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TEOLOGIA E IDEOLOGIA NA CONSTRUÇÃO
DA ESCATOLOGIA
Ensaio apresentado ao Programa de Pós-Graduação, Stricto-Sensu Mestrado em Ciência da Religião: Currículo, da
Universidade Presbiteriana Mackenzie, cadeira Protestantismo e Sociedade.
São
Paulo
2004
Introdução:
“É
verdade que generalização vale como generalização.” (FREYRE.
2000, p. 131)
O presente
ensaio visa à possibilidade de se olhar determinadas produções teológicas como
subproduto civilizatório do pensamento
norte-americano. Pretendemos destacar algumas evidências pontuais de uma
teologia que reflete o pensamento político da civilização norte-americana. Tal teologia
pode ser percebida no discurso que é empreendido pelos missionários
protestantes do passado e dos pastores e líderes eclesiásticos contemporâneos.
Esta
pretensão inicial se embasará na premissa de que toda civilização, diante de
sua maturação, buscará expandir-se a partir de um processo civilizatório,
impondo-se sobre as civilizações que ainda não lograram êxito tecnológico
similar ou superior. É sobre a égide da superioridade e nuclearidade
civilizacional, que pensaremos sobre a Civilização
Ocidental, a qual tem se imposto sobre as demais civilizações nos últimos
quatrocentos anos. Em nosso caso particular, olharemos a ação civilizatória norte-americana sobre a Civilização
Latino-Americana e Brasileira, segundo a linha de pesquisa adotada.
A
Civilização Brasileira, se assim podemos chamá-la, inserida – talvez não
corretamente - no contexto da Civilização Latino-Americana, pode ser entendida,
tomando como referência a perspectiva da Civilização Anglo-Saxônica
Norte-Americana, como um sub-produto da Civilização Ocidental,
ou pelo menos, percebida como sendo uma civilização passível de um processo civilizatório. Esta premissa permite o destaque de certos
dados empíricos subjacentes no pensamento econômico e também no religioso.
A
importância conferida à religião, destacada neste trabalho, dá-se pelo fato de
que podemos deixar de entendê-la como epifenômeno dentro
uma dada civilização quando assumimos a premissa de Samuel Hutington.
Este pensador norte-americano propõe que toda grande civilização é fruto de uma
grande religião. É relevante o fato de que a Civilização Ocidental surgiu em
meio ao cristianismo e a cultura norte-americana formou-se do protestantismo do
Século XVIII. Este protestantismo norte-americano, aprentemente,
nunca concebeu a hipótese de separar teologia da ideologia.
É,
portanto, diante da impossibilidade aparente deste desamalgamento
que verificamos certas influências do pensamento político e econômico na
teologia escatológica, ou apocalíptica. Tal teologia foi exportada dos Estados
Unidos para o Brasil desde 1850 até os anos atuais através da ação de
missionários daquele país.
Nossa
pesquisa atém-se ao processo civilizatório que a
religião nuclear protestante norte-americana estabelece sobre a civilização
periférica latino-americana e particularmente a neopentecostal
brasileira. Deixaremos para análises futuras o sincretismo e a busca de
identidade religiosa nacional, como expressão contra-civilizatória.
Entretanto, sabemos que
A
tarefa principal de quem estuda a organização internacional não é gastar tempo
em discutir regionalismo vesus universalismo, mas,
sobre casos concretos, estudar os vários meios por que aqueles dois elementos
podem ser utilizados em combinação e os padrões que se devem aplicar na parte
que cada um se aceita. (FREYRE. 2000, p. 119)
Por fim,
o presente ensaio sugere que a empresa missionária protestante norte-americana,
em seu viés ideológico civilizatório, abriu uma porta
histórica no relacionamento dominador-dominado, no campo religioso, entre os
EUA e o Brasil, a qual tem sido um meio por onde equipamentos culturais de uma
chamada Sociedade Tecnológica podem estar sendo difundidos, travestidos por um
discurso místico religioso, com certa eficácia pragmática.
Civilização e Dominação
Entendemos
que para podermos encaminhar o tema ‘Civilização e Dominação’, necessitamos primeiramente
adotar, de forma provisoria, um referencial teórico,
ainda que limitado e genérico, para o que desejamos conceber quando do uso da
idéia de civilização. Assim sendo, vamos nos apropriar da elaboração de Thomas
S. Kühn, que define civilzação
como sendo “[...] os valores, as normas, as instituições e os modos de pensar
aos quais sucessivas gerações numa determinada sociedade atribuíram uma
importância fundamental.” (HUNTINGTON. 1997, p. 46)
A
organização de grupos humanos em sociedades e, posteriormente, em civilizações,
tem sido entendida, pelos pesquisadores, como resultado das revoluções
tecnológicas que se verificaram nos últimos 10.000 anos. Como por exemplo, as
transformações tecnológicas advindas do regadio, da
metalurgia, da nautica, da mecânica, da eltrônica, etc, segundo Darcy Ribeiro em ‘O Processo Civilizatório’. De acordo com Darcy Ribeiro, a incorporação
de novas tecnologias no seio das civilizações é um dos fatores, ainda que não o
único, que têm contribuido para a reorganização e
transformações sociais, ou seja, “[...] a cada revolução tecnológica podem
corresponder um ou mais processos civilizatórios
através dos quais ela desdobra suas potencialidades de tansformação
da vida material e de transfiguração das formações socioculturais.” (RIBEIRO. 1975, p. 36)
O diferencial
tecnológico promovido por estas novas tecnologias produz uma dinâmica de maior
produtividade interna, a qual gera excedentes de riquezas, possibilitando tais
civilizações serem mais eficientes na organização e produção, do que as demais.
Tais civilizações passam a ter uma percepção crescente de si mesmas, sobre
serem elas formações mais avançadas, que ao atingirem certa maturação própria, apresentam
uma
[...]
tendência ao expancionismo que se desenvolve com a
maturação [...] conduzindo à criação de relações de dominação [...] Esta
tendência é que explica o desenvolvimento do militarismo e do colonialismo como
categorias gerais, presentes em certa etapa do desenvolvimento de todas as
formações avançadas [...] (RIBEIRO. 1975, p. 33)
De
fato, a percepção que tais civilizações tem de si mesmas é a de que elas são
superiores e mais desenvolidas e, portanto,
portadoras de virtudes que legitimam suas ações expancionistas
e colonizadoras. Concebem-se como a locomotiva do mundo, ou seja,
[...]
um sentimento de superioridade e de destinação civilizadora que passou a
justificar todas as formas de opressão colonial como exercício necessário do
papel de agentes civilizadores, convictos de que representavam uma ordem moral
superior e o motor do progresso humano. (RIBEIRO. 1975, p. 148)
Entretanto,
os conceitos e valores que legitimam aquilo que pode ser entendido como
desenvolvimento, superioridade e civilização, são elaborados e definidos no
interior da civilização dominante, ou, por aquela que pretende seja tomada como
a civilização universal, conforme podemos ler:
O
conceito de civilização fornecia um padrão pelo qual as sociedades podiam ser
julgadas, e durante o Século XIX os europeus dedicaram muita energia
intelectual, diplomática
e política à elaboração dos critérios pelos quais as sociedades
não-européias poderiam ser julgadas suficientemente civilizadas para serem
aceitas como membros do sistema internacional dominado pelos europeus. (HUNTINGTON.
1997, p. 45)
Igualmente
a idéia, ou conceito de universalidade, ou seja, a posse de valores que se
aplicam a qualquer outro grupo étnico não Ocidental, é uma construção do
pensamento produzido pela Civilização Ocidental. É, de acordo com a linha
teórica adotada, a Civilização Ocidental que se pretende ter o direito, auto-legitimado, de ser tida como universal e, portanto,
justificar tanto a sua hegemonia, quanto a dominação. A Civilização Ocidental,
de posse do conceito auto-reflexivo de universalidade, dá-se o direito, ou,
legitima-se a si mesma com o direito de dominação, ou seja, “no final do Século
XX, o conceito de uma civilização universal ajuda a justificar o predomínio
cultural do Ocidente [...] O universalismo é a ideologia do Ocidente [...]” (HUNTINGTON.
1997, p. 78)
Poderíamos
propor, então, que esta construção de referência a partir do parâmetro do
dominador seria uma construção de verdade que a Civilização impõe às demais e
que é retro-alimentada por ela mesma à medida de seu prórpio
desenvolvimento. Esta verdade própria, ou esta ideologia da dominação passa
pelos parâmetros tecnológicos que a Civilização logrou alcançar e que pretende
manter e incrementar, acentuando a dependência nas relações internacionais.
Desta forma, a tecnologia padrão torna-se aquela produzida pela Civilização. A
ordem é a determinada pelo dominador, e a verdade é a contruída
pelo poder civilizacional.
Caberia
destacar, neste instante, que nos referimos apenas à Civilização Ocidental, àquela
que pretende ser universal, ou seja, elaboradora e produtora de verdades sobre
o que é e o que não é civilizado, o que é e o que não é verdadeiro. Neste
momento do trabalho poderíamos sintetizar que
No
estudo dos processos civilizatórios gerais
visualizam-se, principalmente, as alterações nos sistemas
adaptativo, assossiativo e ideológico
decorrentes do imapacto das revoluções tecnológicas
sobre as sociedades, estruturando-as em sucessivas formações socioculturais. No
estudo dos processos civilizatórios específicos
visualizam-se as expansões de tradições culturais singulares associadas a movimentos
econômicos e políticos de dominação que se cristalizam em civilizações
individualizadas, em núcleos centralizados por redes metropolitanas. Estes
últimos, atuando através da subjugação, da deculturação
e da traumatização cultural de etnias dominadas, assimilam-nas como parcelas
indiferenciadas de macro-etnias imperiais ou as reativam para amadurecerem como
entidades étnicas aspirantes à autonomia e à expansão. (RIBEIRO. 1975, p. 43)
Destacamos
que a religião passa a ser vista como uma agente relevante e importante na
questão civilizacional, segundo Huntington.
Ademais, a religião por um lado apresenta-se como o porta-voz da verdade divina,
por outro lado, destaca-se neste processo civilizatório
ao difundir a ideologia dominante.
Após ter
sobrevivido ao confronto positivista do Século XIX e do niilismo promovido pela
morte de Deus no início do Século XX, a religião retoma, segundo Huntington, seu imperativo na determinação da identidade
das civilizações e, como que num processo de ‘vingança de Deus’, determina-se
como fator fundamental no falar sobre os povos e “[...] de
todos os elementos objetivos que definem as civilizações, o mais importante
geralmente é a religião [...] (HUNTINGTON. 1997, p. 46)
Nesta
perspectiva a religião não pode mais ser tomada como epifenômeno,
mas integra-se na re-elaboração das identidades das civilizações, pois “a
religião é uma característica central definidora das civilizações e, como dise Christofer Dawson, ‘as grandes religiões são os alicerces sobre os
quais repousam as civilizações’.” (HUNTINGTON. 1997,
p. 54). Tal fato ganha destaque à medida que se trata de uma identidade que se constroi a partir de um discurso que se pretende verdadeiro.
Partindo do núcleo hegemônico civilizatório para as
periferias, que se pretende dominar, esta verdade pode ser elaborada pela
ortodoxia ideológica. Nesta re-elaboração de identidades civilizacional,
principalmente das periféricas, o discurso verdadeiro atribuido
a Deus pode se difundir como verdade inquestionável.
Tendo
em vista nosso objeto de estudo, a América Latina, particularmente o Brasil, podemos
perceber a necessidade de um enfoque singular. A América Latina é fruto da missigenação racial e do sincretismo cultural históricos,
ela não elaborou uma religião que lhe seja própria, antes, adota como núcleo de
sua doutrina religiosa aquela que é proveniente do norte. Pois, “praticamente
todas as principais civilizações do mundo no Século XX ou já existem há um
milênio ou, como ocorre na América Latina, são o fruto imediato de uma outra
civilização de longa duração.” (HUNTINGTON. 1997, p.
49). Os valores religiosos na América Latina são frutos históricos da importação
de crenças, européias, africanas, assiáticas e,
nestes últimos 180 anos, norte-americanas.
A
identidade cultural da América ibérica e caribenha - que é o amalgamento de tantas civilizações no qual o sincretismo se
destaca -, tem um caráter próprio. Este conteúdo missigenado
da cultura latino-americana e, particularmente, brasileira, particulariza-nos
como uma “região por demais européia e ocidental para poder ser considerada
inteiramente exótica do ponto de vista europeu ou ocidental; por outro lado,
por demais exótica para ser tratada como mera extensão européia na América
[...]” (FREYRE. 2000, p. 37).
Somos,
então, europeus, mas, concomitantemente, não somos europeus. Somos ocidentais e
não somos ocidentais. Somos uma síntese de culturas diversas que, misturadas,
formaram uma nova civilização, em outras palavras, a civilização “Latino-americana
[...] Um produto da civilização européia, ela também incorpora, em graus
variados, elementos de civilizações indígenas [...]” (HUNTINGTON. 1997, p. 52). Esta síntese faz, pontualmente, a América
portuguesa, como aquela que pode em determinados momentos, ou em determinados
recortes sociais, parecer ser extensão de civilizações que compõe a sua
mistura, desta forma “[...] o Brasil se torna mais significativo, sob o aspecto
de um tipo de civilização predominantemente européia, mas não subeuropéia.” (FREYRE. 2000, p.
50).
Civilização Ocidental (norte-americana) e
Brasil
Mas,
ainda que o Brasil esteja inserido geograficamente na América Latina é, quer
pela diferença entre o luso e o espanhol, quer pela marginalização imposta ao
índio que está em solo brasileiro, uma cultura, ou, uma civilização ímpar,
neste espaço geográfico. Esta nação, que em sua busca de identidade própria,
afasta-se de Portugal e se aproxima dos ingleses no início do século XX,
lembrando que, “[...] a República [...] proclamada em 1889, por um grupo de
brasileiros ansiosos por uma política ‘democrática’ de feitio anglo-americano
ou de inspiração positivista.” (FREYRE. 2000, p. 44). Não
apenas na ‘política democrática’, mas, também tem buscado reproduzir frequentemente o modelo europeu em diversas constituições, pois,
“[...] mais de uma vez o Brasil tem feito as suas constituições tão sobre o modelo de constituições européia – e uma vez da dos
Estados Unidos [...] Puro furor imitativo levando um povo tropical a exageros
grotescos de artificialismo.” (FREYRE. 2000, p. 121).
Este
gosto pelo europeu não-ibérico, no século XX se transforma em gosto pelo
norte-americano. Após a Segunda Guerra Mundial, em que os EUA não apenas se
tornaram vitoriosos militarmente, mas, e, sobretudo, politicamente, o Brasil,
assim como diversas outras nações, americanizam-se. O fim do ímpeto
colonialista europeu arrefece diante do trauma das duas guerras seqüentes, mas,
concede aos norte-americanos o ‘dever’ colonial, diante do perigo da
cortina-de-ferro. Em outras palavras, “a descolonização no pós-guerra reduziu
ainda mais a influência européia, mas não a dos Estados Unidos, que
substituíram o tradicional império territorial por um novo impérialismo
transnacional.” (HUNTINGTON. 1997, p. 100).
Um novo
cenário internacional surge após a Segunda Guerra, com forte teor
maniqueísta-político, determinando o alinhamento dos povos, ou ao Ocidente, capitaniado pelos EUA, ou ao Bloco Socialista, capitaneado
pela URSS. A América-Latina vive um período de recrudecimento dos regimes políticos, via golpes militares,
alinhando-se ao Ocidente. Desde o México até o Chile, passando pelo Brasil, a América-Latina experimenta regimes que limitam os direitos
políticos e combate a esquerda pró-Moscou
e pró-Pequim. Neste período não somente as elites
políticas e econômicas atrelam-se a Washington, como a cultura local destes
povos passa a refletir uma certa ‘americanilidade’. A
América Latina e o Brasil – jocosamente - passam a ser chamados, por alguns, de
‘quintal americano’, ‘américa
latrina’, ou, mais gentilmente, a ‘excrecência da
civilização Ocidental’. Antes, como nos fala Gilberto Freyre:
O
perigo da monotonia cultural ou da excessiva unificação de cultura no
continente americano provém da influência do industrialismo
capitalista norte-americano, largamente dominado pela idéia de que o que é bom
para o norte-americano deve ser bom para todos os povos da América. (FREYRE.
2000, p. 120)
As
produções no campo político, econômico e, de certa forma, cultural são aquelas
em que o censor nacional e internacional permitiam serem
produzidas, visando delimitações nos discursos e preservação dos regimes e das elites
que estavam alinhadas ao Ocidente, norte-americano. Esta forma de censura tanto
dificultava o questionamento do modelo, quanto alimentava um processo civilizatório aonde
[...]
populações, remodeladas através da destribalização e deculturação compulsória, sob pressão escravista, perderam
a maior parte dos seus patrimônios culturais de origem e só puderam plasmar
novos traços culturais quando estes não colidiam com sua função produtiva
dentro do sistema colonial. (RIBEIRO. 1975, p. 168)
Os EUA
que lograram êxito exportam seu êxito para outros países periféricos. Procuram,
entretanto, reforçar a dependência destes países periféricos
em relação a si, necessária à preservação de sua liderança. Este êxito,
no entanto, torna-se global a partir da década de oitenta com o fim do Bloco
Soviético Russo. Agora, como líderes globais, auto-determinam-se
núcleo hegemônico cultural, produzindo uma tecnologia que reforça e amplia a
relação de dependência, na qual as periferias menos desenvolvidas, como o
Brasil, tornam-se reprodutoras do discurso hegemônico nuclear. Assim,
[...]
os processos civilizatórios são movidos por
revoluções tecnológicas que privilegiam os povos que primeiro as experimentam, ensejamdo-lhes condições de expansão como núcleos de
dominação [...] os povos atingidos pelos mesmos processos civilizatórios,
através de movimentos de atualização histórica, perdendo o comando do seu
destino e condenados à subjugação e à dependência, vêem estritamente
condicionado todo seu desenvolvimento ulterior. (RIBEIRO. 1975, p.51)
Este
modelo civilizatório, no qual o núcleo não mais
requer dominação geográfica, antes, extende seu poder
a partir da dependência tecnológica e econômica, determinando o desenho
político e social, prescinde, aparentemente, do passado ideológico, ou das
crenças dos governantes. Governos que suscederam
aqueles ditadoriais, vieram a implementar políticas
econômicas, ainda, reprodutoras do pensamento Ocidental, norte-americano,
assim,
Os
Estados Unidos, depois de reafirmarem sua hegemonia nas esferas financeira e
militar na década de 80, conseguiram liderar as transformações mundiais em
curso e ocupar, na década de 90, uma posição de destaque no crescimento
econômico [...] o Brasil foi literalmente capturado pelo processo de
globalização financeira da década de 90. (TAVARES e BELLUZO. Caderno Mais.
2004, p. 8)
Governantes
que antes fizeram oposição às políticas nacionais que refletiam o alinhamento com
o pensamento Ocidental norte-americano, podem ser
vistos, neste novo arranjo global, como reprodutores deste sistema egemônico nuclear. Em outras palavras, “o que fica
evidenciado é que [...] (Fernando Henrique) Cardoso [...] julga possível algum
desenvolvimento nacional com dependência [...] uma inserção subordinada do
Brasil no sistema capitalista internacional [...]” (KALVAN. 2000: introdução).
Este ‘sistema capitalista internacional’, também chamdo
de ‘Consenso de Washington’, foi, segundo alguns intelectuais, uma decisão do
Governo brasileiro, visando a concretização de um
desenvolvimento subalterno. Assim,
Em 1996 [...} Fernando Henrique Cardoso foi chamado a
decidir sobre dois caminhos [...] De um lado [...] os que defendiam a política econômica conhecida à época
como o Consenso de Washington [...] Todos sabemos hoje
que o presidente Fernando Henrique Cardos optou pelo caminho mais ortodoxo.
(BARROS. Caderno Mais 2004, p. 10)
De onde
podemos entender este Consenso de Washington como uma expressão das diretrizes
norte-americanas para os chamados países emergentes, onde
[...]
as agências governamentais e semi-governamentais em
Washington e os agentes do sistema financeiro internacional em New York [...] propunham aos países emergentes uma nova
estratégia de desenvolvimento: ‘crescer com poupança externa’ [...] A condição
para isso era a de lograrem ‘credibilidade’ junto de Washington e New York, ou seja, que deixassem de pensar por conta
própria e seguissem as políticas recomendadas. (BRESSER-PEREIRA. Caderno Mais.
2004, p. 11)
Parece-nos
que, não somente nos tempos da colonização portuguesa, mas, também nos últimos
sessenta anos, o Brasil tem se colocado numa posição
periférica, subalterna e de reprodutor do pensamento hegemônico, que
desta vez é gerado, definido e divulgado pelos EUA.
Mas,
não somente nos campos político, econômico e cultural este pensamento, até
agora entendido como hegemônico, tem definido o pensamento brasileiro, mas
também tem determinado parte do pensamento religioso evangélico e, sobretudo, o
neopentecostal. Devemos resaltar
a importância que autores, como Samuel Huntington,
conferem à religião, conforme apresentado anteriormente. Estes pensadores
apresentam a religião como elemento objetivo definidor da civilização.
Teologia e Ideologia dos Missionários Norteamericanos do Século XIX
Caso
adotemos, para os fins deste trabalho, que a religião é o mais importante
elemento objetivo definidor da civilização, conforme propõe Samuel Huntington, então, pode-se pensar que ela, também, seja um
instrumento de difusão da civilização dominante. Esta proposta estará apoiada
numa premissa de que a teologia apresentada pelos líderes religiosos, do núcleo
civilizacional, esteja misturada à cultura deste
povo. Os líderes religiosos norte-americanos que para o Brasil vieram e vêm, ao
proclamarem suas crenças religiosas, trazem misturado
elementos de suas crenças culturais civilizatórias.
Adotaremos
a premissa de uma teologia com influência ideológica e não de uma ideologia
travestida de teologia. Procuraremos buscar elementos que nos permitam
verificar esta premissa na empresa missionária norte-americana que veio para o
Brasil e verificar se, de alguma forma, conseguimos perceber em algum
pensamento religioso evangélico contemporâneo, a mesma característica.
O
pensamento evangélico do século XIX nos EUA, principalmente o de linha
calvinista, era tal que, criam ser eles responsáveis, não somente pelas coisas,
ditas espirituais, mas, também, pela própria ordem social (MENDONÇA. 1995, p. 48). Este povo que conheceu a gêneses de sua nação
como a realização de um sonho de Canaã que se avistava. Então, uma vez que
saíram da Europa, muitas vezes por não encontrarem alí
possibilidade de expressarem sua fé, homens e mulheres atravessam o mar e entraram
numa terra, a qual poderia ser tida como uma herança divina para os fiéis.
Mais do
que apenas terem um espaço para cumprirem o sonho americano, eles “sentiam-se
como o povo escolhido de Deus (God Chosen People), tanto no sentido
espiritual como no intelectual [...] como escreve Duncan
A. Reily:[...]nunca
houve uma separação entre cristianismo e povo americano.” (MENDONÇA. 1995, p.
50). O cristão norte-americano evangélico, crente em ser portador de uma
escolha divina, percebe-se ‘povo escolhido de Deus’ para difundir, ao mundo
pagão e perdido, não somente o evangelho, que o fez um herdeiro do Reino, como também
o seu próprio modo de vida, o qual, para ele manifestava esta escolha e a
benção divina. Esta marca (de povo escolhido) e responsabilidade (missionária e
evangelizadora dos povos) passam a integrar a cultura dos
norte-americana, pois, pensavam eles que,
Deus
está usando os anglo-saxões para conquistar o mundo para Cristo a fim de
despojar as raças fracas e assimilar e moldar outras. O destino religioso do
mundo está nas mãos dos povos de fala inglesa. A raça anglo-saxã,
Deus parece ter entregue a empresa de salvação do
mundo. (MENDONÇA. 1995, p. 61)
É esta
ideologia do ‘Destino Manifesto’ que se torna a mais eficiente condutora da
religião norte-americana, em outras palavras, “pelo menos no Século XIX, o
melhor e mais eficiente condutor da ideologia do “Destino
Manifesto” foi a religião americana, ou melhor dizendo, o protestantismo
americano [...]” (MENDONÇA. 1995, p. 62). Deus havia destinado o povo
norte-americano para evangelizar os povos e este evangelho se manifesta não
somente nas doutrinas, mas também no ‘American Way of Life”,
ou seja, “[...] o transplante cultural,
a exportação da American Way
of Life, tudo em obediência ao ‘Destino Manifesto’”
(MENDONÇA. 1995, p. 77), pois, “para o protestante americano parecia bem claro
que Deus o havia escolhido para ser, politica e
religiosamente, mestre da raça humana [...] (MENDONÇA. 1995, p. 65).
Com
esta teologia é que vieram para o Brasil muitos dos missionários e pastores
norte-americanos. Estes homens e algumas mulheres possivelmente estavam convictos
de que a tanto suas pregações, quanto seu modo de vida, era o melhor que se
poderia oferecer, assim,
“[...] o protestantismo que chegou ao Brasil foi um produto
nuclearmente indiferenciado do protestantismo norte-americano [...]” (MENDONÇA.
1995, p. 82). Ademais, “[...] os missionários não distinguiam religião de
ideologia, o que talvez não seja mesmo possível fazer [...]”(MENDONÇA.
1995, p. 109).
Cabe resaltar que quase cem por cento do cristianismo evangélico
brasileiro é proveniente do trabalho missionário norte-americano. Esse trouxe
para cá a fé dos batistas, dos metodistas e dos presbiterianos. No caso do pentecostalismo clássico (Assembléia de Deus e Congregação
Cristã do Brasil), os missionários que por aqui estiveram, iniciando a onda
pentecostal no Brasil, não eram de origem norte-americana, mas foram fortemente
influenciados pelo movimento pentecostal e evangélico daquele país. Ao falarmos
de neopentecostalismo devemos creditar aos
missionários norte-americanos da Igreja Evangélica Quadrangular o início deste
movimento no Brasil. Em pequeno número são os fiéis e poucos são as igrejas
evangélicas que não foram formadas ou fortemente influenciadas pela ação
missionária norte-americana no Brasil. Mesmo seitas neopentecostais
mais recentes, como, por exemplo, a Universal do Reino de Deus, são resultado
destes homens e mulheres.
É possível
perceber que o pensamento original dos primeiros evangélicos nos EUA se mantém
presente nos evangélicos daquele país ainda hoje. O Dr. James Kennedy, em seu
livro, “E se Jesus não tivesse nascido?”, falando do “impácto
do cristinismo nos EUA” diz que “se Jesus jamais
tivesse nascido, os EUA jamais existiriam.” (KENNEDY.
2003, p. 84). Mais adiante, quando o autor fala sobre “o impacto do
cristianismo sobre a economia”, diz que “se Jesus jamais tivesse nascido, é improvável
que o capitalismo e o sistema de livre iniciativa – que trouxe prosperidade sem
precedentes, para bilhões de pessoas – tivessem se desenvolvido.” (KENNEDY. 2003, p. 145). O Dr. James Kennedy é líder da Coral Ridge Presbiterian,
em Fort Lauderdale,
Flórida, é reitor da Knox Theological
Seminary.
É certo
que a empresa missionária norte-americana tem atualizado sua bandeira
doutrinária. O discurso utilizado pelos missionários e pastores norte-amenricanos tem sido alterado no transcurso da história.
Tendo iniciado com o evangelho avivalista do século
XIX, posteriormente foi modificado para o evangelho pentecostal, no início do século
XX, sendo, atualmente, pregado pelos neopentecostais através
da Teologia da Prosperidade, da Teologia de Batalha Espiritual e da Teologia de
Crescimento de Igrejas.
Teologia ideologizada.
O
evangelho pregado nos EUA no século XIX além de portar a idéia de American Way of Life também foi, com alguma freqüência, influenciado pela
teologia escatológica, ou, estudo das coisas dos últimos dias, ou ainda, apocalipsismo, como nos fala Antonio G. Mendonça: “O apocalipsismo, às vezes, acompanhou o avivalismo
na América. A idéia de retorno de Cristo teve duas interpretações: a pós-milenarista e a pré-milenarista.” (MENDONÇA. 1995, p. 68). A verdade escatológica é construída
quase como quem junta um quebra-cabeças. Dá-se pela
interpretação de textos, feita por inciados em tais
leituras, possibilitando um entendimento sobre fatos a serem cumpridos no
futuro, os quais determinam as crenças presentes dos fiéis, ou seja,
A visão
da história, no sentido de sua aproximação cada vez maior de um fim
apocalíptico, é feita a partir dos textos apocalípticos da Bíblia dispostos na
ordem em que eventos da história a eles devem corresponder. Isto é feito a
parir de uma leitura literal dos textos [...] espécie de racionalização da
Bíblia e da história [...] (MENDONÇA. 1995, p. 237)
Os discursos escatológicos, que divergiam quanto à
manifestação do Reino de Deus em meio à sociedade, era interpretado como pré-milenarista, ou pós-milenarista.
Os pós-milenaristas acreditavam que “[...] a vinda do
Reino se daria após a implantação da civilização cristã; por isso, a
cristianização da sociedade seria uma preparação para a vinda do Reino de Deus”
(MENDONÇA. 1995, p. 60). Os pré-milenaristas
acreditavam na segunda vinda de Jesus Cristo e no Juízo Final como eventos inaugurais
do Reino de Deus. Esta crença pré-milenarista
incompatibiliza “[...] a Igreja com qualquer atividade de melhoria social.” (MENDONÇA. 1995, p. 60).
Segundo
Antonio G. Mendonça, “no último quartel do Século XIX, o pré-milenarismo
firmou-se em igrejas como a presbiteriana, a reformada, a episcopal e a congregacional.” (MENDONÇA. 1995,
p. 69), o que influenciou sobremaneira a teologia dos missionários protestantes
que para o Brasil vieram, nesta época. Assim,
Pode-se
concluir que o pré-milenismo incorporou-se ao
pensamento institucional protestante brasileiro. É possível aduzir, de
passagem, que o movimento fundamentalista que começou a ser pregado no Brasil
na década de 40 veio reforçar consideravelmente o pré-milenismo
[...] (MENDONÇA. 1995, p. 237).
Não
somente o pensamento das chamadas igrejas protestantes históricas, como as já
citadas, presbiteriana, episcopal e congragacional,
mas, no Brasil, as igrejas pentecostais também passaram a adotar, e ainda hoje
adotam, dentro de seu núcleo doutrinário, a crença pré-milenista.
Como exemplo mais significativo citamos a Assembléia de Deus que adota
formalmente esta doutrina, podendo ser lido em diversos web
site, o credo:
Na
segunda vinda premilenal de Cristo, em duas fases
distintas. Primeira - invisível ao mundo, para arrebatar a sua Igreja fiel da
terra, antes da grande tribulação; segunda - visível e corporal, com sua Igreja
glorificada, para reinar sobre o mundo durante mil anos, 1Ts 4.16,17; 1Co
15.51-54; Ap 20.4; Ac 14.5; Jd 14. (Assembléias de Deus, doutrinas. 2004).
Ora,
enquanto doutrina que procurava explicar eventos futuros, a questão que se
colocava entre o pré-milenista e o pós-milenista, estava circunscrita à jurisdição teológica e
da fé, entretanto, quando a teologia passa a estar ideologizada,
assim, pode-se verificar uma “[...] doutrinação ideológica associada à
propaganda religiosa de caráter anti-socialista.” (RIBEIRO.
1975, p. 180). Então, é possivel que nos discursos
escatológicos possam estar contidos traços civilizatórios,
dentro do abismo criado pela “guerra-fria”.
Verdades
escatológicas podem ter sido construídas por meio de leituras de textos
proféticos, cujo significado simbólico e de caráter misterioso, podem ser
conduzidos, com certa liberdade e liberalidade, tendo a finalidade, ainda que
não explícita, de conduzir o crente a um alinhamento civilizacional.
No
contexto da guerra-fria e do regime militar brasileiro, na década de 1970,
livros como “Torturados por amor a Cristo” e “Cristo em cadeias comunistas”,
escritos pelo reverendo romeno Richard Wonbrandt,
descreviam cenas dantescas de cristãos torturados nos porões das polícias da
“cortina de ferro”. Ainda que sem o teor escatológico, estes livros povoavam a
imaginação do crente brasileiro com o terror que viria a ser um regime anti-democrático e comunista no Brasil.
O
doutor John F. Walwoord, então presidente do
Seminário Teológico de Dallas e o doutor John E. Walvoord,
em seu livro, “Armagedom: Petróleo e Crise no Oriente
Médio”, editado no Brasil em 1975, adotam a linha pré-milenista
e interpretam os textos proféticos, principalmente no Velho Testamento e o
livro de Ezequiel, à luz da “guerra-fria”. Assim, com a certeza inalienável de
quem está recebendo uma revelação divina, declaram: “O profeta Ezequiel descreveu
uma época em que a Russia fará uma investida militar
para conquistar o poder no Oriente Médio.” (WALVOORD.
1975, p. 135)
A
escatologia destes homens é construída sobre a certeza de que a URSS era o
reino do anticristo e que, de acordo com o “Destino Manifesto”, os EUA
manifestavam o Reino de Deus na Terra. Qualquer nação, povo ou civilização que
ousasse confrontar os Estados Unidos, certamente não seria produto da ação de
Deus. Neste contexto escatológico, tanto os EUA representavam o ‘povo escolhido
de Deus’ para os dias atuais, quanto Israel representava o ‘povo escolhido por
Deus’, no âmbito da eternidade. Haveria de se construir um discurso que
ratificasse estas posições e que desse certa lógica à verdade escatológica
apresentada. Então, as questões sobre energia, desarmamento e guerra são
apresentadas da seguinte forma:
“Mas um
futuro desarmamento combinado com a crise energética e a Russia
nas proximidades de Israel, iriam tornar um assalto de cavalaria
particularmente útil num ataque à traição. A Rússia é uma das poucas potências
mundiais que continua mantendo um enorme Batalhão de Cavalaria.” (WALVOORD. 1975, p. 136)
Também
os autores apresentam, em determinado instante, os Estados Unidos isolados,
estando tanto a Europa, quanto a Rússia, em conflito com eles. Este discurso,
possivelmente, desejava alertar os “irmãos” europeus sobre a necessidade da
manutenção do alinhamento entre a OTAN e os EUA, pois os autores escrevem: “Com
os Estados Unidos em posição de isolamento, o equilíbrio do poder no mundo
ter-se-á modificado para um equilíbrio entre o líder do Mediterrâneo e seus
aliados de um lado e a Rússia e seus aliados de outro.” (WALVOORD.
1975, p. 136).

Com a
queda do muro de Berlin, a fragmentação da União Soviética, o fim do terror
vermelho e o prevalecimento da doutrina neoliberal
como universal, toda esta “verdade divina” entrou para
os anais do esquecimento doutrinário, mas permaneceu ativa o uso dos aparelhos
teológicos para disseminação de verdades civilizatórias.
Nos anos noventa foi a febre das ‘cruzadas’ para
Israel, para onde milhões de cristãos do mundo inteiro peregrinavam, com a
finalidade de serem batizados no Rio Jordão, comprarem óleos ungidos produzidos
com as azeitonas colhidas no Monte das Oliveiras e tantas outras ‘maravilhas’. Esta
dinâmica era fomentada pela forte expectativa do retorno de Cristo na virada do
milênio. Entretanto, o não retorno do Senhor não colocou em dúvida as verdades
declaradas pelos ungidos, mas exigiu a construção de novas verdades: verdadeiro
combustível desta engenhoca tecnológica: a religião ativista neopentecostal.
Mas,
como dissemos anteriormente, a tecnologia da elaboração de verdades
escatológicas misturadas com interesses de uma determinada civilização, foi
mantida e renovada. Em 2.002, quando os EUA tinham interesses a zelar no
Oriente e desejavam empreender uma ação militar no
Iraque, novamente a Igreja conservadora e dogmatizada quem oferece suporte
teológico. Outra vez os teólogos escatologistas
trataram de legitimar a façanha com o uso de interpretações próprias, lendo os
textos proféticos do Velho Testamento e percebendo alí
uma verdade que daria legalidade espiritual à guerra. Assim, o Iraque se torna
o ‘quartel-general’ do anticristo, conforme podemos ler o texto abaixo:
Pr. J. Faust me enviou o
seguinte comentário: ‘De acordo com a Bíblia, a futura cortina profética do
período da Tribulação [a 70a. semana de
Daniel] abrir-se-á com Israel restabelecida como uma nação e Iraque como um
poder grandemente ameaçador e pronto a temporariamente conquistar a Ásia Menor,
talvez sobrepujando sobre todas as nações da terra (SILVA. 2002)
A leitura
dos textos sagrados, produzindo textos escatológicos, não se limitou aos anos
1970 e à elaborações marginais colocadas na internet. Autores como Tim LaHaye e Jerry B. Jenkins, já venderam mais de 25.000.000 de cópias de sua
coleção de livros, a qual teve início com o livro, “Deixados para Traz”, de
1.997. Estes livros escatológicos, são produzidos pela
crença pré-milenista e tem sido instrumento de
reforço ideológico, como podemos ler:
Os
EUA atual são uma demonstração assustadora da forma
como esse novo surto religioso na política se propaga. O último best-seller
do ramo se chama “Gloriosa aparição” – de Tim LaHaye e Jerry B. Jenkins –, uma ficção em que o anti-Cristo se encarna no
secretário-geral da ONU, cria um governo único mundial, com uma única religião,
e estabelece sua capital na bíblica Babilônia, isto é, Bagdá. Seriam os sinais
de que o apocalipse está próximo e o verdadeiro Cristo voltaria à Terra, como um guerreiro furioso que desencadeia a sua
violência sagrada matando e trucidando os ateus, os não crentes e perseguindo
os seguidores das outras religiões. (CARTA MAIOR, 2004)
Nesta
ficção os EUA são apresentados como reserva espiritual do mundo perdido, os
crentes são libertos da opressão demoníaca, que os não alinhados lhe impingem,
ou seja: a ONU, o Islã e todos aqueles que não crêem em Jesus Cristo. Ademais,
há grupos de neopentecostais, que ainda que sejam pré-milenista, crêem que a vinda de Cristo será antecedida
pela pregação do evangelho, por todo o planeta. Estes desenvolveram a Teologia
do Crescimento de Igrejas e a Janela 10-40.
A
Janela 10-40 é fruto de um mapeamento global, o qual procurou determinar as
regiões geográficas em que havia o menor percentual de cristãos em relação à
população local. O resultado deste estudo identificou um espaço denominado “Janela
10/40. Esta região do mundo, antes conhecida como “Cinturão
de Resistência”, estende-se desde o oeste da África até o leste da Ásia, sendo
10 graus de longitude e 40 de latitude acima da linha do Equador. O
posicionamento estratégico que se originou, a partir desta constatação, visa
alertar, potencializar e dinamizar ações da Igreja, visando a evangelização
destes povos.
Um dos
coordenadores estratégicos desta ação global da Igreja é o pastor americano
Peter Wagner. Ele atua como Coordenador Internacional de Batalha Espiritual,
Coordenador da Trilha de Oração Unida Movimento AD2000
e Professor de Crescimento de Igrejas, no Seminário Fuller.
Podemos perceber em determinadas falas deste pastor americano um reflexo do
pensamento filosófico pragmatista norte-americano,
que, possivelmente, norteia sua ações, pois, segundo ele, “[...] Deus quer que
sejamos pragmáticos [...] Eu gosto de chamar esta idéia de ‘pragmatismo
consagrado’ [...] ‘com referência aos métodos, somos violentamente pragmáticos’.” (Wagner, Peter. 2ª ed. 1995: 30).
Os
pensadores da Janela 10-40 apontam sete razões para que a Igreja esteja compromissada
com este projeto: primeiro, é o significado bíblico e histórico desta área;
este é o lugar onde Deus colocou Adão e Eva; segundo, três bilhões de pessoas
moram nesta região e dos 50 países menos evangelizados do mundo, 37 estão alí; terceiro, é que a maioria dos seguidores do Islamismo,
Budismo e Hinduísmo moram neste espaço; quarto, 95%
dos pobres não evangelizados vivem neste quadrilátero; quinto, o Maior grupo de
mega povos etnolinguísticos; sexto, a maiores
metrópoles do planeta estão alí contidas; sétimo, “As
fortalezas de Satanás estão concentradas na “Janela 10-40”.Bilhões de pessoas
que vivem na janela não só sofrem com enfermidades, pobreza, calamidades mais
também tem sido impossibilitadas de conhecer o poder do Evangelho
Transformador.” (JOSÉ: web site).
Há
relatos de Igrejas norte-americanas com projetos missionários agressivos
direcionados para estas regiões do planeta. Há toda uma
produção doutrinária, que busca levantar recursos humanos, materiais e
financeiros para evangelizar, a partir dos EUA, ou de grupos religiosos
alinhados ao projeto Janela 10-40, estes povos pagãos.
De
fato, no espaço geográfico contido pela Janela 10-40 há um conjunto de
civilizações cujas religiões não são cristãs. Neste quadrilátero há
civilizações cujas religiões são o Islamismo, o Budismo, o Hinduísmo,
Confucionismo, Tauismo, etc. Entretanto, quando
relembramos a proposição de que toda grande civilização é fruto de uma grande
religião, podemos reler a Janela 10-40 à luz do choque de civilizações,
proposto por Samuel P. Huntington.
Segundo
este autor, com o fim da guerra-fria, os choques civilizacionais,
que antes se davam a partir do conflito maniqueísta entre o Capitalismo e o
Socialismo, dão-se através de um novo mapa mundial, definido por nove grandes civilizações
e suas respectivas religiões. Estas nove civilizações são: Ocidental (cristã
católica e protestante), Ortodoxa (cristã), Islãmica,
Hindu, Sínica (confucionismo e tauísmo),
Budista, Japonesa, Africana e Latino-Americana. As
civilizações deixaram de se confrontar por razões ideológicas (políticas) e
passaram a se confrontar por outras razões. A religião passou a ser o epicentro
deste conflito global. No final do século XX e no início do século XXI, as
civilizações que têm, de alguma forma, confrontado o Ocidente (em particular os
EUA), são o Islã, a Hindu, a Budista e a Sínica. Cada
uma delas tem apresentado algum risco à hegemonia Ocidental, em áreas
distintas: terrorismo, crescimento econômico, custo, produtividade e
tecnologia.
A questão
que se coloca, em aberto, é que há uma perfeita simetria entre a Janela 10-40 e
as civilizações que oferecem resistência, ou apresentam risco à hegemonia
Ocidental, segundo mapeamento de Huntington. Enquanto
regiões com presença muito baixa de cristãos em suas populações, como a
Indonésia, Mongolia e África Negra, são deixadas de
fora deste mapa do evangelismo mundial , conforme
podemos verificar no quadro abaixo:

Conclusão
[...] o
‘poder suave’ que é a capacidade de um estado de conseguir com que ‘outros
países queiram o que ele quer’ através de um apelo à sua cultura e ideologia
[...] Mas o que torna uma cultura e uma ideologia atraentes? Elas ficam
atraentes quando são vistas como fundamentadas no sucesso material e na influência.
(HUNTINGTON. 1997, p. 111)
Torna-se
imperativo iniciar nossa conclusão apresentando uma série de questões, produto
deste ensaio. Há como separar, de alguma forma, a construção de verdade
religiosa dos paradigmas ideológicos de uma determinada civilização? Os homens
e mulheres que, deixando sua civilização de origem, migram para outras regiões do
planeta com a intenção evangelizadora, estão mentindo em seus discursos, ou
apenas estão crendo que a verdadeira fé salvadora é a deles? Sendo integrante
de uma civilização que tenha alcançado uma extraordinária eficiência
tecnológica, uma produtividade sistêmica impar, uma ordem social sem igual e
que, sendo crente num Deus amoroso, veja tudo isto como fruto da benção divina,
não seria natural, para o cristão, desejar para o próximo a
mesma sorte de privilégios? Esta sorte de privilégios não seria, para o crente
norte-americano, a manifestação de uma civilização mais desenvolvida?
Quantas outras perguntas poderíamos colocar e que ensejariam
em uma única e contundente resposta: não temos elementos para separar o joio do
trigo.
O que
desejamos não é a demonstração, impossível, da má fé, a priori, do missionário,
do pastor, do crente evangelizador, mas a impossibilidade da religião em
construir, em todo tempo e o tempo todo, discursos verdadeiros que transmitam
apenas a ética religiosa, sem estar missigenada com a
civilização do pregador. O, chamado, ‘espírito do tempo’ permeia a verdade
religiosa. Daí surge o objetivo primordial deste trabalho que é, verificando a
possibilidade de permeabilidade do dircurso
religioso, o de verificar a possibilidade do neopentecostalismo
refletir o presente ‘espírito do tempo’: a Sociedade Tecnológica e de Consumo.
Assim,
objetivamos desmistificar a fala do pregador e a verdade teológica construída a
partir da premissa de que esta pregação é a expressa Palavra de Deus. Em
momento algum propomos que este homem esteja mentindo em seus discursos, mas
que, tão somente, equivoca-se ao não dar-se conta das
ideologias que compõem sua verdade.
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