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Evento:                                   II Simpósio Internacional de Teologia e Ciências da Religião

Local:                                     PUC-Minas

Grupo de Trabalho:                5. Significado e representações do mal na Religião popular.

Título:                                     O mal-estar do Narciso religioso: o mundo como fundo refletido em espelho

Proponente:                            Marcos Henrique de Oliveira Nicolini

Titulação:                               Mestre em Ciências da Religião

Data:                                      04/05/07







O mal-estar do Narciso religioso: o mundo como fundo refletido em espelho.

Pedimos a permissão para podermos dar os primeiros passos de nosso encaminhamento neste deserto que se expande, procurando pelo que era santo, antes, pelo próprio Santo. O santo, o separado que é mídia, talvez, o distante que aproxima, ou ainda, o que não temos acesso, mas remanesce como lugar de retorno da alma, um jardim guardado por Deus. De certo que falar do Éden é depararmo-nos com o mal que ali se encontra, aquele que nos leva aos pequenos desvios da ordem divina e às novas interpretações, separadas, distantes e inacessíveis, do texto que se banalizam. Assim, no deserto, ao lembrarmo-nos do santo já falamos desviando-nos, corrompemo-lo por um princípio do mal presente. Solicitamos introduzir uma tensão anacrônica, a qual se nos impõe a passagem do Jardim para o deserto. Falarmos do mal é procurar o bem; entretanto, falamos do bem midiaticamente, certos que as palavras já não são, mas estão revestidas de novos valores como moedas circulantes.

Agostinho, em suas Confissões, diz-nos procurar a substância do mal, mas confessa: “Procurei o que era a maldade e não encontrei uma substância, mas, sim uma perversão da vontade desviada da substância suprema.”[1] Haveria certa transparência do mal no que ao procurarmos sua substância não a encontramos, assim, dela não poderíamos dizer diretamente o que é, mas dize-la por desvio; a maldade se pode achar como a perversão da vontade desviada. Transparência, perversão, vontade e desvio. Já introduzimos o mal nas palavras do Bispo quando desviamos do texto e introduzimos uma transparência para o mal, não presente ali. Mas, caminhamos desviadamente em meio à transparência maligna em que “[...] todas as coisas que se corrompem são privadas de algum bem”[2] Buscamos o santo pois já estamos privados do bem, no entanto, este se nos escapa pela própria transparência do mal que ali se imiscui. O mal como uma coisa privada de um bem, daí sua transparência.

Retardando um pouco este movimento, devemos pensar com Philotheus e Gilson que “[...] o mal não é senão a privação de um bem [...] O mal se apresenta na mesma medida em que as coisas sofrem alguma privação no seu ser [...] o mal não pode originar-se de Deus [...] O mal, como o pecado, não é uma substância, mas sim um lacuna, um defeito, uma ausência de algo que deveria estar presente. O mal e o pecado, constituem, pois, fundamentalmente, uma desordem”[3], quando comentam Santo Agostinho. Salientamos que o mal, neste comentário, é uma ausência de algo que deveria estar presente: o ser. Assumindo e radicalizando nosso desvio, entendemos poder pensar o mal como o que não se dá à visibilidade do olhar como uma serpente falante, mas é ausência, falta, carência do bem. Nesta perversão, o mal se transmuta em necessidade não suprida, lacuna da não posse de um desejo desviado. Mas a própria necessidade é afetada por esta transparência e deixa o ser para o ter. O mal transparente é a ameaça de uma necessidade, de uma carência não suprida, que é interpretada como desordem, como o que não se con-forma à ordem, ao padrão. Assim, o mal se interpenetra ao feio.

Mas o Santo também nos fala sobre o belo. Ora, Deus em Agostinho é o “Eu Sou o que Sou”, imutável, incorruptível, o Uno plotiniano. O belo é a unidade, a harmonia daquele que retornando a Deus busca a razão superior e não aquelas que se corrompem e perecem. Em contra-partida o feio é a dispersão, a desordem, a desarmonia daquele que busca o mutável, o corruptível, o perecível, como nos diz o Bispo: “concentro-me, livre da dispersão em que me dissipei e me reduzi ao nada, afastando-me da tua unidade para inúmeras bagatelas [...] A minha beleza definhou-se e apodreci a vossos olhos [...]”[4] Mais tarde viria a dizer que “é, pois, indecoroso qualquer parte que não condiz com o seu todo.”[5] Enquanto o mal é transparente, o feio é o que não participa do todo, da unidade: uma substância má, que se ressente da presença do bem. O mal como a não unidade.

Caso permitindo-nos pensar Agostinho pela influência de Plotino, poderíamos dizer que o feio, para este “tudo o que não é dominado por uma Idéia e por um pensamento (logos) é algo feio. Porém, quando a Idéia (ou Forma Ideal) se aproxima de algo e o organiza, combinando as várias partes das quais ele é composto, a Idéia as reduz a um todo convergente e, colocando-as de acordo entre si, cria a unidade [...]”[6]. A feiúra é não se deixar dominar por uma Idéia e pelo logos, mas quando estes se aproximam do feio, dominando-o, organiza-o criando uma unidade. O feio é a desordem, tal qual o belo é a participação na unidade. Todo o que está espalhado, disperso e não dominado é o feio. A não unidade com o todo, aproximando temerariamente Plotino e Agostinho, é indecorosa. O mal se torna a negação da dominação, a insubmissão, a rebeldia, exemplificado pelo feio, pelo indecoroso, pelo disperso.

Rememoramos, então, a prévia permissão solicitada para que o mal transparente se imiscuísse no texto do Santo e, desta forma o que era belo se enfeiasse. Esta tensão anacrônica introduzida por nós desde o início, tática deliberada deste encaminhamento, visa enfatizar um duplo e paradoxal movimento hermenêutico de uma religiosidade na qual Narciso é o crente. Como herdeiro da tradição platônica-plotiniana-agostiniana-reformada este religioso crê na unidade, na imutabilidade, na invariabilidade, na incorruptibilidade do Ser, ou Deus, por extensão, na participação no bem e no belo, ou na exclusão desta substância, ou seja, no mal e no feio. Mas, como religioso contemporâneo permite-se olhar para uma nova revelação do bem e do belo, como um logos divino profanizado para este tempo.

Ao falarem do fundamentalismo - nomenclatura que preferimos substituir por narcisismo religioso - Mendonça e Velasques afirmam: “Sua interpretação da Bíblia situa-se entre o literal e o alegórico [...] a conveniência é que decide sobre a interpretação alegórica ou literal de um texto.”[7] O novo e o velho se aproximam e se distanciam neste processo interpretativo cuja conveniência, ou a transparência do mal, evoca uma decisão, a qual transcende a alegoria ou a literalidade, fundamentando-se nos desvios dos significados das proposições e palavras. Tomando por metáfora a proposição de Ciro Marcondes Filho, é o mesmo movimento do filmes, nos quais o figurino e o cenário tentam reproduzir o passado, enquanto o enredo é desenvolvido à luz do presente, ou, conforme diz, que altera-se ou adultera-se “o passado, fazendo com que sujeitos retrospectivamente e após a morte transformem seus atos e feitos, como também no uso presente destes mesmos dados, que passam a sofrer uma livre e arbitrária utilização para os mais diversos fins.”[8]

O bem já não é a coragem, a justiça, a temperança, a virtude, etc., tal qual se espera de uma dada herança, agora é re-interpretado, desviado, separado, re-formado pelos moldes mercantis, ou seja, somos também herdeiros de bens para o consumo, em outras palavras, “as novas gerações são doravante os herdeiros, herdando não só os bens, mas o direito natural de abundância”[9] O religioso que crê na necessidade de participar do sumo-bem, doravante vê-se diante da abundância exposta para o consumo numa fé na prosperidade. Como salienta Baudrillard,

“um dos problemas fundamentais postos pelo consumo é o seguinte: os seres organizar-se-ão em função da sobrevivência ou em função do sentido, individual ou coletivo, que dão à sua vida? Ora, o valor de ‘ser’, valor estrutural, pode implicar o sacrifício do valor econômico. E semelhante problema não é metafísico.”[10]

Este ser, não metafísico - obviamente que não podemos falar da participação no Uno, ou no Deus de Agostinho -, fala-nos das trocas simbólicas que o indivíduo estabelece na sociedade, ou seja, sua visibilidade, a visibilidade de seu corpo para o consumo. Certamente que sua sobrevivência e o sentido de sua vida se confundem nesta necessária projeção de ser para o consumo de bens.

O ser crente, então, participa desta ordem em prol do consumo de bens, a qual promete a felicidade, uma vez que a “felicidade constitui a referência absoluta da sociedade de consumo, revelando-se como o equivalente autêntico da salvação.”[11] A felicidade é, segundo Baudrillard, um mito que encarna o mito da igualdade, a possibilidade de possuirmos todos os mesmos bens. A felicidade do consumo de bens é este ideal soteriológico de participarmos todos da possibilidade de consumir. A felicidade mais do que o sentimento da posse do bem, é esta isonomia circular prometida cujo centro é o bem. Entretanto, ela é burguesamente individualista, assim, promete a igualdade sem a realizar. Conforme nos fala Baudrillard, “a ‘Revolução do Bem-Estar’ é a herdeira, a testamentária da Revolução Burguesa ou simplesmente de toda a revolução que erige em princípio a igualdade dos homens sem a poder (ou sem a conseguir) realizar a fundo.”[12] Uma herança envelhecida é re-formada pelo batismo burguês. Enquanto há uma promessa de igualdade para o consumo, há “o imperativo fundamental de manutenção de uma ordem de privilégio e domínio”[13]. Entendemos que os bens prometidos, soteriologicamente, para todos, pré-destinam-se para uns poucos eleitos que participam do uno, do sumo-bem.

Mais uma vez poderíamos salientar tal participação nos bens, como participação num corpo social destinado à felicidade, ou seja,

“o consumo é instituição de classe: não só na desigualdade perante os objetos, no sentido econômico [...] mas, de modo ainda mais profundo, há discriminação radical no sentido de que só alguns ascendem à lógica autônoma e racional dos elementos do ambiente (uso funcional, organização estética, realização cultural) [...]”[14]

A participação nos bens, pelo consumo, projeta o indivíduo como parte de um corpo aparte entre os demais. O homem feliz é aquele que exibe em seu corpo a presença dos bens de consumo que o distingue dos demais corpos. Harmonizando-se, assim pela presença dos bens, este indivíduo participa do belo corpo tanto quanto aqueles que felizmente se deixaram dominar pelas formas idéias. Participando deste belo corpo, ao ser dominado pela da presença dos bens, este indivíduo se deixa dominar pela ordem de consumo, por uma esperança soteriológica da participação do consumo de bens. O feio é, então, aquele que não se deixando dominar por estas idéias, não ascende a esta felicidade. O feio é o que não se harmoniza, não participa da unidade do corpo, que não acessa os bens. O feio é uma anormatização, um ponto não modal, um desvio não-padrão da média.

Em outras palavras, “é que Narciso acha feio tudo o que não é espelho”[15], como nos diz Caetano Veloso. Ora, sabemos que Narciso é aquele que é apaixonado por seu próprio reflexo. Ademais, ele é aquele que amando sua própria imagem é capaz de se consumir até a morte. Sobretudo, Narciso é o que apaixonado por si e amando a própria imagem não vê o outro. Seu corpo, sua harmonia, sua unidade, seu bem e sua beleza é todo o universo de si mesmo, o qual no olhar pelo espelho a presença de si, não percebe a floresta que o circunvizinha, tanto quanto não houve a voz do outro que ecoa. Para Narciso religioso, toda não participação neste bem único e inviolável que se dá à visão no primeiro plano do espelho, é o mal. Este que é dispersão indecorosa que nega a consumir, a unir-se por dominação deste corpo, em outras palavras, toda dispersão é não participação deste corpo místico. Assim, Narciso é sedutor e violento, dominador que exclui, unidade que vê a alteridade como mal indecoroso, pois que é ausente de si, ausente do belo.

Como nos fala Baudrillard sobre o princípio do Mal e daquele que nós temos designado de Narciso[16] religioso, “só ele detém a palavra, porque só ele assume contra todos a posição maniqueísta do princípio do Mal [...] o poder só existe por essa força simbólica de designar o Outro, o Inimigo, o desafio, a ameaça, o Mal.”[17] O Mal para este Narciso é todo impedimento, ou substancial ou abstrato que se substancializa na carência de um bem necessário. Ademais, este Narciso é o que tem como exercício hermenêutico a desobstrução apontada por uma linguagem, ou por um texto que não confere o acesso aos bens de que ele necessita. O Mal, o Outro o desafia como unidade e centro em si mesmo. O Mal o ameaça como possibilidade alternativa que reclama a visibilidade, não se deixando dominar por seu logos. O Mal não lhe é igual.

Nossa proposição, então, foi neste encaminhamento era permitirmo-nos pensar o mal em sua transparência, como transmutações hermenêuticas que conferem novos significados aos sentidos das palavras, culminando numa violenta tradução do velho no novo que não se dá mais ao reconhecimento. Entretanto, este antigo ainda é mantido, convenientemente, naquelas partes que fundamentam a própria violência, isto é, no discurso sobre a dominação, a exclusão e a eliminação de toda alteridade. Ora, assim o mal que se está em pé no lugar Santo radicaliza seu poder, ainda que virtualmente. Este Narciso, o mal transparente, realizando seu bem-estar, despreza qualquer outra ordem e presença que não seja aquela que ele vê no primeiro plano do espelho.



[1] Santo Agostinho. Confissões: in Os Pensadores. São Paulo: Editora Nova Cultural, 2004, pg. 190.

[2] Idem, pg. 187.

[3] Boehner, Philotheus e Gilson, Etienne. História da Filosofia Cristã. 9a ed. Petrópolis: Editora Vozes, 2004, pg. 147.

[4] Santo Agostinho. Confissões: in Os Pensadores. São Paulo: Editora Nova Cultural, 2004, pg. 63.

[5] Idem, pg. 91.

[6] Plotino. Tratado das Enéadas. São Paulo: Polar Editorial, 2002, pg. 22.

[7] Mendonça, Antônio Gouvêa e Velasques, Prócoro Filho. Introdução ao Protestantismo no Brasil. 2ª ed. São Paulo, Edições Loyola, 2002, pg. 147.

[8] Marcondes, Ciro, Filho. Superciber: Civilização Místico-Tecnológica do Século 21. São Paulo. NTC ECA/USP: Ática, 1997.

[9] Baudrillar, Jean. Sociedade de Consumo, A. Lisboa: Edições 70, 2003, pg. 23.

[10] Idem, pg. 39.

[11] Idem, pg. 47.

[12] Idem, pg. 48.

[13] Idem, pg. 52.

[14] Idem, pg. 58.

[15] Veloso, Caetano. Sampa, In Muito – Dentro de uma estrela azulada. Polygram, 1978.

[16] Baudrillard neste texto não fala em Narciso, mas dos aiatolás. Estes, como signos do religioso, nos são propícios a este desvio.

[17] Baudrillard, Jean. Transparência do Mal, A. 7ª ed. Campinas: Ed. Papirus, 1990, pg. 90.