Sedução Espetacular
O drama está preparado. No palco mágico um homem vestido à
caráter; em suas mãos o seu instrumento de encantamento; no chão um cesto de
vime fechado; a terra batida, próximo ao trânsito desenfreado dos pedestres; o
sol.
Os olhos do ator-mágico demonstram ansiedade cênica: espera
pelo início do ritual mítico, místico, oculto, sagrado. Tantas vezes já viu
representado, ensaiou, apresentou, mas o público há de ser diferente, então, o
espetáculo estará inédito. Seu pensamento perpassa todos os detalhes
previamente determinado para que a sedução se dê.
A sedução: magia infinita a qual permite aos olhos verem
aquilo que se deseja ver e que o ator realize aquilo que dele se espera. A
sedução é a arte dramática do Narciso, que ao olhar para o outro, possa ver
refletido a si mesmo. A sedução que não é engano, nem trapaça, nem mentira, nem
verdade: um jogo. Seduz-se ao ser seduzido; é seduzido ao seduzir. Jogo cuja
regra é repassar o direito decisório ao outro, como forma de alívio energético.
É entregar a virgindade ao sedutor, quando de fato o desejo de se libertar dela
conduz à sedução daquele: sem culpa, sem acusações; uma contabilidade sem ativo
ou passivo.
O ator sabe que todo o público, a massa, requer o espetáculo:
ela é o espetáculo. Todos estão ali, naquele lugar sagrado, no centro do mundo,
pois ali, apenas ali, naquela terra, naquele canto do universo, a magia será
verossímil, ou seja, dogma. O público, como um redemoinho, como uma Via Láctea
que gira em torno de seu buraco negro, aglomera-se, aproxima-se, para, de
alguma forma re-ver: ver o que a sua mente já lhe disse que ocorreria, que já,
previamente projetou em seus delírios mais íntimos. O medo mais primordial será
dominado e amansado pela magia.
Silêncio ritual, hipnótico. O drama, aquele que não requer
moral, objetivo, finalidade a não ser a si mesmo; o espetáculo que representa,
perfaz uma mímesis objetiva da história sempre presente, de todos e de ninguém.
O drama se inicia falando para a massa, sobre a massa e termina sem acabar,
mantendo todos no limbo do êxtase alucinógeno do vício pelo eterno retorno. O
drama pára o tempo, cancela o passado e nega o futuro: viver o presente como
eternidade. Naquele lugar sagrado acessa-se o Éden e o Adão: tudo é puro, tudo
é real, tudo fala ruidosamente. Ele responde a nós, que, como Narciso, sou eu.
O drama põe a massa a olhar apenas à frente, para o palco, para o ator, para a
magia que ali reproduzirá a si mesmo. O drama é eterno e paradisíaco.
Sutilmente o ator, sem alarde, sem movimentos abruptos,
bruscos, repentinos, abre o cesto de vime. Não o abre por completo expondo seu
interior à vista, ao desencantamento. Faz com sutileza e destreza, assim como a
striper que não tira toda a roupa, antes, tira peças ao ritmo bêbado da
malícia; pois que ela não vem ali para mostrar sua nudez, mas para encantar,
seduzir, participar do jogo cauteloso da sedução: conduzir o macho ao delírio
alucinado de uma sedução hiperbólica. Aquela pequena fenda, como peças da roupa
que são atiradas ao chão, tenciona a massa e a mantém atenta e extasiada. Todos
sabem o que dali há de sair e todos se perguntam se o mágico, e sua magia serão
poderosos para conter a fúria do mal. É o mal que deve ser domesticado.
Entretanto, não o mal que está na cesta, mas aquele que está nos olhos da massa
e que transpassa o pensamento.
Caso o mal estivesse ali, bastaria matá-lo, exterminá-lo,
ou, aprisioná-lo, mantê-lo sempre e para sempre no interior da cesta fechada.
Não, o mal deve sair e ser visto, para que o Narciso veja nele seu medo:
espelhamento e prazer. O seu medo deve ser colocado finalmente na cesta de vime
e o ator deve demonstrar que com sua habilidade fará do mal um coadjuvante
espetacular do drama. Assim, mostrará seu poder sobre aquele que vem das
trevas: do fundo da cesta. O mal serpenteará ao som sedutor do habilidoso
ator-mágico.
Aquele poderoso domesticador empunhará finalmente e
fatalmente, sua flauta e tocando-a fará surgir do meio, da fenda aberta na
cesta, obscurecido pelo temor, a terrível víbora. Movendo e soando a flauta, o
mágico fará da ‘Naja’ um pseudo-Fred Aster, uma marionete que dançará conforme
ensaiado, movida pela melodia harmônica do sedutor. A serpente, finalmente,
seduzida pelo homem, prefigurará a possibilidade do medo ser domado. Ouvindo o
som da flauta a cobra estará apoderada pelo mago até que ele, com sua mão, não
a que continua a tocar, fará carícias em sua cabeça. Nunca pisará sua cabeça,
nem a esmagará, pois o espetáculo deve continuar e tanto o ator, quanto a
coadjuvante deverão lá estar, quando as cortinas novamente se abrirem. Mais do
que uma dupla, eles são parceiros inseparáveis do drama ritual do encantamento
espetacular.
O encantador de serpentes, o sedutor de homens. A surda
cobra não ouve, assim, a melodia lhe é inútil. A quem serviria a música? Aos
que de fato estão sendo encantados, domados: a massa que hipnotizada pelo
mágico e pela serpente, lança moedas em profusão e notas de cem dólares:
dízimos e ofertas legítimas àqueles que tão grande benção trouxeram ao mundo.
Homens e mulheres domados e domesticados pela dupla de atores anunciarão a dez,
a cem, a mil Narcisos o feito sobrenatural daquele poderoso flautista e sua
cobra dançarina. Seu medo saiu do oculto e, domado por um mágico, retornou
dócil e tranqüilo ao submundo, tranqüilizando-os e deixando-os dormir, por
hora. O medo está lá, mas o mágico o mantém contido.
Agora sabem que para cada serpente haverá um mágico, que com
sua flauta poderá, ritualmente, pô-la novamente na prisão obscura do inferno.
Irá amarrá-la com a suavidade de suas belas notas musicais e com os
instrumentos de suas bocas. Seu poder demonstrado poderá ser extrapolado tantas
vezes quantas se depararem com aquela que quer, com seu veneno, astúcia e
sedução, fazê-los morrer.
Serpentes venenosas, a massa sabe que existem, mas que para
combatê-las há encantadores mágicos e suas flautas. Basta pagá-los com notas de
cem dólares.
Obs.: Dedico este texto aos apóstolos, apóstolas, bispos,
bispas, episcopisas, missionários e tantos outros talentosos encantadores de
homens e mulheres, que com suas flautas mágicas, seus discursos e com a aquilo
que chamam de a “Palavra de Deus”, têm mantido cativo a Igreja embriagada
diante de seus dogmas e verdades, que emergem de seus cestos de vime. Pessoas
“ungidas” para manter sempre presente e próximas, por meio de suas teologias de
Batalhas Espirituais, da Prosperidade, da palavra da Fé, e tantas outras
doutrinas obscuras, as serpentes. Determinando, assim, pelo medo, a subjugação,
a dominação e espólio dos recursos financeiros, as energias vitais e
espirituais de homens e mulheres que superlotam seus templos, erguidos para a
honra de suas mágicas. Dedico a vocês que devendo pregar a liberdade que está
na Graça de Cristo, enganam e fraudam a verdade pelas revelações encantadas,
mantendo cativo pela sedução, homens e mulheres, sob vossas coberturas
espirituais. A todos os que estão matando Deus: à Babilônia, aos mágicos e seus
parceiros, as serpentes.