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Jurisdição Escatológica.

O profeta Joel, tendo o Espírito de Deus sobre ele, alguns séculos antes de Jesus e, portanto, do evento pentecostal vivido pela igreja primitiva em Jerusalém, trouxe a seguinte revelação: “E acontecerá depois que derramarei do meu Espírito sobre toda a carne...” (Joel 2: 28). O Apóstolo Pedro, sendo habitação do Espírito de Deus, diante daquele inusitado acontecimento diz: “Mas o que ocorre é o que foi dito pelo profeta Joel: E acontecerá nos últimos dias, diz o Senhor, que derramarei do meu Espírito sobre toda a carne...” (Atos 2: 16 e 17).

Que texto intrigante! Porque Pedro diz, “nos últimos dias”? Pedro ao explicar o que estava ali ocorrendo, naquele instante histórico, em Jerusalém de quase 2000 anos atrás, porque falou em “últimos dias”? “Últimos dias” de quem ou do quê?

Não percamos a conotação histórica daquele evento. Os discípulos de Jesus estavam já há algum tempo ocultos e ocorre um fenômeno único na história da humanidade, quando é inaugurado o tempo onde o Espírito Santo deixa de estar sobre o ser humano e passa a atuar no ser humano!

Então podemos ter uma luz de entendimento do que Pedro está falando, ou seja, aqueles dias representavam os últimos dias de uma forma de operação de Deus sobre a terra: onde alguns ungidos estavam sujeitos à influência do Espírito de Deus, declaravam e atuavam de forma a manifestar o que o Senhor estaria trazendo, ou por trazer, à terra. Assim como estavam, os discípulos, diante do início de um tempo onde o Espírito estaria trazendo de dentro do ser humano a revelação de Deus à criação.

Mais do que um fato posicional (estar sobre, ou estar no ser humano), era um fato sistêmico operacional, ou seja, todo um esboço de princípios, de fundamentos de valores e de estruturas institucionais estava chegando ao fim. Toda uma religião que havia funcionado desde os tempos de Moisés, estava acabada, finalizada, concluída, sendo substituída por algo insólito. Seria como ouvir o profeta Isaias gritar nas praças: “Assim diz o Senhor: eis que Eu crio do nada um céu que não existia e uma terra que não existia, tirando da lembrança o céu e a terra que estavam existindo até então...” (Isaias 65: 17).

Para entendermos um pouco mais sobre isto, vamos ler o que Jesus falou: “Não penseis que vim destruir a lei ou os profetas; não vim destruir, mas cumprir. Porque em verdade vos digo que, até que o céu e a terra passem, de modo nenhum passará da lei um só i ou um só til, até que tudo seja cumprido.” (Mateus 5: 17 e 18). Jesus está dizendo que a Lei de Moisés e tudo que ela representa, somente iria ser revogada no momento que ela fosse totalmente cumprida. O cumprimento da Lei dá por encerrada a Lei. Esta certeza se dá na avaliação do peso de Suas palavras ao dizer: “...não passará a Lei...até que tudo seja cumprido”.

Em outras palavras, a Lei determinava que, por conta do pecado, haveria de se oferecer sacrifícios e ofertas voluntárias a Deus. Estes sacrifícios demandavam os ritos, guarda de dias, um ministério sacerdotal levítico, um tabernáculo segundo especificações; dando suporte operacional aos ritos, ao ministério e aos sacrifícios, havia os utensílios do tabernáculo e suas câmaras. No entanto, se fosse cumprida a Lei, não haveria pecado, tornando sem valia o sacrifício e obsoleto o tabernáculo, encerrando o ofício sacerdotal, tornando desnecessário os ritos e as guardas de dias, e inútil os utensílios.

Jesus estava dizendo que por conta de um homem, a saber, Adão, veio ao mundo o pecado e com isto a Lei, pois a Lei somente existiu por causa da transgressão (Gálatas 3: 19), para que tomássemos consciência do pecado. Agora, porém, por conta de um Homem, a saber, Jesus o Cristo, a Lei é cumprida, tornando-a desnecessária, tanto ela quanto todo o aparato legal da Velha Ordem.

Quando o Senhor está no Calvário diz: “está consumado” (João 19: 30), ou seja, está cumprida toda a Lei e os Profetas! Espere um pouco. A Lei e os Profetas! Jesus falou que não veio para destruir a Lei ou os Profetas, mas para cumprir, e em cumprindo, torna-los obsoletos, passível de serem sucateados, quanto à sua observância.

Desta forma podemos voltar às palavras de Pedro: “E acontecerá nos últimos dias...”. Últimos dias de quem? Da Lei e dos Profetas. Da Velha Aliança. Do antigo sistema religioso. A Igreja Primitiva foi a testemunha fiel de todos os acontecimentos escatológicos previstos pelos profetas e pela Lei, embora naquele tempo cronológico, na história contemporânea daqueles homens, algumas coisas ainda estavam por vir. As profecias estavam se cumprindo, pois ainda havia um cronograma da Velha Ordem sobreposto ao kairos da Nova Ordem.

Há, o que podemos chamar de jurisdição legal do Velho Testamento, a qual o Senhor Jesus estabelece a fronteira final: “os últimos dias”. Todo o Velho Testamento, todo o peso da Lei e toda escatologia messiânica, estavam sendo finalmente cumpridos ali: espaço e tempo. Jerusalém, do ano zero ao ano setenta.

Chamamos de jurisdição, entendendo que um conjunto de leis morais, sistema de operação, que eram válidos dentro dos limites temporais do Velho Testamento, funcionavam e eram requisitos essenciais para estar conectado a Deus. Sem a Lei e sem os profetas, não havia outra forma de obter acesso ao trono da graça, ao Santíssimo Lugar. Entretanto somente era funcional desta forma, a Antiga Aliança, na jurisdição legal da Lei e dos Profetas. Jesus estabeleceu, assim, a fronteira de jurisdição, dizendo: “cumpri”. De agora em diante vale uma nova dinâmica, uma nova Lei, um novo povo chamado Igreja. Uma nova jurisdição, eterna e sem fronteiras, posto que a este novo reino, tudo está submetido.

O Livro de Atos dos Apóstolos apresenta a migração do poder legal, que antes estava sobre Israel, o Templo e o Sacerdócio Levítico, para uma nova ordem representada pela Igreja, o Corpo de Cristo e a totalidade dos cristãos. Todo o movimento logístico e espiritual da Igreja Primitiva, era no sentido de sair de Jerusalém e da Velha Ordem, pois eles entendiam que as profecias de Daniel, capítulo 9, estavam para, assim como a dos demais profetas, serem cumpridas, dentro da cronologia e geopolítica definida por Deus.

Quando lemos em Daniel 9: 26, “E depois de sessenta e duas semanas será cortado o ungido, e nada lhe subsistirá; e o povo do príncipe que há de vir destruirá a cidade e o santuário, e o seu fim será com uma inundação; e até o fim haverá guerra; estão determinadas assolações”, com a mesma mentalidade que os cristãos daquela igreja do primeiro século, sabendo que a palavra cristo no grego é a mesma palavra messias, no hebraico e é a mesma palavra ungido, no português, e que passaram seus últimos anos andando ao lado, fisicamente falando, do Messias, o Cristo, o Ungido, então podiam lembrar de Jesus falando: “...não ficará pedra sobre pedra...” (Mateus 24: 2), referindo-se ao Templo de Jerusalém, a Lei e aos Profetas, podemos entender o ultimato de Pedro dizendo: “últimos dias”.

Somando a este cenário escatológico, daquele tempo, podemos ver a Igreja diante de Cristo morto na cruz, ver o Templo e o sangue nas mãos do clero e ver Roma, opressora e implacável.

O mesmo Daniel usou o conceito de finalização, dizendo: “...e o seu fim...e até o fim...”, que determinou em Pedro uma tal autoridade que lhe deu poder para alterar o texto de Joel, que não adotou a idéia de finalização, mas de um momento adicional, quando disse: “e acontecerá depois...”.

A jurisdição, ou o poder legal, do Velho Testamento, a Lei e os Profetas, os sacrifícios, o sacerdócios, os ritos, a escatologia, cumprem-se e acabam no Velho Testamento, ainda que este, por breve período se sobreponha ao Novo Testamento. Duas ordens que operam concomitantemente, por breve tempo, para que pudesse haver juízo.

Donde concluímos que desenvolver uma teologia, qualquer que seja, que advogue a possibilidade de alguém restaurar a Velha Ordem, os ritos, o sacerdócio, o templo e o sacrifício seria o equivalente a dizer que ainda não veio ao mundo o Homem que tenha vencido o pecado e, portanto, tenha cumprido a Lei e os Profetas. Tal hipótese ou coloca todo o aparato do Velho Testamento em ilegalidade, ou escandaliza a obra de Cristo.

Concomitantemente, dizer que a Igreja é um hiato no plano divino e que a Velha Ordem será restaurada, significa dizer que o Reino inaugurado pelo Cristo é transitório, pois a Verdadeira Lei não é a de Cristo, mas a de Moisés e que o Corpo de Cristo é um devaneio transitório, como quem dissesse que a Igreja é como a erva e toda a sua glória como a flor da erva, seca-se a erva e cai a sua flor.

Qualquer teologia que promova um fim que não seja aquele antevisto e vivido pelos apóstolos e pela Igreja Primitiva, descrito por Flávio Josefo em sua “História dos Hebreus”, que venha a remeter para um tempo futuro incerto os "últimos dias", quando Jesus já disse: “está consumado”, que declare e promova a mentalidade de restauração dos sacrifícios, que Deus descontinuou há dois mil anos atrás, não provém de uma ação do Espírito de Deus, sabedouros que este promove, fomenta, determina e revela a obra consumada e concluída na cruz, quando o Ungido foi morto (Daniel 9: 26); tal "teologia", por certo, terá vindo de outra fonte: apócrifa.

Consumada, pois cumpriu toda a Lei e os Profetas, dando fim a Velha Ordem. Concluída, pois não há obra de salvação e de restauração que venha a ser feita, de então, para a eternidade.

O que visa esta elucubração é tornar patente que Jesus dividiu a história e o tempo em dois fragmentos, dentro da eternidade: a Velha Ordem, a Lei e os Profetas e a Nova Ordem, do Espírito sobre toda a carne; atentando para o fato que o Senhor não retrocede e não retorna àquilo que Ele mesmo já destruiu, como diz o autor de Hebreus: “Mas o meu justo viverá da fé; e se ele recuar, a minha alma não tem prazer nele.” (Hebreus 10: 39).

Cientes desta Nova Ordem, inaugurada em Jesus e com jurisdição eterna, irrevogável e irretratável passamos a crer que mais além das possibilidades operacionais de Deus sobre o homem, oferecida na Velha Ordem, temos hoje a realidade operativa de Deus habitando e se revelando de dentro de nós, para a criação, a fim de que sejamos vistos e revelemos a nossa filiação em Cristo Jesus, para a vida eterna.

Não há ordem que seja superior e que revogue, ainda por tempo infinitésimo que seja, a posição que nos trouxe a obra de plenitude de Cristo. Não há tempo de retorno para coisas que são ineficazes no aperfeiçoamento da consciência humana, diante de Deus. Seguimos para o alvo, e este é Cristo sendo formado e sendo visível em Seu Corpo, pela Unção do Espírito que hoje habita em nós, conforme predito por Joel e inaugurado de forma representativa em Pedro.