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Sob Lobos e sobre ovelhas.

Disse Jesus: “Guardai-vos dos falsos profetas, que vêm a vós disfarçados em ovelhas, mas interiormente são lobos devoradores.” Mateus 7: 15

Lembro-me de um amigo que frequentemente me rememorava que hoje nas igrejas a pessoa menos lida é Jesus. Fala-se de Davi, Daniel, Abraão, Moisés, Joel, Paulo, etc., mas não se lê os evangelhos, ou, de quando em quando frases soltas são citadas, entendidas a partir de outros textos tomados como referência primária: aqueles acima citados. Jesus passou a ser coadjuvante no show da fé. Talvez isto se dê porque a igreja, conforme passamos a ver a partir do século IV até o século XXI, não tenha sido uma invenção de Jesus, portanto, não falar dele seja coerente e preferível. O fato é que prosperidade, batalha espiritual, cura interior, unção apostólica, cobertura espiritual, religião, escatologia, ministérios, igreja com propósitos, moveres de Deus e outras teorias, nunca tenham sido temas nas falas do Emanuel.

É claro que podemos desenvolver teologias que nos façam ler nas palavras deste homem aquilo que de antemão já estão escritas em nossas mentes, mas isto não significa que ele tenha dito isto ou aquilo. Ademais, Jesus nunca desenvolveu teologia, ele possivelmente nem falava grego. Como dissemos muitas vezes, o que ele falou está perdido em meio ao que previamente dizemos a nós mesmos e que exteriorizamos num discurso, visando convencer o outro de nossas crenças, isto é, convencer pessoas a se submeterem às nossas leituras prévias. Neste caso, pedimos emprestadas frases dele que, com fraca ou nenhuma conexão com o discurso mais amplo, corroborem com nossa prévia compreensão do que ainda não foi lido, mas que será explicado. Assim, Jesus se torna coadjuvante, não apenas de outros textos, mas de nossos textos e leituras, de nossas próprias necessidades de universalizar verdades.

Um pequeno exemplo de como Jesus não serve para os discursos que se fazem ouvir nos templos abarrotados, os quais se multiplicam em nosso país, está na ausência da palavra obediência nos quatro evangelhos. Este dado se contrapõe à proliferação desta palavra nas pregações destas igrejas pós-cristãs. Parece-nos certo dizer que Jesus era um homem do Velho Testamento, portanto devia estar atento à Lei de Moisés, pois que era requerido dele a obediência a este texto. Ele mesmo, certa vez, disse que não estava ali para revogar, destruir a lei e os profetas, mas para cumpri-la (Mateus 5: 17 e 18).

Cumprir, observar, obedecer pode vir fazer parte de um mesmo contexto. Novamente, entendemos que podemos dizer que Jesus era um homem do Velho Testamento, pois que o Novo Testamento inicia-se na cruz, no calvário, na morte de Jesus, como nos diz o autor de Hebreus: “Pois onde há testamento, necessário é que intervenha a morte do testador. Porque um testamento não tem torça senão pela morte, visto que nunca tem valor enquanto o testador vive.” (Hebreus 9: 16 e 17). Como homem do Velho Testamento Jesus era cumpridor, observador, obediente ao texto de Moisés e dos profetas, até a sua morte.

Pois bem, Jesus, como homem do Velho Testamento, devia obedecer a Lei, mas nunca disse para que a obedecêssemos! Estranho silêncio de alguém que deveria apontar para um caminho, antes, alguém que disse ser o caminho, a verdade e a vida e cala-se diante de um dever tão fundamental, tão primário da Lei. Como os intérpretes da Lei poderiam falar de dever moral, submissão e ordem se, primeiramente, não fundamentassem a fala na obediência? Como seguir alguém que, embora tenha sido obediente, não exige dos demais a mesma obediência? Como seguir sem obedecer? Aqui, então, poderíamos ouvir uma primeira objeção a esta fala que salienta a sonegação no discurso de Jesus a obediência: Seguimos Jesus quando somos obedientes como ele foi, diria alguém. Sendo o Mestre um homem do Velho Testamento se submeteu à Lei e a obedeceu, portanto, cumpriu com os dízimos, foi circuncidado, guardou o sábado, ofereceu sacrifícios e sacrificava um cordeiro todo ano em prol de si e da nação. Mas, tendo ele morrido na cruz como o Cordeiro de Deus – visão profética de João Batista relatada em João 1: 29 – o sacrifício anual não é mais apresentado a Deus pelos cristãos, os demais sacrifícios também foram abolidos, não se guarda o sábado, nem se circuncisa... Apenas a obediência aos dízimos, por motivos óbvios, é mantida atualmente para a engorda daqueles que deveriam nos lembrar da liberdade para com a Lei.

Em vista da manutenção desta obediência, é coerente a ausência de Jesus nos discursos que se fazem nos templos pós-cristãos. Nestes lugares a Lei ainda é lida em primeiro plano, mesmo que não seja cumprida, desta forma a relação necessária para a ordenação do espaço eclesiástico é ratificada, ou seja, a relação de obediência dos leigos ao ungido, isto é, ao clero. Mormente, obedece-se quando a fé é demonstrada por meio de um ato de sacrifício, em outras palavras, pelos dízimos apresentados no Templo diante dos seus líderes. Os dízimos materializam a fé, a qual devendo ter um caráter de intimidade, pessoalidade, abstração, requer um meio visível, isto é, passível da observação e controle alheio de obediência. Os dízimos representam um ato de fé sacrificial. Também poderíamos salientar uma outra obediência, a qual se expressa por meio de uma moral cristã, fundada nos mandamentos de uma lei sagrada. Desta pensaremos em outra oportunidade.

Os lobos - que outrora travestidos de fariseus, sacerdotes e profetas, agora estão travestidos de pastores - engordam com a obediência sacrificial voluntária das ovelhas que seguem o caminho do matadouro. Sem a obediência sacrificial não há engorda. Em vista disto, Jesus deve ser esquecido ou mal lido. Aliás, é esta distância ao texto, este esquecimento de Jesus e esta leitura midiatizada pelo discurso dominante que fala de obediência, que colabora com o lançamento de toneladas de lixo sobre a possibilidade de crermos num cristianismo de Cristo que se deu a ver como o homem Jesus. Aliás, em meio a isto há uma outra questão que se deve salientar: porque as ovelhas voluntariamente se deixam sacrificar em prol dos lobos?