, dispositivos e invenções que caracterizam a era da máquina, é assim, ao mesmo tempo, uma forma de organizar e perpetuar (ou modificar) as relações sociais, uma manifestação do pensamento e dos padrões de comportamento dominantes, um instrumento de controle e dominação.” (Marcuse. 1999; p. 73).

A tecnologia, enquanto aparato, por um lado fragmenta e individualiza a pessoa e a sociedade, e por outro lado desumaniza o indivíduo reduzindo-o a um equipamento util à produção de dominação. A tecnologia é apresentada ao que a utiliza, como uma caixa preta, sendo, portanto, acessível apenas os inputs e outputs do equipamento. Não há acesso ao conhecimento real sobre o que se construiu o aparato: ele está alí para ser utilizado segundo o manual e para produzir aquilo que dele se espera.

Daí que se pode olhar para a religião tecnológica, ou, mais propriamente, para a tecnologia religiosa: um equipamento hermético, construído por pessoas que desejam aumentar a eficácia na obtenção das coisas divinas. A tecnologia religiosa, a engenharia eclesiástica, tem produzido aparatos que visam maximizar a relação entre benção-sacrifícios. A tecnologia religiosa pode ser representada por Caifás: aquele que, para manter a instituição, os ritos, o Templo, o Sacerdócio, não se importa em matar Deus.

Deus é um símbolo útil, uma logomarca, que confere autenticidade, veracidade, segurança, confiança ao equipamento e que para podermos rodar este caça-níquel, devemos por uma moeda. Ora, sem fé é impossível ganhar num cassino.

A religião tem construido pontes, tem edificado tecnologias que maximizam a possibilidade de migração do deserto para Canaã, que efetivam uma transcendência, um abandono da experiência com o Logos: um passar pelas águas. A religião é a assassina de Deus.

A experiência religiosa é tecnológica. A experiência com Deus é uma experiência a-religiosa.

Bibliografia:

Marcuse, Hebert. Tecnologia, Guerra e Facismo. Editora Unesp. São Paulo: 1999