Instituição: Universidade
Metodista de São Paulo - UMESP.
Simpósio: Música
cristã contemporânea brasileira, mídia e mercado.
Autor: Marcos
Henrique de Oliveira Nicolini.
Título: Drama cúltico e sua trilha sonora
Palavras-chave:
sociedade do espetáculo, simulacro religioso, drama e música cúltica.
Resumo:
Seria possível
pensarmos o culto religioso como um espetáculo? Ademais, seria plausível
entendermos este espetáculo como um drama moderno no qual o religioso se vê
seduzido e seduz? Há algum modo de percebermos esta sedução sedutora como um
eco narcisista, no qual o religioso fala de si para si, e que esta fala sendo
discursiva e musicada, a fim de envolver o religioso em sua própria órbita? Não
seria o discurso e a música o enredo inexorável de uma religião espetacular? A
partir da idéia desenvolvida por Guy Debord sobre a “Sociedade do Espetáculo” e de sedução
apresentada por Jean Baudrillard, desejamos percorrer a idéia de drama moderno
– tomando o texto de Peter Zsondi, “Teoria do Drama
Moderno” -numa leitura sobre o culto religioso e permitir um ensaio sobre a
fala –discursiva e musical – como enredo cúltico no
drama religioso.
DRAMA CÚLTICO E SUA TRILHA SONORA
Sociedade que se
baseia na indústria moderna não é fortuita ou superficialmente espetacular, ela
é fundamentalmente espetaculosista.
No espetáculo, imagem da economia reinante, o fim não é nada, o desenrolar é
tudo. O espetáculo não deseja chegar a nada que não seja ele mesmo. (Debord, 1997, p. 17).
Caso
me seja permitido pensar numa religiosidade submetida às técnicas sagradas e
estas circunscritas na subjetividade do homem-crente, então, concedo-me o
entendimento sobre este pensamento até as matérias-primas: o trabalho
insistente, obstinado, meticuloso sobre o corpo e, assim, perceber o que se dá
sobre o corpo do eu-crente, o qual seduz e é
seduzido: a estratégia é a da sedução e não a da força. As técnicas como
paradigma de uma economia pragmática que visa a maximização da produtividade
nas relações de trocas: trocas que são impossíveis.
O
meu corpo, que no espetáculo absoluto deve ser pensado como o de Narciso, seduz
e é seduzido em meio e por meio do espetáculo, pela minha própria imagem em
tempo de reprodutividade técnica, como diria Benjamin.
Reprodução que se põe como performance
e performance que é espetáculo.
A
sedução nunca é passiva, nem tão pouco ativa, ou seja, “assim como não há ativo
nem passivo na sedução, não há sujeito ou objeto, nem interior ou exterior; ela
atua nas duas vertentes, e ninguém limita ou separa. Ninguém, se não for
seduzido, seduzirá os outros.” (Baudrillard, 1991b, p. 93) A sedução desfaz a
ordem metafísica tradicional, sabendo, ademais, que o acabamento desta se deu
na técnica, segundo Heidegger. A sedução não está na ordem do bem e do mal, do
verdadeiro e do mentiroso, mas do engano e este é o que não pode ser desvelado,
pois que não há verdade referencial. Está além da técnica, além da verdade. A
sedução é a própria orgia da técnica; a técnica além da técnica: cool,
software, hipertécnica.
É
o corpo, a physis
absoluta, como matéria-prima que será seduzido pelo trabalho da religiosidade
narcisista; é o corpo que será conformado pelo ritual mítico, para que realize
sua eficácia, sua atualização, sua possibilidade de consumo. Esta operação se
dará pela sedução do aparato da crença, a fim de que ao homem não se dê à
possibilidade do descumprimento da regra. Pensando a partir do ritual mítico,
conduzo-me ao pensamento não somente no espetáculo religioso, como também no
drama e sua trilha sonora, aquele que é o aparato que seduz enquanto oculta a
técnica que está imiscuída à religiosidade. Ali, a fala mítica é a locução
religiosa específica, este ruído lingüístico que se auto-proclama fundado na
verdade e sua música eletrizante. A verdade, que ao buscar pelos símbolos
pré-modernos, batizando-os no rio do desencantamento da modernidade, os faz
emergir numa sociedade tecnológica, esvaziados de significado: a mítica
estética da pós-modernidade, ou seja, o simulacro espetacular.
É
certo que a técnica, na religião, não se apresentará como realidade que se
expõe, pois a ordem das coisas sagradas se opõe à ordem das coisas profanas.
Por conta desta oposição, que a técnica profana por excelência deverá
ocultar-se por meio de uma fala mítica e por um som que preenche as lacunas
passíveis de pensamento. Em muitas das vezes se coloca como verdade fundamental,
quando deseja fazer valer sua estratégia de imposição sobre o crente: um estar
sobre, mas que de fato é um estar subjacente. Entretanto, oculta, seduz, como
no jogo do strip-tease.
O
ocultar da técnica pelo mito é o jogo sedutor que se assemelha, por aproximação
metafórica, ao ‘strip-tease’. Neste, seu segredo “é a celebração auto-erótica
feita por uma mulher com o seu próprio corpo, que se torna desejável nessa
mesma medida [...] Masturbação sublime cuja lentidão é [...] fundamental [...]
Seus gestos tecem ao redor dela o espectro do parceiro sexual.” (Baudrillard,
1996b, p. 143 e 144) Lentidão de gestos, envolvimento sonoro, mas que
velozmente produz sedução. A mulher que se apresenta num show de strip-tease,
pela presença simulada de um homem perfeito, reproduz a sedução erótica com um
parceiro fantasma e por isso seduz aqueles que a observam.
Neste
‘strip-tease’ não é a vagina que se busca, não é o nu absoluto, não é o olhar
total, mas o desnudar vestido. É o seduzir narcisista da nudez anunciada e não
revelada, onde “cada peça de roupa que cai não aproxima do nu, da ‘verdade’ nua
do sexo (ainda que todo o espetáculo seja alimentado igualmente por essa pulsão
voyerista [...]) [...], mas desvela uma outra e o
mesmo jogo se aprofunda [...]” (Baudrillard, 1996b, p. 145). A mulher que é
seduzida pela imagem narcisista
criada em sua dança musicada, consigo mesma, seduz, neste espetáculo, sem,
entretanto, consumar a nudez absoluta.
Enquanto dança, ela o faz ao som envolvente da trilha sonora, como em “Flash
Dance”, como Demi Moore, ou
apenas cenas eróticas de filmes policiais. A música está na essência do strip. A música é o silicone que
impermeabiliza o drama cúltico.
Jogo
de sedução em que creditamos a metáfora do strip-tease. Jogo de sedução
narcisista que quer ocultar a técnica por meio de um véu místico, a fim de
impedir que seja vista a ausência do sagrado, caso viesse a consumar o
desnudamento do corpo religioso. Mas, enquanto o espetáculo se mantém, dá-se a
sedução. A religião da técnica, ou a técnica religiosa, ou a tecno-religião é sedutora como a striper que desnuda sem
apresentar o nu, postergando e procrastinando o prazer, mas promovendo o
consumo pelo desejo.
Tal
ação da fala mítica, cujo cunho artificial é estético, será processada a partir
de um duplo trabalho, ou seja, manter a religião no âmbito do mistério e do
encantamento simulado e ocultar uma técnica que já se impôs na fala. O mito –
encenado e em cantado - é a própria fala que oculta a técnica – a nudez que
nunca se realiza -, mas que é abarcada por esta última e ambos se põem no campo
do estético por meio do drama sedutor.
Aqui
está o jogo da sedução da técnica, pois a fala mítica se apresenta no palco das
reproduções simulacro, ocultando a técnica que, estando subjacente se impõe à
fala sedutora. Técnica, estandardização, estatística, tribalização
narcisista, mass media, informação, mito, drama,
engano, imagem, sons, música, estética, sedução, corpos, simulacro, niilismo,
toda esta operação transdisciplinar que opera no
homem religioso.
O
jogo que se pode supor é este: apropriar-se de uma fala mítica – discursiva e
sonorizada - que é construída por meio de uma pseudo-palavra e a partir daí
estabelecer um discurso sobre o sagrado, mas, que, todavia é técnica por
excelência: antropocêntrica. A fala e a música, por seu teor narcisista, fala
do homem para o homem; antes, fala da mulher para a mulher.
Em
minha religiosidade, devo fazê-la por meio de uma fala mítica – exposta por
multimídias -, evidenciada como sagrada, a qual ocultará a técnica que por
premissa é profana, sem negá-la, antes, reforçando-a. Este engenho dinâmico que
ao girar da técnica realiza um movimento mítico concomitante, cuja premissa é
ocultá-la, exige uma terceira engrenagem: o drama. A presença do drama se faz
necessária pela requisição de uma verdade técnica e, além do mais, pela
sedução. Engenhoca que gira para apenas girar.
Lembro
que a técnica é o descobrimento e desencobrimento da
verdade; a técnica se dá onde se dá a alethéia, verdade. É necessário que esta verdade, a qual
oculta não existe venha a se tornar, igualmente, instrumento da técnica. A
verdade, que agora é imagética, deve ser mantida como dissuasão, dissimulação:
pseudo-falo sedutor que envolve a striper; prestar-se-á à técnica como disponibilidade
estratégica de encobrimento da própria técnica. Fala-se o pseudo, a
fantasmagoria, a ficção como se este fosse a verdade, a fim de ocultar o real,
por meio do engano, do pseudo: verossimilidade.
O mito, então, é o véu que encobre a técnica, mas ele é técnica de ocultamento, portanto tanto o mito como a técnica, são o
mesmo.
Quando
me permito pensar a ‘alethéia’,
verdade, como correspondência,
então, o mito numa hiper-religiosidade simulacro, que é a fala moral sobre o
que é e o que não é, depende de uma encenação imagética e sua música, a qual se
dá no drama: performance do que é e do que não é. A correspondência está entre
a narrativa e a imagem espetacular.
O
drama cúltico é o espetáculo cênico, ou a reprodução
do cotidiano dramático do crente. O desejo por bem-estar está na sedução do
consumo, o qual será exposto no drama e cantado em suas músicas. Desta forma a
religião se aproxima da vida espetacular, reproduzindo imagens do cotidiano, ou
seja, imitação estética, a qual promoverá a re-ligação entre o mito verossímil
e a técnica real oculta. Assim, a religião cantará a favor a auto-afirmação do
homem, da mulher. Este jogo entre mito e técnica é engendrado pelo drama que
seduz o homem sedutor.
Para
falar sobre o drama e mais propriamente sobre o drama moderno, passo a pensar a
partir das palavras de Peter Szondi, o qual diz que
este representa a “audácia espiritual do homem que voltava para si depois da
ruína da visão de mundo medieval [...]” (Szondi,
2001, p. 29).
A partir da racionalização da vida promovida
pela modernidade a cosmovisão teocêntrica
conhece sua crise. Ou seja, “a ‘crise de credibilidade’ na religião é uma das
formas mais evidentes do efeito da secularização para o homem comum.” (Berger,
1985, p. 139). O homem moderno,
o homem técnico, o homem comum, aquele que mantém a luz acesa do iluminismo
ainda que oculta, passa a duvidar da visão de mundo construída sob as metanarrativas pré-modernas: teocêntricas.
Esta modernidade embora tenha rompido com as metanarrativas
pré-modernas, as quais eram suportadas por uma crença teocêntrica,
construiu seu próprio modelo do desenvolvimento da história edificado sobre
outras metanarrativas.
Embora as crenças pré-modernas, ou teocêntricas tenham sido abandonadas, o modelo pré-moderno,
de uma teleologia histórica suportada por grandes narrativas, foi mantido,
tanto por Hegel, Marx e outros pensadores modernos.
A cosmovisão moderna tanto lançava o homem como
agente único da história, senhor desta, quanto fazia crer nas idéias de
progresso e desenvolvimento. Não apenas suportada pela técnica, mas, também
pela crença meta-hitáorica. Este homem comum da
modernidade é pensado aqui como o homem técnico, o qual tem sua visão de mundo
industrialmente racionalizada.
Poderia
pensar esta passagem do pré-moderno para o moderno como uma fruição desencantadora. Então, pensaria nela como um deslizamento
que escamoteia Deus, ou, com mais precisão, transcende Deus: a razão humana
ultrapassando Deus. Nesta perspectiva é que entendo as palavras de Szondi sobre a “ruína da visão de mundo medieval”. Esta
visão de mundo moderno como o império totalitário da visão racionalizada da
vida. A técnica, então, coloca-se como uma cosmovisão
desencantada e de um Deus morto. Este totalitarismo de técnica parece operar
sobre a religião e sobre as crenças em Deus.
Este
homem moderno ao excluir Deus da arquitetura, construção e manutenção de mundo,
coloca-se no lugar dele, ou seja, “o homem moderno, que surge nessa época,
destrona Deus, coloca-se em seu lugar. Se Deus havia sido criador do Universo,
agora é o homem que deverá criar universos. O centro de tudo, agora, não é mais
Deus, mas o homem.” (Marcondes, 2004, p. 24) A modernidade é, assim, a história
do homem que promove a remoção da cosmovisão
teológica como fundamento central das crenças humanas, desencantando o mundo. A
modernidade é, também, a história do homem que realiza a morte de Deus. A
modernidade é a era do absolutismo do homem racional.
Mas,
a passagem da modernidade para, o que se convencionou chamar de
pós-modernidade, dá-se pelo esgotamento das metanarrativas.
O homem pós-moderno deixa de crer na história como um encaminhamento inexorável
que conduz ao progresso, desenvolvimento, liberdade, felicidade, etc. e dos
grandes discursos que propunham descrever e explicar este encaminhamento
histórico. Esta passagem, este trânsito, ocorre em meio a e por causa do
ceticismo do homem sobre o sujeito e a razão.
Estas
metanarrativas, grandes discursos construídos pelo
homem, suportados pelo conceito de verdade, ruem diante da impossibilidade quer
seja da verdade, quer seja do conhecimento da verdade. O homem, entendido a
partir do discurso baudrillardiano, mantém-se como
agente, mas sem telos, propósito, objetivo, um homem a-histórico, onde “as coisas continuam a funcionar ao passo
que a idéia delas já desapareceu há muito.” (Baudrillard, 1990, p. 12) A
pós-modernidade não se coloca diante da modernidade tal qual esta se apresentou
à pré-modernidade, ou seja, por negação, mas por hiper-inflação dos signos. A
pós-modernidade é a modernidade mais moderna que os modernos, constituindo-se
uma hiper-modernidade.
A
hiper-modernidade é a práxis moderna
sem a telos
moderna: orgia da modernidade. Assim, por ora, posso destacar três fatores
relevantes para o presente estudo, os quais estão correlacionados à
hiper-modernidade: o consumismo, o narcisismo e a ausência de telos. Não que
estes sejam os elementos que expliquem a totalidade da hiper-modernidade, mas,
apenas permitem, agora, pensar mais detidamente no homem crente pós-moderno.
Então,
não penso numa passagem da pré-modernidade para a modernidade, mas numa
alteração por descontinuidade da perspectiva de mundo. Penso sobre o que Szondi se refere ao “[...] depois da [...]”, ou seja, desta
passagem do pré-moderno para o moderno e ‘depois’, da passagem do moderno para
o hiper-moderno. Assim, primeiro vem a ruína da visão medieval de mundo e
depois... a modernidade. Mas, para além da primeira passagem, não penso apenas
de outra passagem por descontinuidade, que se dá da modernidade para a
pós-modernidade, mas por inflação, por extravagância: hiper-inflação.
A
modernidade fala da história da audácia espiritual do homem que se torna
construtor de sua própria história. A pós-modernidade fala da audácia do homem a-histórico. Uma história que não mais traduz uma esperança
dialética e totalizadora, mas, uma estar fragmentário e fragmentado,
descontínuo e
hiper-histórico.
É
nesta escritura por descontinuidade, é desta forma não progressista que
pretendo pensar o “[...] depois de [...]” que fala Szondi.
Por se tratar de uma descontinuidade entre a visão de passado e de presente,
que se pode dizer também sobre a “audácia do homem”: por se lançar às grandes
explorações sem um mapa e roteiro prévios. Audácia que é este impulso que
potencializa a vontade, que dinamiza a ação humana: a práxis do homem. Audácia
que fala sobre ousadia, atrevimento, coragem, intrepidez. Ousadia corajosa em
dizer que por traz dos acontecimentos não há deuses. Ousadia e audácia cantada
e encantada.
Mas,
mantendo-me por hora nesta passagem da modernidade para a hiper-modernidade,
penso que este homem moderno religioso que se coloca como o senhor e agente da
história, a qual é construída pela audácia e determinação do espírito humano.
Por isso Szondi fala da “audácia espiritual do homem
que voltava para si [...]”. Voltar para si é a única possibilidade do ser que
se encontra só, pois “se eu quiser falar com Deus tenho que ficar só.” Dizer
‘voltar para si’ do drama é falar de um fechamento, um fechar-se em si mesmo.
Voltar para si é este impulso narcisista de ser seduzido pela imagem de si
mesmo refletido, mesmo que num outro, o qual produzirá a reflexão de mim mesmo.
Voltar para si espiritualmente, pela chama auto-envolvente do homem autônomo.
Voltar
para si é ausência do Outro e do outro, como realidade exógena: é o absolutismo
do mesmo: solipsismo. É o homem que se encontra numa
sala de espelhos: por todos os lados que olha vê uma multidão de si mesmo. É a
perda absoluta da alteridade, do diálogo, da palavra, mas não por solidão
física, mas pelo absolutismo da auto-imagem. Mas, num estágio de
hiper-espelhamento, do simulacro de terceira ordem o Narciso quebra o espelho
na reprodução metástica ou clonada.
O espírito quebrantado: esquizofrenia.
Para
o homem hiper-moderno o voltar para si não é necessariamente o “conheça-te a ti
mesmo”, mas é o “clona-te a ti mesmo”,
onde “a clonagem é, pois, o último estádio da história da modelação do corpo,
aquele em que, reduzido a sua formula abstrata e genética, o indivíduo é fadado
à desmultiplicação serial.” (Baudrillard, 1990, p.
126)
Clonagem que afeta os discursos e as composições artísticas: afetação que
produz eco, eco espetacular, cênico, musical.
É
a metáfora possível da linha de montagem, aquela em que tanto faz desaparecer o
tempo, quanto faz desaparecer o ‘eidos’, a idéia, o projeto original, assim
como o telos, o objetivo, finalidade. É a produção
fechada para si mesma, donde os aspectos externos, mercadológicos são
contingências. O próximo da linha de montagem é a reprodução do anterior e será
reproduzido no subseqüente que ainda não está. Também a maquinação da linha de
montagem faz desaparecer a poesia, a criação, a criatividade, o paradoxal, que
estava no artesanato, na arte. Ademais, a produção intermitente é
estandardizada: a música ritma a re-produção.
Na
racionalidade industrial o acontecimento tem prazo de validade, de eficácia.
Produz-se algo até que um novo comando determina a produção do novo. O velho
tornou-se obsoleto. O novo não é continuidade do velho, nem necessariamente
evolução, alteração. O novo na linha de montagem é apenas o novo que deve ser
feito indefinidamente, até que a ordem de comando diga sobre sua obsolescência
e que se deve produzir um ainda mais novo. A novidade é o retorno ao passado
estando o velho adiante. O velho não é o que foi, mas o que virá. A linha de
montagem é dramática em sua sistematização fechada, na ausência de tempo e no
diálogo endógeno entre a máquina, a matéria-prima e o trabalhador. O compasso
de seu movimento está na obsolescência da moda.
Tudo
ocorre para a máxima eficiência da produção. Cabe retornar, dizendo que no
drama, assim como no mito, não se pode falar sobre tempo, sempre estaremos no
presente, ou seja,
Sendo o drama
primário, sua época é sempre o presente [...] O decurso temporal do drama é uma
seqüência de presentes absolutos [...] o próprio drama [...] funda seu próprio
tempo. Por esse motivo, cada momento deve conter em si o germe do futuro, deve ser
‘ prenhe de futuro’. (Szondi, 2001, p. 32)
No
drama tão pouco há referências teleológicas ou externas. Tudo se passa como
numa reprodução das relações intersubjetivas no qual o diálogo é absoluto, isto
é, a “comunicação intersubjetiva no drama espelha o fato de que este consiste
apenas na reprodução de tais relações, de que ele não conhece senão o que
brilha nessa esfera.” (Szondi, 2001, p.30) Qual
diálogo? Aquele monólogo que Narciso tem consigo ao mirar-se pelo reflexo
cristalino da lagoa! De quem é este belo rosto que me fita? De Narciso.
O
monólogo – pela exposição falada ou cantada - se dá num drama vivido no tempo
eternamente presente, como se os personagens estivessem contidos num laboratório
hermético, no qual o próprio cientista, o autor, não está presente, pois, “o
dramaturgo está ausente no drama. Ele não fala; ele institui a conversação. O
drama não é escrito, mas posto. As palavras pronunciadas no drama são todas
elas de-cisões.”(Szondi,
2001, p. 30) O cientista e Deus estão no laboratório não como os olhos que
vêem, mas como atores que participam. No laboratório dramático, o objeto é o
sujeito, o sujeito é objeto. O drama é um sistema que se pretende hermético, um
sistema pretensamente fechado que não possui aberturas para o exterior, ele é formal
e organizado, circular, no qual se abolem a exterioridade e a temporalidade, e,
ainda mais, a alteridade.
Ademais,
o drama é o palco das decisões. O homem dramático é aquele que se requer
decisões. Esta requisição decisória está posta pelas alternativas que se
colocam diante dele. O palco dramático é, metaforicamente, o vale das decisões
descrito pelo profeta Joel,
no qual multidões, as massas se aglomeram e são chamadas à escolha, portanto,
“o ‘lugar’ onde se alcançava sua realização dramática era o ato de decisão.
Decidindo-se pelo mundo da comunidade, seu interior se manifestava e tornava-se
presença dramática.” (Szondi, 2001, p. 29) Tais
decisões são aquelas que implicam em pertencimento. Essas decisões de fé,
requeridas no drama cúltico, são enfatizadas em sua
musicalidade.
Aqui
está a chave comutadora que conduz a decisão. Em meio ao espetáculo sedutor,
parece claro que não se de decisões propriamente, mas pseudo-decisões, ou
melhor, hiper-decisões, simulacros de decisões. Ocasiões onde o crente é
seduzido a reproduzir a decisão que já foi tomada, seduzindo, assim, aquele que
a quer seduzir: circulariade.
Esta circularidade do crente sedutor e do
especialista sedutor possibilita uma simulação da alteridade: o crente vê no
outro a si mesmo, e por esta imagem é seduzido; de igual forma o especialista
vê no outro a si, e por esta imagem é seduzido. Este ver no outro subtrai de
cada um a decisão. A decisão está na sedução dramática.
A
decisão da fé, da cura, da prosperidade, etc., nunca está em si, mas no outro.
As falas e as músicas simulam a tensão e delegam a finalização. Sempre o
especialista poderá dizer que o crente não foi agraciado, pois não creu. Sempre
o crente poderá dizer que o especialista não é ungido. Sempre o especialista
poderá dizer, ‘você creu’ e sempre o crente poderá dizer que o especialista é
ungido. O campo dos efeitos e das responsabilidades é sublimado. Esta
sublimação é própria do jogo da decisão, do desejo e da sedução.
Também
neste palco dramático das decisões a palavra é afetada, pois a única voz que se
dá a ouvir pelo homem dramático é o eco de sua fala, ou seja, ele é um
construtor de suas próprias verdades as quais ele já dogmatizou. Clonagem e
eco. Quer na fala, quer na música, ecoam a primeira pessoa do singular neste laboratório
dramático narcisista. Este Narciso moderno que mesmo massificado está só, é monológico
Este Narciso moderno, hiper-individualista e sedutor coloca-se no drama para
estabelecer sua rede de ligações e conexões intersubjetivas, atraído pela própria
sedução de sua imagem vista e reproduzida no Corpo de Narciso.
Ligações
e conexões intersubjetivas dele consigo mesmo; seus clones que reproduzem a sua
fala. Sua fala é clonada, ecoada no outro, para que
este outro decida por ele naquilo que ele mesmo deseja. A clonagem é
apresentada nas vozes que se proclamam mais que vencedoras. A sedução é o jogo
circular do desejo.
Mas
o drama moderno, além da audácia espiritual, representou a “[...] audácia de
construir, partindo unicamente da reprodução das relações intersubjetivas, a
realidade da obra na qual quis se determinar e espelhar.” (Szondi,
2001, p. 29) Reprodução por metástase e clonagem, é a obra dramática moderna e
hiper-moderna. Entretanto, o drama fala do drama, ou seja, “o drama é absoluto.
Para ser relação pura, isto é, dramática, ele deve ser desligado de tudo que
lhe é externo. Ele não conhece nada além de si.” (Szondi,
2001, p. 30).
Aqui
e novamente lembraremos do laboratório como o monastério dramático da
religiosidade hiper-moderna. Todo o ato dramático é um voltar a si, é um falar
de si, é uma reprodução de um mundo que se fecha sobre si mesmo. A música é
afetada pela requisição narcisista do drama religioso. Neste drama cúltico os atores-cantores sempre estarão falando de si
mesmo, para si mesmos, pois o Narciso apenas é seduzido por sua imagem
refletida por clonagem. Todos os espectadores são atores e todos os atores são
cantores. O drama é absoluto num tempo absoluto. O absolutismo do drama
circunscreve a verdade do espetáculo ao seu próprio círculo de realidade. O
valor estético de uma comunidade dramática se faz absoluto dentro da própria
comunidade, muito mais quando esta comunidade acredita ser a portadora da
‘verdade absoluta revelada por Deus’: drama fundamental.
Assim,
esta comunidade dramática se encontra no espaço sagrado do teatro, ou, como nos
fala Peter Szondi, “a forma de palco criado para o
drama [...] ‘palco mágico’ [...], é o único adequado ao caráter absoluto
próprio ao drama e dá testemunho dela em cada um de seus traços.” (Szondi, 2001, p. 31).
Este
sacro-ecossistema, este ambiente estéril, tanto reproduz o Éden quanto traz
esperança ao homem que acredita no juízo final: ali está o não-tempo, o passado
edênico, o futuro apocalíptico e o presente
dramático. O laboratório dramático, o axis mundi, é a profecia empírica, a imagem do juízo divino,
o prenúncio da catástrofe que atingirá o outro que não é crente. Ele é a Arca
de Noé, na qual apenas entram o próprio Noé, isto é, aquele que ouviu a voz de Deus e sete pessoas:
a totalidade da sua família, a totalidade daqueles que são portadores de seu
ADN.
O
que fora realidade para Noé é agora hiper-realidade
espetacular de uma Arca Cibernética, virtual, templária,
que promete e realiza, por sedução, o projeto soteriológico.
O inferno que tal teologia apresenta, neste drama, não é aquele em que as almas
impenitentes alcançarão após a morte, mas o inferno é o mundo ímpio da sujidade
não-laboratorial, o domínio do ímpio, lugar que deve ser exorcizado e mantido
fora da redoma: a Casa de Deus.
O
laboratório é, de certa maneira, o que Mircea Eliade chama de ‘umbigo do mundo’, ou “Axis Mundi” (Eliade,
2000, p. 26) Mormente a redoma cristã e popular, os templos, lugar daqueles
que, como o próprio Eliade diz, recusam-se à
história, recusam-se às incertezas das contingências, ou seja,
Os retornos
periódicos dos Hebreus aos Ba’als e aos Ashtartés explicam-se em certa medida pela sua recusa em
valorizar a história, isto é, de a considerar como uma teofania
[...] tal como a maior parte dos cristãos – especialmente as camadas populares
– recusa a viver da vida autêntica do cristianismo (Eliade,
2000, p.122 e 123)
Este
templo ecológico é o lugar do não-tempo, um Éden-oásis em meio ao profano, ao
mundo ímpio, ao deserto que o contorna. É para ali que o crente se dirige para
‘respirar ar puro’, para ‘comer comida fresca’. Este templo é o lugar de ordem,
de segurança, de certezas e de verdade. Oposição maniqueísta ao mundo em
transformação, ao caótico, à ausência de verdades: os demônios, o feio. O palco
mágico dramático transforma, por meio de sedução, o espaço de portas abertas
num sistema fechado, hermético, à parte do lugar que o rodeia, para não dizer,
contém.
No
templo, os mitos são recriados, re-encantados, re-cantados, isto é, seus
relatos são expostos sob a égide da sedução, esperando, de igual forma, o juízo
final.
O templo se torna o lugar santo, lugar sagrado, ponto referencial para o homem
religioso que deseja certezas, assim sendo, o “espaço sagrado permite que se
obtenha um ‘ponto fixo’, possibilitando, portanto, a orientação na
homogeneidade caótica, a ‘fundação do mundo’, o viver real.” (Eliade, 1992, p.27)
O
drama moderno é uma construção humana que apenas fala do homem e sua
comunicação intersubjetiva, por isso, o “homem entrava no drama, por assim
dizer, apenas como membro de uma comunidade.” (Szondi,
2001, p. 29). Sabemos que a comunidade, a qual foi batizada na modernidade,
rompe com os laços do antigo, do velho, do passado, do pré-moderno e crê na
evolução, no progresso, no desenvolvimento, no avançar, no melhorar, etc..
Mas,
a comunidade que emerge na hiper-modernidade já não avança para o alvo: não há
alvo. Não tem as grandes narrativas
que lhe permitem produzir um teatro teleológico, do trágico ou do sublime.
A comunidade é alfa e ômega neste drama religioso, a qual caminha como que numa
esteira rolante, sem sair do lugar. Novas revelações, Rhemas hiper-novos, véus que são
retirados de mistérios já desnudados, são re-revelados. Suas músicas e sua
pseudo-poesia fala do homem para o homem. Há um retorno ptolomaico
da composição musical. As revelações falam do homem e suas esperanças e estas
se tornam música a fim de garantir seu ritmo.
Na
fluidez imagética da linha de montagem que faz passar testemunhos em profusão
numa religiosidade sem palavra, sem reflexão, que articula o discurso religioso
para que a obscenidade da fala faça aparecer e desaparecer o real. Portanto, é
desta premissa monológica, monolítica, que surge o
drama cúltico, seu enredo e sua trilha sonoro, isto
é, a sedução do drama que transcorre no culto. É da sedução que precisamos
falar mais detidamente.
É
quando decido pensar sobre a sedução que percebo o deslize da ordem da força e
da dominação para a ordem do signo e do ritual: da sedução.
É neste instante que, derradeiramente, a força da técnica moderna cede lugar ao
Narciso
sedutor seduzido. A tecnologia moderna é o próprio da força e o Narciso é o
próprio da sedução.
Narciso,
aquele que se deixa seduzir até à própria morte, por uma imagem: seu rosto
refletido. Mas, neste deslizamento abandono o domínio do real e passo a
circular no domínio do simbólico.
Ali estou no mais real que o real, no hiper-real. Neste domínio o real não é
confrontado pelo real, nem tão pouco a verdade com a verdade, antes, na sedução
“basta uma ligeira manipulação das aparências.” (Baudrillard, 1991b, p. 15) A
mulher, que nada mais é do que aparência, no dizer de Baudrillard, que põe em
xeque tudo o que é masculino: verdade, absoluto, realidade, certeza, segurança,
tecnologia. Mas a mulher faz diluir a distinção entre a autenticidade e a
superficialidade, o mesmo que ocorre na simulação.
O
masculino é o próprio da tecnologia: o sincretismo entre técnica e ciência. O
masculino é a técnica maquinal da eficiência a todo preço, melhor, ao menor custo.
Tecnologia é a técnica dominada pela racionalização, pela eficiência, pela
busca do eficaz; é o poder masculino sobre a poesia, que agora se faz a partir
da matemática. A tecnologia é o número, o gráfico, a tabela, a estatística, os
programas de computadores, as álgebras, etc, a economia de um tempo. A
tecnologia é a técnica do apoderar, ou, “a principal palavra das técnicas é:
adaptação.” (Ellul, 1968, p. 356)
Entretanto,
é o feminino quem cria e quem gera, em seu próprio ventre: o feminino é arte misteriosa.
O homem, porém, penetra e domina: o masculino é técnica da força. Mas, aqui, a
mulher entra no jogo para seduzir e desfazer o real. Como no filme “When Harry Met
Sally...”, na cena em que Meg Ryan e Billy
Cristal estão numa lanchonete conversando e ela simula um orgasmo. Sua
simulação orgástica é de tal forma representada que uma mulher diz à garçonete:
“eu quero o mesmo que ela.”
O fato é que naquela cena é representada a sedução feminina, a qual desfaz o
real: o domínio do masculino. O domínio também passa a ser simulado, nunca mais
o homem saberá se dominou a mulher ou se foi por ela seduzido. Nunca mais o
orgasmo deixará o domínio do simulacro. Nunca mais a palavra deixará a órbita
do espetáculo.
A
fala deve se deslocar para o domínio das aparências, da imagem, da moda.
Sedução é falar de moda.
Aqui, nesta fala, precisamos pensar um sentido narcisista de massa, pois
Narciso é o sedutor seduzido: a massa é, para mim, o eu crente hiper-real
reproduzido.
Mas
a moda, sedutora, age no sentido da obsolescência do produto, da obsolescência
da fala. A moda torna velho o que não é antigo, exigindo o novo. Produz-se
sempre o ‘a envelhecer’, para que o conceito, de Lipovetsky,
do “princípio-moda” prevaleça, ou seja, o “princípio-moda” diz que “tudo o que
é novo apraz se impõe como rei, a neofilia se afirma
como paixão cotidiana e geral.” (Lipovetsky, 2004,
p.60). A fala e sua melodia, então, são possuídas pela obsolescência da moda, a
fim de que o “princípio-moda” possa parir a revelação e esta possa seduzir
sempre, por ser enigmática e subjetiva.
Na
moda a distinção entre sujeito e objeto desaparece - que o digam os strars-,
portanto, o discurso somente pode seduzir quando o seduzido não perceber a
distinção entre si e a revelação. O discurso – a fala e sua trilha sonora - é
sempre novo para que a seqüência das imagens que ele coloca diante do Narciso
não possa nunca reclamar um aprofundamento. Revelação sobre revelação, age no
mesmo sentido da televisão, onde programas se sucedem a programas e propagandas
são postas sobre propagandas e notícias substituem notícias: informação obesa.
A
moda imprime sobre Deus uma velocidade. Ele precisa se mover, antes, correr,
para que a obsolescência não o alcance.
Nada mais Moderno do que um Deus que tem que se apresentar, reproduzir-se
sempre novo. Enquanto a indústria renova suas ofertas em tempos cada vez mais
curtos, tornando o tempo de obsolescência tão infinitesimal que este renovar se
apresente, produza-se como contínuo em abundância, Deus precisa renovar-se em
ofertas de bens simbólicos que permita seu escape da morte profetizada.
Assim,
este homem religioso, Narciso, olha para o espelho d’água sem perceber a
profundidade, mas apenas a imagem, então, “neste sentido, toda a sedução é
narcisista, e o seu segredo reside nessa absorção mortal.” (Baudrillard, 1991b,
p. 78) Narciso é aquele que, de acordo com Pausâneas
e reproduzido por Baudrillard, tinha uma irmã gêmea, muito parecida com ele, a
qual ele a amava demais e que havia morrido. Narciso olhava para as fontes
pensando vê-la ali.
Narciso é, assim, seduzido pela imagem de sua irmã que é a sua própria, e,
seduzido, canta no propósito de seduzi-la. Esta não é a imagem espelhada, mas a
imagem do engano, pois “seduzir é morrer como realidade e produzir-se como engano.”
(Baudrillard, 1991b, 79) Mas o engano não está na ordem nem da mentira e nem
tão pouco da verdade, o engano está na ordem da sedução, do simulacro.
A
sedução não está circunscrita no discurso teleológico, uma fala sobre a
meta-verdade. Mas, está inscrita na rede de signos que o homem seduzido é
apanhado, “porque o signo é desviado de seu sentido, porque é ‘seduzido’[...]”
(Baudrillard, 1991b, p. 84). Então, o discurso, assim como toda a sedução, não
necessita “de provas, cada um sabe que o encanto reside nessa reverberação
imediata dos signos[...]” (Baudrillard, 1991b, p. 86) Esta fala religiosa
subjetiva e sedutora não passa pela ordem do deciframento.
A sedução está na ordem do feminino, assim, “a atração pelo vazio está no fundo
da sedução” (Baudrillard, 1991b, p. 89), portanto do enigmático e do secreto.
O
Narciso foi seduzido pela imagem da irmã que viu refletida da água. Mas, ao
olhar para sua irmã, viu-se; amou-a, amando-o. Na sedução esgota-se a
metafísica do sujeito-objeto, do ativo e do passivo, inaugurando “um modo de
circulação secreto e ritual, uma espécie de iniciação imediata que só obedece à
regra de seu próprio jogo.” (Baudrillard, 1991b, p. 92)
O
jogo da sedução é fechado, hermético, monástico, no qual o sedutor desvia o
seduzido da verdade e é ele mesmo seduzido e desviado da verdade. Mas, as
regras do jogo da sedução se opõem à Lei.
Na sedução não há Leis, mas regras, as quais subvertem a própria lei e a ordem
masculina. Entretanto, não se pode subverter a regra, pois, desta forma,
abandonar-se-ia o jogo. A decisão pela sedução é a sedução pelo jogo e por suas
regras e estas regras se dão por meio das aparências: seduz-se pela aparência.
Sou
seduzido, não pelas imagens externas das vitrines, mas pelas aparências de
Narciso, isto é, pela imagem de mim mesmo. Como no lago de Narciso, a aparência
não oculta nada,
e esta permanência no secreto se dá por alusões sutis. A sedução é um jogo de ocultamento e revelação, sem se dar a conhecer o segredo,
“assim, seduzir é fazer figuras jogar entre si, fazer jogar entre si signos
roubados [...]” (Baudrillard, 1991b, p. 118). Em todo este jogo, a liberdade
deve ser ela mesma uma peça do jogo, pois “a sedução é um destino”
(Baudrillard, 1991b, p. 123), e, é necessário que a liberdade seja concedida ao
crente, para que ele a perca ao final.
Ao seduzido deve ser dada a liberdade da sedução, e a inexorabilidade em
decidir-se por ela, para que alcançando seu destino possa ver ali a sua perda
da liberdade: alteridade da decisão.
A
sedução é uma dramaturgia ritual, para além da lei, onde os participantes deste
jogo não infringem a regra: não há sentido em infringir a regra. É a regra que
se opõe à Lei,
tal qual a sedução se opõe à produção. A Lei é textual, tecnológica e formal,
mas a regra não tem enunciado, então “o jogo não tem medida comum com a ordem
necessária do mundo real.” (Baudrillard, 1991b, p. 151) Aqui que o jogo da
sedução cruza com o drama, nesta ausência de realidade, nesta negação do mundo
externo, nesta auto-suficiência teatral, nesta improvisação escritural. No
teatro dramático da sedução não faz sentido falar sobre livre-arbítrio, pois a
sedução é destino. A decisão, repetimos, está em entrar no jogo, ausentando-se
após esta decisão, pois, “tudo o que se refere ao jogo é sagrado porque é
convencional.” (Baudrillard, 1991b, p. 157)
No
drama sedutor, o pastor é objeto-sujeito e sujeitado ao objeto, fazendo cessar
a dialética clero-leigo, mas trabalhando para que a pseudo-dialética
ungido-crente seja mantida para ratificar a técnica. No jogo de sedução onde
Narciso, que de agora em diante é o clero e é o leigo, apaixona-se pela imagem
de si, como o fã que se apaixona pelo astro. Entretanto, o astro é aquele que
apenas desempenha o papel previamente determinado pelo consumo. A regra do consumo
prescreve o papel do astro, a fim de que ele seja a imagem narcisista do fã.
De igual forma, damos crédito ao pensamento que propõe que o pastor, ovelha
sacada do pasto, é, ele mesmo Narciso e imagem refletida pelo leigo: astro de
uma tecno-religião. Como astro é compositor, como
compositor é astro.
Se
a palavra, a reflexão, exige diferença,
como diz Jacques Ellul, o drama sedutor apagando a
distância entre o sujeito e o objeto, faz também calar a voz. O teatro
religioso é barulhento e mudo: pois o drama exige diálogo, diálogo narcisista, monológico. O drama sedutor é imagético e musical,
suportado pelos testemunhos que se sucedem e pela trilha sonora que sempre
retorna ao mesmo refrão, repetindo numa reprodução taylorista,
maciça, para que cada um possa fazer parte do espetáculo e, assim, as imagens
transitem abundantemente diante do palco mágico.
O
que se está em questão é a manutenção do espetáculo dramático: o drama vela
pelo drama, o drama é absoluto. Sendo o espetáculo dramático, sedutor, é pela
sedução que ele se mantém; o enigma está no espetáculo participativo pelos
testemunhos e pela cantoria. As composições simples e antropocêntricas garantem
o envolvimento e a sedução. Esta participação hiperbólica garante a sacralidade da ‘Casa do Senhor’, a legitimidade daquele
lugar como ‘axis mundi’. Como
também a negação da Palavra pela obscenidade da imagem, isto é, das imagens de
cura, libertação, exorcismo, prosperidade, e tantas outras que passam diante
dos olhos, além do mito. O drama, pelo exposto, requer um enredo e uma trilha
sonora, assim como representações imagéticas.
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