O mito e a pedra
movente.
O mito está lá para nos lembrar de uma impossibilidade. O
mito surge, como diria Nietzsche, de uma noite de sono que separa o ontem do
hoje. O mito, como diria Aristóteles, é uma “narrativa” (Abbagnano, 2003;
673), mas que foi ‘fantasiada’ pela noite de sono que está entre nós. O mito é
aquela história contada por um adulto que jura que quando era criança viu uma
sucuri de vinte metros de comprimento e cinquenta centímetros de diâmetro; de
fato, é possível que ele tenha visto a tal cobra, mas é ele quem tinha a metade
da altura que possui hoje.
As narrativas nos trazem sempre figuras cujos desempenhos,
proezas, façanhas somente poderiam ser realizadas caso estes seres de fato
fossem misturas de deuses e humanos: humanos em sua tangibilidade, mortalidade,
finitude; divinos em seus feitos sobre-humanos.
O mito nasce, aparentemente, como aquela brincadeira do
telefone sem-fio, onde uma pessoa diz à outra: ‘há um macaco comendo as bananas no telhado’. Esta pessoa fala à
outra, que diz à mais uma, que conta para o próximo, a qual relata ao
subseqüente, e que ao fim de inúmeras passagens a frase se torna: ‘o mancal foi
colocado nas bronzinas da talhadeira’. De fato o mito está mais para o dito
popular: ‘o povo aumenta mas não inventa’.
Simplisticamente poderíamos dizer que há três momentos do
mito: o primeiro momento é o histórico, em que o fato se dá, quando há a
ocorrência em si do evento que suscitará uma narrativa, e aqui não estamos
afirmando que todo mito é fruto de um fato cientificamente comprovavel, mas que
ele surge na história, ainda que seja na imaginação; o segundo momento é o
poético, aonde o fato histórico passa a ser narrado, mitologizado, tomando cena
a linguagem poética e delirante do gênio; e o terceiro momento é o hermenêutico,
aonde um texto tradicional é lido contemporaneamente. Tanto o personagem,
quanto o poeta e também o hermenêuta carregam e descarregam no fato a sua
prórpia contemporaneidade, ou, como diz Richard Palmer, “ler uma obra é um evento, um acontecimento que ocorre no tempo, e o
significado que a obra tem para nós é um produto da integração no nosso atual
contexto e de integração na obra.” (Palmer, 1969; 193) Em outro momento o
autor usa o conceito de “fusão de
horizontes” (Palmer, 1969; 210), em que de um lado está o texto tradicional
composto num espaço e num tempo pela genialidade de alguém e de outro está o
hermenêuta, sua pesquisa e seus paradigmas.
Diante de uma relato, de uma narrativa, de um texto
tradicional o que nos restaria? Sendo este um texto sagrado, haveria em nós,
ainda, o delírio irracional de supormos que a razão pode chancelar o texto,
pode validá-lo, pode determinar inexoravelmente sua sacralidade? Que a
razão-em-si tem a virtude metafísica da verdade e que por isso o sujeito pode apreender
o objeto, e, ao dominá-lo, verificar sua ‘falsibilidade’ ou ‘verocimilidade’,
quando este objeto é um texto sagrado? É possível ao homem pós-moderno que sabe
que não sabe ‘a verdade’, pois que nele está plantado concomitantemente o trigo
e o joio, não sabendo asseverar o que é um e outro, olhar para o texto sagrado
e dizer, isto é divino e isto é uma impostura ideológica? Não chegamos ao
limite de nossa humanidade aonde a verdade cede lugar à dúvida ou ao
dogmatismo? Não estaria na dúvida a vontade de potência, vontade de virtude?
Não seria a virtude o próprio fim, término, encerramento da universalidade, da
razão transcendental, da cientificidade moderna? Não seria a virtude, a dúvida
na prórpia razão? Assim, parece-nos que o dogmatismo está na verdade enraizada
e a dúvida na veracidade contextualizada, diante do que “a verdadeira tarefa da hermenêutica é a integração e não a
reconstituição” (Palmer, 1969; 190).
Enquanto a verdade enraizada é imutável, perfeitamente estática,
absolutamente desnudada e continuamente fundamentalista, a verdade
contextualizada é peregrina, perfeitamente dinâmica, que se apresenta e se
oculta e é descontinuadamente fragmentada.
Assim, a fluidez da contemporaneidade tem lançado massas amendrontadas
e inseguras para o abismo do fundamentalismo dogmático que produz uma
hermenêutica da verdade histórica, criando leitores que abdicam do presente
para re-encontrar a plausibilidade de suas existências no passado reconstruído:
está é a culpa da pós-modernidade.
A crise pós-moderna tem levado um bando de despossuídos para
os angares dos símbolos esvaziados da história, aonde a crença numa
possibilidade no Deus que faz chover sobre Israel, e que ainda comanda as
chuvas aos bons e estiagem aos ímpios, fará o milagre da prosperidade aterrizar
na vida dos crentes. O vazio pós-moderno tem incrementado as fileiras de cegos
guidaos por cegos na busca de uma ressuscitação da experiência histórica, que,
embora tenha sido real para a história de homens históricos, é apenas
pseudo-possibilidade contextual para nosso tempo. A desrreferenciação
pós-moderna tem produzido uma leitura do texto sagrado, não como reflexão que
procura chaves hermenêuticas na busca do desvendamento do Ser e do ser, mas
como túneis do tempo na ânsia desesperada por um mundo cuja plausibilidade e
realidade jaz no passado e cuja existência reencontre o ‘fio da meada’.
Aonde está o início de toda a desordem? Quem começou todo
desatino? Como seria se pudéssemos retornar a um tempo aonde o pecado não se
encontrasse presente? Quem? Onde? Quando? Adão! Éden! Gênesis!
Mentira, falácia, engano!
Ainda que o tempo dos cristãos seja linear, o tempo dos
cegos é circular: os cegos trabalham para o eterno retorno do mesmo. Sempre
olhando para o Gênesis, num lugar chamado Éden e no homem que foi formado do
pó, como se este fosse a imagem de Deus; para o cego, Deus criou a Adão a Sua
imagem, e, antes de sua queda, ele era a expressa verdade de Deus na terra.
Então dizem uns para os outros: voltemos pois a ele e ao lugar de sua habitação;
retornemos ao Gênesis.
Mentira, falácia, engano!
O Adão fabular como a verdade de Deus para o homem. Assim,
para se chegar ao Gênesis, há de se retornar pelo caminho dos pais: Reis,
Juízes, Moisés, Abrão, Noé e Adão. Há de se afundar no pântano da experiência
histórica a fim de se apropriar do símbolo mítico do lugar sagrado e do tempo
sagrado, aonde o homem não tinha pecado e caminhava livremente na presença de
seu Criador.
Mentira, falácia, engano!
Trabalham, incansavelmente, para ressuscitar os mortos, para
fazer levantar os cadáveres fossilizados daqueles que “não obtiveram a concretização da promessa” (Hebreus 11: 39) e
daqueles que se quer são postulantes à fé: todos os que não alcançaram o Dom
Supremo. Cegos, pois têm seus entendimentos cegados pelo deus deste século, a
fim de não verem a resplandecente glória de Deus, “a luz do evangelho da glória de Cristo, o qual é a imagem de Deus”
(II Coríntios 4: 4).
Andam, andam, sem sair do mesmo lugar: de si mesmos.
Idealizam o homem como referência e fim: o Adão mitológico.
Não é o Adão bíblico, passível de uma hermenêutica contextualizada, mas o Adão
mítico, símbolo reproduzível sem escalas no tempo.
Mas não estaríamos nós, também, ao olharmos para Jesus,
vendo o mito e não o homem? Não seria Jesus o segundo Adão, um mito a ser
reproduzido? Ainda pior, sendo ele a perfeição plena, além de mito, não seria
ele também um símbolo impossível? Não seria a própria impossibilidade simbólica
do ícone Jesus a razão de nos lançarmos ao mito possível do homem falível:
Adão?
As respostas para esta pergunta é sim e é não.
Sim, quando olhamos para o Jesus mítico, desumanizado,
perfeito, divinizado, sobre-natural, espectral, fantásico, inatingível,
inalcansável, intocável, abstrato, eterno, a-histórico, celestial. Esta
idealização romantizada de Jesus o torna a antítese daquilo que Ele era: um
homem passível de todas as limitações e fraquezas de um homem. Este embuste
sublimado da figura de Jesus o torna um mito, fazendo com que as palavras
neo-testamentárias soem como fraude: ditos, tais como, “sede imitadores de
Cristo”, ou “andai como ele (Jesus) andou”, ainda, “tende o mesmo sentimento
que houve em Cristo Jesus”, transparecem-nos como ‘cenouras diante dos olhos de
mulas’, as quais giram infinitamente ao redor dos moinhos de trigo.
Não, quando olhamos para o homem Jesus esvaziado de sua
divindade, humanizado, dinamicamente perfeito, tangível, real, social, amigo,
próximo, biológico, histórico, temporal, terreno. Este olhar sobre Jesus nos
permite uma hermenêutica contextualizada, atual, pessoal e coletiva. Restando
ainda a questão: como “andar como Cristo andou” ? O que é imitar a Cristo? Qual
é o sentimento que somos desafiados a ter que estava em Cristo? Qual era o Ser
de Jesus que é passível, ainda que não de reprodução, de aplicação,ou de
experimentação existencial?
Busquemos na hermenêutica paulina subsídios para
introduzirmos esta questão. Em I Coríntios 10: 1 a 13, há um texto que nos fala
da peregrinação do povo de Israel, quando, segundo o relato bíblico, deixaram o
Egito e dirigiram-se à Canaã. Este texto diz sobre as experiências vividas por
aqueles homens e mulheres na travessia do mar, no comer o maná, do estar sob a
nuvem e da água que bebiam a qual obtinham da rocha. Aqui (versículo 4) é
apresentada a chave hermenêutica usada por Paulo, a qual permite a aplicação contextual
e o desnudamento do Ser e do ser.
“[...] bebiam de uma
pedra espiritual que os seguia. E a pedra era Cristo.”
Pedras não andam, mas esta movia-se de um contexto de escravidão,
para um outro contexto de liberdade. Movia-se de um contexto mosáico, para o
contexto da igreja primitiva. Move-se do contexto de Jesus, Paulo, para o
contexto pós-moderno do homem contemporâneo. Paulo, agora, está propondo um
olhar específico sobre o relato bíblico: olhemos para a experiênia única e
irreprodutível daqueles homens, mas a pedra continua a se mover, de um tempo
chamado ontem, para um tempo chamado hoje: de uma pedra inorgânica, para uma
espiritual.
Pedras não se movem e nem mesmo jorram águas.
Isto pode suscitar em nós uma leitura tal sobre um Ser que
está contextualizado no ser, permitindo uma experiência no tempo e no espaço
contemporâneo. É uma experiência atual com um Deus eterno. A pedra (o Ser) se
move para e no meu deserto (tempo e espaço do homem), permitindo uma
experiência nova (água) de vida, que apenas se dá na existência humana.
Agora, podemos nos voltar para Jesus e perguntar sobre qual
a experiência que ele teve e que, enfaticamente, o Novo Testamento nos incita a
ter, quando diz: sede imitadores de Cristo. Ora, a experiência de Jesus é Ser o
Emanuel, isto é, não apenas estar diante da pedra, mas como sobre a pedra, na
pedra: estar confundido com a pedra. Como entendeu Paulo, pelo Espírito, e
relatou à Igreja: “[...] desvendando-nos
o mistério da sua vontade, segundo o seu beneplácido que propusera em Cristo,
de fazer convergir nele, na dispensação dos tempos, todas as coisas, tanto as
do céu como as da terra;” (Efésios 1: 9 e 10).
Então, uma hermenêutica possível de se fazer da experiência
de Jesus é a hermenêutica da vida, a qual se dá no tempo chamado hoje. Jesus é um
homem de seu tempo, obtendo experiência com o Sagrado em seu tempo, propondo
uma ilegalidade e ilegitimação da historicidade da experiência religiosa, a
partir da leitura da implosão do templo, precedida pelo véu rasgado.
Sabemos que o véu estava no Templo de Jerusalém, separando o
lugar da presença de Deus do lugar da presença do homem; o veú do Templo
separava o Lugar Santíssimo, aonde estava a arca da aliança, do Santo Lugar,
aonde se processavam os ritos da Lei. O véu rasgado pode significar que Deus
deixou de habitar no lugar sagrado, vindo a mover-se em meio aos homens.
Jesus é um homem, que sofreu, foi tendado e foi aperfeiçoado
no transcurso de sua existência natural. Então, quando se fala numa
hermenêutica da vida, não se fala na chamada ‘vida espiritual’, mas, e
sobretudo, na vida em todas as dimensões: espiritual, biológica, psicológica,
social. É saber que a experiência com o Sagrado se dá no transcurso natural do
homem em sua dimensão cotidiana, quando a religiosidade que se pontua em
lugares e templos, mediadas por ritos, símbolos e hierarquias institucionais,
são emplodidas e desfeitas. É a experiência com o Deus do devir, do fluxo
cotidiano da vida humana, da Rocha que ao se mover conjuntamente ao homem,
jorra água.
O que seria, então, o imitar a Cristo, ter o mesmo
sentimento e andar como ele andou? É viver a experiência emanuelizadora no
tempo presente, no lugar que se chama aqui. É viver intensamente a vida, em
todas as suas dimensões, e nesta peregrinação estar sobre a rocha, a qual
continua a se mover em unísono com o homem.
Neste sentido nossa vida não visa nem o retorno ao Éden, nem
reproduzirmos Adão, assim como não desejamos retornar a Israel e nem mesmo a
Jesus, mas, um ‘ir’ e enquanto vamos, atritemo-nos com Deus e com o próximo.
Nosso destino profético está num ponto ainda não vivido, não visto, não ouvido,
pois pertence a nossa coragem de fé.
Bibliografia:
Abbagnano, Nicola. Dicionário de
Filosofia. 4ª ed. Martins Fontes.
2000
Nietzsche, Friedrich. Humano, Demasiado Humano. Companhia
das Letras. 2000
Palmer, Richard E. Hermenêutica. Edições 70. 1969