Ensaio: O Homem Jesus
No dia 26.04.2005 recebi um e.mail
de uma amiga que há muito não via, que, instigando a
uma reaproximação, compartilhou uma inquietação pessoal. Esta inquietação eu a
tomei como uma provocação fraterna e respondi. Não sei se bem, ou, para o bem,
ou mal, ou para o mal.
A pergunta, mantive na íntegra, alterando apenas o nome da
remetente. A resposta, possivelmente, ela verá que foi alterada. Assim segue
seu e.mail.
Marcos,
Tudo bem? Tenho me dedicado a
pesquisa do tema: qual a visão de homem de Jesus? Se puder me dar algumas
referências bíblicas, estou à procura de caminhos para responder esta
questão...
Abraços,
Sua Amiga (26.04.05)
Segue então minha resposta:
Oi Amiga,
Estive pensando em sua pesquisa e confesso que o tema me
parece instigantemente sutil quando se deseja encaminhar a questão sobre qual a
visão de homem de Jesus. O instigante está em imaginar Jesus
‘desenhando’ um homem ideal e este ‘desenho’ estar inscrito em suas diversas
falas, ou seja, a sutileza de não apresentá-lo objetivamente, mas, imiscuí-lo
nos inúmeros discursos. O desafio, tendo em vista esta instigante sutileza,
seria des-ocultar arqueologicamente1 o
Homem Moral2 que Jesus projetou para que os homens viessem ser. Mas,
entendo que posso pensar em pelo menos um caminho para fora desta
possibilidade, que explicitarei adiante.
Visando sempre abordar esta pergunta, procuro pensar de
forma sucinta em algumas possíveis implicações desta questão, buscando expor
minhas inquietações e os caminhos os quais, entendo, buscam estar postos na
direção de uma religação3, uma aproximação do evangelho de Jesus
Cristo ao nosso contexto contemporâneo. Para tanto parto de um ponto inicial,
daquele que entendo pelo qual deverei me esforçar em escapar de certa dicotomia
do pensamento que, a meu ver, não passa de um linguajar mítico. Este jogo de
linguagem bivalente conduz a certo tipo de leitura do texto sagrado4
vindo, assim, a levar o leitor a cair na tentativa de descrever um ‘homem moral
ideal’, uma vez que imaginaria haver um mundo das formas perfeitas disponível
ao entendimento humano, que, alguns, chamam de verdade espiritual. De acordo
com tal entendimento, o mundo das formas perfeitas, ou idéias, ou dimensão
espiritual é antagônico ao mundo real e falso. No entanto, este mundo perfeito
é um mundo de coisas a fazer visando conformação à norma moral.
É claro, dizem eles, que esta verdade espiritual se dá a
conhecer por meio daquilo que se supõe ser a ‘mente de Cristo’5 e esta revelada ao homem pelo Espírito de Deus.
Tudo em ressonância com o texto de I Coríntios 2. Entretanto, tomar este caminho, para mim, é correr o
risco de se enveredar por um pseudo-evangelho, no qual os fantasmas povoam a
crença sem que se depare com uma materialidade da fé. Em outras palavras,
acredito que o problema não está no texto, mas na leitura que fazemos deste. Esta pretensa boa nova traz o potencial imanente de
me conduzir a um entendimento imaterial da fé, uma fé que nunca se realiza no
mundo e na terra, antes, apenas para fora do lugar que Deus amou e me colocou
para existir.
A tensão será proveniente da escolha desta lente de leitura,
que ao desejar descrever a visão de homem de Jesus, vem a ser idealista,
espiritualista, imaterial e que privilegia uma verossimilidade
das formas ditas perfeitas. De igual forma hierarquiza o mundo das idéias
perfeitas que estão acima do mundo das realidades: a esfera celeste pretendida
ser perfeita, e a realidade mundana, chamada de falsidade. Assim, a visão de
homem de Jesus se torna a descrição de um homem ideal, o qual seria descrito a
partir de uma fundamentação em textos extraídos sistematicamente6 da
Bíblia, dando a eles uma interpretação humana7. Ou seja, parte-se
daquilo que alguém concebeu como sendo a mente revelada de Cristo e chega-se à
descrição do homem segundo a perfeição moral que se encontra em Jesus e que,
pretensamente, é determinada por ele. Esta descrição é apresentada,
invariavelmente, para a Igreja como o bem moral travestido de bem espiritual, o
qual apresenta a forma perfeita que o homem comum deve se conformar
precisamente, perfeitamente.
O que seria este bem moral? Ora, é aquele código de valores
determinados, estabelecidos por uma linguagem religiosa específica, declarada
pelas lideranças clericais que, invariavelmente, não podem ser cumpridos pelos
leigos e não são obedecidos pelos separados. O bem moral é um código
rigidamente fluídico que sempre está presente, mas, que é alterado pela
conveniência da dominação. Esta moral apenas se presta ao controle e à
dominação hierárquica. Assim, mais do que um código de conduta que estabelece o
certo e o errado, o bem e o mal, o verdadeiro e o falso, é um discurso que
determina classes de sujeitos espirituais: o clero dominante e que promulga o
código moral, e os leigos que se submetem na crença de estarem satisfazendo um
desejo divino.
Além das inúmeras implicações advindas do que apresento
acima, teria que determinar o sentido aceitável à palavra ‘perfeito’8, neste contexto da espiritualidade das formas
verdadeiras. O perfeito sendo o imutável, uma vez que nele está concebida a
completude do ser; o perfeito sendo o não agente e não passível de erro, uma
vez que seu caráter é íntegro, forte e pleno; o perfeito sendo a plenitude do
ser enquanto imagem e semelhança de Deus.
Neste momento, caso partisse por este entendimento da
perfeição, encontrar-me-ia enredado numa situação inexeqüível, ou seja,
assumiria a descrição de um homem irreal9 irrealizável10
no contexto da vida comum11. Portanto, entendo eu, esta descrição
carece de verdade12, não sujeita às demandas de uma fé cristã
plausível. O texto diz, “o justo viverá pela fé” (Hebreus 10: 37), mas, para se
poder pensar numa perfeita coerência entre a fé13 cristã e o homem
justo, sua vida apenas se realizaria após a morte, caso esteja imaginando a
possibilidade de um homem moral perfeito. Em outras palavras, o homem moral
perfeito pretensamente observado no interior do discurso de Jesus, não seria
realizável na existência humana cotidiana e ordinária, mas tão somente produto
de uma fé14 pós-morte, ou ideal. Assim, ver-me-ia aprisionado a uma
possibilidade na qual este homem idealizado, segundo uma ordem de valores
assumidos como sendo a de Jesus, seria uma fábula: um mito não realizável na
existência ordinária.
Ademais, este homem perfeito, segundo esta descrição
idealista, exigiria um céu15 para se realizar; apenas num lugar
perfeito o homem perfeito seria perfeitamente concebível. A engenharia
necessária à manifestação do homem perfeito requer condições externas perfeitas
para que a promessa de perfeição cristã seja possível. Mais do que uma
promessa, um desígnio divino: sê perfeito, diz o texto bíblico ao homem comum.
Então, para que pensar num homem perfeito se este exige um lugar perfeito para vir
a ser? Para que pensar, se este lugar perfeito se encontra fora da vida
natural? Ainda mais, que este lugar perfeito é obra exclusiva de Deus? Então,
não somente a idéia de homem perfeito é fabular, no que tange a existência
natural, como determina uma fé para um lugar não concebível ao homem. Ainda que
possa vir a contra-argumentar que a fé me leva esperar
o céu e a perfeição, o cristianismo, portador desta fé, somente é válido para a
existência pós-morte, e não para a vida na terra. Então, o justo morre pela fé
e de fato somente é exeqüível a perfeição para uma vida pós-morte.
A implicação seria óbvia: o cristianismo seria tomado
necessariamente como um mito não realizável, uma utopia descartável, uma vez
que apenas se aplica à morte e não à existência natural. O cristianismo seria
algo que se proporia uma ligação entre o homem vivo e sua morte, nunca entre o
homem vivo e sua vida. Ainda, o homem moral perfeito apenas se encontra naquele
Jesus e naquela mente de Cristo que imagino ao ler os textos bíblicos por mim
interpretados, tendo sido supostamente acessado por uma pseudo-revelação
própria do Espírito. Não apenas estaria diante do irrealizável, como estancaria
minha busca de uma plausibilidade do cristianismo prático em minha existência
cotidiana. O cristianismo dos ideários de perfeição absoluta, das formas
perfeitas é a negação da vida presente, e a existência humana cristã é uma
cadeia de tormentos cujo sofrimento intenso e constante é a única perspectiva:
uma patologia masoquista religiosa. Apenas restaria, neste meu cristianismo
idealista, a noção de pecado e culpa: por não conseguir ser aquilo que Deus
projeta que eu seja. Sei que este é o ônus do idealismo cristão: culpa pelo
pecado do não cumprimento do desígnio divino para a vida humana.
Colocando-me pontualmente e temporariamente à frente para
depois retornar, poderia pensar numa outra forma de entender a perfeição. Esta,
em contrapartida, teria que estar próxima do conceito de eficiência que deseja
a eficácia, ou seja, da vida. Dito de outra forma a fim de contrapor-me ao
idealismo: deveria entender a perfeição a partir da prática humana e sua
resposta à vida cotidiana. Desta forma, permitir-me-ia entender a eficiência
como a capacidade de responder a uma demanda adequadamente: fazer certo; e a
eficácia como a capacidade de responder a uma demanda adequadamente,
utilizando-se dos meios mais adequados para tal: fazer certo, de forma correta.
Esta possibilidade de elaborar a ‘perfeição’, isto é, pensar o perfeito como
resposta do homem à vida, permite-me introduzir, prematuramente, a idéia de um
homem que manifeste um tipo de humanidade que deseja a vida e não a morte: ama
aquilo que Deus amou. Isto parece responder produtivamente à
uma demanda Emanuel, isto é, um Logos Divino feito carne, um Deus que se
esvazia para habitar entre os homens e responder às exigências da vida humana.
Que se pense nisto.
Deixe-me voltar à questão primeira. Diante da premissa
idealista, perguntar qual a visão de homem de Jesus é, para mim, perguntar qual
o homem ideal (metafísico16: além do físico, no mundo das idéias
perfeitas, lugar espiritual da verdade17). Portanto, estaria
pensando no mundo do perfeito, do imaculado, do meta-utópico18;
num mundo que, talvez, somente exista em meu ideal hiper-ascético19,
conforme salientei acima. Estaria pensando para além da utopia, pois olharia
uma perfeição supostamente divina que suporia ser pretendida por Deus para o
homem, a qual é inatingível. Ao repassar estas condições de existência percebo
que este ideal meta-utópico é estressante (distress) e esquizofrênico. Neste ponto, creio, preciso dar
outra parada.
O stress pode ser entendido como a energia20
psicofísica de adaptação a uma situação nova; stress é a resposta psíquica,
física e comportamental que o indivíduo dá a fim de se adaptar a uma pressão
interna ou externa. Ou seja, diante de uma ocorrência, um fato, uma pressão
qualquer, do indivíduo se requer uma resposta que o permita fazer frente a esta
pressão. O stress pode ser entendido positivamente (chamado de eustress), quando a pressão permite uma resposta favorável,
uma adaptação. Entretanto, o stress pode ser entendido negativamente (distress), quando a pressão o paralisa ou ele sucumbe
diante dela, ou seja, a pressão é superior a energia
que dispõe para enfrentá-la.
Então, sendo o ideal cristão irrealizável, este pode vir a
exercer sobre o homem uma pressão por uma forma de perfeição, sendo possível
não haver neste indivíduo energia de resposta, recursos para dar uma resposta
favorável. A perfeição cristã seria fonte inevitável de distress
no crente, paralisando-o como um animal acuado por seu predador.
A contra-argumentação a esta proposição poderia ser
construída ao dizer que a obra de aperfeiçoamento é uma responsabilidade
divina, cabendo ao homem deixar-se conduzir pelo Espírito21. Mas,
então, o que seria o pecado, tão enfatizado pelos que buscam a perfeição?
Sabendo que o pecado é um desvio de conduta diante de uma conduta ideal,
perfeita, ou seja, o pecado é uma ação de qualquer espécie que não corresponde,
ou não pertence ao campo das ações perfeitas, então, este pecado não deveria
pertencer ao homem, em outras palavras, o homem nunca pecaria, pois ele não é
responsável por suas ações, uma vez que é o Espírito que o conduz. Assim, seria
debitado àquele que tem a responsabilidade de produzir as ações: Deus como
condutor único da vida humana. Mas, Deus não peca, portanto, não existiria
pecado? Todo este jogo de palavras apenas tem a intenção de mostrar a
dificuldade em amarrar a obra de aperfeiçoamento do Espírito com a fragilidade
humana. Mas, a idealização de um homem perfeito determina que ao homem é imputado o perpétuo pecado e a culpa contínua, enquanto
ser que está aprisionado à falsidade da matéria; e a Deus cabe a esperança em
seu caráter incansável e perfeito. Ao crente restaria o distress
ou a esquizofrenia.
Ora, a palavra
esquizofrenia é advinda das palavras gregas skhízein, fender + phrén, phrenós,
espírito. Então, em sua etimologia, podemos dizer que esquizofrenia é um
estado no qual o homem se encontra com o seu próprio espírito fendido. Faço
notar que não é uma fenda entre o espírito do homem e o Espírito de Deus, mas
do homem consigo. Aqui lembramos o apóstolo Tiago que diz: “não suponha que
alcançará do Senhor alguma cousa; homem de ânimo dobre, inconstante em todos os
seus caminhos” (Tiago 1: 7 e 8) Entendo que uma forma
eficiente de escapar ao distress religioso é a
esquizofrenia religiosa. Não estou buscando entender esquizofrenia como uma
patologia psicológica ou psiquiátrica, mas uma fenda na existência humana que
produz partições na vida do crente: o indivíduo se torna ator em diversos
teatros, despindo-se e vestindo-se de diversos papéis no transcurso cotidiano.
Creio poder buscar
em Heidegger, Renato Russo e Moisés inspiração para entender o que seria
espírito e daí, a fenda. A partir de Heidegger entendo o espírito como a chama
interior que dá vivacidade à vontade e determinação; a energia interior que
potencializa e fortifica o homem. De Renato Russo, lembro a poesia que diz que
o amor é chama que arde sem queimar. Então, lembro-me de Moisés que estava
diante da sarça ardente que não era consumida pelo fogo: o Espírito como a
chama que faz o homem comum se tornar incomum; como diria o salmista: faz com
que o homem fraco dobre um arco de bronze. Mas, também, o espírito como o que
dá vivacidade e determinação ao homem comum, tornando-o incomum, mas, antes de
consumi-lo, fortifica-o. O espírito que soprado no homem, o torna uma alma viventi, alguém vivo e vivaz.
A fenda seria,
então, a perda de unidade deste espírito, a fragmentação do homem. Um homem que não tem diante de si objeto ou objetivo, mas
despende sua energia vital em constantes e freqüentes trocas de papéis visando
a sobrevivência num mundo polinômico22. Como um artista de vários
teatros, deste homem se requer a representação de diversos papéis cênicos
segundo um nomos externo e divergente, múltiplo. Este
é um homem-camaleão, cuja existência se dá no transcurso de inúmeros papéis
segundo a ordem do espetáculo. A esquizofrenia se apresenta como um recurso
eficiente, ou uma forma de fuga de realidades distressantes,
ou maneira de co-habitar em mundos conflitantes sem se requerer harmonização.
Toda a parafernália
da Teologia de Batalha Espiritual é pródiga em exemplos desta ordem. Nada mais
fantástico e fantasmagórico, além de imagético e espetacular, do que imaginar a
existência de um exército organizado23 que luta contra Deus.
Lembrando Caio Fábio D’Araujo Filho: “aspecto
negativo do movimento de batalha espiritual é a ênfase na luta espiritual de
olhos fechados e dentro dos lugares de oração, que faz de muitas reuniões de
batalha espiritual verdadeiras sessões de ‘videogames’
para crentes.” (D’Araujo, 1996, p. 37). Além do
ridículo de conceber uma teologia que pense nesta tal guerra contra Deus, a
Batalha Espiritual é produtora de homens fendidos no espírito. Como?
Vou pensar a partir
de um exemplo: No domingo o indivíduo participa de uma reunião onde é dito que
o “mundo inteiro jaz no maligno” (I João 5: 19), assim, toda a vida
para fora das fronteiras do templo, da Igreja, da Casa do Senhor24,
está submetida ao poder e autoridade satânica. Contra toda esta ordem satânica,
os difusores da Batalha Espiritual saem amarrando, quebrando, denunciando, etc, desfazendo estes poderes das trevas. Também é lembrada as palavras de Jesus que disse que “quem não é
comigo é contra mim e quem comigo não ajunta, espalha” (Mateus 12: 30). Mas, na
segunda-feira, fruto de pedidos de oração, este mesmo indivíduo, empregado,
põe-se a trabalhar no mundo, em última instância, para aquele que é dono de
tudo, o empregador supremo do mundo profano: Satanás. Ou seja, o indivíduo
crente é um empregado de Satanás a fim de fazer prosperar os negócios do Reino
das Trevas.
Parece-me que apenas há uma
maneira de conciliar estas duas realidades: esquizofrenia. No domingo eu sou um
indivíduo que creio num conjunto de verdades, que tem sentido dentro daquele
espaço-tempo, mas na segunda-feira creio num outro conjunto de verdades
conflitantes com a primeira. Como ator em diversos teatros, desempenho papéis
como representação cênica sem pensar na necessidade de correlacionar os
fragmentos de minha vida, a fim de conceber um significado existencial único, íntegro,
mas que, em última análise, produz em mim uma fenda espiritual: motivações e
amores conflitantes.
Retomando, então,
devo dizer que o discurso necessário pelos meios de divulgação da
espiritualidade idealista cristã, que visa a descrição
do homem perfeito de Jesus, tanto pode realizar o distress,
quanto produzir a esquizofrenia. Mormente quando se percebe que este edifício
doutrinário ainda se mantém operacional pela crendice que permite dar valor ao
pecado moralista e à ação dos demônios. É o peso do pecado moral e o medo do
juízo, não divino, mas, demoníaco, quem opera na mente do indivíduo, a fim de
crer na leitura espiritualista. Então, o homem ideal é o homem da Lei.
Aqui está mais um
paradoxo desta leitura espiritualista do homem perfeito: ela se daria por meio
de atos morais, isto é, por uma conduta pautada no bem e no mal definido por
ações do corpo do homem. Torno-me perfeito quando nego meu corpo25,
quando persigo o corpo como a um bandido. O bem espiritual se dá no corpo, ou
seja, na imolação do corpo. A Lei visa tão somente a
negação do corpo conferindo a esta ato a possibilidade do aperfeiçoamento
espiritual. O corpo é o capacho do espiritualista.
Trilhar este
caminho é reforçar a Lei, o ascetismo farisaico e nos pautarmos pelo pecado como
princípio norteador para a perfeição. A descrição
de um ideário divino para o homem é, partindo desta proposição de leitura da
Bíblia, uma armadilha para prender o homem ao pecado, por meio de leis morais.
A lei moral, ou seja, a distinção entre o bem e o mal determinada pelo guia
espiritual, seria o meio para se atingir a perfeição imaginada, por mim, para o
suposto homem pretendido por Jesus.
A visão de homem de Jesus culmina, desta forma, na descrição
legalista de um homem que está inexoravelmente submetido à Lei, mutatis mutantis, ao pecado. É o
pecado e não a graça quem determina, através desta perspectiva metafísica-cristã, a vida de Deus
no homem. A metafísica cristã, dentre outros males, submete o homem, por meio
de uma leitura humana do texto sagrado, a uma esquizofrenia distressante.
O espiritualista legitimamente desejando a perfeição divina para si, pode
estar, voluntariamente, servindo ao domínio de uma religiosidade não gera
aperfeiçoamento. Então, a pergunta sobre a visão de homem de Jesus, possivelmente,
deverá ser trabalhada visando a mudança do epicentro
da questão, e é isto minha intenção. Para tanto devo estar perguntando sobre o
Espírito e a revelação, uma vez que a premissa idealista parte da veracidade da
Revelação do Espírito de Deus ao clero.
Perguntaríamos: como poderíamos pensar o relacionamento com
o Espírito Santo, então, que cremos nos conduz na leitura do texto,
vivificando-o, possibilitando obter uma descrição contextual do projeto divino
de humanidade? Responderíamos com a fé no Espírito que se reconcilia com o
homem, que promove e efetiva o relacionamento de Deus com a criatura, por meio
do Emanuel: Jesus Cristo, a demonstração empírica da humanidade real.
Responderíamos com a Graça e não com Lei. Portanto, sendo o Espírito
gracioso na reconciliação de Deus com o homem, tenho fé que Ele promoverá uma
leitura dos textos que seja graciosamente comprometida com esta Graça de Deus e
não com a Lei. A condução da leitura, baseada no relacionamento com o Espírito
Santo, dá-se pela lente da Graça e não da Moral. A Lei tendo sido um hiato26
de Deus na história humana para nos mostrar a nossa servidão ao pecado,
entretanto, é a Graça o projeto de Deus: eterna. Ademais, a reconciliação, o
Emanuel, é uma obra divina que se manifesta na terra e no mundo, por princípio.
Neste ponto ousaria refazer a pergunta inicial da seguinte
forma: qual o homem que foi Jesus? Ou seja, nesta pergunta parto de uma série
de prerrogativas, de premissas: Jesus é homem. Jesus Cristo se esvaziou da
divindade a fim de ser o homem que ele foi. Jesus foi submetido a todo o streess, decisões e possibilidades de minha humanidade, a
fim de demonstrar que há nele, não um ideal, uma utopia, mas um homem; um homem
que se apropriou da Graça e foi gracioso.
Devo, em minha fé27, crer que Jesus ao cumprir
toda a lei, antes, ao cumpri-la integralmente, ilegalizou a Lei28,
tornando-a sem efeito como meio de salvação e mesmo como estrutura moral da
sociedade. Não tendo a Lei poder de salvação e regulação da vida cotidiana,
resta-me a Graça. Então, o homem que devo buscar em Jesus não é aquele que se
submete à Lei e à moral, mas é aquele que viveu da Graça e por meio dela obteve
ressurreição. Assim, não há espaço para se fazer uma descrição do homem moral
em Jesus: aquele que não fuma, não bebe, não faz sexo, não mente, vai a igreja, etc. Mas devo buscar nele as dimensões graciosas
do Pai: inclui, perdoa, restaura, consola, ama, tem fé, aproxima, relaciona-se,
rompe preconceitos, etc.
Minha fé é, assim, num Deus que para se reconciliar com o
mundo (nós e a natureza) se fez homem, esvaziando-se da divindade, para que
todos os demais homens pudessem compartilhar da mesma fé num ‘Reino que está em
vós’. Descrever, ou, buscar elementos do entendimento de Jesus, homem, é buscar
conhecer e entender sua humanidade histórica e seu legado trans-histórico que
se dá em seu corpo: a Igreja. Entender sua humanidade histórica não é retomá-la
e restaurá-la, mas é saber que este homem, diante das incontáveis e
incontestáveis dificuldades temporais a que foi submetido, manteve-se fiel à
sua humanidade. Entender seu legado trans-histórico é ultrapassar o tempo e a
geografia e perceber a Graça manifesta em suas ações e retê-la.
Então, ser-nos-á dado a entender o seu corpo. Este corpo,
nós, deve ser entendido como o pão de uma nova ceia, que se repete, repartindo
e sendo entregue ao mundo para apresentá-lo a reconciliação de Deus. A
verdadeira Graça de Deus é o Corpo de Cristo que se reparte e se doa ao mundo.
Entender a Graça imanente de Deus que estava em Jesus é,
antes de tudo, o exercício para a Igreja a fim de que ela também exale este bom
perfume. Assim, não está na moral e nos atos, mas na fé que ‘permite’ esta
Graça transcender a minha própria existência. O que se faz ou deixa-se de fazer
é outro assunto e não tem nada a haver com um modelo ideal de Deus para a
existência, antes, é função da forma como se estabelece os
inter-relacionamentos e a vivacidade com que o espírito do homem deseja e se
compromete com a vida do homem.
O que desejo é permitir um ângulo diferente para esta
questão29, que conduza ao entendimento do Jesus histórico que pode
ser contextualizado para a história contemporânea. Ele cumpriu a Lei e os
costumes de seu tempo, mas seu legado, para além da salvação, está nesta
dimensão graciosa que expôs os cumpridores da Lei ao impossível da Lei.
Por certo que a Graça, por meio do Emanuel, não está no céu,
mas no mundo. Então, buscar a Graça é uma deliberação de co-responsabilidade:
Deus e o homem que está no mundo. A Graça divina, inexoravelmente, deve ser
manifesta, primordialmente, por meio do homem que está no corpo. Não apenas o
homem que é Corpo de Cristo, mas o homem que, vivendo,
não relega seu próprio corpo ao escárnio da religião idealista. É o corpo do
homem que está no mundo que requer a Graça, como disse Jesus: “não necessitam
de médico os sãos, mas os doentes.” Então, para compreender o homem que foi
Jesus devo me esvaziar das prerrogativas axiológicas e pensá-lo no seu caráter
e não em suas obras, e isto no mundo.
O cerne da questão está em que o trabalho de Deus é vir ao
mundo e não levar o homem para o céu. Dito de outra forma, o projeto divino
antes da fundação do mundo é se fazer carne e habitar entre os homens, e não
foi o de espiritualizar os homens a fim de levá-los para o céu. Isto está
expresso na própria oração legada por Jesus a nós: “que seja feita sua vontade
na terra, como é no céu.” (Mateus 6: 10) Mas, a vontade celeste de Deus não é
uma perfeição idealista, antes, uma perfeição que se dá no mundo. Não é
buscando conhecimento sobre os valores ideais e perfeitos sobre a conduta moral
para o homem, que, supostamente, está no céu e forçando estes valores a se
imporem na terra, que veremos a vontade de Deus. Mas, e, sobretudo, é
materializando, ‘Emanuelizando o Logos’, a Graça na
terra a fim de que seja percebida pelos homens, que a vontade de Deus se dá.
Esta Graça não é função da minha moral, minhas crenças no bem e no mal, mas
intervém sobre os valores de caráter que se valem para além da moral afetando
os relacionamentos.
A moral não cênica, não espetacular, não estética, ou seja,
graciosa ocorre inexoravelmente, mas não é ela quem deve ser o objeto de nossa
fé. O objeto da fé é o caráter. O caráter simples vivido por Jesus: da Graça. A
simplicidade de Jesus está em que sua grandeza, sua glória, não redunda de
ingredientes complexos e múltiplos; sua simplicidade está que seu caráter se
deu no transcurso cotidiano e natural de sua existência. A verdade de Jesus
estava em sua vida e não em sua religião.
O que Jesus deixou de legado não é uma descrição moral do
homem, mas, parece-me ter deixado o DNA de caráter passível de clonagem. Esta
integridade de valores intrínsecos o permitia conviver com prostitutas,
corruptos, excluídos, doentes, etc., sem contaminá-los com a culpa de pecado. A
perfeição de Jesus não estava fundamentada em valores morais absolutos, em
virtudes ideais, mas no amor à vida e em relacionamentos intensos e graciosos.
Então, a sua adequação à moral vigente em sua época apenas demonstra seu
emprenho gracioso em estabelecer relacionamentos. Era a dimensão de corpo,
enquanto co-pertencimento, que compunha o universo de suas motivações. O mal,
aquilo que contamina o homem, para Jesus, não é o exterior, as mãos sujas, mas
as palavras que saem da boca, assim a perfeição não é função do ambiente, não
requer a existência de um céu.
Devemos entender que a perfeição de Jesus não é, tão pouco,
um estado permanente e imutável do homem, mas uma dimensão de estar: eficácia.
Jesus não apenas foi perfeito, mas esteve perfeito, isto é, em cada instante
ele respondia às demandas da vida e apresentava-se apto às novas demandas.
Assim revelou o Espírito ao escritor de Hebreus: “Ele, Jesus [...] tendo sido
aperfeiçoado [...]” (Hebreus 5: 7 e 9). A perfeição
não é um estado de completude, mas eficácia e potencial de eficácia; assim, a
perfeição plena de Jesus, hoje, está em responder eficazmente aos propósitos de
Sua divindade humana, por isso diz o mesmo autor: “[...] o constituiu Filho,
perfeito para sempre.” (Hebreus 7: 28)
Portanto, não vivemos mais sob a égide do império do pecado
e da morte promovida pela Lei das Virtudes Absolutas do Mundo Espiritual, mas
fomos transportados para o Reino da Graça Perfeita que se faz carne no mundo
por meio de homens comuns. Ou seja, a perfeição plena de Cristo, hoje, está em
responder eficazmente por meio do seu corpo, à vida humana que se dá no mundo.
Assim entendo o ato da ceia: “[...] tomou Jesus um pão e, abençoando-o, o
partiu, e lhes deu, dizendo: Tomai, isto é o meu
corpo.” (Marcos 14: 22). Paulo, tendo diante de si um pão da ceia disse: “O Pão
que partimos não é a comunhão do único pão. Porque nós, embora muitos, somos unicamente um pão, um só corpo.” (I Coríntios 10: 16 e 17) O único pão, trans-histórico,
trans-geográfico, trans-cultural e, hereticamente diria eu, amoral30
é o Corpo de Cristo revelado no mundo: o corpo do homem. O pão dado, abençoado
e rasgado é a Igreja que, suprida do DNA de Cristo, deve ‘Emanuelizar
o Logos’ todos os dias. O Logos não é a Lei, mas a Graça Amorosa de Deus.
Olhar para o homem Jesus é olhar para a minha humanidade que
clama por uma perfeição, sem reclamar uma Virtude.
Abraço,
Marcos Nicolini (29.04.05)
Notas:
4 Para mim, sempre, a questão se dá
não na veracidade do texto, mas nas lentes que os homens usam para lê-lo.
15 Aqui se encontra outra crítica
que fazemos a esta teoria, que poderíamos chamar de platônico-cristã. As
condições imprescindíveis para completude da vida cristã encontram-se,
invariavelmente, fora do homem. A própria perfeição não leva em conta, em
momento algum o próprio indivíduo, sendo, portanto, obra de Deus e resultado de
um ambiente perfeito: céu.
30 Amoral não é imoral. Imoral é
aquele que conhecendo uma lei, transgride-a. Amoral é aquele que não reconhece
uma Lei.
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