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Diário de bordo.

No parto da eternidade estávamos lá, dentro daquela nave movida a moveres. Uma máquina singular. De início descobrimos que no espaço, no vácuo absoluto, não precisávamos ficar gastando energia constantemente para irmos do ponto A ao ponto B. Para tanto, bastava unicamente que, por alguns breves instantes, fizéssemos funcionar a tecnologia de propulsão, e a energia despendida por este equipamento nos aceleraria até uma dada velocidade, a qual se manteria por um tempo suficiente. Tempo, velocidade, deslocamento; de fato, velocidade é deslocamento no tempo. É claro que devemos falar de energia, tecnologia e objetivo, mas estas coisas não se relacionam diretamente como na física newtoniana.

De onde vem a energia de nossa espaçonave se não dos átomos, antes, da quebra dos átomos. Como pode uma coisinha tão pequena fazer um barulho tão grande? Não há som no vácuo! Nossas vozes fora da carcaça coletiva, este templo pós-moderno, não se propagavam. Todo barulho que fazíamos, todo ruído, todo som ininteligível ficava para nossos próprios ouvidos e memória. A memória era algo a se desfazer pela sucessão das fissões, restando os ouvidos de nossos corpos mortais. Era da quebra que vinha a energia de nosso carro espacial. A tecnologia que fazia brotar energia no vácuo era a fissão de estruturas atômicas. Este era nosso objetivo: por meio da tecnologia quebrar pequenas estruturas que nos fizessem deslocar rumo a Telos.

Inicialmente deixamos a Terra, que insistia em permanecer na memória. Lá estava ela, azul, branca, verde e marrom. Cantávamos e brincávamos uns com os outros, felizes de deixarmos aquele lugar de horrores: guerras, fome, desertos, drogas, prostituições e tantas coisas que desejávamos esquecer, deixar para trás, abandoná-los à própria sorte. Ora, sabíamos que eles que se recusaram a entrar em nossa nave, desejavam consumir e serem consumidos pela luxúria, então, que ficassem com seus sete pecados. Nós, porém, não havíamos nascido para contemplarmos aquilo, éramos de outro tipo de gente: separados, raça superior, mais fortes, conhecedores da luz. Agora estávamos indo rumo ao nosso destino: Telos. Para podermos tudo, enfim. Bastávamos a nós mesmos; tínhamos a tecnologia, a energia e o objetivo. Nossas vozes de canto e júbilo pela liberdade de um mundo perdido, transformou-se em prazerosas conversas sobre as esperanças no futuro: dizíamos uns aos outros o que desejávamos fazer quando chegássemos lá. Ríamos, divertíamos, sonhávamos, movíamos-nos aos moveres. Esquecíamos de lembrar.

A Terra se distanciava de nós, inicialmente, à trinta metros por hora, mas estávamos acelerando até nossa velocidade de cruzeiro, isto é, duzentos e noventa e nove mil, setecentos e noventa e dois quilômetros por segundo. Quando chegássemos lá não haveria mais tempo, nem espaço: estaríamos na eternidade. Nosso objetivo era a eternidade que se poderia conseguir pelo uso adequado da tecnologia na geração de energia. Certamente que não acelerávamos continuamente, mas, intermitentemente, por explosões de moveres. Quando nos acostumávamos com uma velocidade, quando aquele sentir se tornava monótono, quando o novo se tornava obsoleto, então, uma voz estranha que saia de nosso meio dizia: rompam-se as estruturas, quebrem-se a forma original e gere-se energia na fissão de núcleos atômicos. Desta forma, a cada instante víamos o mundo perdido e esquecível diminuir diante de nossas clarabóias, depois, diante de nossos vídeos e dentro de nossas lembranças, como se fosse uma pequena lamparina que progressivamente consumisse seu querosene. Nosso prazer estava nestas acelerações fissionais que nos arremetiam com mais velocidade ao nosso objetivo.

Então, contidos no ponto central do universo, livres para irmos da popa à proa, do tombadilho ao convés, às salas de máquinas; de bombordo a estibordo. Livres para irmos a qualquer lugar desde que fossemos, em média, como todos os demais, para um lugar chamado Telos. Mas, como chegar a Telos quando tínhamos queimado os mapas estrelares? Livres para irmos a qualquer lugar, desde que não saíssemos da nave: fora da cobertura, do invólucro tecnológico, para o nada, à morte, à anomia. É somente na nave em seus moveres tecnológicos que tínhamos uma certeza, uma confiança, um rumo, um lugar no qual peregrinávamos, certos que pertencíamos uns aos outros: família. Peregrinávamos sem sermos peregrinos: desenraizados, desterritorializados.

Quanto mais veloz nos movíamos no interior do universo, mais a noção de tempo deixava de existir. Que contra-senso: mover-se velozmente, ou seja, deslocar-se em espaços similares em tempos cada vez mais diminutos, faz desaparecer o próprio tempo e também a própria velocidade. Mas o que é espaço quando não se sai de lugar algum e não se vai a parte nenhuma? Aos poucos desfizemo-nos dos relógios; trabalhávamos de madrugada e dormíamos de dia: o que é madrugada e o que é dia quando não se tem o sol para separar a noite do dia? O dia e a noite passaram a ser sempre noite, por falta de sol. O sol estava em nosso universo como uma pequena estrela que pulsa na infinita noite. Perdíamos as referências e também já não sabíamos se subíamos ou descíamos, íamos para frente ou para traz, direita ou esquerda: acho que girávamos em círculo, sempre retornando ao que já estivemos antes, embora, avançando, prosseguindo, indo.

Paulatinamente o riso e o canto de liberdade se tornaram água no Saara. Alguns viam entre as galáxias uma esperança renovada, outros, porém, mantinham a alegria e a festa contidos em cantis, a fim de serem utilizados em momentos especiais, lugares sagrados, uma vez por semana. Por vezes, cada vez mais raro alguém perguntava: onde é Telos? Este tinha o nome de Hairetikós, não confiava muito na arte dos pilotos. A sede produzia alucinações saudosas. Neste momento (?) os pilotos fissuravam as estruturas atômicas e aceleravam em um novo mover inebriante, hiper-excitante, orgiástico. Nada como acelerar com o propósito de adrenalinar o corpo. O êxtase fazia calar, por um tempo (?), a Hairetikós e arrebatar o ânimo dos demais. Assim, os pilotos e as autoridades descobriram como manter a ordem e o alinhamento do rebanho: a orgia dos moveres, os orgasmos do cérebro, o prazer do corpo. Mas, antecedendo aos moveres, quando a arte dos pilotos se detinha um pouco mais, ouviam-se gemidos e vozes sussurradas que falavam das histórias, do azul do céu, da brisa, do mundo, da Terra.

Então, percebemos que as acelerações abruptas que proporcionavam orgias simuladas hiper-adrenalinadas se tornavam mais freqüentes, mais radicais. De fato, com a fluidade do tempo e a des-referenciação do espaço, não sabíamos dizer que algo era mais ou menos freqüente, ou mais ou menos rápido, apenas sentíamos o prazer do gozo promovido pela técnica que multiplicava os moveres. Num destes hiatos de moveres que, ao caminhar pelos corredores largos e escuros, perguntei a um irmão, que não pude ver o rosto: “para onde vamos?” Ao que, prontamente, respondeu-me com a certeza que tem um técnico em computadores: “para o próximo mover, é claro!” Nisto percebi, olhando pela clarabóia, que o céu estava totalmente escuro, com apenas um minúsculo ponto branco, como uma lamparina que se apaga, que nunca mais poderia pensar ser o centro, era apenas um ponto branco no escuro. Percebendo sua destreza e confiança, votei a perguntar: “onde foram todos os planetas, as estrelas, as galáxias? Que estrela é aquela, solitária no universo?” Riu, riu e riu, ao terminar de rir, após sete minutos, disse: “seu tolo! Aquele é o universo: todas as galáxias, todas as estrelas, todos os planetas e tudo mais num ponto que se apaga. Deixamos tudo para traz e, para sempre, movemo-nos em moveres.

Nunca mais ouvi falar em um lugar chamado Telos, a partir de então, apenas em fissões e acelerações: moveres. Eu mesmo me esqueci deste mito. O êxtase era o fim: prazer, gozo e orgia, indefinidamente. Eu que cheguei a dar ouvidos a Hairetikós, quando ele disse que a ausência de Telos conduziria à implosão da missão. Bem, o espetáculo orgiástico proveu salvação e finalidade. Pensei, a partir daí, que se Hairetikós tinha errado não era digno de credibilidade. Mas, desde então, passei a ponderar na idéia de que a missão falharia. Mas como? Por falta de energia, imaginei. Acabando a energia, não haveria mais moveres e vagando inertemente no pós-universo, sem mesmo ter um ponto branco a nos guiar, entraríamos em colapso. Quanta ingenuidade a minha! Como a de Hairetikós. Sempre haverá um átomo no interior da espaçonave que possa, ao ser fissionado, prover energia para acelerarmos. A energia a ser obtida pela fissão é inesgotável. Sempre haverá um novo mover, mais espetacular, mais fabuloso, mais atual, mais radical, mais divino. A inércia da nave não está em sua velocidade constante, mas na constância da técnica em providenciar, como Deus, um novo mover orgiástico.

Então, percebi que, similarmente a Hairetikós, tendo eu errado não era digno de confiança. A única que não erra é a máquina: Ave Arte! Mas, deixando de pensar, deixei de perceber que após tanto tempo, tantas pessoas confinadas num mesmo lugar, faltaria-nos ar: pneuma, espírito. A nave dirigia-se ao nada, movida por moveres controlados por computadores, mas a ausência pneumática ceifou nossa possibilidade biológica de vida. Soteria Téchne! Deixamos nossos corpos e tornamo-nos software. Fizemos um upload de nossas mentes para os computadores de bordo e tornamo-nos livres daqueles corpos limitados, pesados de pecados e humanidade. Desde então somos a própria nave e linhas de programação. Delegamos nossas decisões, e isto anteriormente, ao Teotéchne. Vagamos livres pelo nada. Vezes ou outra olhamos para tais corpos putrefantes e faraóicos que jazem inertes nos corredores da máquina e aceleramos para o êxtase. Somos Téchne, somos deuses vagantes na eternidade. Um só corpo maquinal que ruma ao próximo mover técnico.