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Transmutação Escatológica: de Nietzsche a Jesus
Cristo
Deus está morto; mas, tal como são
os homens, durante séculos ainda haverá cavernas em que sua sombra será
mostrada – Quanto a nós – nós teremos que vencer também a sua sombra!
(Nietzsche, 2001; 135)
O homem louco – Não ouviram falar
daquele homem louco que em plena manhã acendeu uma lanterna e correu ao
mercado, e pôs-se a gritar incessantemente: “Procuro Deus! Procuro Deus!”? –
E como lá se encontrassem muitos daqueles que não criam em Deus, ele
despertou com isso uma grande gargalhada. Então ele está perdido? Perguntou
um deles. Ele se perdeu como uma criança? Disse o outro. Está se escondendo?
Ele tem medo de nós? Embarcou num navio? Emigrou? – gritavam e riam uns aos
outros. O homem louco se lançou para o meio deles e trespassou-os com seu
olhar. “Para onde foi Deus?” gritou ele, “já lhes direi! Nós os matamos –
vocês e eu. Somos todos seus assassinos! Mas como fizemos isso? Como
conseguimos beber inteiramente o mar? Quem nos deu esponja para apagar o
horizonte? Que fizemos nós, ao desatar a terra do seu sol? Para onde se move
ela agora? Para onde nos movemos nós? Para longe de todos os sóis? Não caímos
continuamente? Para trás, para os lados, para a frente, em todas as direções?
Existem ainda ‘em cima’ e ‘embaixo’? Não vagamos como que através de um nada
infinito? Não sentimos na pele o sopro do vácuo? Não se tornou ele mais frio?
Não anoitece eternamente? Não temos de acender lanternas de manhã? Não
ouvimos o barulho dos coveiros a enterrar Deus? Não sentimos o cheiro da
putrefação divina? – também os deuses apodrecem! Deus está morto! Deus
continua morto! E nós o matamos! Como nos consolar, a nós, assassinos entre
os assassinos? O mais forte e mais sagrado que o mundo até então possuíra
sangrou inteiro sob nossos punhais – quem nos limpará este sangue? Com que
água poderíamos nos lavar? Que ritos expiatórios, que jogos sagrados teremos
de invertar? A grandeza desse ato não é demasiado grande para nós? Não
deveríamos nós mesmos nos tornar deuses, para ao menos parecer dignos dele?
Nunca houve um ato maior – e quem vier depois de nós pertencerá, por causa
deste ato, a uma história mais elevada que toda a história até então!” [...]
“Eu venho cedo demais [...] não é ainda meu tempo. Esse acontecimento enorme
está a caminho, ainda anda: não chegou aos ouvidos dos homens [...] os atos,
mesmo depois de feitos, precisam de tempo para serem vistos e ouvidos [...] O
que são ainda essas igrejas, se não os mausoléus e túmulos de Deus?”
(Nietzsche, 2001; 147 e 148)
O exílio de Deus! Seria este o postulado decorrente que defenderíamos
diante da crítica de Nietzsche, ou seja, um Deus que não apenas é o
totalmente outro, como também seria o totalmente além? Ou nos colocaríamos
fanaticamente e gritaríamos “maranata”, como quem diz: leva-me para o céu e
ajuiza os ímpios? Inversamente, renderíamo-nos ao ateísmo como caminho único
e inexorável? Poderíamos, porventura, propor um cristianismo pós-metafísico?
Haveria uma hermenêutica plausível, que se poderia fazer a partir de
Nietzsche, para uma escatologia neo-testamentária?
A partir destas considerações e sob a égide da crítica
nietzschiana que ensaiaremos uma possibilidade hermenêutica para uma
escatologia neo-testamentária. Tomaremos como premissa a desqualificação da
leitura metafísica proposta por Nietzsche, que tem sido o conceito filosófico
sobre o qual se ergueu a hermenêutica cristã, visando a proposição de uma
leitura pós-metafísica ao texto sagrado. É nossa intenção apresentar esta
olhar já a partir da lente dos textos deste filósofo, favorecendo, assim,
tanto a apresentação de suas principais idéias, como a transmutação hermenêutica que consistirá nosso caminho.
Escolhemos a questão escatológica como tema central tendo
em vista quatro considerações: a importância, abrangência e atualidade do
tema para a religião cristã; o questionamento catalizado por Hans-Georg
Gadamer quando diz “dois mil anos sem um novo Deus” (Derrida e Vattimo, 2000;
221); o espírito dionisíaco de diversos aforismos de Nietzsche; e a
delimitação necessária, a qual tornará exeqüível este ensaio.
A palavra escatologia deriva das palavras gregas
‘eschatos’, que siginifica último e ‘logos’, que significa assunto. Então,
segundo O Novo Dicionário da Bíblia, podemos entender escatologia como “a
doutrina das últimas coisas” (Douglas, 1995; 510); de acordo com o Dicionário
Ilustrado da Bíblia escatologia é o “estudo do que acontecerá quando todas as
coisas forem consumadas no fim da história” (Youngblood, 2004; 485); e a
Pequena Enciclopédia Bíblica diz que escatologia é a “doutrina das coisas que
deverão acontecer no fim do mundo” (Boyer, 1989; 235). Resaltamos, ainda, as
palavras de Eurípedes da Conceição do Seminário Teológico Presbiteriano do
Rio de Janeiro, que diz:
o cristão de coração sábio não se
debruça com curiosidade sobre os eschatas (plural grego: coisas últimas), mas
sobre o eschaton (singular grego
neutro: Futuro Absoluto), ou talvez mais exatamente sobre o Eschatos (singular masculino) - Jesus
Cristo: plenitude, pleroma, evento escatológico por excelência, que coloca
toda nossa existência sob juízo, que diz respeito, em última instância, a
nosso ser, a nosso destino definitivo.
(Conceição, 2000; 1)
Resaltamos que esta escatologia, conforme podemos perceber
nas definições adotadas pelos dicionários e enciclopédia acima, está
construída pela metafísica e pelos aparatos de uma metanarrativa, a qual se
desenrola sobre uma meta-história. Há uma história que ainda se desenrola e
que terá um fim, explicada por um discurso que é construído sobre juízo
final, redenção dos fiéis, Nova Jerusalém, etc. Todos os acontecimentos
legitimados pelos discursos religiosos traduzem a metafísica do bem e do mal.
No entanto, esta meta-história que se explica por narrativas metafísicas
cumpre-se num tempo futuro, negando o futuro, uma vez que restaura o passado:
Éden.
A escatologia cristã que é filha da judáica, pensa,
basicamente no confronto cósmico das forças do bem (Deus, os anjos e a Igreja), contra as forças do mal
(Satanás, os demônios e o mundo), que culminará em uma grande batalha
(Armagedon), momento em que Cristo retorna, vence os inimigos do bem e reina
eternamente, conduzindo-nos a um estado pré-queda de Adão: Adão, o alfa e o
omega. Nisto ouvimos ecoar distante:
fomos nós que inventamos o conceito
de ‘fim’: na realidade, o fim não
existe...O homem é necessário, o homem é um bocado de destino, o homem
pertence ao todo, o homeme está no todo – nada há que consiga condenar,
medir, comparar, julgar o nosso ser, pois isso equivaleria a condenar, medir,
comparar e julgar o todo...Mas fora do todo, nada existe! (Nietzsche, 2002;
54)
Para Nietzsche a história da metafísica é a história de um
erro, assim “a metafísica consiste na cisão da vida em dois mundos: um
valorizado, mundo ‘verdadeiro’, o outro, desvalorizado, mundo ‘falso’ ou
‘ilusório’, ‘além’.” (Beardsworth, 2003; 26). E, de certa forma,
simplificando, poderíamos dizer que para ele a metafísica se estabelece sobre
a questão do poder; o desconhecido é reduzido ao conhecido o que causa
alívio, tranquiliza e satisfaz. A metafísica passa a ser um sistema que está
afetado pelo desejo de “não ser afetado, abstrair-se do mundo dos sentidos.”
(Beardsworth, 2003 27); a metafísica está afetada por energia psíquica. A
metafísica é o desejo de abstraír-se do desejo.
Muito embora na metafísica encontremos o desejo de
abstraír-se do mundo dos sentidos, “do começo ao fim a metafísica está
inscrita no mundo [...] em seu foro interior ela seria moral, mas uma moral
sustentada por um interesse e por uma estratégia, ao passo que, em princípio,
toda moral é desinteressada e desprovida de malícia.” (Beardsworth, 2003;
27). Também poderíamos dizer sobre a genealogia da metafísica que
homens dominam sobre homens, e assim nasce a diferenciação
dos valores; classes dominam outras classes, e assim nasce a idéia de
liberdade. Os homens se apoderam das coisas de que tem nescessidade para
viver, impondo-lhes uma duração que elas não têm, ou eles as assimilam pela
força, e é o nascimento da lógica. (Foucault, 2000; 269)
A estratégia da metafísica é a dominação por meio da
construção de valores, pela verdade, que é uma “espécie de erro que tem a seu
favor o fato de não poder ser refutada.” (Foucault, 2000; 263). Ora, esta
estratégia fundada na ‘verdade’ cizalhada que conduz o homem a, estando no
mundo, negar constantemente o mundo, conduz à total depreciação do mundo. O
mundo para o crente metafísico é o lugar do pecado, envolto no mal e morto no
malígno.
Fundada nesta condição cizalhada que a metafísica do
sujeito levantou o edifício epistemológico, ou seja, “a ‘teoria do
conhecimento’ e o que assim se considera é, no fundo, metafísica e ontologia,
fundadas sobre a verdade assumida
como certeza pela re-presentação asseguradora.” (Heidegger, 2001; 65) E isto
se dá tanto numa Igreja, quanto no mundo. É a metafísica quem permitiu a
construção do conceito de sujeito cognoscente e objeto conhecido. Ele, ao
agir sobre o objeto de seu conhecimento, reduz-lhe a sua própria consciência
e o domina pelo desvendamento, pelo desnudamento: desencantamento do objeto.
Desta forma corrobora Heidegger: “Em todas as suas formas e estágios
históricos, a metafísica é uma fatalidade única mas talvez necessária ao
Ocidente e o pressuposto de sua dominação planetária.” (Heidegger, 2001; 67)
O objeto é inferior ao sujeito, posto que por ele é apreendido e dominado. É
sobre esta premissa epistemológica metafísica que a teologia é construída: a
objetivação de Deus, visando o seu conhecimento, seu desencantamento. Esta é
a premissa niilista do cristianismo: um Deus objetivado que pode ser
apreendido pelo sujeito, portanto deixa de ser Deus em seu nascedouro, posto
que o Criador pode ser dominado pela criatura. A metafísica é a história do
assassinato de Deus e da negação da vida desde a sua gêneses.
É a escolha pela metafísica a escolha pela morte de Deus?
Tendo como premissa a genealogia da moral, suas definições de bem e mal e
suas interconecções com a metafísica, que podemos propor um olhar para o
texto sagrado e ver alí a genealogia da morte de Deus. Assim, em Gêneses
encontramos o relato da escolha adâmica pelo fruto do conhecimento do bem e
do mal, alertado por Deus quanto aos seus efeitos de morte, em detrimento da
árvore da vida. Não poderíamos propor, segundo a linha hermenêutica adotada,
que o fruto do conhecimento do bem e do mal seria a própria metafísica? Não seria
a metafísica o pecado original? Não teria o homem, alí, fendido sua
existência entre o sagrado e o profano? Não teria Adão iniciado alí um
projeto de dominação sobre o próximo (que no caso estaria exemplificado por
Deus, a mulher e a serpente)? Não poderíamos ler este texto como sendo o da
gêneses do abandono de um projeto de vida, em prol de um projeto de mistério?
Não seria o mistério a arma da religião, visando a dominação do homem pelo
homem? Não teria Adão pretendido matar a Deus, forjando como arma a
metafísica? Não estaríamos diante da gêneses da metafísica e,
conseqüentemente, da morte de Deus?
Em tendo comido do fruto
do conhecimento do bem e do mal, não teria o homem abdicado do ‘telos’
divino? Não seria o propósito divino, segundo o relato bíblico, criar o mundo
material, no que Deus obteve prazer, fazer o homem do pó da terra e
auxiliando-o a comer da árvore da vida, manifestando, assim, a verdadeira
humanidade? Não seria a telos divino a verdadeira humanidade manifesta por
meio de vida? Tendo deslegitimado a metafísica, posto que é o pecado
original, não seria a vida o estar no mundo? O mundo, então, não seria o
lugar do desprazer e da perdição, mas o único lugar plausível para que o
homem manifestasse o telos divino: a vida somente se realiza no mundo, ou
melhor, através de um determinado mundo.
Ora, se acaso pudermos entender que o projeto metafísico
possa ser considerado o pecado original, então Adão, o primeiro metafísico, é
aquele que negando a árvore da vida se torna escravo do pecado, mutatis
mutantis, do mundo metafísico. O homem que vive no pecado, o homem da
iniquidade, o filho da perdição é aquele que nega o telos divino: a árvore da
vida. Assim, este está morto pois nega o telos de Deus para si,
apropriando-se e sendo apropriado pelo fruto da árvore do conhecimento do bem
e do mal, idéias e matéria, céu e terra, espírito e corpo, sagrado e profano;
metafísica; clero e leigo, santo e ímpio, etc.
Cabe destacar que, segundo Abbagnano em sua exposição
sobre o verbete ‘mundo’, diz que Heidegger entende mundo “como campo
constituído pelas relações do homem com as coisas e com os outros homens.”
(Abbagnano, 2000; 689). Assim, podemos dizer que o mundo é a ordem das
coisas, tal como ordenamos nossas relações com os outros e com as coisas. O
mundo refere-se as descrições que os homens fazem da realidade. Não há mundo
sem o homem e não há um indivíduo que não conceba um mundo. Por conta disto é
que podemos, seguindo a atual linha hermenêutica, entender o aparente
paradoxo de um mundo que foi amado por Deus ao ponto de oferecer-se como
resgate dele e o mundo que se encontra morto no malígno.
Sendo desta forma o mundo a cosmovisão do homem, ele constrói
a linguagem como técnica essencial deste mundo. A
linguagem, como técnica do mundo, é o instrumento que descreve e legitima a
realidade, em outras palavras, “o homem produz também a linguagem e, sobre
este fundamento e por meio dele, um imponente edifício de símbolos que
permeiam todos os aspéctos da vida.” (Berger, 1985; 19). Assim, a metafísica,
enquanto mundo que nega o telos divino, a árvore da vida, e isto por meio do
seu erro genético, produz uma religião da morte, pela linguagem. Poderíamos,
então, parafrasear o texto que diz ‘o mundo jaz no malígno’, por, ‘o mundo
metafísico, enquanto aquele que nega a vida, é um erro, uma mentira, um
sofisma lingüístico: o mal’. O malígno é a religião metafísica.
Na leitura metafísica concebe-se dois mundos. Tornando o mundo esquizofrênico. Há o mundo do
bem, o qual é objeto do amor divino e o mundo do mal, desprezado e condenado
por este mesmo Deus, o qual se encontra morto no malígno: senhor e possuidor
do mundo, que passa a se chamar Satanás. O mundo de Adão é entendido como
esquizofrênico, pois o bem que o homem deseja este não consigo realizar, mas
o mal que não deseja, este pratica: desventurado homem metafísico que sou!
Mas, apegando-nos a leitura niezstchiana, o mundo morto é o próprio mundo
dualístico, fendido e separado: o da metafísica. Assim,
“O conceito de ‘Deus’ foi
arquitetado como antítese ao de ‘vida’, tendo sido reunido nele, em terrível
unidade, tudo o que havia de abjeto, de venenoso, de calunioso: todo o ódio
mortal contra a vida. O conceito do ‘além’, do ‘mundo verdadeiro’, foi criado
para desprezo do único mundo que existe [...] Os conceitos de ‘alma’,
‘espírito’ e, enfim, também aquele de ‘alma imortal’ foram inventados para
ensinar o desprezo do corpo, tornando-o doentio[...]” (Nietzsche, 2004; 124)
Entretanto, a existência de mundo, enquanto cosmovisão humana da vida, é o objeto de
resgate de uma verdadeira humanidade, ou seja, produzir uma unicidade do ser:
a árvore da vida. A vida enquanto espaço da manifestação do telos da
verdadeira humanidade. O que seria o relato do Gêneses senão a história de um
erro: do pecado? Mas o que seria o pecado? Pecar no grego é ‘hamartano’,
errar o alvo! Qual alvo? A árvore da vida! Mas o que é alvo senão telos? Qual
é o telos? A verdadeira humanidade que se experimenta no transcurso da vida.
Assim, a vida é o telos para o homem. Por meio de uma vontade de vida que se
pode viver e transcender a própria vida.
Antes de falarmos da vontade de vida, devemos completar a
questão da metafísica citando a questão da morte e da técnica enquanto
ocultamento metafísico para o desejo de abstrair-se do mundo. Tomando como
referência Paul Tillich, poderíamos pensar a angústia da morte, como o
desespero do ser diante do não-ser, ou seja, a ausência de esperança do ser
metafísico diante da vacuidade, insignificação, culpa e condenação.
Utilizando suas palavras: “o homem como homem, em cada civilização, é
ansiosamente certo da ameaça do não-ser e necessita coragem para afirmar-se a
despeito dela” (Tillich, 1976; 34) e ainda, “o destino não produziria
ansiedade inevitável se não tivesse a morte por trás de si [...] Não-ser é
onipresente e produz ansiedade mesmo onde ameaça imediata de morte está
ausente.” (Tillich, 1976; 35). Assim, a negação da vida, pela metafísica,
poderia vir a determinar a deseperança de um ser deformado e diminuido,
diante do mistério da morte.
No que tange à técnica, podemos, a partir de Heidegger,
dizer que ela se dá no acabamento da metafísica, então,
“o crepúsculo da verdade dos entes
necessariamente acontece com propriedade como acabamento da metafísica. O
crepúsculo se cumpre tanto pela derrocada do mundo cunhado pela metafísica
como pela desolação da terra proveniente da metafísica. Derrocada e desolação
encontram um acabamento adequado no fato de o homem da metafísica, o animal
rationale, im-por-se como animal trabalhador.” (Heidegger, 2001; 62)
Mais adiante ele declara: “A história e a técnica ordenam
o seu curso no sentido do último estágio da metafísica [...] O animal
trabalhador abandona-se à vertigem de seus poderes e feitos a fim de se
descarnar-se e aniquilar-se no nada aniquilador.” (Heidegger, 2001; 63). É
pois a técnica que se impõe após o questinamento nietzschiano, que conduz a
leitura heideggeriana de Nietzsche, ou seja, “Heidegger, ao interpretar a
razão como consciência de si, seguindo o fio condutor da filosofia do sujeito,
concebe o niilismo como expressão de um apodermento técnico do mundo,
desencadeado de forma totalitária.” (Habermas, 2002 ;149). É daí que
poderemos ler, mais tarde, o Zaratrusta e o Super-homem de Nietzsche.
No presente momento de nosso ensaio faz-se necessário
propor um acabamento à gêneses da queda, por meio de uma arqueologia da
escatologia. É, seguindo as premissas acima apresentadas, que a desesperança
do não-ser e a técnica assumem papél fundamental na escolha metafísica do
homem. Tendo o homem se apropriado da metafísica, percebe-se nu, desta forma, é como se Adão dissesse:
freqüentemente me pergunto, para
ver, quem sou eu – e quem sou eu no momento em que, surpreendido nu, em
silêncio, pelo olhar de um animal...tenho dificuldade, sim, dificuldade de
vencer um incômodo...vergonha de quê, e nu diante de quem? Por que se deixar
invadir de vergonha? E por que esta vergonha que enrubesce de ter
vergonha?...Vergonha de estar nu diante de um animal...Assim, nus sem o
saber, os animais não estariam, em verdade, nus. Eles não estariam nus porque
eles são nus. Em princípio, excetuando-se os homens, nenhum animal jamais
imaginou se vestir. O vestuário seria o próprio do homem...o “vestir-se”
seria inseparável de todas as outras figuras do “próprio do homem” (palavra,
razão, logos, história, rir, luto, sepultura, dom, etc)...Para o homem...o
vestuário corresponde a uma técnica. (Derrida, 2002; 15)
Adão é o metafísico por excelência: o homem da técnica e do medo.
O homem nu que se esconde atrás da técnica para não ser
visto, está exposto ao medo do não-ser, da morte. Sua metafísica legitima seu
discurso de dominação do próximo: nomeia
a mulher, de Eva, assim como anteriormente havia dado nome aos animais. O
homem metafísico passa a aguardar o Messias: o outro que o resgatará. É a expectativa
messiânica metafísica que permeia o pensamento veterotestamentário. Há no
transcurso do texto do Velho Testamento, particularmente aquele que vem com
Moisés e após ele, um reforço metafísico: há um espaço no qual o sagrado se
manifesta, há tempos sagrados, há rituais, código moral, sacerdotes, todo um
aparato religioso metafísico calcado na dualidade entre um sagrado e um
profano.
Neste tempo a ‘árvore da vida’ se torna inalcançável,
obstruída, velada. De fato a religião judáica apresenta-se como que
construída tendo um lugar sagrado chamado Santo dos Santos, o qual
apresenta-se separado do mundo, da vida por um véu. No lugar sagrado há a
dimensão da moral (Santo Lugar, com seus os ritos e preceitos legais a serem
cumpridos pelo sacerdócio) e a dimensão de mistério (Santíssimo Lugar
inalcancável, escuro, velado, encantado). É Moisés quem coloca um véu na face
para impedir que os homens vissem a glória de Deus no corpo do homem: o véu
de Moisés é a roupa de Adão; assim como o véu do lugar sagrado é também a
roupa e Adão.
Entretanto, segundo a leitura de Peter Berger, a religião
judáica era, tendo em vista o fenômeno religioso contemporâneo dos povos
circunvizinhos, uma religião que buscava uma expressão no cotidiano do homem,
ou seja, havia nela uma determinada vontade de vida, ainda que velada.
Poderíamos dizer que a religião judáica seria aquela que ao conduzir ao
Espírito Absoluto (de Hegel), leva ao acabamento da metafísica (Heidegger),
promovendo uma vontade de vida (a vontade de potência de Nietzsche).
Para Peter Berger, quando trata da religião judáica como
aquela que promove a demitologização do universo (Berger, 1985; 130), “a
ética sacerdotal [...] era racionalizante ao excluir do culto qualquer
elemento mágico ou orgiástico e também ao desenvolver a lei religiosa (torah)
como disciplina fundamental da vida cotidiana. A ética profética era
racionalizante ao insistir na totalidade da vida como serviço de Deus [...]”
(Berger, 1985; 133). Mas, o Deus do Velho Testamento é o totalmente outro, o
transcendente, que, pontulmente, interfere na história. O Deus de Israel é
transcendente, histórico e racionalizante da ética (Berger, 1985; 128).
Mas, no dizer de Paulo, “na plenitude do tempo” (
‘pleroma’ e ‘cronos’ Gálatas 4: 3) encontramos o Kerigma da Nova Aliança, de
onde destacamos seis pilares sobre os quais este se ergueu: o emanuel (o Deus
que, como homem, come da árvore da vida: vontade de potência divina), o
crucificado (o Deus que morre e liquida a religião messiânica), o véu rasgado
(dando acabamento à metafísica veterotestamentária e realizando uma
transmutação de todos os valores), o ressuscitado (o além-do-homem:
Deus-homem), o pentecostes (o Deus que continuamente se emanueliza: o eterno
retorno do mesmo) e o eschatos neotestamentário (o Dionísio de Nietzsche).
Apresentarmos os seis conceitos nietzschiano (vontade de
potência, a morte de Deus, o acabamento da metafísica, o além-do-homem, o
eterno retorno do mesmo e o Dionísio), para que, posteriormente possamos
continuar nosso ensaio hermenêutico escatológico pós-metafísico.
Até então confrontamos as duas árvores, que no relato
bíblico se encontravam no Jardim do Éden: a árvore da vida e a do
conhecimento do bem e do mal. Tomamos a árvore do conhecimento do bem e do
mal como sendo uma representação, símbolo, tipologia da metafísica, assim
como a árvore da vida como sendo o desejo de vida, a vontade de vida voltada
para a existência humana no mundo e na terra.
A vontade de vida, como sendo um desejo pela árvore da
vida, a qual passa a estar ocultada pelos querubins, ou seja, pelo mistério
metafísico. Em Nietzsche a árvore da vida pode ser comparada a seu conceito
de vontade de potência. A vontade de potência é “concebida como princípio
pelo qual a vida se auto-supera, se projeta além de si própria [...]” (Neto e
Barrenechea, 1999; 74). A vontade de potência é a vida realizando-se
plenamente (“não vim para revogar a lei, mas para cumprí-la”, o Espírito
Absoluto que, plenamente, realiza seu trajeto), e indo além da vida,
transcendendo-a (“eu vim para que tenham vida e vida em abundância”); a
vontade de potência é o homem que supera a metafísica e realiza a vida na
dimensão de sua própria existência; “o que parece agora como evidência [...]
é que trazer o homem de volta à vida, e superar o niilismo, é estabelecer uma
aliança, uma consonância entre o homem e a vida, só possível quando o homem
abandonar a perspectiva antropológica, situando-se para além do bem e do
mal.” (Neto e Barrenechea, 1999; 75). Cabe destacar que, enquanto no
platonismo o Bem é uma possibilidade absoluta, em Nietzsche parece que a voz
de Jesus se faz ouvir, quando ele diz: “porque me chamais de bom...”. No
âmbito de uma hermenêutica da árvore da vida, possivelmente teremos que
enfrentar o fato de que questões inexoráveis digladiarão com nosso desejo de
paz, assim, neste âmbito poderemos ser confrontados com as questões e suas
possibilidades: “o que é bom? Tudo aquilo que desperta no homem o sentimento
de poder, a vontade de poder, o próprio poder. O que é mau? Tudo o que nasce
da fraqueza.” (Nietzsche, 2003; 39)
O Cristo crucificado, como o Deus que morre. Abrimos nosso
texto apresentando dois extratos de A Gaia Ciência, aonde Nietzsche expõe sua
perspectiva da ‘morte de Deus’. Entendemos que ele “não mata Deus, mas
limita-se a constatar a ausência do divino na cultura de seu tempo, acusando,
pelo contrário, por essa ausência e morte, o pensamento metafísico.” (Penzo e
Gibellini, 2000 ; 32) É religião cristã quem processa a morte de Deus e isto
é o pano de fundo do Anticristo. O Anticristianismo é a religião metafísica
que retira do homem o acesso a vida por impor-lhe um olhar por meio do erro.
Quando ele está dizendo “a morte de Deus”, de fato está dizendo contra seus
antagonistas, os teólogos cristãos, pois “é necessário que digamos quem
consideramos como nossos antagonistas: os teólogos [...]” (Nietzsche, 2003;
42) e “o pastor protestante é o avô da filosofia alemã, e o próprio
protestantismo, o seu peccatum originale. Definição de protestantismo:
hemiplegia do cristianismo.” (Nietzsche, 2003; 44). O Deus morto é o deus da
metafísica, aquele que é fruto do erro, que possui uma genealogia e história;
o Deus que retira o homem da realidade pelo ocultamento, pois “quem terá
razóes para fugir da realidade através da mentira? Só a quem ela fizer
sofrer.” (Nietzsche, 2003; 49). O Deus que está morto é aquele que tornou-se
exilado pela metafísica, aquele que é o totalmente outro e que não mais faz
parte da vida, aquele que foi tragado pelo deus superior: o homem metafísico.
Este Adão contemporâneo necessita
manter a existência deste Ser, pois é por meio dele que estabelece a
dominação; ele constroi este erro e alguém que legitime esta verdade: “Deus,
essa fórmula para todas as calúnias contra o ‘aqui’ e ‘agora’ e para as
mentiras do ‘além’! O nada divinizado em Deus, a vontade do nada
santificada!...” (Nietzsche, 2003; 52)
A morte do Nazareno representou ‘o está consumado’ da
metafísica. A consumação da metafísica enquanto filosofia religiosa pode ser
compreendida pelo véu rasgado do templo de Jerusalém. O grande símbolo da
religião metafísica era o Templo e seu espaço sagrado: o Lugar Santíssimo. A
morte de Jesus ocorre em concomitância com o véu que se rasga no Templo:
inaugura-se a religião da vida. Deus sai dalí e passa a habitar em meio a
vida cotidiana. Deus se auto-desencanta,
auto-desmisitifica, auto-demitologiza. Jesus, enquanto habitando na Velha
Aliança, aponta para o novo, assim,
“a vida do Salvador não foi outra
coisa senão essa prática – assim também a sua morte...Não tinha mais
necessidade de fórmulas nem ritos para as relações com Deus, nem sequer da
oração [...] sabia que só a prática da vida é que alguém pode sentir
‘divino’, ‘bem-aventurado’, ‘evangélico’, a cada instante ‘filho de Deus’
[...] só a prática evangélica conduz a Deus; ela, justamente, é Deus! O que
foi destronado pelo Evangelho é o judaísmo das idéias de ‘pecado’, de ‘
remissão de pecados’, de ‘fé’, de ‘salvação pela fé’, toda a dogmática
judaica foi negada na ‘boa-nova’” (Nietzsche, 2003; 69).
Ora, tendo sido rasgado de cima a baixo o véu do Templo,
ou seja, não havendo possibilidade metafísica na expressão de uma experiência
com Deus, restando apenas o homem e seu corpo, cabe uma transmutação de todos
os valores: uma desconstrução hermenêutica. O fim da metafísica faz ressoar
as palavras de Jesus: “ouvistes o que foi dito aos antigos [...] eu porém vos
digo...” (Mateus 5: 22 e 22) e também as palavras de Nietzsche: “em que
acredita você? Nisto: que os pesos de todas as coisas precisam ser novamente
determinados.” (Nietzsche, 2001; 186). Como que se a Lei agora devesse ser
re-lida, agora, porém, pelas lentes da árvore da vida, como coloca em
profusão o autor do livro de Hebreus. Esta re-leitura, esta nova hermenêutica
é colocada sistematicamente por Jesus. Não pelo Jesus amoroso e
condecendente, mas pelo Jesus viril, firme, masculino, confrontador, “neste
contexto, aparece Jesus, esse ‘santo anárquico’, que chama o povo mais baixo,
os excluídos e os ‘pecadores’ à resistência contra a ordem constituída, com
uma linguagem que, mesmo hoje, mandaria para a Sibèria, se devemos crer no
evangelho.” (Zucal, 2003; 510)
O Deus que morre já não é o Deus que ressuscita, porém o
Deus que morre é aquele que é invadido pela vida que impede a morte de
retê-lo. O Deus que morre ressurge num homem-além-do-homem. O
homem-além-do-homem, aquele que pleno de vontade de potência transcende a
própria existência e se torna o sobre-homem de Nietzsche, o qual é
apresentado por Zaratrusta. Para Heidegger, Nietzsche ante-vê a impotência do
homem Ocidental de realizar seu designio de dominação, uma vez que se esgotou
o paradigma metafísico: os absolutos. Então o homem deve ir além do homem que
hoje se encontra na modernidade. Zaratrusta é, assim, o profeta que vê este
esgotamento e ante-vê um novo homem que vai além do homem: este é o
sobre-homem. Mais precisamente,
de onde vem o clamor pela necessidade
do super-homem? [...] A pergunta é: o homem enquanto homem [...] está
preparado para assumir a dominação da terra? Se naõ, o que então precisa
acontecer com o homem atual, de modo que ele se ‘submeta’ à Terra e assim
cumpra a palavra de um velho testamento? Não será preciso conduzir o homem
atual para além de si mesmo, para poder corresponder a esta missão? Se assim
é, então, o ‘super-homem’ pensando corretamente, pode não ser o produto de
uma fantasia desenfreada e degenerada [...] (Heidegger, 2001; 91)
O mesmo esgotamento que se passou nos dias de Jesus: um
mundo em crise que se arruina, como falou o autor de Hebreus: “quando ele diz
Nova, torna antiquada a primeira. Ora, aquilo que se torna antiquado e
envelhecido, está prestes a desaparecer.” (Hebreus 8: 13). Mas o sobre-homem
não é um homem, antes um aadaam, o segundo aadaam, uma ‘raça’ de homens que
transcendem a si mesmos, vencendo os antagonísmos de uma era crítca. O
sobre-homem é mais do que vencedor, suporta todas as coisas naquela transcendência.
O que se pode propor é um olhar nietzschiano sobre Jesus e
entender suas palavras quando diz: farão obras superiores as que eu faço. E
as palavras de Paulo que disse: “ele nos predestinou para sermos conformes a
imagem de seu Filho[...]”. Jesus não é apenas o sobre-homem de Zaratrusta,
seguindo esta hermenêutica, mas o seu Corpo o é também, ou seja, o legado do
Cristo é que o Corpo transcenda aos limites metafísicos e emanuelize o Logos.
O sobre-homem de Cristo é uma dimensão de vida que se renova em cada novo
ser, que entende e realiza o comer da árvore da vida.
O eterno retorno do mesmo, ou, a dimensão de vida que se
renova. Retornando um pouco, devemos lembrar que a metafísica determina que a
vida é má, lugar de pecado, perdição, sofrimento, angústia, dor, etc, e que,
portanto, cabe-nos anelar pela vida eterna, lugar sem dor e sofrimento. A
metafísica instiga o homem a sacrificar a vida em prol da morte. Quando
transmutamos os valores e entendemos que a vida é o dom supremo, a qual deve
ser vivida em intensidade, então, surge o desejo, a vontade de potência em
vivê-la inúmeras vezes.
“Neste sentido, o eterno retorno é
um pensamento que diz respeito à vontade humana e não ao mundo, e que
Niezstche enuncia da seguinte forma: ‘Se em tudo que você quizer fazer, você
começar por se perguntar: ‘Quero fazê-lo um número infinito de vezes? Isso
será para você o mais sólido centro de gravidade...’ Dito com outas palavras:
‘tudo que você quiser, queira-o de tal modo que também queira o eterno
retorno.’” (Neto e Barrenechea, 1999; 77)
Sob o prisma teológico, parece-nos, diante da maior
limitação possível do homem ante aquele que não se pode nomear, que há traços
de um eterno retorno do mesmo, segundo a premissa acima delimitada, para o
próprio Deus. O texto sagrado inicia com “Bará Elohyim”, ou seja, criou Deus;
mais tarde diz, “bará Elohyim aadaam”, ou seja, criou Deus ao homem; depois o
profeta Isaias traduz: “pois eu (YHWH) bará ...”; por fim em Apocalipse
lemos: “vi novo céu e nova terra, pois o primeiro céu e a primeira terra já
não existe,” Tendo Deus visto que criar o tangível, o material, o mundo é
bom, Ele realiza o eterno retorno do mesmo: a re-criação. Não somente isto,
mas a cada vez que o Deus do cristão convertido faz uma habitação no crente,
Ele renova a emanuelização do Logos: o Logos se faz carne e habita entre nós.
O eterno retorno do mesmo. O pentecoste renovado é este retono do Logos ao
Corpo que Ele criou para si.
Por fim cabe-nos falar de Dionísio...Antes, porém, vale
lembrar que “em geral, o pensamento teológico, ao opor entre si origem e
meta, perde sua força.” (Habermas, 2002; 127). O pensamento escatológico
cristão se baseia em olhando para tempos futuros, esperar a restauração do
Édem. Em outras palavras, o “caranguejo se torna quem busca as origens. O
historador olha para trás; acaba por crer também para trás.” (Nietzsche,
2002; 17).
O Dionísio de Nietzsche, como nos fala Habermas, é aquele
que é fruto do relacionamento do deus grego Zeus com a mortal Semele, e que,
por conta do ciúmes de Hera, deusa esposa de Zeus, torna-se louco e vagueia.
“Mas Dionísio regressará um dia, renascendo pelo mistério e livre da loucura
[...] Sugere-se o paralelo com Cristo: este também morreu e deixou paratrás,
até o dia do seu regresso, pão e vinho.” (Habermas, 2002; 133). A leitura
sujerida por Habermas a Dionísio/Cristo de Nietzsche é a esperança do
“rejuvenescimento, não uma despedida do Ocidente” (Habermas, 2002; 134). O
que se coloca em Nietzsche é o niilismo do Ocidente diante da crise da modernidade,
que Baudrillard fala: “as coisas continuam a funcionar , ao passo que a idéia
delas já desapareceu há muito.” (Baudrillard, 1990; 12). Segundo Habermas, “o
homem da modernidade, desprovido de mitos, só pode esperar da nova mitologia
um tipo de redenção que supera todas as mediações [...]” (Habermas, 2002;
137).
Entretanto o dionísio de Nietzsche é a esperança
messiânica do artista, do estético, segudo Habermas. É a expressão estética
que proverá este rejuvenescimento do Ocidente, ou seja, “aqui deparamos com
essa peculiar teodicéia segundo a qual o mundo só pode ser justificado
enquanto fenômeno estético [...] O mundo parece como um tecido de
dissimulações e interpretações, às quais não subjazem nenhuma intenção e
nenhum texto.” (Habermas, 2002; 137 e 138).
Enquanto Habernas confere esta leitura de Nietzsche, o
próprio autor percebe em Heidegger, enquanto leitor de Niezsche, uma leitura
aonde o acabamento da metaféicia é a técnica, ou seja, “Heidegger, ao
interpetar a razão como consciência de si. Seguindo o fio condutor da
filosofia do sujeito, concebe o niilismo como expressão de um apoderamento
técnico do mundo, desencadeado de forma totalitária.” (Habermas, 2002; 149)
Assim, o dionisíaco pós-nietzsche, poderíamos dizer, é
esta ambivalência, esta tensão presente no mundo entre a estética e a
técnica, a subjetividade e o pragmatismo, que se dá, não mais, entre o mundo
das idéias e o mundo das coisas, mas no corpo do homem.
A pergunta que deve ser coloca é se a Igreja, exilada no
que tange a sua irrelevância legitimadora da realidade, deve também
reproduzir este jogo de potências, entre a estética e a técnica, ou deve,
assumindo seu papel de emanuelizadora do Logos, e este contextualizado,
propor um novo, aonde uma verdadeira humanidade refletidora do telos divino
pode ser percebida no âmbito da vida.
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