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TEOLOGIA E IDEOLOGIA NA CONSTRUÇÃO DA ESCATOLOGIA

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Ensaio apresentado ao Programa de Pós-Graduação, Stricto-Sensu Mestrado em Ciência da Religião: Currículo, da Universidade Presbiteriana Mackenzie, cadeira Protestantismo e Sociedade.

 

 

 

São Paulo

2004

 

 

 

 

Introdução:

 

“É verdade que generalização vale como generalização.” (FREYRE. 2000, p. 131)

 

O presente ensaio visa à possibilidade de se olhar determinadas produções teológicas como subproduto civilizatório do pensamento norte-americano. Pretendemos destacar algumas evidências pontuais de uma teologia que reflete o pensamento político da civilização norte-americana. Tal teologia pode ser percebida no discurso que é empreendido pelos missionários protestantes do passado e dos pastores e líderes eclesiásticos contemporâneos.

 

Esta pretensão inicial se embasará na premissa de que toda civilização, diante de sua maturação, buscará expandir-se a partir de um processo civilizatório, impondo-se sobre as civilizações que ainda não lograram êxito tecnológico similar ou superior. É sobre a égide da superioridade e nuclearidade civilizacional, que pensaremos sobre a Civilização Ocidental, a qual tem se imposto sobre as demais civilizações nos últimos quatrocentos anos. Em nosso caso particular, olharemos a ação civilizatória norte-americana sobre a Civilização Latino-Americana e Brasileira, segundo a linha de pesquisa adotada.

 

A Civilização Brasileira, se assim podemos chamá-la, inserida – talvez não corretamente - no contexto da Civilização Latino-Americana, pode ser entendida, tomando como referência a perspectiva da Civilização Anglo-Saxônica Norte-Americana, como um sub-produto da Civilização Ocidental, ou pelo menos, percebida como sendo uma civilização passível de um processo civilizatório. Esta premissa permite o destaque de certos dados empíricos subjacentes no pensamento econômico e também no religioso.

 

A importância conferida à religião, destacada neste trabalho, dá-se pelo fato de que podemos deixar de entendê-la como epifenômeno dentro uma dada civilização quando assumimos a premissa de Samuel Hutington. Este pensador norte-americano propõe que toda grande civilização é fruto de uma grande religião. É relevante o fato de que a Civilização Ocidental surgiu em meio ao cristianismo e a cultura norte-americana formou-se do protestantismo do Século XVIII. Este protestantismo norte-americano, aprentemente, nunca concebeu a hipótese de separar teologia da ideologia.

 

É, portanto, diante da impossibilidade aparente deste desamalgamento que verificamos certas influências do pensamento político e econômico na teologia escatológica, ou apocalíptica. Tal teologia foi exportada dos Estados Unidos para o Brasil desde 1850 até os anos atuais através da ação de missionários daquele país.

 

Nossa pesquisa atém-se ao processo civilizatório que a religião nuclear protestante norte-americana estabelece sobre a civilização periférica latino-americana e particularmente a neopentecostal brasileira. Deixaremos para análises futuras o sincretismo e a busca de identidade religiosa nacional, como expressão contra-civilizatória. Entretanto, sabemos que

 

A tarefa principal de quem estuda a organização internacional não é gastar tempo em discutir regionalismo vesus universalismo, mas, sobre casos concretos, estudar os vários meios por que aqueles dois elementos podem ser utilizados em combinação e os padrões que se devem aplicar na parte que cada um se aceita. (FREYRE. 2000, p. 119)

 

Por fim, o presente ensaio sugere que a empresa missionária protestante norte-americana, em seu viés ideológico civilizatório, abriu uma porta histórica no relacionamento dominador-dominado, no campo religioso, entre os EUA e o Brasil, a qual tem sido um meio por onde equipamentos culturais de uma chamada Sociedade Tecnológica podem estar sendo difundidos, travestidos por um discurso místico religioso, com certa eficácia pragmática.

 

Civilização e Dominação

 

Entendemos que para podermos encaminhar o tema ‘Civilização e Dominação’, necessitamos primeiramente adotar, de forma provisoria, um referencial teórico, ainda que limitado e genérico, para o que desejamos conceber quando do uso da idéia de civilização. Assim sendo, vamos nos apropriar da elaboração de Thomas S. Kühn, que define civilzação como sendo “[...] os valores, as normas, as instituições e os modos de pensar aos quais sucessivas gerações numa determinada sociedade atribuíram uma importância fundamental.” (HUNTINGTON. 1997, p. 46)

 

A organização de grupos humanos em sociedades e, posteriormente, em civilizações, tem sido entendida, pelos pesquisadores, como resultado das revoluções tecnológicas que se verificaram nos últimos 10.000 anos. Como por exemplo, as transformações tecnológicas advindas do regadio, da metalurgia, da nautica, da mecânica, da eltrônica, etc, segundo Darcy Ribeiro em ‘O Processo Civilizatório’. De acordo com Darcy Ribeiro, a incorporação de novas tecnologias no seio das civilizações é um dos fatores, ainda que não o único, que têm contribuido para a reorganização e transformações sociais, ou seja, “[...] a cada revolução tecnológica podem corresponder um ou mais processos civilizatórios através dos quais ela desdobra suas potencialidades de tansformação da vida material e de transfiguração das formações socioculturais.” (RIBEIRO. 1975, p. 36)

 

O diferencial tecnológico promovido por estas novas tecnologias produz uma dinâmica de maior produtividade interna, a qual gera excedentes de riquezas, possibilitando tais civilizações serem mais eficientes na organização e produção, do que as demais. Tais civilizações passam a ter uma percepção crescente de si mesmas, sobre serem elas formações mais avançadas, que ao atingirem certa maturação própria, apresentam uma

 

[...] tendência ao expancionismo que se desenvolve com a maturação [...] conduzindo à criação de relações de dominação [...] Esta tendência é que explica o desenvolvimento do militarismo e do colonialismo como categorias gerais, presentes em certa etapa do desenvolvimento de todas as formações avançadas [...] (RIBEIRO. 1975, p. 33)

 

De fato, a percepção que tais civilizações tem de si mesmas é a de que elas são superiores e mais desenvolidas e, portanto, portadoras de virtudes que legitimam suas ações expancionistas e colonizadoras. Concebem-se como a locomotiva do mundo, ou seja,

 

[...] um sentimento de superioridade e de destinação civilizadora que passou a justificar todas as formas de opressão colonial como exercício necessário do papel de agentes civilizadores, convictos de que representavam uma ordem moral superior e o motor do progresso humano. (RIBEIRO. 1975, p. 148)

 

Entretanto, os conceitos e valores que legitimam aquilo que pode ser entendido como desenvolvimento, superioridade e civilização, são elaborados e definidos no interior da civilização dominante, ou, por aquela que pretende seja tomada como a civilização universal, conforme podemos ler:

 

O conceito de civilização fornecia um padrão pelo qual as sociedades podiam ser julgadas, e durante o Século XIX os europeus dedicaram muita energia intelectual, diplomática  e política à elaboração dos critérios pelos quais as sociedades não-européias poderiam ser julgadas suficientemente civilizadas para serem aceitas como membros do sistema internacional dominado pelos europeus. (HUNTINGTON. 1997, p. 45)

 

Igualmente a idéia, ou conceito de universalidade, ou seja, a posse de valores que se aplicam a qualquer outro grupo étnico não Ocidental, é uma construção do pensamento produzido pela Civilização Ocidental. É, de acordo com a linha teórica adotada, a Civilização Ocidental que se pretende ter o direito, auto-legitimado, de ser tida como universal e, portanto, justificar tanto a sua hegemonia, quanto a dominação. A Civilização Ocidental, de posse do conceito auto-reflexivo de universalidade, dá-se o direito, ou, legitima-se a si mesma com o direito de dominação, ou seja, “no final do Século XX, o conceito de uma civilização universal ajuda a justificar o predomínio cultural do Ocidente [...] O universalismo é a ideologia do Ocidente [...]” (HUNTINGTON. 1997, p. 78)

 

Poderíamos propor, então, que esta construção de referência a partir do parâmetro do dominador seria uma construção de verdade que a Civilização impõe às demais e que é retro-alimentada por ela mesma à medida de seu prórpio desenvolvimento. Esta verdade própria, ou esta ideologia da dominação passa pelos parâmetros tecnológicos que a Civilização logrou alcançar e que pretende manter e incrementar, acentuando a dependência nas relações internacionais. Desta forma, a tecnologia padrão torna-se aquela produzida pela Civilização. A ordem é a determinada pelo dominador, e a verdade é a contruída pelo poder civilizacional.

 

Caberia destacar, neste instante, que nos referimos apenas à Civilização Ocidental, àquela que pretende ser universal, ou seja, elaboradora e produtora de verdades sobre o que é e o que não é civilizado, o que é e o que não é verdadeiro. Neste momento do trabalho poderíamos sintetizar que

 

No estudo dos processos civilizatórios gerais visualizam-se, principalmente, as alterações nos sistemas adaptativo, assossiativo e ideológico decorrentes do imapacto das revoluções tecnológicas sobre as sociedades, estruturando-as em sucessivas formações socioculturais. No estudo dos processos civilizatórios específicos visualizam-se as expansões de tradições culturais singulares associadas a movimentos econômicos e políticos de dominação que se cristalizam em civilizações individualizadas, em núcleos centralizados por redes metropolitanas. Estes últimos, atuando através da subjugação, da deculturação e da traumatização cultural de etnias dominadas, assimilam-nas como parcelas indiferenciadas de macro-etnias imperiais ou as reativam para amadurecerem como entidades étnicas aspirantes à autonomia e à expansão. (RIBEIRO. 1975, p. 43)

 

Destacamos que a religião passa a ser vista como uma agente relevante e importante na questão civilizacional, segundo Huntington. Ademais, a religião por um lado apresenta-se como o porta-voz da verdade divina, por outro lado, destaca-se neste processo civilizatório ao difundir a ideologia dominante.

 

Após ter sobrevivido ao confronto positivista do Século XIX e do niilismo promovido pela morte de Deus no início do Século XX, a religião retoma, segundo Huntington, seu imperativo na determinação da identidade das civilizações e, como que num processo de ‘vingança de Deus’, determina-se como fator fundamental no falar sobre os povos e “[...] de todos os elementos objetivos que definem as civilizações, o mais importante geralmente é a religião [...] (HUNTINGTON. 1997, p. 46)

 

Nesta perspectiva a religião não pode mais ser tomada como epifenômeno, mas integra-se na re-elaboração das identidades das civilizações, pois “a religião é uma característica central definidora das civilizações e, como dise Christofer Dawson, ‘as grandes religiões são os alicerces sobre os quais repousam as civilizações’.” (HUNTINGTON. 1997, p. 54). Tal fato ganha destaque à medida que se trata de uma identidade que se constroi a partir de um discurso que se pretende verdadeiro. Partindo do núcleo hegemônico civilizatório para as periferias, que se pretende dominar, esta verdade pode ser elaborada pela ortodoxia ideológica. Nesta re-elaboração de identidades civilizacional, principalmente das periféricas, o discurso verdadeiro atribuido a Deus pode se difundir como verdade inquestionável.

 

Tendo em vista nosso objeto de estudo, a América Latina, particularmente o Brasil, podemos perceber a necessidade de um enfoque singular. A América Latina é fruto da missigenação racial e do sincretismo cultural históricos, ela não elaborou uma religião que lhe seja própria, antes, adota como núcleo de sua doutrina religiosa aquela que é proveniente do norte. Pois, “praticamente todas as principais civilizações do mundo no Século XX ou já existem há um milênio ou, como ocorre na América Latina, são o fruto imediato de uma outra civilização de longa duração.” (HUNTINGTON. 1997, p. 49). Os valores religiosos na América Latina são frutos históricos da importação de crenças, européias, africanas, assiáticas e, nestes últimos 180 anos, norte-americanas.

 

A identidade cultural da América ibérica e caribenha - que é o amalgamento de tantas civilizações no qual o sincretismo se destaca -, tem um caráter próprio. Este conteúdo missigenado da cultura latino-americana e, particularmente, brasileira, particulariza-nos como uma “região por demais européia e ocidental para poder ser considerada inteiramente exótica do ponto de vista europeu ou ocidental; por outro lado, por demais exótica para ser tratada como mera extensão européia na América [...]” (FREYRE. 2000, p. 37).

 

Somos, então, europeus, mas, concomitantemente, não somos europeus. Somos ocidentais e não somos ocidentais. Somos uma síntese de culturas diversas que, misturadas, formaram uma nova civilização, em outras palavras, a civilização “Latino-americana [...] Um produto da civilização européia, ela também incorpora, em graus variados, elementos de civilizações indígenas [...]” (HUNTINGTON. 1997, p. 52). Esta síntese faz, pontualmente, a América portuguesa, como aquela que pode em determinados momentos, ou em determinados recortes sociais, parecer ser extensão de civilizações que compõe a sua mistura, desta forma “[...] o Brasil se torna mais significativo, sob o aspecto de um tipo de civilização predominantemente européia, mas não subeuropéia.” (FREYRE. 2000, p. 50).

 

Civilização Ocidental (norte-americana) e Brasil

 

Mas, ainda que o Brasil esteja inserido geograficamente na América Latina é, quer pela diferença entre o luso e o espanhol, quer pela marginalização imposta ao índio que está em solo brasileiro, uma cultura, ou, uma civilização ímpar, neste espaço geográfico. Esta nação, que em sua busca de identidade própria, afasta-se de Portugal e se aproxima dos ingleses no início do século XX, lembrando que, “[...] a República [...] proclamada em 1889, por um grupo de brasileiros ansiosos por uma política ‘democrática’ de feitio anglo-americano ou de inspiração positivista.” (FREYRE. 2000, p. 44). Não apenas na ‘política democrática’, mas, também tem buscado reproduzir frequentemente o modelo europeu em diversas constituições, pois, “[...] mais de uma vez o Brasil tem feito as suas constituições tão sobre o modelo de constituições européia – e uma vez da dos Estados Unidos [...] Puro furor imitativo levando um povo tropical a exageros grotescos de artificialismo.” (FREYRE. 2000, p. 121).

 

Este gosto pelo europeu não-ibérico, no século XX se transforma em gosto pelo norte-americano. Após a Segunda Guerra Mundial, em que os EUA não apenas se tornaram vitoriosos militarmente, mas, e, sobretudo, politicamente, o Brasil, assim como diversas outras nações, americanizam-se. O fim do ímpeto colonialista europeu arrefece diante do trauma das duas guerras seqüentes, mas, concede aos norte-americanos o ‘dever’ colonial, diante do perigo da cortina-de-ferro. Em outras palavras, “a descolonização no pós-guerra reduziu ainda mais a influência européia, mas não a dos Estados Unidos, que substituíram o tradicional império territorial por um novo impérialismo transnacional.” (HUNTINGTON. 1997, p. 100).

 

Um novo cenário internacional surge após a Segunda Guerra, com forte teor maniqueísta-político, determinando o alinhamento dos povos, ou ao Ocidente, capitaniado pelos EUA, ou ao Bloco Socialista, capitaneado pela URSS. A América-Latina vive um período de recrudecimento dos regimes políticos, via golpes militares, alinhando-se ao Ocidente. Desde o México até o Chile, passando pelo Brasil, a América-Latina experimenta regimes que limitam os direitos políticos e combate a esquerda pró-Moscou e pró-Pequim. Neste período não somente as elites políticas e econômicas atrelam-se a Washington, como a cultura local destes povos passa a refletir uma certa ‘americanilidade’. A América Latina e o Brasil – jocosamente - passam a ser chamados, por alguns, de ‘quintal americano’, ‘américa latrina’, ou, mais gentilmente, a ‘excrecência da civilização Ocidental’. Antes, como nos fala Gilberto Freyre:

 

O perigo da monotonia cultural ou da excessiva unificação de cultura no continente americano provém da influência do industrialismo capitalista norte-americano, largamente dominado pela idéia de que o que é bom para o norte-americano deve ser bom para todos os povos da América. (FREYRE. 2000, p. 120)

 

As produções no campo político, econômico e, de certa forma, cultural são aquelas em que o censor nacional e internacional permitiam serem produzidas, visando delimitações nos discursos e preservação dos regimes e das elites que estavam alinhadas ao Ocidente, norte-americano. Esta forma de censura tanto dificultava o questionamento do modelo, quanto alimentava um processo civilizatório aonde

 

[...] populações, remodeladas através da destribalização e deculturação compulsória, sob pressão escravista, perderam a maior parte dos seus patrimônios culturais de origem e só puderam plasmar novos traços culturais quando estes não colidiam com sua função produtiva dentro do sistema colonial. (RIBEIRO. 1975, p. 168)

 

Os EUA que lograram êxito exportam seu êxito para outros países periféricos. Procuram, entretanto, reforçar a dependência destes países periféricos em relação a si, necessária à preservação de sua liderança. Este êxito, no entanto, torna-se global a partir da década de oitenta com o fim do Bloco Soviético Russo. Agora, como líderes globais, auto-determinam-se núcleo hegemônico cultural, produzindo uma tecnologia que reforça e amplia a relação de dependência, na qual as periferias menos desenvolvidas, como o Brasil, tornam-se reprodutoras do discurso hegemônico nuclear. Assim,

 

[...] os processos civilizatórios são movidos por revoluções tecnológicas que privilegiam os povos que primeiro as experimentam, ensejamdo-lhes condições de expansão como núcleos de dominação [...] os povos atingidos pelos mesmos processos civilizatórios, através de movimentos de atualização histórica, perdendo o comando do seu destino e condenados à subjugação e à dependência, vêem estritamente condicionado todo seu desenvolvimento ulterior. (RIBEIRO. 1975, p.51)

 

Este modelo civilizatório, no qual o núcleo não mais requer dominação geográfica, antes, extende seu poder a partir da dependência tecnológica e econômica, determinando o desenho político e social, prescinde, aparentemente, do passado ideológico, ou das crenças dos governantes. Governos que suscederam aqueles ditadoriais, vieram a implementar políticas econômicas, ainda, reprodutoras do pensamento Ocidental, norte-americano, assim,

 

Os Estados Unidos, depois de reafirmarem sua hegemonia nas esferas financeira e militar na década de 80, conseguiram liderar as transformações mundiais em curso e ocupar, na década de 90, uma posição de destaque no crescimento econômico [...] o Brasil foi literalmente capturado pelo processo de globalização financeira da década de 90. (TAVARES e BELLUZO. Caderno Mais. 2004, p. 8)

 

Governantes que antes fizeram oposição às políticas nacionais que refletiam o alinhamento com o pensamento Ocidental norte-americano, podem ser vistos, neste novo arranjo global, como reprodutores deste sistema egemônico nuclear. Em outras palavras, “o que fica evidenciado é que [...] (Fernando Henrique) Cardoso [...] julga possível algum desenvolvimento nacional com dependência [...] uma inserção subordinada do Brasil no sistema capitalista internacional [...]” (KALVAN. 2000: introdução). Este ‘sistema capitalista internacional’, também chamdo de ‘Consenso de Washington’, foi, segundo alguns intelectuais, uma decisão do Governo brasileiro, visando a concretização de um desenvolvimento subalterno. Assim,

 

Em 1996 [...} Fernando Henrique Cardoso foi chamado a decidir sobre dois caminhos [...] De um lado [...] os que defendiam a política econômica conhecida à época como o Consenso de Washington [...] Todos sabemos hoje que o presidente Fernando Henrique Cardos optou pelo caminho mais ortodoxo. (BARROS. Caderno Mais 2004, p. 10)

 

De onde podemos entender este Consenso de Washington como uma expressão das diretrizes norte-americanas para os chamados países emergentes, onde

 

[...] as agências governamentais e semi-governamentais em Washington e os agentes do sistema financeiro internacional em New York [...] propunham aos países emergentes uma nova estratégia de desenvolvimento: ‘crescer com poupança externa’ [...] A condição para isso era a de lograrem ‘credibilidade’ junto de Washington e New York, ou seja, que deixassem de pensar por conta própria e seguissem as políticas recomendadas. (BRESSER-PEREIRA. Caderno Mais. 2004, p. 11)

 

Parece-nos que, não somente nos tempos da colonização portuguesa, mas, também nos últimos sessenta anos, o Brasil tem se colocado numa posição periférica, subalterna e de reprodutor do pensamento hegemônico, que desta vez é gerado, definido e divulgado pelos EUA.

 

Mas, não somente nos campos político, econômico e cultural este pensamento, até agora entendido como hegemônico, tem definido o pensamento brasileiro, mas também tem determinado parte do pensamento religioso evangélico e, sobretudo, o neopentecostal. Devemos resaltar a importância que autores, como Samuel Huntington, conferem à religião, conforme apresentado anteriormente. Estes pensadores apresentam a religião como elemento objetivo definidor da civilização.

 

Teologia e Ideologia dos Missionários Norteamericanos do Século XIX

 

Caso adotemos, para os fins deste trabalho, que a religião é o mais importante elemento objetivo definidor da civilização, conforme propõe Samuel Huntington, então, pode-se pensar que ela, também, seja um instrumento de difusão da civilização dominante. Esta proposta estará apoiada numa premissa de que a teologia apresentada pelos líderes religiosos, do núcleo civilizacional, esteja misturada à cultura deste povo. Os líderes religiosos norte-americanos que para o Brasil vieram e vêm, ao proclamarem suas crenças religiosas, trazem misturado elementos de suas crenças culturais civilizatórias.

 

Adotaremos a premissa de uma teologia com influência ideológica e não de uma ideologia travestida de teologia. Procuraremos buscar elementos que nos permitam verificar esta premissa na empresa missionária norte-americana que veio para o Brasil e verificar se, de alguma forma, conseguimos perceber em algum pensamento religioso evangélico contemporâneo, a mesma característica.

 

O pensamento evangélico do século XIX nos EUA, principalmente o de linha calvinista, era tal que, criam ser eles responsáveis, não somente pelas coisas, ditas espirituais, mas, também, pela própria ordem social (MENDONÇA. 1995, p. 48). Este povo que conheceu a gêneses de sua nação como a realização de um sonho de Canaã que se avistava. Então, uma vez que saíram da Europa, muitas vezes por não encontrarem alí possibilidade de expressarem sua fé, homens e mulheres atravessam o mar e entraram numa terra, a qual poderia ser tida como uma herança divina para os fiéis.

 

Mais do que apenas terem um espaço para cumprirem o sonho americano, eles “sentiam-se como o povo escolhido de Deus (God Chosen People), tanto no sentido espiritual como no intelectual [...] como escreve Duncan A. Reily:[...]nunca houve uma separação entre cristianismo e povo americano.” (MENDONÇA. 1995, p. 50). O cristão norte-americano evangélico, crente em ser portador de uma escolha divina, percebe-se ‘povo escolhido de Deus’ para difundir, ao mundo pagão e perdido, não somente o evangelho, que o fez um herdeiro do Reino, como também o seu próprio modo de vida, o qual, para ele manifestava esta escolha e a benção divina. Esta marca (de povo escolhido) e responsabilidade (missionária e evangelizadora dos povos) passam a integrar a cultura dos norte-americana, pois, pensavam eles que, 

 

Deus está usando os anglo-saxões para conquistar o mundo para Cristo a fim de despojar as raças fracas e assimilar e moldar outras. O destino religioso do mundo está nas mãos dos povos de fala inglesa. A raça anglo-saxã, Deus parece ter entregue a empresa de salvação do mundo. (MENDONÇA. 1995, p. 61)

 

É esta ideologia do ‘Destino Manifesto’ que se torna a mais eficiente condutora da religião norte-americana, em outras palavras, “pelo menos no Século XIX, o melhor e mais eficiente condutor da ideologia doDestino Manifesto” foi a religião americana, ou melhor dizendo, o protestantismo americano [...]” (MENDONÇA. 1995, p. 62). Deus havia destinado o povo norte-americano para evangelizar os povos e este evangelho se manifesta não somente nas doutrinas, mas também no ‘American Way of Life, ou seja,  “[...] o transplante cultural, a exportação da American Way of Life, tudo em obediência ao ‘Destino Manifesto’” (MENDONÇA. 1995, p. 77), pois, “para o protestante americano parecia bem claro que Deus o havia escolhido para ser, politica e religiosamente, mestre da raça humana [...] (MENDONÇA. 1995, p. 65).

 

Com esta teologia é que vieram para o Brasil muitos dos missionários e pastores norte-americanos. Estes homens e algumas mulheres possivelmente estavam convictos de que a tanto suas pregações, quanto seu modo de vida, era o melhor que se poderia oferecer, assim,  “[...] o protestantismo que chegou ao Brasil foi um produto nuclearmente indiferenciado do protestantismo norte-americano [...]” (MENDONÇA. 1995, p. 82). Ademais, “[...] os missionários não distinguiam religião de ideologia, o que talvez não seja mesmo possível fazer [...]”(MENDONÇA. 1995, p. 109).

 

Cabe resaltar que quase cem por cento do cristianismo evangélico brasileiro é proveniente do trabalho missionário norte-americano. Esse trouxe para cá a fé dos batistas, dos metodistas e dos presbiterianos. No caso do pentecostalismo clássico (Assembléia de Deus e Congregação Cristã do Brasil), os missionários que por aqui estiveram, iniciando a onda pentecostal no Brasil, não eram de origem norte-americana, mas foram fortemente influenciados pelo movimento pentecostal e evangélico daquele país. Ao falarmos de neopentecostalismo devemos creditar aos missionários norte-americanos da Igreja Evangélica Quadrangular o início deste movimento no Brasil. Em pequeno número são os fiéis e poucos são as igrejas evangélicas que não foram formadas ou fortemente influenciadas pela ação missionária norte-americana no Brasil. Mesmo seitas neopentecostais mais recentes, como, por exemplo, a Universal do Reino de Deus, são resultado destes homens e mulheres. 

 

É possível perceber que o pensamento original dos primeiros evangélicos nos EUA se mantém presente nos evangélicos daquele país ainda hoje. O Dr. James Kennedy, em seu livro, “E se Jesus não tivesse nascido?”, falando do “impácto do cristinismo nos EUA” diz que “se Jesus jamais tivesse nascido, os EUA jamais existiriam.” (KENNEDY. 2003, p. 84). Mais adiante, quando o autor fala sobre “o impacto do cristianismo sobre a economia”, diz que “se Jesus jamais tivesse nascido, é improvável que o capitalismo e o sistema de livre iniciativa – que trouxe prosperidade sem precedentes, para bilhões de pessoas – tivessem se desenvolvido.” (KENNEDY. 2003, p. 145). O Dr. James Kennedy é líder da Coral Ridge Presbiterian, em Fort Lauderdale, Flórida, é reitor da Knox Theological Seminary.

 

É certo que a empresa missionária norte-americana tem atualizado sua bandeira doutrinária. O discurso utilizado pelos missionários e pastores norte-amenricanos tem sido alterado no transcurso da história. Tendo iniciado com o evangelho avivalista do século XIX, posteriormente foi modificado para o evangelho pentecostal, no início do século XX, sendo, atualmente, pregado pelos neopentecostais através da Teologia da Prosperidade, da Teologia de Batalha Espiritual e da Teologia de Crescimento de Igrejas.

 

Teologia ideologizada.

 

O evangelho pregado nos EUA no século XIX além de portar a idéia de American Way of Life também foi, com alguma freqüência, influenciado pela teologia escatológica, ou, estudo das coisas dos últimos dias, ou ainda, apocalipsismo, como nos fala Antonio G. Mendonça: “O apocalipsismo, às vezes, acompanhou o avivalismo na América. A idéia de retorno de Cristo teve duas interpretações: a pós-milenarista e a pré-milenarista.” (MENDONÇA. 1995, p. 68). A verdade escatológica é construída quase como quem junta um quebra-cabeças. Dá-se pela interpretação de textos, feita por inciados em tais leituras, possibilitando um entendimento sobre fatos a serem cumpridos no futuro, os quais determinam as crenças presentes dos fiéis, ou seja,

 

A visão da história, no sentido de sua aproximação cada vez maior de um fim apocalíptico, é feita a partir dos textos apocalípticos da Bíblia dispostos na ordem em que eventos da história a eles devem corresponder. Isto é feito a parir de uma leitura literal dos textos [...] espécie de racionalização da Bíblia e da história [...] (MENDONÇA. 1995, p. 237)

 

Os discursos escatológicos, que divergiam quanto à manifestação do Reino de Deus em meio à sociedade, era interpretado como pré-milenarista, ou pós-milenarista. Os pós-milenaristas acreditavam que “[...] a vinda do Reino se daria após a implantação da civilização cristã; por isso, a cristianização da sociedade seria uma preparação para a vinda do Reino de Deus” (MENDONÇA. 1995, p. 60). Os pré-milenaristas acreditavam na segunda vinda de Jesus Cristo e no Juízo Final como eventos inaugurais do Reino de Deus. Esta crença pré-milenarista incompatibiliza “[...] a Igreja com qualquer atividade de melhoria social.” (MENDONÇA. 1995, p. 60).

 

Segundo Antonio G. Mendonça, “no último quartel do Século XIX, o pré-milenarismo firmou-se em igrejas como a presbiteriana, a reformada, a episcopal e a congregacional.” (MENDONÇA. 1995, p. 69), o que influenciou sobremaneira a teologia dos missionários protestantes que para o Brasil vieram, nesta época. Assim,

 

Pode-se concluir que o pré-milenismo incorporou-se ao pensamento institucional protestante brasileiro. É possível aduzir, de passagem, que o movimento fundamentalista que começou a ser pregado no Brasil na década de 40 veio reforçar consideravelmente o pré-milenismo [...] (MENDONÇA. 1995, p. 237).

 

Não somente o pensamento das chamadas igrejas protestantes históricas, como as já citadas, presbiteriana, episcopal e congragacional, mas, no Brasil, as igrejas pentecostais também passaram a adotar, e ainda hoje adotam, dentro de seu núcleo doutrinário, a crença pré-milenista. Como exemplo mais significativo citamos a Assembléia de Deus que adota formalmente esta doutrina, podendo ser lido em diversos web site, o credo:

 

Na segunda vinda premilenal de Cristo, em duas fases distintas. Primeira - invisível ao mundo, para arrebatar a sua Igreja fiel da terra, antes da grande tribulação; segunda - visível e corporal, com sua Igreja glorificada, para reinar sobre o mundo durante mil anos, 1Ts 4.16,17; 1Co 15.51-54; Ap 20.4; Ac 14.5; Jd 14. (Assembléias de Deus, doutrinas. 2004).

 

Ora, enquanto doutrina que procurava explicar eventos futuros, a questão que se colocava entre o pré-milenista e o pós-milenista, estava circunscrita à jurisdição teológica e da fé, entretanto, quando a teologia passa a estar ideologizada, assim, pode-se verificar uma “[...] doutrinação ideológica associada à propaganda religiosa de caráter anti-socialista.” (RIBEIRO. 1975, p. 180). Então, é possivel que nos discursos escatológicos possam estar contidos traços civilizatórios, dentro do abismo criado pela “guerra-fria”.

 

Verdades escatológicas podem ter sido construídas por meio de leituras de textos proféticos, cujo significado simbólico e de caráter misterioso, podem ser conduzidos, com certa liberdade e liberalidade, tendo a finalidade, ainda que não explícita, de conduzir o crente a um alinhamento civilizacional.

 

No contexto da guerra-fria e do regime militar brasileiro, na década de 1970, livros como “Torturados por amor a Cristo” e “Cristo em cadeias comunistas”, escritos pelo reverendo romeno Richard Wonbrandt, descreviam cenas dantescas de cristãos torturados nos porões das polícias da “cortina de ferro”. Ainda que sem o teor escatológico, estes livros povoavam a imaginação do crente brasileiro com o terror que viria a ser um regime anti-democrático e comunista no Brasil.

 

O doutor John F. Walwoord, então presidente do Seminário Teológico de Dallas e o doutor John E. Walvoord, em seu livro, “Armagedom: Petróleo e Crise no Oriente Médio”, editado no Brasil em 1975, adotam a linha pré-milenista e interpretam os textos proféticos, principalmente no Velho Testamento e o livro de Ezequiel, à luz da “guerra-fria”. Assim, com a certeza inalienável de quem está recebendo uma revelação divina, declaram: “O profeta Ezequiel descreveu uma época em que a Russia fará uma investida militar para conquistar o poder no Oriente Médio.” (WALVOORD. 1975, p. 135)

 

A escatologia destes homens é construída sobre a certeza de que a URSS era o reino do anticristo e que, de acordo com o “Destino Manifesto”, os EUA manifestavam o Reino de Deus na Terra. Qualquer nação, povo ou civilização que ousasse confrontar os Estados Unidos, certamente não seria produto da ação de Deus. Neste contexto escatológico, tanto os EUA representavam o ‘povo escolhido de Deus’ para os dias atuais, quanto Israel representava o ‘povo escolhido por Deus’, no âmbito da eternidade. Haveria de se construir um discurso que ratificasse estas posições e que desse certa lógica à verdade escatológica apresentada. Então, as questões sobre energia, desarmamento e guerra são apresentadas da seguinte forma:

 

“Mas um futuro desarmamento combinado com a crise energética e a Russia nas proximidades de Israel, iriam tornar um assalto de cavalaria particularmente útil num ataque à traição. A Rússia é uma das poucas potências mundiais que continua mantendo um enorme Batalhão de Cavalaria.” (WALVOORD. 1975, p. 136)

 

Também os autores apresentam, em determinado instante, os Estados Unidos isolados, estando tanto a Europa, quanto a Rússia, em conflito com eles. Este discurso, possivelmente, desejava alertar os “irmãos” europeus sobre a necessidade da manutenção do alinhamento entre a OTAN e os EUA, pois os autores escrevem: “Com os Estados Unidos em posição de isolamento, o equilíbrio do poder no mundo ter-se-á modificado para um equilíbrio entre o líder do Mediterrâneo e seus aliados de um lado e a Rússia e seus aliados de outro.” (WALVOORD. 1975, p. 136).

Com a queda do muro de Berlin, a fragmentação da União Soviética, o fim do terror vermelho e o prevalecimento da doutrina neoliberal como universal, toda esta “verdade divina” entrou para os anais do esquecimento doutrinário, mas permaneceu ativa o uso dos aparelhos teológicos para disseminação de verdades civilizatórias. Nos anos noventa foi a febre das ‘cruzadas’ para Israel, para onde milhões de cristãos do mundo inteiro peregrinavam, com a finalidade de serem batizados no Rio Jordão, comprarem óleos ungidos produzidos com as azeitonas colhidas no Monte das Oliveiras e tantas outras ‘maravilhas’. Esta dinâmica era fomentada pela forte expectativa do retorno de Cristo na virada do milênio. Entretanto, o não retorno do Senhor não colocou em dúvida as verdades declaradas pelos ungidos, mas exigiu a construção de novas verdades: verdadeiro combustível desta engenhoca tecnológica: a religião ativista neopentecostal.

 

Mas, como dissemos anteriormente, a tecnologia da elaboração de verdades escatológicas misturadas com interesses de uma determinada civilização, foi mantida e renovada. Em 2.002, quando os EUA tinham interesses a zelar no Oriente e desejavam empreender uma ação militar no Iraque, novamente a Igreja conservadora e dogmatizada quem oferece suporte teológico. Outra vez os teólogos escatologistas trataram de legitimar a façanha com o uso de interpretações próprias, lendo os textos proféticos do Velho Testamento e percebendo alí uma verdade que daria legalidade espiritual à guerra. Assim, o Iraque se torna o ‘quartel-general’ do anticristo, conforme podemos ler o texto abaixo:

 

Pr. J. Faust me enviou o seguinte comentário: ‘De acordo com a Bíblia, a futura cortina profética do período da Tribulação [a 70a. semana de Daniel] abrir-se-á com Israel restabelecida como uma nação e Iraque como um poder grandemente ameaçador e pronto a temporariamente conquistar a Ásia Menor, talvez sobrepujando sobre todas as nações da terra (SILVA. 2002)

 

A leitura dos textos sagrados, produzindo textos escatológicos, não se limitou aos anos 1970 e à elaborações marginais colocadas na internet. Autores como Tim LaHaye e Jerry B. Jenkins, já venderam mais de 25.000.000 de cópias de sua coleção de livros, a qual teve início com o livro, “Deixados para Traz”, de 1.997. Estes livros escatológicos, são produzidos pela crença pré-milenista e tem sido instrumento de reforço ideológico, como podemos ler:

Os EUA atual são uma demonstração assustadora da forma como esse novo surto religioso na política se propaga. O último best-seller do ramo se chama “Gloriosa aparição” – de Tim LaHaye e Jerry B. Jenkins –, uma ficção em que o anti-Cristo se encarna no secretário-geral da ONU, cria um governo único mundial, com uma única religião, e estabelece sua capital na bíblica Babilônia, isto é, Bagdá. Seriam os sinais de que o apocalipse está próximo e o verdadeiro Cristo voltaria à Terra, como um guerreiro furioso que desencadeia a sua violência sagrada matando e trucidando os ateus, os não crentes e perseguindo os seguidores das outras religiões. (CARTA MAIOR, 2004)

Nesta ficção os EUA são apresentados como reserva espiritual do mundo perdido, os crentes são libertos da opressão demoníaca, que os não alinhados lhe impingem, ou seja: a ONU, o Islã e todos aqueles que não crêem em Jesus Cristo. Ademais, há grupos de neopentecostais, que ainda que sejam pré-milenista, crêem que a vinda de Cristo será antecedida pela pregação do evangelho, por todo o planeta. Estes desenvolveram a Teologia do Crescimento de Igrejas e a Janela 10-40.

 

A Janela 10-40 é fruto de um mapeamento global, o qual procurou determinar as regiões geográficas em que havia o menor percentual de cristãos em relação à população local. O resultado deste estudo identificou um espaço denominado “Janela 10/40. Esta região do mundo, antes conhecida comoCinturão de Resistência”, estende-se desde o oeste da África até o leste da Ásia, sendo 10 graus de longitude e 40 de latitude acima da linha do Equador. O posicionamento estratégico que se originou, a partir desta constatação, visa alertar, potencializar e dinamizar ações da Igreja, visando a evangelização destes povos.

 

Um dos coordenadores estratégicos desta ação global da Igreja é o pastor americano Peter Wagner. Ele atua como Coordenador Internacional de Batalha Espiritual, Coordenador da Trilha de Oração Unida Movimento AD2000 e Professor de Crescimento de Igrejas, no Seminário Fuller. Podemos perceber em determinadas falas deste pastor americano um reflexo do pensamento filosófico pragmatista norte-americano, que, possivelmente, norteia sua ações, pois, segundo ele, “[...] Deus quer que sejamos pragmáticos [...] Eu gosto de chamar esta idéia de ‘pragmatismo consagrado’ [...] ‘com referência aos métodos, somos violentamente pragmáticos’.” (Wagner, Peter. 2ª ed. 1995: 30).

 

Os pensadores da Janela 10-40 apontam sete razões para que a Igreja esteja compromissada com este projeto: primeiro, é o significado bíblico e histórico desta área; este é o lugar onde Deus colocou Adão e Eva; segundo, três bilhões de pessoas moram nesta região e dos 50 países menos evangelizados do mundo, 37 estão alí; terceiro, é que a maioria dos seguidores do Islamismo, Budismo e Hinduísmo moram neste espaço; quarto, 95% dos pobres não evangelizados vivem neste quadrilátero; quinto, o Maior grupo de mega povos etnolinguísticos; sexto, a maiores metrópoles do planeta estão alí contidas; sétimo, “As fortalezas de Satanás estão concentradas na “Janela 10-40”.Bilhões de pessoas que vivem na janela não só sofrem com enfermidades, pobreza, calamidades mais também tem sido impossibilitadas de conhecer o poder do Evangelho Transformador.” (JOSÉ: web site).

 

Há relatos de Igrejas norte-americanas com projetos missionários agressivos direcionados para estas regiões do planeta. Há toda uma produção doutrinária, que busca levantar recursos humanos, materiais e financeiros para evangelizar, a partir dos EUA, ou de grupos religiosos alinhados ao projeto Janela 10-40, estes povos pagãos.

 

De fato, no espaço geográfico contido pela Janela 10-40 há um conjunto de civilizações cujas religiões não são cristãs. Neste quadrilátero há civilizações cujas religiões são o Islamismo, o Budismo, o Hinduísmo, Confucionismo, Tauismo, etc. Entretanto, quando relembramos a proposição de que toda grande civilização é fruto de uma grande religião, podemos reler a Janela 10-40 à luz do choque de civilizações, proposto por Samuel P. Huntington.

 

Segundo este autor, com o fim da guerra-fria, os choques civilizacionais, que antes se davam a partir do conflito maniqueísta entre o Capitalismo e o Socialismo, dão-se através de um novo mapa mundial, definido por nove grandes civilizações e suas respectivas religiões. Estas nove civilizações são: Ocidental (cristã católica e protestante), Ortodoxa (cristã), Islãmica, Hindu, Sínica (confucionismo e tauísmo), Budista, Japonesa, Africana e Latino-Americana. As civilizações deixaram de se confrontar por razões ideológicas (políticas) e passaram a se confrontar por outras razões. A religião passou a ser o epicentro deste conflito global. No final do século XX e no início do século XXI, as civilizações que têm, de alguma forma, confrontado o Ocidente (em particular os EUA), são o Islã, a Hindu, a Budista e a Sínica. Cada uma delas tem apresentado algum risco à hegemonia Ocidental, em áreas distintas: terrorismo, crescimento econômico, custo, produtividade e tecnologia.

 

A questão que se coloca, em aberto, é que há uma perfeita simetria entre a Janela 10-40 e as civilizações que oferecem resistência, ou apresentam risco à hegemonia Ocidental, segundo mapeamento de Huntington. Enquanto regiões com presença muito baixa de cristãos em suas populações, como a Indonésia, Mongolia e África Negra, são deixadas de fora deste mapa do evangelismo mundial , conforme podemos verificar no quadro abaixo:

 

 

Conclusão

 

[...] o ‘poder suave’ que é a capacidade de um estado de conseguir com que ‘outros países queiram o que ele quer’ através de um apelo à sua cultura e ideologia [...] Mas o que torna uma cultura e uma ideologia atraentes? Elas ficam atraentes quando são vistas como fundamentadas no sucesso material e na influência. (HUNTINGTON. 1997, p. 111)

 

Torna-se imperativo iniciar nossa conclusão apresentando uma série de questões, produto deste ensaio. Há como separar, de alguma forma, a construção de verdade religiosa dos paradigmas ideológicos de uma determinada civilização? Os homens e mulheres que, deixando sua civilização de origem, migram para outras regiões do planeta com a intenção evangelizadora, estão mentindo em seus discursos, ou apenas estão crendo que a verdadeira fé salvadora é a deles? Sendo integrante de uma civilização que tenha alcançado uma extraordinária eficiência tecnológica, uma produtividade sistêmica impar, uma ordem social sem igual e que, sendo crente num Deus amoroso, veja tudo isto como fruto da benção divina, não seria natural, para o cristão, desejar para o próximo a mesma sorte de privilégios? Esta sorte de privilégios não seria, para o crente norte-americano, a manifestação de uma civilização mais desenvolvida?

                                                                                                   

Quantas outras perguntas poderíamos colocar e que ensejariam em uma única e contundente resposta: não temos elementos para separar o joio do trigo.

 

O que desejamos não é a demonstração, impossível, da má fé, a priori, do missionário, do pastor, do crente evangelizador, mas a impossibilidade da religião em construir, em todo tempo e o tempo todo, discursos verdadeiros que transmitam apenas a ética religiosa, sem estar missigenada com a civilização do pregador. O, chamado, ‘espírito do tempo’ permeia a verdade religiosa. Daí surge o objetivo primordial deste trabalho que é, verificando a possibilidade de permeabilidade do dircurso religioso, o de verificar a possibilidade do neopentecostalismo refletir o presente ‘espírito do tempo’: a Sociedade Tecnológica e de Consumo.

 

Assim, objetivamos desmistificar a fala do pregador e a verdade teológica construída a partir da premissa de que esta pregação é a expressa Palavra de Deus. Em momento algum propomos que este homem esteja mentindo em seus discursos, mas que, tão somente, equivoca-se ao não dar-se conta das ideologias que compõem sua verdade.

 

 

 

 

 

 

Bibliografia

 

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