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ausência e excesso do divino

Como pode haver ausência de trânsito de veículos em uma estrada?

Pela ausência absoluta de veículos ou pelo excesso absoluto de veículos.

Como podemos não mais temer a morte?

Pela ausência da morte ou pela banalização da morte.

Como seria possível não haver desejo sexual?

Pela ausência da nudez da mulher (em se tratando do um hetero, ainda que não monogâmico) ou pela presença de todas as mulheres nuas simultaneamente.

Aonde há ignorância?

Aonde não há informação ou aonde há toda a informação.

Como seria possível o caos?

Pela ausência de movimento ou pela extravagância de movimento.

Aonde há ateísmo?

Aonde há a ausência do movimento divino, fruto do dogmatismo racional clerical, ou aonde há extravagância do movimento divino, fruto do emocionalismo histérico místico eclesiástico.

Aonde há a ausência do movimento divino, o qual foi enjaulado no ritos, cânones, mitos, doutrinas, patrimônios, hierarquias, fórmulas, modelos e verdades; aonde há a extravagância do movimento divino no consumo de tecnologias que promovem a dominação do leigo através da manipulação emocional.

Aonde há a ausência do movimento divino promovida pelo fundamentalismo arcáico, alienante, limitador, descontextalizado, imbecilizante; aonde há extravagância do movimento divino nas fábricas de revelações massificadas, nas produções sistemáticas de “palavras de deus” sem incersão possível na vida do indivíduo na coletividade.

Aonde há a ausência do movimento divino na terra, pelo aguardo covarde pelo arrebatamento e pelo juízo final; aonde há extravagância do movimento divino na secularização materialista das lutas armadas, das violências, dos conflitos sem pacificação.

Aonde há a ausência do movimento divino pelo ocultamento mágico da unção clériga; aonde há a extravagância do movimento divino no desencantamento da sistematização de Deus.

Aonde há a ausência do movimento divino na presença da letra e na ausência de milagres; aonde há a extravagância do movimento divino na abundância de milagres e na ausência do conhecimento.

Aonde há a ausência do movimento divino no Corpo sem Espírito; aonde há a extravagância do movimento divino no espírito desencarnado.

Aonde há ausência do movimento divino no ajuntamento sem congregação; aonde há extravagância do movimento divino na virtualização sem aliança.

Aonde há a ausência do movimento divino na soberania, na justiça e no juízo sem Graça e sem Amor; aonde há a extravagância do movimento divino na fraternidade e familiaridade sem Responsabilidade.

Aonde há a ausência do movimento divino na negação do outro; aonde há a extravagância do movimento divino na negação da intimidade individual com Deus.

Aonde há a ausência do movimento divino na pretensão humana de ser o Ungido; aonde há a extravagância do movimento divino na pretenção dos indivíduos em terem a mesma Unção.

Aonde há a ausência do movimento divino na negação de que Jesus veio em carne; aonde há a extravagância do movimento divino na negação de que a Igreja é a carne de Cristo.

Aonde há a ausência do movimento divino nos padrões absolutos e inatingíveis de perfeição, santidade e fé estabelecidos para serem praticados fora do mundo, por ninguém; aonde há a extravagância do movimento divino quando todos os deuses do mundo perdem o absoluto ético, o qual foi verdadeiro na humanidade de Jesus.

Aonde há ausência do movimento divino quando ao leigo é determinado a pobreza como porta para o céu e o clero tem as chaves que o permite a vida palaciana; aonde há extravagância do movimento divino quando a todos os que crêem (e eles são muitos e crescem) é prometido a prosperidade e riqueza neoliberal dos poderosos, quando vivemos numa terra com recursos limitados.

Aonde há a ausência do movimento divino na espera do juízo final pela destruição eterna no inferno ao ímpio a quem Deus amou; aonde há extravagância do movimento divino na espera de sermos arrebatados ao céu, nós que deveríamos orar e cooperar para que a vontade de Deus fosse feita na terra: a manifestação do Filho de Deus.

Aonde há a ausência do movimento divino no fechar os olhos para a violência, tampar os ouvidos para os gritos de socorro, recolher as mãos negando o auxílio, no calar-se contra a injustiça, negar-se ao contato com a pele frágil, trêmula e suja do excluído, acostumar-se ao cheiro fétido da religião protituída e comer a seia dos poderosos e opressores; aonde há extravagância do movimento divino nas petições, nos jejuns, nas vigílias, nas campanhas que visam o consumo egoísta que engordam os farizeus.

Aonde há a ausência do movimento dinivo nos discursos de campanha e na negação da água e do pão (trabalho, educação, renda...esperança); aonde há a extravagância do movimento divino nos banquetes sem o reconhecimento da fragilidade humana diante de Deus e no silêncio diante da angústia.

Aonde há a ausência do movimento divino nos muros; aonde há extravagância do movimento divino nas pontes.

Aonde há a ausência do movimento divino no moralismo e no legalismo; aonde há a extravagância do movimento divino no liberalismo antropocêntrico.

Aonde há a ausência do movimento divino no secularismo objetivante e racional; aonde há extravagância do movimento divino no monastismo contemporâneo que é a “vida que ocorre nos cultos intermináveis, contínuos, freqüêntes os quais se dão nas igrejinhas”, como nos dias de Noé: casavam e davam-se em casamento.

Aonde há a ausência do movimento divino na técnica do sagrado; aonde há a extravagância do movimento divino senão na estética do sagrado.