Doxa: Glória e opinião
Diante
da técnica moderna tudo parece perder o brilho, a grandeza de si, a glória,
apesar de que as estrelas vistas pelo foco dos espelhos de um observatório,
apresentam-se aos observadores como um móbile posto quase ao alcance das mãos.
Estas não são mágicas como aquelas descritas pelos poetas, pois as estrelas
apaixonadas brilham, mais, por serem encantadas. Os luzeiros que pululam no
escuro possuem data, nome e propriedade, tanto para o cientista quanto para o
enamorado, todavia, destes fazem lembrar o sentimento. A mesma luz que cintila,
para um é objeto cognoscível e para outro é sublime indizível. Para o primeiro
é traduzido pela linguagem da matemática e para o segundo é descrição do
impronunciável.
Confrontando
o mesmo ponto reluzente, o poeta deixa escapar o real pelas palavras que não
alcançam o que se deseja ser dito e o cientista equaciona o Universo com a
exatidão representacional de suas faculdades. Nas palavras da poesia está a
descrição da visão que nega a nudez da estrela, a qual é escorregadia, fluída;
na poesia não se deseja a técnica das lentes e dos espelhos, que ao serem
mágicos desmistificam a estrela. Aqui a linguagem lapidada da poética é a lente
e o espelho. Nas palavras da ciência aqueles pontos brilhantes, ou não, são quasares, pulsares, supernovas,
buracos negros, satélites, planetas, asteróides, galáxias, etc. Circunscrevem
órbitas, movem para o além, expandem, acabam. São estudadas, analisadas,
descritas, formuladas, apreendidas, objetivadas, definidas, limitadas pela
exatidão das fórmulas, da técnica. Mas, também e, sobretudo, são vistas, ou,
refletidas por espelhos precisamente projetados, produzidos, polidos a fim de
permitirem a ciência.
Espelhos
côncavos e convexos postos ali, precisamente ali, para que a imagem do celeste
seja vista rigorosamente como é em
si. A natureza deve ser reproduzida, duplicada por meio do
espelho engendrado pela técnica mais exata, a qual crê que há uma verdade
latente e absoluta, perfeita mesma nas coisas, que será desnudada com o
provimento de tecnologia. Espelhos é a tecnologia que dá substância a esta
crença em produzir verdade segundo a eficácia da correspondência. A
correspondência espelhada projeta uma bidimensionalidade
fria e muda, ainda que multicolor, à imagem. Cientistas solitários e distantes
apontam seus telescópios para o céu e os espelhos trazem a imagem
representacional do Universo para os computadores. Crêem
que estes espelhos, mágicos, podem revelar, desnudar, desocultar
a verdade que está imanente no cosmos. Esquecem, lapso
improvável, que a luz que captam não traz a imagem do que é, antes, do que foi
nesses milhões de anos-luz que o fóton navegou até precipitar-se na linguagem
da ciência. A exatidão das técnicas de espelhos polidos corresponde à verdade
passada, assim, apenas predizem o que já foi. Estes, ainda, pretendem refratar
as credenciais da poesia, a qual não fala pela precisão matemática, antes,
metamorfoseia a palavra segundo a utilidade requerida ao poeta.
De
certo que os espelhos dos poetas não possuem a exatidão do cálculo, a precisão
da fórmula, a eficácia da matemática, o polimento tecnológico dos cristais,
apenas refletem com a miopia de uma linguagem bela, simples, polissêmica,
paradoxal, antagônica, bivalente, em fim, uma poética de palavras em lapidação. Como
o míope, a poesia requer a aproximação da palavra à vida: tensão inerente da
aproximação do mundo à terra. Tais palavras míopes
apresentam - como foram os espelhos de Atenas, Jerusalém e Roma de metais
polidos - uma semi-imagem, antes, uma quase-imagem àqueles que ali buscam
refletir. O míope não apreende a imagem da estrela num só olhar, mas, suspende
sua certeza e posterga sua declaração, busca estar diante do brilho por mais
tempo e não hesita em ouvir o que o outro lhe diz. Aqui a imagem chama para
perto de si uma intersubjetividade - pó ao pó – que
reclama aproximação, não apenas da terra, mas do outro que está na terra: a
poesia que reflete o eu e o outro, nós. Entretanto, mesmo o espelho mais
obscuro, obtuso não deixa de ser uma técnica: ainda poesia. A imagem refletida
pelo espelho da linguagem é a poesia da alteridade, da aceitação do outro como
o que está próximo e requer esteja próximo, guardando nossa distância. Assim a
lapidação da linguagem se dá no atrito com o outro que também a lapida. Mas a
lapidação deseja e requer o polimento como etapa de produção de brilho nos
espelhos e é por ela que se faz aparecer a arte do
poeta. Não apenas o atrito da lapidação, mas a beleza generosa do polimento.
Enquanto
na ação de polimento se tem como referência a forma prévia, ou, a priori que
seria intrínseca à palavra, ao espelho, na lapidação o cristal, a pedra, o
metal - a coisa bruta - está à mercê daquele que sobre ele trabalha em favor da
forma. A forma confere valor à coisa bruta, permitindo que a beleza seja aquela
requisitada para o uso comum da jóia. A beleza apreciável da quase-jóia,
lapidada para o uso, clama pelo polimento que fará manifestar o valor ali
depositado pelo trabalhador. A coisa bruta, que apenas é dada e aceita ao
ourives, o poeta, oferece-se a este em sua obra. A obra do poeta é lapidar e
polir.
A
linguagem provê ao olhar a possibilidade do reflexo na poesia, embora aquela
requeira uma lapidação das palavras, a doação de sentido, a significação
projetada para um uso compartilhado. A glória das palavras poéticas não está em
sua exatidão positiva, no polimento que garanta a manifestação de seu sentido
intrínseco, mas em sua polissemia útil, do tempo e do lugar do poeta, a
lapidação. O espelho da poesia mesmo polido não representa perfeitamente a
imagem daquele que o mira, apenas contribui para a beleza lapidada. A glória da
palavra está na lapidação, a qual requer a terra, o uso comum e útil:
polimento. A Glória da Palavra dá-se à lapidação em meio a uso comum, a
opinião, que se dá na terra. A Glória e a opinião são, no aceite à alteridade,
uma só e a mesma coisa: poesia.
É na
religião que a doxa
grega é traduzida como glória, a Doxa de Deus é a Sua glória. Mas é na filosofia que esta é
traduzida por ‘opinião’, a doxa do homem é a sua opinião. Talvez pudéssemos suspender
temporariamente a intrinsicabilidade absoluta da doxa, tanto
quanto negar seu relativismo caótico e propor um re-descrição, por sua
utilidade humana e profícua na experiência com Deus. Sem negar a Doxa de Deus,
crendo que como cooperadores desta obra, ourives, é-nos permitido, antes
requerido, negar o absolutismo matemático causal da relação signo-significado.
Ou seja, a Doxa
de Deus não pode ser reflexa como que a partir da técnica de produção de
espelhos perfeitos, como dogma absoluto, antes requer um espelho poético e
limitado à doxa
do homem, ainda que aquela não dependa desta. A Glória de Deus é,
metaforicamente, como a experiência de Moisés no deserto, a ser vista como que
de passagem, pelas costas, ou ainda como nos fala Paulo, “nem olhos viram, nem
ouvidos ouviram...” Ou seja, ela não se dá diretamente ao homem por uma visão e
uma palavra, ainda que espiritual. A Doxa exige espelhos e espelhos chamam a doxa. A Doxa e a doxa são tencionadas neste
espelho no poético, mas não no técnico: a técnica que exige a dogmática da
verdade absoluta e precisa; a poética que chama a fluidez imprecisa da
polissemia.
Mesmo a Doxa, convertida, pelos séculos
metafísicos que nos separam de Jesus, em Glória, como se esta palavra se
referisse a um canto de exaltação a Deus, um “Glória, Glória e Aleluia”,
fala-nos do caráter, da integridade de uma pessoa, da gravidade ética do
indivíduo, do peso e relevância de suas ações. Assim, falar da Glória de Deus
não é, em caso algum, um refrão, uma expressão ritual que compõe, junto com os “aleluias”, “sublimes”, etc., um conjunto de louvores e
adoração. Dizer da Glória de Deus é usar uma linguagem que expressa uma
experiência com o sagrado e perceber nesta o peso de seus atos. Mas falar do
peso dos atos de Deus é requisitar a perfeição de Deus. Qual perfeição? Aquela
com que ele se apresenta a cada um de nós. Então, a Doxa passa a ser
descrita pela doxa.
A imagem da Doxa
não se dá pela palavra, mas pela poesia, isto é, a vida como a manifestação da
palavra, assim, a Doxa
de Deus exige a vida do homem. É no pão, na carne do homem, seu corpo que
podemos ver, por espelho, a Glória de Deus.
Entretanto, ver a Glória de Deus
exige a glória do outro. O espelho do homem, aquele que permite ver uma imagem,
a sua imagem, não é um livro, mas o rosto do outro, que, posto próximo e
distante, reflete a humanidade. O espelho, a linguagem que apenas ocorre com o
outro: do homem com o homem. Para que o homem veja o homem deve requisitar o
outro, como diria Derridá, o terceiro. Assim, a fim
de que o homem veja Deus deve olhar para a face do terceiro: a Doxa de Deus está
no rosto do outro. A poesia que fala da imagem da Doxa, chamando o outro e o
terceiro, chama a lapidação e o polimento. O homem que olhando para o espelho,
seja um cristal, seja um livro vê a si, não vê a Doxa, antes, apenas a sua própria
opinião sobre a fé. Mas o homem que olhando para o terceiro ali vê a Doxa no rosto
deste, antes, o dom da graça que se compartilha pela linguagem. O homem que
olhando para o espelho e, como Narciso, vê a si, vê a verdade dogmática da
técnica: indivíduo robotizado, andróide coisificado, solitário e distante. Mas aquele, como Cristo,
que ao olhar para o espelho, esvaziando-se não se vê, mas percebe o terceiro,
vê a Glória de Deus que está na terra. É quando a doxa confronta a Doxa, que aquela
se aquieta diante desta, retém-se em observar por mais tempo, nesta poesia
sempre incompleta e perfeita, que vemos a Cristo, que
se dá este “de glória em glória” misterioso e processual.
Subtraídos do véu da Lei moral,
podemos olhar para o espelho e contemplar a Cristo. O rosto nu e descoberto
diante do espelho igualmente nu e descoberto permite o reflexo da Doxa. Esta transposição
da lei, este descobrimento do rosto, este lançar fora os tecidos do moralismo,
esta negação do bem e do mal metafísico que confere a graça do olhar poético ao
espelho e neste olhar ver a Doxa do Senhor. Negar-se a hierarquia da alteridade e imputar-se
a humanidade poética, imprecisa, escorregadia, apaixonada, intensa. Não apenas
aceitar-se em sua perfeita incompletude do ser,
antes, deixar-se ser em obras, ser em lapidação, em polimento que se dá com o
Outro e o terceiro, tal qual aceitá-lo um ser-em-obras,
um ser-ai diante do espelho poético. A perfeição da Doxa está na disposição de um
rosto nu diante do terceiro, que, atritando-se, lapidando-se, confrontando as doxas das
vivências de Deus, vêem ao Senhor no terceiro. O espelho chama a dependência e
a perfeita incompletude do ser. O ser poético é
aquele que se dá como humano e graciosamente acolhe o humano.
Mas, não só a doxa busca a Doxa, como a Doxa espera a doxa. O homem que por sua
linguagem poética deseja Deus, mas, sobretudo, Deus que em sua graça espera
pelo homem. A esperança da Doxa é que o homem, como ser plural, veja a
Cristo: doe-se em esvaziamento pelo terceiro. É o homem pluralizado, o
qual abandona seus observatórios do céu e olhando para o outro, enamorado do
terceiro vê nas estrelas uma forma de doação. É a poesia em sua ambigüidade, paradoxia, polissemia quem descreve esta interação perfeita
de Deus com o homem e o terceiro. O Espírito de Deus é o do amor a alteridade: do terceiro como imagem de espelho o qual ao
ser fitado reflete a Glória de Deus.
Resumindo: “Mas todos nós, com rosto
descoberto, refletindo como um espelho a glória do Senhor, somos transformados
de glória em glória na mesma imagem, como pelo Espírito do Senhor.” (II Coríntios 3: 18)