Coisas Novas e Velhas.
E
disse-lhes: Por isso, todo escriba que se fez discípulo do reino dos céus é
semelhante a um homem, proprietário, que tira do seu tesouro coisas novas e
velhas.
Mateus 13: 52
Entendemos
que há a possibilidade de trilharmos alguns caminhos para a liberdade e com
sorte poderemos cruzar com o pensamento de uma liberdade para, ou de uma liberdade
da e daí termos a liberdade no pensar. Cada caminho, entretanto, nos abrirá
novos sentidos. Em outros termos, poderemos pensar a liberdade como destinação
e ou a liberdade como niilismo. Esmiuçando um pouco mais, haveria a liberdade
referente às coisas que entendemos nos impedem de cumprirmos nossa necessidade e a
liberdade que nos priva de qualquer dever, lei, moral, responsabilidade, etc.
Ainda, haveria a liberdade referente a algo prévio e que visa novas referências
e a liberdade que não tem em vista nenhuma referência posterior. Ademais,
haveria a liberdade revolucionária e a liberdade do nada.
A revolução nos parece, todavia, mais atraente do que o nada. Mas, a
liberdade é - caso pudéssemos encerrá-la em uma essência estável – a
possibilidade de nos despimos das referências primárias, quer para nos
trajarmos com o novo, quer para desejarmos a nudez impossível. Liberdade é,
mantendo a dúvida essencial, a trilha potencial que se abre a nós para que nos desvencilhemos
de arranjos inibidores da realização de um projeto. Em ambos os casos, porém,
não circunscrevemos o é da liberdade, apenas a rastreamos.
Enquanto
homens e mulheres que têm em vista serem livres para projetarmo-nos naquilo que
cremos necessitarmos trazer à existência, ou produzir, ou ser, desvencilhamo-nos de pesos e vínculos, sócios-culturais-econômicos-políticos-religiosos-morais-etc,
que julgamos dês-necessários ou impeditivos deste imperativo da liberdade e
prosseguimos para outros arranjos. Esta seria uma liberdade destinativa.
A própria destinação, aqui, poderia abrir-se como ponto futuro inexorável, ou
abrir-se em seu contraponto, ou seja, um dever que se torna necessário como
presente. A destinação não é excludentemente destino, o qual é tomado como o
tempo futuro pré-existente e pré-conhecido. A destinação, então, ou pode
significar destino, ou tem o sentido de impulsos históricos.
Com o
significado de destino, o fim apresenta-se sempre previamente dado desde o
começo, conhecido em sua imutabilidade, em sua prerrogativa escatológica
messiânica, quer na religião,
quer no marxismo. O destino desenha o futuro como necessidade historiográfica,
tolhendo, em última análise, a própria liberdade presente em prol de um
determinismo absoluto. Há uma história pré-escrita do futuro. A liberdade como
dever já é, presentemente, serva do futuro inexorável, subtraindo a própria
liberdade presente. Em nome da liberdade futura serve-se no presente a um único
projeto histórico. Com vista à liberdade prometida, violenta-se o presente. O
presente libertário torna-se sinônimo de servidão a um único projeto de futuro
tirânico. A exclusividade do destino para aqueles que compreenderam o
significado da história e sua historiografia serve de álibi para a violência
àqueles que deste destino se fazem marginais. A soteriologia
do destino fundamenta a antecipação do inferno para os que já estão excluídos,
pré-destinados à perdição. Toda violência presente é justificada pela paz
futura, ou, pela ausência de violência prometida para o fim.
Contudo,
a destinação como sentido histórico no qual o futuro não está dado – não-é -, impõe a liberdade como imperativo a quem não tendo um
pré-destino liberta-se para a decisão. A angústia decisória de quem vive da
esperança o torna servo da liberdade. O sentido da história é escrito em cada
palavra que se decide escrever, assim, o dever é o dever escrever a história da
liberdade. Mas a história da liberdade não é liberdade histórica, pois que
aquele que tem a decisão não tem o pleno conhecimento dos fatos e acontecimentos
que ocorrem no tempo que o permita decidir em verdade. Não
há um sujeito histórico pleno que tenha apreendido no presente a totalidade do
passado, o qual não mais é tomado como referência, e possa projetar o futuro
com precisão, o qual não-é. O sujeito histórico encontra-se eternamente servo
de um presente ínfimo que se esgota entre o já-não-é
do passado e o ainda-não-é do futuro e neste
infinitésimo de existência é livre para decidir. A decisão presente não
garante, em hipótese alguma, a felicidade e liberdade, futuras. Assim, a
destinação como sentido histórico se dá na angústia sempre presente da
esperança, a qual se dinamiza na guarda no caminhar, no cultivo do que aguarda
a colheita. Há sempre nesta dinâmica da esperança, a angústia do que não-é,
isto é, o passado e o futuro. O imperativo da liberdade histórica nos condena às
angústias de decisões constantes, mas que não garantem a plenitude dos
resultados. A liberdade são decisões angustiadas na esperança de que o que
não-é presentifique-se.
Ademais,
a liberdade como imperativo sempre está, em sua gênese, referenciada ao lugar no qual nos encontrávamos
e nos encontramos. Ela se diferencia no lugar no qual se faz ouvir sua voz, que
ao ouvi-la desvencilhamo-nos, despimo-nos em vista de um novo arranjo ou a um
desarranjo. O lugar em que esta voz se dá a ouvir se apresenta diferentemente
de um outro em que não há esta voz ou que não se a ouve. A voz da liberdade requer ouvidos que a acolha. Assim estranhamo-nos diante das
questões: Que súdito, servo ou escravo é este que
tendo ouvido a voz da liberdade, acolhe-a e a re-produz? Que lugar é este em
que os primeiros sussurros da liberdade se dão aos ouvidos? A liberdade é um
bem universal ou se ouve apenas em ecossistemas próprios? Que voz é esta? Quem
a fala?
Podemos
supor que aqueles que ouvem a voz da liberdade serão os que dela carecem,
entretanto, carecer da liberdade não é suficiente para que ouçamos a sua voz.
Ela fala ao súdito, ao servo e ao escravo, àquelas castas, classes, grupos e indivíduos que não a
conhecem, necessariamente. A liberdade é necessidade a qual se encontra entre a
fome e a música. No entanto, ouvir a sua voz não nos diz nada sobre sua
proveniência. Aparece como um fantasma, um espectro, uma possibilidade desencarnada
que assusta e potencializa como esperança. A liberdade é uma chama que arde sem
queimar, um espírito. A voz da liberdade se faz ouvir nas ruas e nas praças
como timbre de um Jesus que fala contra o poder de Roma, de Atenas e de Jerusalém. Sua voz
é calada pelos que com o texto da lei nas mãos comungam com o poder, são a
representação do poder, trazem a lei grafada. A voz da liberdade é a voz
daquele que tem um tesouro e que o compartilha, pois não há liberdade sem o
outro.
A
negação do outro como liberdade é niilismo. O
indivíduo individualista não ecoa ou re-produz a voz da liberdade, mas pode
tanto estar a falar a voz do poder quanto do nada. Niilismo é nada. A liberdade
como niilismo ao mesmo tempo em que nos permite desvencilhar dos pesos e
amarras, projeta-nos num universo sem fronteiras em que todas e nenhumas
decisões são permitidas. “Se Deus não existe, tudo é permitido”. Liberdade é
nada e é tudo, é ilicitude lícita. Neste ponto do infinito o total determinismo
do destino histórico encontra-se com a absoluta dês-referenciação, como se fossem duas retas paralelas.
Toda violência, todo mal, toda exclusão, toda inquisição são válidas no
presente, quer como meio de colaborar com a história, quer porque não há com
que colaborar. A liberdade, como niilismo, nasce morta: não há por que decidir,
não há como decidir. Mesmo assim, a liberdade como niilismo decide tudo o tempo
todo, sem coerência, sem sentido, sem significado, sem referência, sem
propósito, sem arrependimento, sem culpa, sem responsabilidade. A decisão
niilista pode ser conduzida, concomitantemente, pela vontade de matar alguém
que se deseja que continue viva.
Pensamos,
assim, em três possibilidades da liberdade, ainda que estas não sejam a totalidade das possibilidades, ou
seja: a liberdade em meio ao determinismo historiográfico; a liberdade em meio
a angústia esperançosa das decisões históricas; e a liberdade como niilismo. Pensamos
a liberdade como futuro, como presente e como tempo
algum. Pensamos a liberdade como a produção de
rupturas com valores e modelos do passado, a fim de que decidamos por novos
modelos. Pensamos a liberdade como uma voz do espírito que fala aos que carecem
de liberdade e que não representam o poder com o texto legal nas mãos. Mas
pretendemos poder pensar, com liberdade, a liberdade como a decisão de tirar do nosso
tesouro coisas novas e coisas velhas.
Ora, por
meio desta metáfora nos apercebermos não como homens e
mulheres que ao violentarem o passado apenas têm diante de nós ou o velho que
ainda não ocorreu ou a novidade do nada, o não-é. Homens e
mulheres que nos violentamos, pois não tomando as referências no passado,
também não possuímos um futuro por vir, pois, ou tudo já se deu ou nada se dará.
Antes, compreendermo-nos como indivíduos que são herdeiros de uma linguagem que
se produziu até o presente, da qual não podemos desfazer plenamente, e que não
se dá-nos a nós mesmos confortavelmente, com estabilidade e plenitude. Ao compreendermos a liberdade na linguagem, não somente restingímo-la, como referenciamo-la historicamente. A
herança por nós recebida ao mesmo tempo em que não responde à totalidade de
nossas necessidades presentes, também nos vincula, nos aprisiona, nos retém a
desajustes do passado. Os velhos castelos não, necessariamente, devem ser
demolidos, nem re-formados, mas, talvez, mantidos e atualizados.
As
velhas fortalezas lingüísticas, nossos tesouros, nossos fundamentos, que até
então explicaram nossas crenças, não podem ser tão somente postas abaixo, implodidas, violentadas, desfeitas
como se fossem apagadas por uma “novi-língua” orwelliana, por uma positividade analítica. Há um tesouro
no qual a criatividade, a imaginação, a novidade convive com a herança, a história,
o antigo, o qual podemos chamar de nossa linguagem. A
liberdade, talvez, seria a tensão sempre presente entre os bens velhos os quais
perduram e perdurarão e os novos que modificarão o tesouro, mas que também se
tornarão velhos. A liberdade poderia ser a ação pacificadora dos conflitos
entre a preservação dos sentidos velhos das palavras e da linguagem, segundo o
valor histórico herdado, mas que seja permissível re-descrevê-las,
dês-construí-las, re-formá-las,
segundo uma crítica atualizadora. A liberdade não seria, então, ruptura inexorável
com as referências passadas, mas viria a ser preservação da tensão dentro do
próprio tesouro e o esforço incansável de apaziguamento.
A
liberdade, desta forma viria a ser histórica, mas que não nega nem sonega sua herança,
opondo-se, assim, ao niilismo e ao determinismo violentos. A liberdade é
herança memorial e crítica atualizadora contínua. A liberdade poderia ser
tomada, então, como herança destinativa que tanto
busca o novo quanto o velho, que não se esgota entre o já-não-é
e o ainda-não-é, mas que se estende entre a memória
do já-não-é e a espera do ainda-não-é,
a qual se dá angustiosamente. Como destinação ela é angustiada, esperançosa,
criativa, imaginativa, mas que também é fundada na herança preservada no tesouro,
na linguagem. Herança preservada e rememorada que é severamente exposta à
crítica dos novos valores do presente.
Como
história da liberdade a herança é contraposta ao seu
próprio envelhecimento e esgotamento, assim como ao conluio pelo arraigamento como poder. O discurso de liberdade
enferruja-se como poder e a voz de possibilidade decisória
toma o timbre da ordenação. Assim, a voz primeira da liberdade é
relembrada não em seus tons históricos e arqueológicos, mas no seu espírito
dinâmico e potencial. Dirigir-se ao tesouro da linguagem e sacar dali a própria
voz da liberdade, libertar a liberdade como o que é nova e é velha. Deixar-se
arder pelo espírito que não se encontra na lei, como novidade, mas resgatar o
próprio espírito de liberdade que se inaugurou no passado. O espírito dinâmico
e potencial da liberdade que submete o sábado ao homem.