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As sete mortes de Deus: Parte 1*

Matar Deus é o passa-tempo predileto dos homens dos século XX e XXI. Com o esgotamento das energias modernas, a busca incessante pelo novo se deparou com o fim do novo. Assim, restou apenas re-processar o velho por meio de seqüestro seguido de assassinato, ou melhor, um rapto concomitante à morte.

Morte e vida. Os dois instintos básicos pensados por Freud. Pois, bem, não fugiremos de pensá-los, mas, primeiramente falaremos de Thanamos, o instinto de morte freudiano. Sem dúvida a morte é mais bonita do que a vida: misteriosa, oculta, eternamente virgem, inviolável. Deve ser por isso preferimos que fugir para o reino da morte, o pós-vida, do que enfrentar a realidade desencantada, iluminada, real, prostituída, da vida.

A morte sempre está lá, olhando para nós, não como se já houvesse chegado o momento de nos levar. De fato, ela está lá se esquivando, fugindo de nós, enquanto corremos atrás dela, desejando-a. Seu olhar não é o olhar do felino que caça a vítima, mas da Gnu que atentamente vigia contra seu caçador. Aquela figura clássica da morte, de um ser medonho, vestido de preto, encapuzada, com uma foice na mão e que vem nos tragar, levar-nos ao Hades, deve ser trocada pela figura fêmea, escorregadia, fugidia, tímida, vestida de maratonista, que se esforça em se esconder de seus algozes, os humanos. Principalmente os humanos crentes. Estes seres que estudam avidamente escatologia, sabem tudo sobre os quilates do ouro celeste, as ordens e organizações demoníacas e que esperam viver no céu. Viver naquele céu significa morte nesta terra: thanamos.

Amamos a morte, desejamos a morte, cantamos a morte, fazemos poesias à morte. Tudo, porque, queremos deixar a vida. A vida nos é cansativa, enfadonha, triste, melancólica, estressante, desgastada, um supérfluo. Esta vadia sem pudor e fidelidade. Estamos de passagem por sua cama, rumo aos braços da morte. Antes, estamos correndo incessantemente para a morte a fim de, alcançando-a, estuprá-la. Nossa morada eterna não é agora: a maximização hiperbólica de nossa existência prazerosa, realizada como a somatória de instantes eternizados, retornados. Os que casaram com Thanamos, chamam isto de hedonismo. Aqueles que vêem que tudo o que fazem é muito bom, como Deus no sexto dia da criação e aqueles que amam o mundo como Deus o amou, chamam isto de sacralização da vida: desejam apaixonadamente o eterno retorno do mesmo: da vida.

Parece que é devido a esta propensão à morte que matamos. Será? Amamos tanto a idéia de morte que matamos tudo que diante de nós está. Poderíamos dar inúmeros exemplos, claro, mas há aquelas amostras sutis que se realizam, sem, entretanto, desocultá-la. Vivemos no tempo do pós-simulacro, portanto, o jogo de aparências e ocultação está na ordem do dia. Neste tempo, quando desejamos decretar a morte de algo, hiper-noticiamô-lo, hiper-comunicamô-lo. Falamos em demasia da verdade, pois ela já não mais existe como referência. De fato, aqueles que mais se colocam em nome da verdade, são os que menos a tem como fundamento. Exemplo: a invasão americana ao Iraque. Aqueles que oram, lêem os textos sagrados, falam com deus, vão aos cultos, dizem sobre a verdade, etc, são os que sonegam informações, manipulam dados, inventam circunstâncias, deturpam relatórios, mentem, com o propósito bárbaro de fazer guerra. A coisa não é tão simples assim, mas, por certo, passa por aí.

Matamos não apenas na guerra. A guerra não apenas é um simulacro, um espetáculo transmitido pela CNN e re-transmitida por toda a mídia. A guerra é acompanhada deste jogo de informação e contra-informação que deve pro-duzir a ausência de verdade. Para cada dado sobre o evento, há um matiz de textos que des-referenciam a informação. A guerra é quando encurralamos a morte num beco sem saída. Não tem graça. Da guerra, além de obrigarmos a morte a levar muitos, pro-duzimos notícias, pro-duzimos trabalhos acadêmicos, pro-duzimos espetáculos e pro-duzimos a banalização da morte.

Banalizando a morte, voltamos ao simulacro. Falamos tanto dela que deixamos de tê-la como referência. A morte e a vida passam a operar no mesmo sistema de existência. Pagamos, assim, o preço da ‘prima notio’ e desocultamos, desnudamos, profanamos, adulteramos a morte. A morte passa a ser o próprio princípio da vida.

Princípio, arché em grego, é aquilo que funda, suporta, serve de base: “no arché (princípio) era o Logos (Palavra de Deus) [...] e o Logos era Deus.” (João 1: 1)

O arché é o princípio, o principado, a origem de toda a Palavra e, depois, de toda a fala. O lugar de onde saem as formulações e as idéias; do qual vêm toda sintaxe e toda ortografia: a linguagem. Mas, se profanamos e banalizamos a morte, então, no princípio é o thanamos e o thanamos é Deus. Mata-se Deus, como Édipo matou Laios para ficar com Jocasta.

Todo moderno é um Édipo, que depois de matar o pai, termina cego. Todo moderno é, freudianamente falando, um príncipe que deseja sentar no trono do Rei. O homem moderno é aquele que matando Deus, resta-lhe a ausência da referência de verdade. O homem moderno é aquele que crendo em sua autonomia racional, produzindo ciência, pro-duz morte, mas sendo cego, não sabe retornar à vida. Todo moderno é aquele que na busca do novo, apenas consegue raptar e assassinar o velho. Todo o clero é um Édipo Moderno.

Todo Édipo é alguém que vive da escuridão, de thanamos: sua Bíblia é escatologia, sua hermenêutica é maniqueísta e sua arché são principados demoníacos. Somente o maniqueísmo bíblico pode suportar, arché, o simulacro de morte quando esta está travestida de vida. Para Édipo o outro é o que estando vivo, está morto: o ímpio; e ele é o que estando morto está vivo: o santo. Ambos, para o cego, estão encerrados num projeto de morte, por já estar morto ou por estar a caminho dela. Não há a mínima possibilidade de que um vivo tenha, já, desempregado a morte e ressuscitando, tenha trazido consigo à vida os mortos que estavam cativos. Não há a possibilidade de todos estarem vivos. Para Édipo todos estão mortos, pois não vê a ninguém. Para Édipo, Deus morreu por simulacro, por ausência, por transcendência, pois seu princípio de vida é thanamos.

Bom, e a vida? Deus é Deus dos vivos e não dos mortos.

* eu ia escrever sobre outra coisa, mas ao iniciar me deparei com um texto que estava além das minhas idéias, entretanto mantive o título que para mim é instigante.

** agradeço ao meu amigo Mauro Tadeu que, após ter lido o texto, auxiliou-me com correções preciosas.