Os demônios que moram
nos olhos e se assentam na língua
Eu sou deus!?
Crê em mim! Em minhas mãos há o poder para poder fazer as
coisas que desejo!
Meus planos não são sonhos, diferentemente dos seus que são
pesadelos inacabáveis, e se dão em planos que desembocam como rios em projetos
realizáveis, realizados, em novos sonhos! Profusão de sonhos, como linhas de
montagens; como dinâmicas de poder e desejo.
Certamente sei que sou bom e que o mal está fora do que eu
sou; entretanto, este que me espreita nas esquinas, nas madrugadas é o bêbado
faminto ignorante doente nécio.
Assim, a história que se faz, como uma saudade daquilo que
ainda não foi, é a minha História, criada por mim mesmo e contada pelos reis
entronizados na minha linguagem.
Digo que ouço a Deus e subjetivo, então, crio, posto que eu
sou, toda indústria, métodos, ordem, processos, produtos, para que ao
imaginarem adorar a Deus, sirvam a deus.
Minha verdade é a ordem da unção: ao desobediente, ao
rebelde, ao inimigo o inferno.
Ofereço a todos o vício, que é mais do que o pão e o circo,
para que voltem a mim ainda mais necessitados, mais dependentes, todos os dias,
eternamente, e me pagem o tributo além da lei dos dízimos, a oferta involuntária.
Todos eles voltam sempre, pois falo a minha verdade. Todos os que não voltam
sempre, eu o amoroso deus, os entrego às chamas dos demônios, no infermo mais
profundo das minhas palavras irrevogáveis: a justiça que faço em nome de deus.
Sou eu, deus. Ainda que não me veja como deus, você crê em mim.
Isto é ser deus: ser crido não sendo visto. Quanto trabalho há nas obras de
deus? Ser olhado, mas não ser visto; ser entendido, mas não ser ouvido; ser
sentido, mas não ser tocado. Estar sempre presente, sem nunca estar presente.
Por eu ser, estou. Estou lhe aconselhando, quando você deseja
fazer a sua vontade, dizendo para fazer o que eu quero. Estou em seu caminho,
eu sou o seu caminho: você vai de você mesmo para mim, mesmo. Estou em meio a
você, estou entre você, estou em você; nada do que você é, é sem mim. Não lhe permito
pensar fora de mim, não lhe permito caminhar além de mim, não lhe permito ser
sem deus!
As palavras...Ah! As Palavras. Digo a você o que elas
significam, como devem ser lidas, a partir de quem devem ser lidas: eu. Somente
eu, e aqueles que eu indicar, cobrí-lhes com a minha sombra, com a sombra de
minhas mãos untadas, aqueles que falam a minha linguagem, somente eu sei o
quando a Palavra é Verdade. A palavra e a verdade são minhas.
Eu. Eu sim. Certamente que eu paguei o preço pela minha justiça:
meus jejuns, minhas vigilias, minhas orações, minhas obras, meus montes, minhas
campanhas, meus dízimos, meus suores, meu sangue, meus nazirenatos, quando me
tornei eunuco, minha auto-negação da vida, minha auto-adoração da morte, meus
fundamentos em meu espírito, minhas pontes, minha construção de verdade, minhas
peregrinações sobre esteiras rolantes, meus templos, meus castelos, minha voz
que simula a Tua, minha obediência a mim mesmo...
Venham! Venham a casa do senhor. Venham à casa do senhor e
tragam seus dízimos!
Venham a mim vós todos os que estão cansados de promessas
vazias. Venham a mim os que estão à margem do sistema. Venham a mim os
renegados. Venham, que com minha cobertura espiritual, como o cão que cobre a
virgem, porei em vós um filho no ventre, um bastardo: um lobisomem. Farei de
vós seres angustiados, desanimados, desamparados, destruídos, mortos, sem céu,
sem terra; farei que sejam devorados de dentro para fora, pela fome insassiável
de meu rebento. Meu rebento ama as fossas, as carnes putrefatas, o mal cheiro
da desesperança.
Como eu amo as mulheres! Tão castas, tão virgens, tão
obedientes, tão submissas. E ainda carregam no ventre o meu filho.
Como eu amo os homens! Tão efeminados e prenhes. Os homens
são flores, são noivas, são virgens, são esposas...se inflamam mutuamente em
sua sensualidade.
Venham! Venham fazer a obra de deus. Pintem as paredes,
limpem o chão e lavem as latrinas; arrumem os bancos e troquem as lâmpadas;
ponham flores no meu altar e acendam o candelabro de minha lei. Não esqueçam os
dízimos e as ofertas, que vos servirei com minha cobertura.
Não ouçam, a não ser a minha voz! Não leiam a não ser a
minha lei! Deus falou comigo; deus disse para que eu dissesse a vocês para
somente a mim dar ouvidos: quem lê entenda.
Você que entrou no santo templo, sente na vigèsima primeira
fileira, na décima oitava cadeira. Não toque no monte para que não morra.
Contemple-me à distância; nada pergunte. Cante, cante. Pague, pague e pague.
Escute. Nada queira saber. A ninguém conheça. De mim não se aproxime. Tendo os
infiéis tocado no monte, vieram a morrer, quem é você para subí-lo?
Sou só. Eu, minha esposa e o meu filho que está no ventre da
minha amante.
Como você se chama? Porém, o meu nome é eu sou! Darei um
nome a você: servo do eu sou.
O bêbado enlouquecido falou: Deus morreu! Mas Deus não pode
morrer!
Angústia e silêncio!
Pelo meu desejo e poder eu ressuscito Deus! Certa vez o
homem morreu, e ressuscitou Deus. Agora, porém, Deus morreu e,
ressuscitar-me-ei deus. Deus deve estar vivo para que creiam em deus, não o
vendo, entretanto. Deus, ordeno-te: ressuscite.
A multidão clama: onde está Deus? Eu vos mostrarei deus:
crede por causa das obras. Profetizo em nome de deus, expulso demônios em nome
de deus e faço milagres em nome de deus. Eu sou faz todas estas coisas para que
creiam, ainda que não vejam.
Preciso de Você, oh! Deus. Para que pensando em Você, creiam
em mim. Para que olhando para Você, vejam a mim. Para que ofertando a Você, paguem
a mim. Para que vindo à Vossa casa, construam meu trono.
Não morra ainda, para que eu viva.
Há muita obra que tem de fazer. Não posso deixar que os
filhos do mundo nos vençam, vençam-me. Eles têm a Microsoft, a IBM, a Shell, o
Mac Donald’s, a GMC, eu, porém, tenho o Vosso Nome. Vossa marca erguerei acima
das deles, a fim de que meus produtos prevaleçam sobre o deles. Não usaria Deus
do Marketing caso fosse deus?
Maldição e desgosto!
Como é humilhante depender do outros para ser feliz.
Mas com minha lei, com o meu entendimento, com a minha fé
prometo a você a felicidade: não faça isto, aquilo e também isso; faça, porém,
o que eu não faço: um passo de fé para a prosperidade; três princípios para a
vitória; sete jejuns para a restauração. Semeie a minha palavra e Deus se tornará
seu réu, seu escravo: assim diz a Sua Palavra. Eu digo a verdade.
Olhe para mim e esteja atento a como eu falo. Desejo que
você seja minha imagem e semelhança, assim como sou a imagem de meu espelho.
Pense como eu penso, fale como eu falo, faça o que desejo que seja feito, e
porei a você sentado no lado direito do meu trono.
Como meu trono está alto, acima de todos os deuses, e de lá
reino sobre todos, decretando-os que se façam como um deus: eu deus!
Os meus
olhos estão sobre todos vocês, ainda que eu não os veja. Sois meus espelhos,
espelhos de minha glória e poder. Como embarcações sem leme e sem bússula, sois
por meu espírito levados aos mares do norte. Do meu trono decreto a imagem de
deus em vós: eu, o além-do-homem o desejo.