História da Filosofia Medieval I
Aluno: Marcos Henrique de Oliveira Nicolini
Tema: Dissertação baseada no texto “Nota sobre o problema da
Universalidade em Agostinho, do ponto de vista da relação entre fé e razão”, e
no Capítulo 9, Livro IV, das Confissões de Agostinho.
Há um amigo mais íntimo que o irmão:
O caminho de retorno da alma a Deus, em Agostinho, no relacionamento
entre fé e razão.
Introdução:
Ao serem lidas
as primeiras palavras das Confissões de Agostinho, é plausível a suposição de
se ter um encontro com o Santo que, aparentemente, não está acompanhado de alguém.
Um Santo contemplativo e apartado da companhia, o qual se dirige apenas a Deus,
dizendo: “Grande és tu, Senhor, e sumamente louvável”. Nesta
suposta solidão ele exporia sua prece introdutória e confessional diante de
Deus, como uma pequena parte da criação, e se depararia tanto com sua impossibilidade
de falar de Deus, quanto sua impossibilidade de falar sem falar de Deus. Seria,
assim, permitido pensar que ele não falando a ninguém, falaria apenas a Deus,
culminando em silêncio reverencial, solitário.
Ao dirigir a
fala a Deus se veria impossibilitado de qualquer fala sobre Deus, deparando-se
numa dupla impossibilidade. Ademais, é possível perceber, desde este início,
que este estar só se desfaz quer no duplo sentido de suas Confissões,
quer na intenção, que mais tarde virá explicitar, a qual perpassa o seu texto,
ao dizer:
“Mas a quem narro estes
fatos? Não a ti, meu Deus; mas, diante de ti, aos meus semelhantes, ao gênero
humano, àqueles que, mesmo pouco numerosos, venham a volver os olhos para estas
páginas. E para que? A fim de que eu mesmo, e os que me lerem, pensemos de que
abismo profundo devemos clamar por ti. Que há mais próximo de teus ouvidos que
um coração arrependido e uma vida de fé?”
Quer confesse
sua fé, quer confesse seus pecados o faz não a Deus, mas diante de Deus aos
seus semelhantes, ao gênero humano e aos que venham estar com ele na leitura
destas páginas. A Confissão é para aquele que se torna companheiro ao ler estas
páginas, portanto, sua solidão não é real e não é possível, pois que ele necessita,
convida, introduz e conduz aqueles que volvem seus olhos para o texto e o lê, a
partilhar aquilo que lhe seria particular. Desta forma, Agostinho é um homem
que fala tendo em vista o outro homem com quem fala: nós. Em
outros termos, confessa sua fé e seus pecados, diante de Deus, a nós que o lemos,
tornando-nos presentes a ele, sempre, desde a primeira expressão de fé, como
amigos de
uma iniciativa em pôr-se a caminho. Tal percurso que é o por ele vislumbrado e
que, Agostinho faz entender, pode ser caminhado por qualquer um, numa busca
ininterrupta da felicidade, um retorno de nossa alma a Deus, de uma trilha
universal.
A nossa presença
desejada, como de um amigo de leitura, antes, como um amigo de transcurso para
quem de fato ele se confessa, intenta conduzir-nos a um pensamento sobre o
“abismo profundo” que nos assemelha. Esta similitude abissal do gênero humano
pareceria convidar os pouco numerosos ao arrependimento e a vida de fé.
Entretanto, estes poucos numerosos não são aqueles convidados ao percurso, mas
são aqueles, dentre o gênero humano, que aceitam o convite. É o aceite e não o
convidar, que é universal que toma uma amostra do gênero humano como sendo
alguns poucos. Enquanto o gênero humano está, semelhantemente, confinado no
“abismo profundo”, apenas uns poucos pensando em sua condição exercitarão a
vontade, desejando clamar a Deus desde este lugar. O convite é genérico, mas a
aceitação é individual. Este ato da razão e da fé que produz uma conversão da
vontade, embora seja universalizável, restringe-se àqueles poucos numerosos que
aceitam converterem a vontade.
Conquanto todos
nos assemelhemos em nossa condição de pecado, podemos
vislumbrar, sobretudo, uma fé católica,
que também pode ser estendida a um pensamento da universalidade. O intento da
fé católica, pensada aqui também por sua universalidade, em Santo Agostinho,
reclama a presença sempre constante do amigo, isto é, da presença de alguém que
faz mover seu pensamento do singular para o plural. É a presença de outro, de
alguém além de si que introduz a possibilidade de pensar no plural a condição
singular da humanidade apartada de Deus, ou seja, inclinada pelo desejo do
efêmero, do transitório, do que se corrompe e muda. É a presença do amigo que
pluraliza o pensamento, mas que vêm a se encontrar num único caminho de fé. É o
amigo que tendo pensado com outro amigo a similitude abissal, e que clamam a
Deus, desejosos de a
Ele retornar: eis a via pela qual pretendemos pensar a caminhada. É a
proximidade caridosa que nos faz um coração arrependido e termos uma vida de
fé, para Santo Agostinho. Enquanto a presença do amigo pluraliza o pensamento,
o arrependimento e a fé são únicos, um caminho.
O amigo ainda é
apenas aquele que se deixa ser tomado pela introdução caridosa do Santo Bispo
de Hipona e que volvendo seus olhos às palavras deste, aceita iniciar o empreendimento
da caminhada. Passa-se
não apenas à presença amistosa do amigo que volve os olhos a estas palavras,
mas ao amigo que no oculto do confessionário não se ri
do outro; antes, pensa em sua própria condição de semelhante e nesta condição
similar, também caminha. Condição esta que é narrada por fatos - introduzindo a
similitude -, os
quais, por si, demandam a crença no escritor, daquele que o lê, e instiga a fé
do que dá crédito. Assim, podemos pensar que o amigo se aproxima inicialmente
do amigo pela semelhança da condição de desejo das coisas perecíveis e
mutáveis, a qual é a sua condição de pecador e crença nele, e, posteriormente, é
conduzido por um caminho de identificação para a fé racional.
O que, talvez,
Agostinho espera do amigo é que creia nos fatos confiados em confissão –
de pecados e de fé –, que não ria dele e, assim, sinta-se instigado a
acompanhá-lo num mesmo retorno. Desta forma, nós, amigos leitores, somos
conduzidos a penetrar na intimidade – de pecado e fé – do homem Agostinho e
pensar ali em nossa própria intimidade, caminhando com o autor e,
semelhantemente, vindo a confessar-nos diante de Deus. Neste momento de nossa
receptividade às palavras deste homem, somos envolvidos pela fraternidade
com que este bom Bispo nos acolhe como semelhante ao nos convidar a caminharmos
juntos. O Santo Bispo que se mostra como homem. Neste convite velado está a
caridade do Bispo para conosco, gênero humano. Caridade que é um traço
episcopal que se faz presente em todo o texto.
Ao apresentar as
Confissões, narra-a, não somente aos seus amigos leitores, mas, a partir de
fatos que vivenciou com seus amigos contemporâneos.
Aquilo que chamamos de caminhada desde o pecado, como retorno da alma a Deus,
se dá, nesta narrativa confessional, em meio aos seus diversos relacionamentos.
Desde os amigos que co-participaram do furto das pêras, passando pela concubina e
tantos outros até Alípio, entendemos poder ver nestes fatos sua caminhada da
razão e o encontro da fé. No entanto, tais relacionamentos estavam sujeitos às
mudanças próprias de suas condições transitórias e à corrupção da perda,
até àquela amizade, buscada desde o início, que fosse eterna, imutável e
incorruptível.
Não só o Bispo
de Hipona é um homem cuja fé tem uma pretensão universal e de uma racionalidade
necessária na busca da felicidade, como
de intensos relacionamentos e de pouca solidão,
estando frequentemente acompanhado quando no exercício de sua vontade. Nas
Confissões encontramos Agostinho constantemente em meio às amizades, mas não o
veremos responsabilizando outros por suas próprias decisões: exercício da sua vontade.
Neste movimento da vontade individual há o encontro do ato de fé que rompe,
concomitantemente com a irracionalidade maniqueísta, com o ceticismo e com o
orgulho filosófico, humilhando-se diante de sua limitação. Finalmente,
ao olhar para si e abdicar de buscar fora de si a felicidade, este homem se
depara com o limite da razão e com a responsabilidade humana sobre o sentido da
inclinação de sua vontade.
O desejo/amor da
impureza ou o amor/desejo de Deus permeiam as Confissões, apresentando a
vontade como o lugar natural do homem, o qual, pelo livre-arbítrio, faz com que
a esta se incline ou para o pecado ou para a fé. Esta é a tensão que permeia
todo o texto, ou seja, a possibilidade de inclinação da vontade quer para
aquilo que é perecível e transitório, portanto, sujeito à perda e causando o
medo e infelicidade, ou a possibilidade de inclinação da vontade para o que é
eterno, imutável, incorruptível, portanto, fonte de felicidade. Entretanto esta
segunda inclinação não nega e nem demoniza a primeira, antes, reinterpreta-a.
Agostinho,
assim, confessa o pecado e confessa a fé diante de Deus aos seus semelhantes,
acentuando sobre si a responsabilidade da infração da lei e ratificando a
providência divina da felicidade. A vontade como lugar natural do homem, pode
inclinar-se para o que lhe é externo, perecível, mutável, corruptível, diverso,
e, portanto, tal vontade é pecaminosa. Ou, inclinar-se para o que habita em si,
que é eterno, imutável, incorruptível, único, e, portanto, tal vontade inclinada
no sentido de uma fé racional, é à imagem e à semelhança do divino em si. A vontade ao se inclinar
para o que é externo ao homem esgota a possibilidade de conferir-lhe a felicidade,
pois buscará em muitas coisas, as quais são passíveis de perda, ou seja, ao fim
se deparará com a infelicidade da ausência do bem. A vontade ao inclinar-se
para o mal, privando-o do bem, chega ao nada absoluto, ou seja: “o mal é apenas
a privação do bem, privação esta que chega ao nada absoluto”.
Há de se
sublinhar que nesta abdicação do que é exterior e nesta busca em si, Agostinho
deverá encontrar-se consigo e perceber-se, ele mesmo passível de corrupção e de
finitude. Assim
é que podemos perceber o encaminhamento da razão desde os prazeres do roubo das
frutas, pela busca do amor no corpo de uma mulher, do desejo pelo saber, ao
maniqueísmo, ao ceticismo, ao neo-paltonismo, até que a razão que se depara com
sua própria limitação e com o nada. A razão, em Agostinho, se dá conta deste
“nada absoluto” e não encontra um caminho para retornar. Desta profundidade
abissal o sujeito deve abandonar seu orgulho, humilhar-se e clamar a Deus,
somando à vontade o desejo de Deus e a humildade da fé.
É através dos
fatos narrados em meio a estas amizades que pretendemos pensar no “abismo
profundo” de onde Agostinho clama a Deus – de onde ele ‘convida’ que clamemos a
Deus -, tendo como premissa a caminhada das Confissões, entre amigos. Podemos,
pelo exposto acima, pensar neste “abismo profundo” como ponto de onde se pode
dar a passagem da busca heterônoma – de satisfação dos desejos pelo que lhe é
exterior – e da busca autônoma – do orgulho e da vaidade da auto-suficiência - para
a interiorização e encontro com a possibilidade do ser, pela confrontação com a
verdade. Ressaltamos
que a heteronomia é, em Agostinho, a busca viciosa e habitual da felicidade no
que lhe é externo, mundano, portanto, no mal – pois que sendo passível de perda
torna-se nada, e nesta ausência radical, traz a ausência do bem. A autonomia é,
em si mesmo, a busca auto-suficiente da felicidade por si mesmo. Entretanto, há
uma autonomia no Ser, a qual é a liberdade da busca da felicidade na identidade
do Ser, portanto, no que é eterno. Há de se perder a autonomia em si a fim de
ganhar a autonomia no Ser.
Este deparar-se
com o pensamento abissal, parece-nos que tem seu início num movimento cético,
seguido de uma crítica a este ceticismo, e por fim, quando Agostinho se vê
diante da possibilidade da Verdade. Neste mover-se do ceticismo para a Verdade,
“Agostinho fundamenta a verdade na existência do sujeito existente, vivente e
pensante” (neste
movimento ele critica o seu próprio ceticismo, que houvera tomado
metodologicamente para criticar o maniqueísmo, a partir da certeza da
existência de um sujeito pensante). Mas que, “acima da razão está a Verdade,
que julga e modera a razão.”
(neste movimento ele passa a articular a fé e a razão pela crítica da autonomia
da razão).
Seguindo nossa
proposta de pensar a caminhada entre amigos, diríamos que há uma mudança de
referencial, um abandono da busca de felicidade a partir da amizade com o outro
que lhe é externo, um outro homem.
Esta amizade exemplifica a escravidão da vontade humana aos vícios e hábitos naquilo
que lhe são exteriores, o aprofundamento da infelicidade do desejo pelo que
sendo temporal é sujeito à perda. Mas, deixando de desejar o que é perecível e
mutável, passa-se pela perda de si por amor de Deus. Esta perda de si por amor
a Deus refaz os relacionamentos de amizade com o outro, não mais por amor ao
outro externo, mas a Deus que está em si e no outro. Ama a Deus que está em si
e ama a Deus que está no outro. Neste amor a Deus, ama-se o próximo como a si
mesmo. Mas, antes há de se perder, dado o limite de si encontra o abismo do
nada absoluto. Este movimento abissal que tem seu ponto de inflexão quando
Agostinho confronta a Verdade e se apropria da fé. Percebemos este movimento em
suas palavras, quando diz:
Eis que habitavas dentro
de mim e eu te procurava do lado de fora! Eu, disforme, lançava-me sobre as
belas formas das tuas criaturas. Estavas comigo, mas eu não estava contigo.
Retinham-me longe de ti as tuas criaturas, que não existiriam se em ti não
existissem. Tu me chamaste, e teu grito rompeu a minha surdez [...] Eu te
saboreei, e agora tenho fome e sede de ti.
Quando tomamos
certo sentido de amizade em Agostinho – a qual busca em Cícero seus fundamentos
– e o temor que esta promove, pois que é passível de perda, e a intimidade de
Deus, nele, que aguarda uma resposta racional como possibilidade da busca de
uma felicidade imutável e incorruptível, é que nos abre uma determinada via
para pensarmos desde o abismo, a verdade, a fé e o retorno a Deus. Mas, mantemo-nos
ainda no confessionário e confessar é confessar os pecados e confessar a fé, as
quais são de Agostinho, mas são universalizáveis.
Ainda que as
amizades apresentem-se como suporte narrativo de explicitação dos passos no
retorno da alma a Deus, tais fatos apenas servem como material retórico no qual
se permitirá ver a razão deste caminhar, ou, o próprio caminhar da razão, a
qual esgotada clama em
fé. Ora, desde o encontro com o Hortêncio de Cícero, que
Agostinho muda os seus “sentimentos e o modo de me dirigir a ti (Deus); ele
transformou as minhas aspirações e desejos [...] Eu passei a aspirar com todas
as forças à imortalidade que vem da sabedoria.”
Entretanto, a filosofia lhe oferecia um meio necessário ainda que não suficiente,
para o retorno a Deus. Não obstante a sua insuficiência, a leitura de Hortêncio
“começava a levantar-me para voltar a ti (Deus).”
Cabe um hiato
para destacarmos que é retorno, volta, e não ida, um dirigir-se a Deus; e este
voltar é voltar-se para o que lhe é endógeno, que está em si, quem “habita dentro
em mim”. Embora iniciasse o retorno, a levantar-se para Deus, faltava-lhe a
mediação que pudesse promover a volta, como nos diz Novaes:
O ‘regresso da alma’ é o
regresso da alma ao absoluto, para o uno. A verdadeira filosofia é então universal
na medida em que oferece a todos um
caminho: a via universal. O neo-platonismo fracassou ao não indicar o
verdadeiro caminho, o único e universal caminho para que a alma retorne a Deus.
Da filosofia
ciceroniana ele obtém as primeiras aspirações e desejos pela imortalidade que
vem da sabedoria, a razão torna-se para ele o meio necessário ao caminho
universal. O filósofo é o homem orgulhoso, pretensamente autônomo, e que,
portanto, por si mesmo poderia trilhar este caminho para a felicidade. Contudo,
o Agostinho que é leitor do Hortênciao e deseja a imortalidade proveniente da
sabedoria, confessa encontrar-se na profundidade abissal e, assim, depara-se
com a insuficiência desta sabedoria para a consumação do retorno. Então, o
filósofo que trilha este caminho deve se humilhar pela fé, segundo Agostinho,
com vistas ao retorno pretendido. Cônscio desta necessidade é na leitura dos
neo-platônicos, após seu período maniqueísta e cético, que vai obter razões que
lhe permitirão o encontro com a verdade e o salto da fé. Tal razão deve ser
humilde para encontrar-se com a fé, pois “é preciso que fé e razão sejam
compatíveis. É preciso! [...] Tem que haver perfeita harmonia entre ambas.” E
é nesta humildade diante da fé que a razão pode vislumbrar o caminho de retorno
da alma a Deus. Ora, para Agostinho “amar não é mais do que desejar (appetere) uma coisa por si mesmo [...]
pois o amor é desejo.”
Pela via do amor
como desejo, da sabedoria como razão e da fé como salto do
abismo, podemos pensar neste retorno da alma a Deus, o qual, em Agostinho, faz
um forte apelo à mediação amistosa de Cristo. Forte apelo à intimidade daquele
que é mais chegado do que um irmão. Forte apelo este que é explicitado quando
estranha no Hortêncio a “ausência de Cristo no livro [...] Qualquer escrito que
se apresente a mim sem esse nome, por mais literário, burilado e verdadeiro que
fosse, não conseguia conquistar-me totalmente.”
Nosso intento é,
do acima exposto, caminhar com Agostinho através de suas amizades e procurar
encontrar neste transcurso a razão e o amor até que ele se depare com a verdade
que demande um salto de fé. Em meio a este caminho, a razão desejará, ou, amará
o que é perecível até que encontre a verdade que vai além da aceitação, até a
certeza da fé. A passagem do conhecimento pela verdade, encontraremos na prisão
de Alípio, entretanto o ato de fé apenas depararemos em sua conversão, a qual
não será abordada neste trabalho.
Das amizades:
Certamente que a
narrativa desde o nascimento de Agostinho até seus primeiros anos é rica em
fatos e significados, todavia não podemos manter a rigidez do que chamaremos de
caminhada por meio da amizade, pois que nesta, ele não se relaciona com amigos,
mas com os pais e mestres. É um tempo que necessariamente deveremos fazer
referência a fim de lembrar, com o autor, da memória e a importância que esta
terá no retorno da alma a Deus. Este homem finalmente deixa de se dirigir como
se somente a Deus o fizesse e formaliza seu confessionário diante de Deus a
nós. Nesta dupla confissão, rememora seu nascimento ao dizer que tudo aquilo
era fruto da transmissão oral de seus pais, mas que “eu de fato não me lembro”,
vindo fazer menção da memória e
da crença naquilo que seus pais disseram.
Embora esteja
rememorando o relato de seus pais, percebemos que em um só movimento Agostinho
enfatiza a presença de duas memórias. Há a memória daquilo que ele não se lembra,
mas que foi relatado por seus pais e pelos mais velhos, o que chamaremos de
memória genealógica, isto é, que remonta para a sua história e para a história
de todos os homens que o antecederam, e que assim são feitos irmãos na condição
de existentes, salientamos suas palavras: “Destas minhas ações fui informado, e
nelas acreditei pelo
exemplo dado pelas outras crianças. Eu nada me lembro daquele tempo.” Salientamos
que a autoridade paterna e materna conferiram credibilidade a estas narrativas.
Não propriamente a memória do autor, mas aquela que é a memória de todos e que
são confrontadas com os fatos cotidianos. Tal memória conecta Agostinho ao que
é externo e genérico, isto é, à sua árvore genealógica que dista de si pelo
tempo e pelo espaço, mas que é averiguável na conduta das crianças.
Esta genealogia
remonta a fatos empiricamente sustentados. Assim, há um distanciamento e
exterioridade, os quais são ratificados quando diz: “queria manifestar meus
desejos às pessoas que deviam satisfazê-los, mas não conseguia, porque eles
estavam dentro de minha alma e elas estavam fora [...]”. Estes
que lhe são próximos, são, concomitantemente, distantes. Estas pessoas deveriam
satisfazer as necessidades do bebê Agostinho. Tais desejos tinham a fonte em
Agostinho, mas a satisfação lhe era externa.
Há uma outra
memória
que será requerida mais tarde, a qual trata não apenas da genealogia humana
desde Adão até Agostinho, mas requer um salto que permita pensar na condição
criada
deste homem, ao que diz Agostinho: “Percebi isto mais tarde.” Uma
memória que transcende a memória genealógica, temporal, e que remonta a
eternidade. Também esta memória exigirá uma autoridade digna de crença e, para
tanto, as Escrituras Sagradas do cristianismo deverão ser verossímeis. Para tal
percepção podemos aproximar à memória da criação,
como ligame indispensável ao retorno da alma, sublinhando que
o regresso da alma a Deus
é a relação retrospectiva com o seu próprio ser, e toda a criatura só é na
medida em que detém esta ligação retrospectiva à sua própria origem [...] O ser
é a origem à qual a criatura permanece fixada e que não institui de forma
alguma. O sinal desta ligação é a memória da origem.
Aquela memória primeira,
do que lhe é externo, liga-o não somente à sua genealogia, mas à sua condição
de pecado, na qual está todo o gênero humano. Pecado que não é proveniente de
um ato moral, mas do desejo interior pelo que é sensível, é perecível e é
sujeito á corrupção,
e da demanda sobre um outro que lhe é externo para que este venha lhe suprir
estes desejos: inclinação da vontade para o que é suscetível de perda. A
heteronomia do amor. Pecado que, também é a tendência solipsista do filósofo em
seu orgulho da auto-suficiência. O homem Agostinho pergunta “qual era então o
meu pecado?”, ao se
referir ao bebê Agostinho, vindo a responder que seria o de exigir, aos berros,
o leite da mãe, salientando sua crença no pecado original.
Ou seja, no hábito que lhe sejam satisfeitos os desejos interiores pela
inclinação da vontade para o que lhe é externo, a ser suprido por quem também
lhe é externo. Por fim, conclui que “sem dúvida não é inocente a criança que,
diante da fonte generosa e abundante de leite, não admite dividi-la com um
irmão [...]” Aqui,
talvez, não se trata do irmão consangüíneo, mas o irmão na generalização
humana. Esta criança tanto deseja o leite, como se nega à caridade – a caridade
que ama o mesmo Ser, que está no próximo. Esta criança genérica nos coloca a
todos na mesma condição de pecado.
Não apenas o
pecado do bebê Agostinho, mas também da criança que se recusa a aprender grego
por mero orgulho e auto-suficiência.
O orgulho que o desejoso da sabedoria deverá abandonar a fim de volver a
vontade para o que é eterno. Não é o conhecimento, pretensamente propiciado
pela busca racional pela felicidade, que Agostinho deverá abandonar, mas é o
orgulho da auto-suficiência em caminhar sozinho: a
solidão arrogante. O infante Agostinho está escravo do pecado,
quer seja da inclinação viciosa da vontade às coisas externas, quer do orgulho
de si mesmo como supra-suficiente na satisfação da sede por sabedoria.
Um paradoxo dos
extremos quer seja na heteronomia absoluta – da satisfação dos desejos por
coisas exteriores -, quer seja na autonomia absoluta – orgulho e vaidade da
auto-suficiência na obtenção de sabedoria - há uma condição pecaminosa em Agostinho. Estes
extremos de pecados pré-amizades
são salientados como presentes nele não pela sociabilização ou influência
externa, mas pela condição humana desde a queda em Adão.
Agostinho já se encontra investido desta condição viciada, e o Bispo percebe
que “longe da tua (de Deus) face, caímos nas trevas da paixão [...]” pois
“[...] basta mergulhar nas paixões, isto é, nas trevas, para ficar longe de tua
face.”
Mais tarde o
adolescente inclina sua vontade à satisfação de seus desejos mais baixos, ao se
distanciar de Deus. E é neste distanciamento de Deus que ele estabelece
amizades sem a justa medida de alma para alma. É
a presença de uma ordem justa que Agostinho vem reclamar para sua alma e não a
demonização, quer das coisas criadas por Deus – o outro e as coisas -, quer do
conhecimento e da sabedoria humanas. Neste tempo em que o jovem não está se
dedicando aos estudos, diz Agostinho, “ardi em desejos de me satisfazer em
coisas baixas, ousando entregar-me como animal a vários e tenebrosos amores.”
Também não nos parece ser a puberdade, propriamente, o fato central desta animalidade
narrada dos pecados da adolescência; antes, a ausência dos estudos e o ócio –
em companhia de amigos - que
potencializam o roubo das peras. Agostinho viciava-se mais e mais,
inclinava sua vontade cada vez mais profundamente para satisfação de suas
necessidades interiores, nas coisas exteriores.
Neste tempo de
ócio e em companhia de amigos, Agostinho “andava pelas ruas de Babilônia”,
absolutamente desregrado e entregue às várias paixões. Neste tempo e com seus
amigos ele participa do roubo das peras. Rouba as frutas não por necessidade,
mas pelo prazer em satisfazer sua vontade viciada. Seu vício era satisfazer seus
desejos interiores com coisas exteriores. Este era o coração daquele que se
encontrava “no fundo do abismo” e
que “amava, não o objeto que me arrastava ao nada, mas o aniquilamento em si”. O
aniquilamento não é traduzido pelo ato moral do roubo das peras, mas pela
inclinação da vontade para a satisfação de desejos de prazer que estão nas
coisas perecíveis e mutáveis, portanto, em nada. O desejo, o amor de Agostinho estava
imoderadamente dirigido aos bens inferiores, ao que é perecível e corruptível,
tendo abandonado, juntamente com a busca da sabedoria, o amor aos bens
superiores. Mas,
como diz o autor:
No entanto, eu não teria
praticado, se estivesse sozinho [...] amei também no furto a companhia daqueles
com quem cometi; daí não ser verdade ter amado apenas o furto em si [...] o
fato é que não eram os frutos que me atraíam, mas a ação que eu cometia em
companhia de amigos que comigo pecavam.
Nestas amizades
há a ausência de justeza de alma para alma, reclamada pelo Bispo Agostinho.
Estes amigos não amavam nos amigos o próprio amigo ou a amizade destes, mas,
amavam o pecado que juntamente cometiam: a inclinação da vontade para a satisfação
de desejos interiores nas coisas exteriores, as quais são bens inferiores. Esta
ação em companhia de amigos tanto não terceiriza a culpa, quanto não exime
Agostinho de seu próprio pecado, pois que sua vontade se inclina ainda mais à
satisfação dos vícios no ato partilhado. Neste ato, o desejo de Agostinho
encontra-se com o mesmo desejo no amigo e, juntos, roubam as peras como
inclinação similar para o que é externo.
É possível
pensarmos que no roubo das peras, tanto Agostinho satisfaz seu desejo por
prazeres efêmeros que está no ato do roubo em si, como ao fazê-lo com outros,
enseja o amor daqueles amigos de delito: o desejo de ver no outro a si mesmo,
certo narcisismo delinqüente. Ademais, é de se estranhar que é neste período de
ócio e de ausência de um educador – primeiramente foram seus pais,
posteriormente seus mestres – que Agostinho diz se encontrar no mais profundo
abismo de sua alma e de desregramento mais intenso. Suas mais densas trevas,
seu distanciamento de Deus, parecem coincidir com a ausência da educação e da
busca por sabedoria. Talvez a ausência da tensão do ‘a conhecer’ o reduzisse à
animalidade da mesmice.
O jovem
Agostinho parte para Cartago a fim de retornar e continuar seus estudos. Ali
anseia por amar e ser amado, desejo este que possivelmente já estava presente
quando do roubo das peras. Deseja as coisas sensíveis e aquelas que tendo alma
viriam a serem amadas, “assim, eu manchava as fontes de amizade com a sordidez
da concupiscência e turbava a pureza delas com a espuma infernal das paixões.”
Entretanto, se dedicava aos estudos e “era o primeiro nas aulas de retórica, o
que me satisfazia o orgulho e me fazia inchar de vaidade”. O
seu desenvolvimento no conhecimento fazia crescer seu orgulho e vaidade -
pecados presentes desde a infância. Em contrapartida este jovem estudante se
afastava dos ‘arruaceiros’, embora vivesse com tais amigos: viver com amigos
com os quais não compartilha plenamente das idéias, será algo que se repetirá
na vida de Agostinho. Parece-nos que em Agostinho o amigo nunca será a extensão
de si mesmo, portanto, ele se relaciona pacificamente com o diferente.
Neste tempo lê o
Hortêncio de Cícero, livro que desperta o desejo para a imortalidade que vem da
sabedoria e lê a Bíblia confrontando-a à majestade de Cícero, tendo encontrado
nesse um texto indigno de comparação com este. No entanto, nas Sagradas
Escrituras se deparou com um texto que “não se abre aos soberbos” e que é
“humilde no começo, mas que nos leva aos pícaros”, pois que Agostinho “era
incapaz de nele penetrar ou de baixar a cabeça à sua entrada.”
Seu orgulho, sua vaidade e o hábito de buscar as coisas belas em detrimento do
verdadeiro, pairavam como um véu diante da fé. Além disto, os relatos
veterotestamentários eram alvos de pesadas críticas por parte dos maniqueus,
por conta da “frouxidão” moral dos seus heróis. Abraão, Isaac, Jacó, Moisés,
Davi e outros não se comportavam austeramente segundo o padrão proposto pelo
maniqueísmo. Desta forma, a Bíblia ainda não era uma autoridade verossímil.
Dos dezenove aos
vinte e oito anos Agostinho se aproxima dos maniqueístas. Como nos diz Peter
Brown, “os meniqueus eram racionalistas inflexíveis. Agostinho confiava que,
como maniqueísta, seria capaz de sustentar o dogma fundamental de sua religião
unicamente por intermédio da razão.” Após
seu contato com o texto do Hortêncio, Agostinho de desperta para a filosofia e
para a busca de uma racionalidade que pudesse conduzi-lo à felicidade, assim, “dos
20 anos em diante, Agostinho foi um professor dedicado, um austero devoto da
‘Sabedoria’, ansioso por aumentar seus poderes de filósofo”.
Ademias, “o espírito racionalista de Agostinho sentia-se mais à vontade entre
os maniqueus do que entre os cristãos, devido ao caráter acentuadamente
materialista dessa seita” e
“o maniqueísta não precisava que lhe ordenassem acreditar. Era capaz de
apreender sozinho a essência da religião.”
Sem que,
necessariamente, precisemos detalhar a metafísica maniqueísta e as refutações
posteriores, podemos perceber nestas falas de Brown, Boehner e Gilson o desejo
de um encaminhamento autônomo em Agostinho, o qual pudesse propiciar a
manutenção de sua vaidade, intacta. Ao se aproximar desta seita, seu orgulho
filosófico não era, de imediato, confrontado e a sua racionalidade podia ser robustecida,
enquanto partilhava da presença agradável de amigos. Entretanto, ainda que o
maniqueísmo oferecesse uma cosmovisão abrangente, segura e estável, ela carecia
– além de outros aspectos que se encontrariam numa refutação racional - de uma
universalidade, pois que esta seita se propunha a apenas alguns “santos e
eleitos”, como
nos fala Agostinho. Para alguém que irá trilhar um caminho de uma fé universal
que combate o orgulho da auto-suficiência e que se dirige ao gênero humano - ainda
que apenas alguns o leiam - como a amigos, entendemos que seja relevante
perceber a tensão crescente entre os maniqueus e aquele jovem que se põe num caminhar
universal.
Todavia, deste
tempo maniqueísta persistiu a busca, por meio da razão, da questão do mal e da
materialidade de Deus. Criam os maniqueístas, assim como Agostinho nesta época
de sua vida, que Deus era “um corpo luminoso e imenso,
e eu uma requintada parcela deste corpo”. Também,
para o maniqueus, o mal era uma substância corpórea que ativamente de opunha ao
bem. Agostinho necessitava de razões que o levassem a não apenas abandonar tais
crenças, como fazer este trânsito filosoficamente, isto é, pelo uso da razão.
Neste período de
sua vida, Agostinho se aproxima da seita maniqueísta e mantém relacionamentos
que a primeira vista são paradoxais. Por um lado há sua racionalidade
filosófica que busca a autonomia do saber; por outro, há seu interesse pela
astrologia que acentua a heteronomia determinista dos astros. É possível que a
unidade entre estas duas inclinações fosse buscada exatamente no maniqueísmo
que tanto lhe oferecia uma possibilidade racional para a religião, como
transferia a culpa de seus erros e limitações, e a responsabilidade de suas
decisões bivalentes para o conflito cósmico entre o Bem e o Mal.
Outro paradoxo
presente em suas inclinações é percebido no relacionamento que ele tem com a
concubina e com o magistério. Enquanto aquela mulher acentuava suas inclinações
de desejos heterônomos, sua busca de satisfação dos desejos interiores por meio
de amores exteriores: amava ser amado por corpos que tivessem alma; o
magistério determinava sua inclinação de auto-suficiência por meio de um saber
solitário, orgulhoso, envaidecido. O ponto de cruzamento entre a heteronomia e
a autonomia parece estar em seu corpo, ou seja, na possibilidade relacional com
aqueles que lhe permitiam o prazer de ser amado e invejado. Mas isto também
era, pela via maniqueísta, pecaminoso. Aprofunda-se no Agostinho racional,
aquele que não apenas retornou aos estudos, mas que, agora, se destaca como
mestre, uma fratura na vontade, na alma. Poderíamos, correndo todos os riscos
anacrônicos, pensar aqui numa esquizofrenia agostiniana da vontade? Sua vontade
tanto de inclina para o que é externo, para a satisfação de desejos de prazer, quanto
para o que lhe é interno, para a satisfação de desejos de orgulho e vaidade
própria. Agostinho tanto deseja escrever seu destino pelo estudo da filosofia, como
isentar-se da responsabilidade da inclinação de sua vontade pela crença
determinista nos astros.
Em meio a este
caminho para o nada da dispersão e da multiplicidade, da bivalência das
inclinações da vontade, Agostinho conhece a amizade do tipo preconizada por
Cícero. Como que num eco às palavras deste sábio (“a amizade nada mais é, com
efeito, do que um entendimento perfeito em todas as coisas, divinas e humanas,
acompanhado de generosidade e afeição mútua [...]”) trava “relações com um amigo que, tendo os
mesmos interesses de estudo, veio a ser muito querido [...] tornou-se
verdadeiramente meu amigo [...]”.
Mas é esta amizade que o faz conhecer e fragilidade deste amor, pela
confrontação abissal da possibilidade da ausência do amigo: o malefício do medo
da perda do que é temporal.
Lembrando
novamente Arendt, “amar não é mais do que desejar uma coisa por si mesma [...]
pois amor é desejo.” A
amor é o desejo de posse, mas que se transforma em medo quando se deseja a
posse daquilo que é perecível e transitório, isto é, “enquanto o homem deseja
as coisas temporais [...] expõe-se continuamente a esta ameaça, e ao desejo de
possuir corresponde incessantemente o medo de perder. Os bens temporais nascem
e morrem independentemente do homem que a eles está ligado pelo desejo.”
Nas próprias palavras de Agostinho, diz que “era infeliz, como infeliz é todo o
espírito subjugado pelo amor às coisas mortais, cuja perda o dilacera, e então
deixa perceber a extensão da infelicidade que já o oprimia antes de perdê-las.” Ao
experimentar a perda do amigo, Agostinho pôde confrontar o medo de perder o seu
amor maior: a si mesmo. Temia a morte, a sua própria morte, a absoluta ausência
de si mesmo, para si.
A despeito desta
experiência da perda do amigo pela morte, nas Confissões, o que deverá ser
convertido não é a morte e nem a amizade, mas a inclinação de sua vontade,
assim, Agostinho deverá ultrapassar o medo da morte se deixando perder por um
amigo mais íntimo.
Dito de outra forma, a experiência da morte e da amizade deverá ser transposta
para a perda de si mesmo – como morte da autonomia em si - por amor de Deus –
como morte da heteronomia das coisas exteriores e a vida da identidade no Ser.
A transcendência
de si no amor a Deus é, assim, a manutenção da amizade pela inclinação da
vontade ao que É, que está em Agostinho e está no outro. Mas, agora, não mais
ao que é transitório e mutável passível de morte, mas ao que é eterno e Uno.
Não mais a uma razão dispersa e “esquizofrênica”, mas ao Logos. Entretanto,
estamos nos adiantando. Antes, devemos caminhar para o esgotamento do intelecto
humano, até nos depararmos como a impossibilidade da razão em retornar a Deus,
por si mesma. Neste esgotamento a razão deve dar-se conta, ainda, que o belo
não é necessariamente o verdadeiro e que a filosofia não é suficiente para
categorizar Deus, ou seja, as categorias aristotélicas não são aplicáveis a uma
descrição verdadeira sobre Deus.
Enquanto a
crítica ao belo seja uma crítica à retórica ciceroniana que carece da verdade
do Cristo, e seja uma crítica ao maniqueísmo que carece de verdade científica,
a crítica às categorias aristotélicas é uma crítica ao orgulho filosófico.
Estas duas críticas, ao belo e ao categórico, encerram a crítica à
auto-suficiência do intelecto humano, levando-o ao limite e esgotando-o. Este
esgotamento do intelecto humano passa, em Agostinho, pelos Acadêmicos.
Em todo este
tempo, porém, Agostinho mantinha amizade com os maniqueus e, em suas palavras,
com eles tinha “conversas e risadas em comum, a troca de afetuosas gentilezas,
a leitura em comum de livros agradáveis e desempenho de tarefas em conjunto”.
Entretanto, as dúvidas sobre a racionalidade do maniqueísmo lhe iam aumentando,
até que a oportunidade de se encontrar com Fausto pode se realizar e, assim, encontrou
ocasião de expô-las. Este homem, embora eloqüente, não pôde responder aos seus
questionamentos, os quais estavam fundados em verdades racionais. O maniqueísmo
ao não apresentar respostas às questões propostas, demonstrou não ser passível
de aceitação: irracionalidade. Não era racional, e isto, para Agostinho, era necessidade
primária de qualquer conhecimento verossímil. Destacamos que não foi a fé
católica e nem mesmo o confronto dos ensinamentos maniqueístas com os textos
bíblicos que evidenciaram a irracionalidade daquela seita, mas foi a filosofia
e a verdade das ciências. Como diz Agostinho:
Eu, no entanto,
conservava desses filósofos muitas verdades sobre as criaturas, e tinha a prova
racional pelos cálculos, pela sucessão das estações, pelo testemunho visível
dos astros, e a confrontava com a doutrina de Manes, que escrevera
abundantemente muitos disparates sobre tais problemas, mas não me ocorria
explicação racional, nem dos solstícios e dos equinócios, nem dos eclipses dos
astros, nem de coisa alguma que aprendera nos livros profanos. Todavia era obrigado
a acreditar [...].
Para Agostinho a
razão não se subordina à fé, nem a fé se subordina à razão; antes, devem ser
co-participantes de um mesmo movimento. Contudo, deste encontro com a “grande
armadilha do diabo” ficou-lhe
impresso na memória que travou “conhecimento com um homem amável, de fala
agradável, capaz de expor de forma muito mais atraente o que outros dizem.” Este
estrato demonstra a tensão - entre o sensível e o inteligível, entre a ausência
e a presença – presente em todo o texto das Confissões, ao mesmo tempo que
mostra a abrupta necessidade de mudança de referencial. Agostinho pôde
compreender que o belo ou o mau estilo de uma fala, tem pouca ou nenhuma
relação com a falsidade ou a verdade daquilo que se está falando, ou,
rememorando sua metáfora: “A sabedoria ou a ignorância são mais ou menos como
os alimentos úteis ou nocivos: podem ser apresentadas através de palavras
polidas ou rudes, como os bons e maus alimentos podem ser servidos em pratos
finos ou grosseiros” A
credibilidade de um relato não se encontra em sua forma retórica, mas em sua
verdade. Desta forma são minadas as bases primárias que fundou a impressão
inicial sobre as Sagradas Escrituras, quando, buscando nelas a eloqüência
retórica de um Cícero e não encontrando, julgou-as com demérito e sem crédito.
Para o mestre Agostinho
ficou a lembrança daquele homem que pouco conhecia das ciências liberais, mas que
era exercitado na oratória. Sobretudo, daquele
que se permitiu ao ser argüido e não encontrando respostas, dar-se o direito de
dizer: ‘não sei’. Este ‘não sei’ de seu amigo maniqueu contrastou com sua
própria vaidade e orgulho, fundados na sabedoria. Deste fato relata:
Reconhecia a própria
ignorância e não se envergonhava de confessa-la [...] Este homem tinha um coração
que, se não era dirigido por ti, pelo menos era bastante prudente para consigo
mesmo [...] Foi-me por isso mais simpático [...] A modéstia de um espírito
sincero é mais bela que a ciência que eu buscava[...]
Após seu
encontro com Fausto, Agostinho deixou seu interesse pelas obras maniqueístas,
entretanto, manteve por mais tempo as amizades com os seguidores desta seita.
Ademais, aquele que anteriormente havia sido chamado de “armadilha do diabo”,
não somente o auxiliou a distanciar do maniqueísmo como também a perceber que a
humildade diante da limitação humana é o instrumento mais poderoso que a
ciência orgulhosa. Novamente se configura, nas Confissões, que o mal e o pecado
não se podem compreender pela representação exterior e material destes, mas
pela ausência do bem, e isto é narrado neste confronto amistoso do mestre com o
maniqueu.
Em meio aos
amigos percebeu o profundo abismo em que se encontrava no desejo do que era
perecível e mutável. A amizade lhe permitiu a vaidade e o orgulho por ser o
melhor aluno, embora caminhasse com os arruaceiros, sem sê-lo. A amizade lhe
permitiu amar e ser amado no corpo com alma. O amigo lhe trouxe o conhecimento
do medo da perda. A amizade lhe trouxe companheiros de leitura e atividades
comuns na busca autônoma da razão pela imortalidade que vem da sabedoria. Pela
amizade distanciou do maniqueísmo e compreendeu a humildade diante do limite da
razão humana. Mas, a
partir de então, por não encontrar nem no maniqueísmo nem no cristianismo um
fundamento certo, Agostinho se aproxima do ceticismo dos Acadêmicos, os quais
“afirmam ser preciso duvidar de tudo, e que o homem nada pode compreender da
verdade”.
Há dois
movimentos aparentes no ceticismo de Agostinho: primeiramente o olhar cético sobre
o maniqueísmo que o permitiu romper totalmente com as crenças sobre Deus e sobre
o mal, corpóreos e conflituosos, desta seita; posteriormente, romper com o
próprio ceticismo, percebendo ser ele mesmo, Agostinho, um sujeito pensante. Aquele
jovem não podia entender o Deus dos cristãos, pois lhe parecia “realmente
indigno acreditar que havias tomado a imagem humana e circunscrito tua
divindade nos limites de um corpo humano.”
Por outro lado, Deus somente podia ser pensado como uma imensa massa corpórea,
como queriam os maniqueístas, e lhe era impossível pensar em um ser incorpóreo.
Ainda havia o mal que, também, para ele, tinha que ter uma natureza corpórea
como aquele que se opõe ao bem, não sendo, assim, criatura de Deus.
Foi quando
partiu de Roma e indo para Milão e ouvindo as pregações de Ambrósio que os
textos bíblicos deixaram de ser meras letras impressas em papel que matam e
puderam ser espírito que comunicam vida. Inicialmente este bispo amável prendia
a atenção de Agostinho pela qualidade expositiva, mas não por sua racionalidade.
Em ouvi-lo, paulatinamente, pôde perceber que os textos anteriormente
criticados e criticável pelo maniqueísmo de Agostinho, agora eram defensáveis,
“e isto sobretudo porque via resolverem-se uma a uma as dificuldades de várias
passagens do Velho Testamento que, tomadas ao pé da letra, me tiravam a vida.” Este
bispo, Ambrósio, era digno de crença, possuía autoridade, principalmente sobre
Mônica. Mas, faltava a Agostinho, para que ele pudesse aceitar as doutrinas
católicas, “um argumento decisivo para demonstrar a falsidade dos maniqueus”,
isto é, um argumento que pudesse fundamentar a existência de seres incorpóreos,
ou seja, que Deus deixasse de ser uma imensa massa que transpassa tudo, como a
água que penetra a esponja. Em Ambrósio encontrou uma autoridade digna de
aceitação, por meio de quem encontrou aceitação nos textos bíblicos.
Ambrósio
auxiliou-o na remoção do véu místico pelo esclarecimento espiritual de
passagens bíblicas, entretanto, ainda que estas palavras fossem aceitáveis, Agostinho
ainda não estava “certo de que as palavras dele eram verdadeiras.” Havia
remanescente uma distância entre a aceitação e a certeza de verdade que deveria
ser percorrida. Necessitaria de um salto da fé, desde o abismo do orgulho
autônomo e da satisfação heterônoma dos desejos,
pois “desejava ter, em relação a fatos não demonstráveis, a mesma certeza com
que dizia que sete mais três são dez.” A fé católica em Agostinho preencheria
este espaço da humildade e da interioridade de uma aceitação e certeza verdadeira,
ou seja, racional. Ao perceber a autoridade de Ambrósio, pôde perceber certa
credibilidade nos textos bíblicos. Por meio de uma aproximação amistosa com o
Bispo Ambrósio, pôde aceitar a interpretação espiritualizada dos textos que outrora
eram inaceitáveis. A autoridade de Ambrósio conferia crença aos testemunhos
bíblicos.
A prisão de Alípio.
Foi pelo
testemunho de seu amigo Alípio que Agostinho percebeu que a verdade confere
certeza e autoridade (crença) a uma testemunha. Três histórias envolvendo este
amigo resumem, esgotam e possibilitam o salto da fé, o qual permitirá à razão
encontrar o sentido do retorno a Deus. Primeiramente a história dos espetáculos
sangrentos que apontam para a responsabilização pessoal pela inclinação da
vontade. Enquanto há apenas o aceite da razão, este não é suficiente para que a
vontade mude o comportamento habitual e vicioso de Alípio. Este jovem, embora
entendesse e aceitasse que os espetáculos eram cruéis, também aceitou
acompanhar outros amigos aos jogos e movido pela curiosidade, logo se deleitava
com a crueldade daquele evento. Assim, este relato procura demonstrar a
bivalência da vontade entre as paixões mais selvagens e a razão; a razão
isoladamente não é potência suficiente para inclinar a vontade ao que é eterno.
A segunda história
é aquela que relata a prisão deste amigo. Alípio ao estar próximo do cenário de
um crime e movido, novamente, pela curiosidade, pega o machado deixado no local
pelo ladrão. Ele é confundido - por um soldado
que, embora não tenha visto o ato criminoso, viu um jovem com uma arma na mão -
com sendo o próprio delinqüente, vindo a ser preso como tal. Foi o testemunho
do arquiteto superintendente
que alterou o rumo das investigações, possibilitando que se chegasse até a casa
do praticante do crime. Ao chegarem à porta da casa, daquele que até então era
suspeito de ter cometido o roubo, encontraram um jovem escravo e lhe
perguntarem da pertença do machado, ao que este logo respondeu: “é nosso”.
O testemunho deste jovem escravo manifestou a verdade. Aquele jovem escravo não
levou em conta seus interesses pessoais e nem os interesses daquela casa, por
isso, tais palavras evidenciaram apenas a verdade, sendo esta digna tanto de
aceitação como de crença.
A verdade não
foi manifestada nem pelo soldado, nem pelo arquiteto, nem por Alípio, mas, por
aquele que, independentemente da condição de jovem escravo, testemunhou desconsiderando
os interesses de si mesmo e da casa que ele servia. A vontade daquele jovem
escravo não se inclinou nem pelo medo das conseqüências de seu testemunho, nem
pelo desejo de satisfazer sua segurança, nem pela intimidação e nem pelo
favorecimento. A verdade foi dita a despeito das conseqüências e danos futuros.
Seu testemunho verdadeiro responsabilizou a si mesmo, plenamente, por suas
inclinações e decisões, ainda que suas decisões estivessem submissas às do seu
senhor.
A terceira
história deste jovem amigo de Agostinho trata da inclinação da vontade pelos
interesses pessoais e da autoridade verdadeira. Alípio fora intimidado e,
posteriormente, submetido a uma tentativa de suborno, por um senador muito
poderoso, que desejava a concessão de favores ilegais, o que foi recusado por
ele. No mesmo período desejou, ele mesmo, utilizar dos benefícios de seu cargo
e dos recursos a ele conferidos, a fim de transcrever manuscritos. Em ambos os
casos o que estava em questão era a satisfação de interesses pessoais – quer do
senador, quer de Alípio –, diante da responsabilidade pessoal em pautar-se pela
justiça verdadeira.
Entre a segunda
e a terceira história há a contraposição da autoridade do jovem escravo à ‘pseudo-autoridade’
do senador e a imatura autoridade de Alípio. Enquanto a autoridade
(credibilidade) do primeiro é proveniente apenas de seu testemunho verdadeiro,
a despeito de sua condição social e etária, a autoridade (credibilidade) formal
do segundo dilui-se diante da desconsideração com os princípios de justiça.
Desta forma, a credibilidade, ainda que desprovida de uma aparência eloqüente,
bela, é verdadeira quando é um testemunho que não faz inclinar a vontade nem
pelo temor, nem pelo prazer; antes, a vontade deseja aquilo que é. Este amor
pelo que é, que inclina a vontade, demanda responsabilidade do homem diante da
razão, mas, também, reclama pelo salto da fé, isto é, da humildade.
Estes três relatos sobre o amigo Alípio põem em relevo a responsabilidade
decisória pela inclinação da vontade, do homem. Também faz ressaltar o fato que
a credibilidade advém da verdade e esta deve ser buscada com o devido
escrúpulo. Por fim, que a verdade funda-se em princípios de justiça, os quais
fazem inclinar a vontade para aquilo que é, e não para aquilo que aparenta ser.
Ainda que a
verdade seja um relato que deseja o que é, pela inclinação da vontade para a
justeza e para os princípios de justiça, a verdade, como discurso, enseja a
crença. Para Agostinho “já não lhe parece tão irrazoável partir da fé, posto
que toda a nossa vida social se baseia, em derradeira análise, na crença.”
Na própria história da prisão de Alípio os relatos envolvendo o soldado, o
arquiteto e o jovem escravo trazem dois componentes: a progressividade da
certeza, a qual parte da presunção do soldado, do conhecimento pessoal do
arquiteto, até a certeza do menino; e a crença naquele que protagoniza o
evento, inicialmente a crença na autoridade militar, posteriormente a crença na
autoridade do superintendente e, por fim, a crença na autoridade do menino que
fala a verdade a despeito de interesses pessoais.
Conclusão: fé e razão.
Enquanto a
crença exige um salto da autoridade funcional daquele que está exercendo um
cargo público, para a autoridade que se está revestido quando a vontade está
inclinada para o que é, a progressividade da certeza inicia-se de uma presunção
até que encontre o que de fato é.
Como nos diz Novaes, “tem que haver perfeita harmonia entre ambas (razão e fé).
Dizem respeito aos mesmos conteúdos: aquilo mesmo em que se crê também se quer
entender, ver ‘à luz da razão’ [...] Há, pois, uma coincidência de terrenos
para a fé e para a razão.” A
fé é a inclinação da vontade ao que é, e a razão é a busca da inteligibilidade do
que é. Ambos tem o Ser como destino. Além disto, ainda nos fala Novaes que “a
fé é racional não apenas porque é coincidente e compatível com a razão, mas
também porque ambas devem se estender sobre os mesmos domínios, devem
compartilhar os conteúdos.”
Ambas, a fé e a razão encontram-se no amor ao que é, abandonando tanto a
heteronomia das paixões, quanto a autonomia do orgulho e vaidade.
Ademais, a fé
como inclinação da vontade ao que é da verdade, impulsiona a razão desde o
ponto mais desprovido de certeza, buscando o conhecimento progressivo da
verdade. Não
apenas no transito circunstancial de Alípio desde seu aprisionamento pelo
soldado, movendo-se até o arquiteto e indo à casa do que efetivamente roubou.
Mas, na meta-história de Agostinho, partindo do roubo das frutas – sua
profundeza abissal na distância do saber –, transitando pelas inúmeras amizades
que se deram a partir da leitura de Hortêncio, que relatam sua progressão
racional da busca pela sabedoria, do enfrentamento do pecado e a aproximação da
fé, isto é, do salto da humildade.
Esta progressão
racional, esta busca do intelecto em conhecer a verdade, exige o direcionamento
da fé, até a “plena inteligência.”
A fé, assim, purifica a inteligência a fim de que esta possa progredir até ao
conhecimento do que é: Deus. Em todo o percurso das amizades de Agostinho, foi
a fé, que direcionando a razão, tanto o impediu de se manter detido no que era
falso, quanto o conduziu para “o verdadeiro caminho”.
A fé, contemplando o que a razão ainda não pode ver, conduz esta ao que será
contemplado, pois, “a fé opera uma transformação da razão porquanto cria para
esta a exigência de se mover, de procurar a verdade para além dela mesma.” Assim
é que a fé promoverá, em Agostinho, o salto para além do ceticismo, o qual
sucedeu o maniqueísmo, para um conhecimento que possa “responder à pergunta: o
que é Deus?”
Sobretudo,
porém, podemos perceber na leitura das Confissões de Agostinho a presença da
amizade como fato indispensável nesta caminhada universal. Ou seja, o outro nas
Confissões não é um coadjuvante descartável ou irrelevante na progressividade
da razão; antes, é co-autor com o autor desta narrativa confessional. Conforme
fizemos notar, desde o título deste livro, Agostinho clama não apenas a Deus,
mas reclama a presença amistosa de um leitor, que não rindo, caminha juntamente
neste ato de fé impulsionadora e de razão esclarecedora das inclinações da
vontade e desejo de felicidade. Ele reclama por um amigo que lhe dê crédito e o
acompanhe no caminho.
Instigando-nos
neste percurso de uma amizade universal e chamando à lembrança seus amigos, ele
tenciona e é intencional em rememorar-nos que a existência humana é mais que urbana,
é política. Que a fé e a razão, nos termos daquilo que direciona e daquilo que
esclarece, é um ato de vontade - guardando novamente o risco anacrônico -
dialógico. Que a direção e o esclarecimento estão circunscritos na vontade
relacional e na caridade. Que a vontade relacional e a caridade ultrapassam os
limites tribais do nós-eles e da descrença nas possibilidades relacionais,
abrindo-se a todos, mas, especialmente aos que se derem ao diálogo. A
existência do gênero humano e de todos os que volvem os olhos a estas palavras
está para além daquilo que podemos racionalmente conceber, mas que está aquém
das utopias irrealizáveis, pois que se move no campo do que é.
Neste percurso
direcionador e esclarecedor, o amigo é o outro que não desaparece no narcisismo
do mesmo, da mesmice da irracionalidade crédula e nem na instrumentalização
útil do consumismo da proximidade, de usufruir de um corpo com alma. Talvez o
amigo agostiniano seja aquele que, instigado pelo diálogo entre díspares (por
exemplo: Agostinho e Fausto), procure encontrar caminhos e cruzamentos comuns.
Talvez o amigo seja o ato de humildade daquele que tendo encontrado seu limite
racional, reclame a presença da intimidade. Talvez o amigo seja a confissão de
que não podemos caminhar só.