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Culpa

A maioria de nós já escutou uma daquelas histórias de experimentos científicos com animais. Aquelas que visam demonstrar como é possível, a partir de ações externas, condicionar o comportamento dos bichinhos e então os pesquisadores e estudiosos do comportamento, fazem extrapolações para os seres humanos.

Um exemplo que podemos citar é aquele em que um rato é colocado dentro de uma gaiola; de tempos em tempos um sirene é tocada como aviso de um iminente choque elétrico, que é desferido quase que imediatamente.

Nas primeiras vezes que o rato é submetido a este teste, ainda não condicionado ao efeito do choque que segue o ruído da sirene, ele procede naturalmente. Após ser submetido repetidas vezes, o animal ao ouvir a sirene entra em pânico e se debate na gaiola, pretendendo conseguir uma forma desesperada de se livrar do choque. Mais adiante, ao som da sirene ele apenas se deita e aguarda o inevitável: o choque.

Outro exemplo do como o meio externo pode condicionar animais aos estímulos externos e determinar seu comportamento diante daquilo que ele julga inevitável é como os domadores de elefantes obtêm uma subjugação absoluta.

Vemos aqueles enormes paquidermes nos circos, presos por uma corrente, que diante da força do animal, seria comparável a amarrar um ser humano adulto por um fio de cabelo. Como pode um ser que tem força suficiente para mover toneladas de peso, ser retido por uma corrente que, com certeza, não suporta a tensão de algumas centenas de quilos?

Quando o elefante ainda é pequeno, o domador coloca em uma de suas patas uma corrente com objetos que provoquem dor quando ele procurar rompe-la. Cada vez que ele tenta quebrar a corrente, esta lhe causa muita dor, somado ao fato de que ela suporta com folga a força daquele jovem animal. Depois de um período de condicionamento o elefante desiste, por conta da dor e da impossibilidade de tentar livrar-se da corrente. Desta forma ele passa a estar condicionado por um agente externo, que diz a seu cérebro que ele nunca irá libertar-se e em caso de tentativa provocará dor.

Mais tarde, já com o animal condicionado, o domador troca a corrente, colocando no elefante adulto uma frágil corrente, que somente lhe trás à memória o significado da tentativa de escape.

O ser humano é um muito diferente dos ratos e dos elefantes, mas com certeza estamos, desde nosso nascimento, sendo bombardeados por ideologias condicionantes, que vão além da nossa formação cultural, determinando crenças inconsistentes e convicções falsas, que nos tornam prisioneiros de um código moral do grupo social que estamos inseridos e daqueles que pressupõe ser os legítimos legisladores do modo pensante.

Estas ideologias condicionantes determinam a nós um legado de moral mais que perfeito, dotando-nos de um superego (representante interno dos valores tradicionais e dos ideais da sociedade) supernutrido, estabelecendo padrões de conduta e realizações sobre-humanos, que nos leva, desta forma, a nos tornar prisioneiros dos interesses de um sistema de valores que nos faz repetidores, juizes e multiplicadores de condutas mantenedores do “status quo”.

A teologia da culpa é, por certo, um dos instrumentos da religião, que visa tirar do povo o potencial energético e operativo, que é estabelecido dentro de nós para que sejamos a tradução tangível do propósito de Deus na terra, para a execução de nosso destino profético e humano: sendo os dois a mesma coisa.

A teologia da culpa põe no centro focal da existência humana um padrão superestimado, como forma de agradar a Deus e viver em comunidade, o pecado como sendo o desvio mínimo deste padrão inexeqüível e a culpa gerada quando a prática existencial difere do ideário religioso: o padrão inexeqüível. Todo o mal que sucede a uma determinada pessoa, a partir desta teologia, é fruto direto, causa e efeito simples, de um pecado cometido: ela é culpada de um erro e, portanto, merecedora do peso do castigo divino. Como certa vez ouvi, “além da queda, o coice”.

É terrível ver alguém debilitado pelos antagonismos da vida cotidiana, tendo que enfrentar suas carências, limitações, dúvidas, instabilidades, stress, idiossincrasias, etc, ainda ser acusada por si mesma e pelo grupo social, por um erro, que pode não ter cometido. Pressões externas e conflitos internos, conspirando contra o prosseguir e o avançar, tendo um forte aliado, uma âncora da alma humana: a culpa.

A culpa é, de certo modo, o fruto de um modelo externo perverso e distorcido implantado em nós por alguém; ela decorre do descumprimento dos padrões simbólicos de comportamento mítico, isto é, há um desenho da perfeição que é a idealização de um tipo de ser perfeito e que não transgride, o qual se torna modelo para nosso comportamento cotidiano, não somente moral, mas como também de acesso e relacionamento com o que há de belo, bom, amável, puro, verdadeiro, santo, idôneo, etc, traduzido por figuras divinas ou sobre-humanas, seres mitológicos, que representam o padrão ideal de comportamento dentro de um grupo, que passamos a nos tornar imitadores ou imagem deles, sobre quem devemos projetar nosso comportamento; quando, e freqüentemente é assim, não podemos atingir tal ideário de perfeição, percebendo nossa humanidade é gerado um conflito entre o imaginário perfeito e a realidade do erro. Este conflito é exacerbado até a culpa.

Esta teologia foca em primeira instância o pecado (seus aspectos morais e as atitudes, palavras e ações que carregam seu peso), a submissão cega àqueles que por conta de sua santidade (mitológica) acessam aos oráculos divinos e podem dizer o que é certo e o que é errado, estabelecendo o padrão de conduta divina para o homem, e os impulso internos que nos fazem buscar não somente nos relacionar com Deus e com o grupo, como sermos portadores e projetores dos valores ideais. É factível pensar que todo homem queira ser bom e se relacionar com o que é bom.

Há então, de um lado o pecado em sua face moral, de outro o padrão em sua face mítica e, compondo o tripé, a dualidade humana entre o prazer proibido e obrigatoriedade perfeccionista religiosa. O erro, ou o pecado, é a ação deliberada de saída para fora do modelo pré-determinado. A culpa, mais uma vez descrevendo-a, é fruto da consciência da ação deliberada pela escolha do erro em detrimento do padrão. Quanto maior a distância entre o ideal (padrão mítico) profundamente enraizado e buscado, e a realidade (estilo de vida) ardentemente desejada e efetivada, maior a culpa.

A culpa não é gerada pela consciência de Deus e de Seu padrão qualitativo para o ser humano, antes é gerada por crenças falaciosas que inflam o superego (ele mesmo sendo o árbitro moral internalizado de conduta, ele representa o ideal mais do que o real e busca a perfeição mais do que o prazer) é a consciência do delito contra o padrão idealizado pelo ser humano, para o ser humano.

Os caminhos para destruir o processo de culpa vão diferir de pessoa para pessoa, com certeza esta vai demandar um acompanhamento competente que a leve de um estado de peso e (como os ratos de laboratório) exaustão espiritual, para um de compreensão e paz interior, mas, temos forte convicção que um relacionamento direto com Deus (que difere do ideário mítico), não somente trará liberdade da culpa e descanso interior, como redundará numa percepção de trajetória para a realização o potencial de vida que está em cada um de nós.

Jesus nos fala: “Vinde a mim, todos os que estai cansados e oprimidos, e eu vos aliviarei” (Mateus 11:28). Também o profeta Isaias falando do Senhor revela: “O Espírito do Senhor Deus está sobre mim, porque o Senhor me ungiu para...enviou-me a restaurar os contritos de coração, a proclamar liberdade aos cativos...a consolar todos os tristes...óleo de gozo em vez de pranto, vestidos de louvor em vez de espírito angustiado...” (Isaias 61: 1 a 3).

Mas, o maior exemplo de que a graça sobrepuja o pecado (Romanos 5: 20) e o amor elimina a culpa, está descrito em João 21: 15 a 17, quando Jesus, já ressuscitado, procura Pedro e estabelece com ele um diálogo.

Para entendermos o que se passa neste momento, precisamos ter um olho histórico do relacionamento de Jesus com Pedro. Pedro era mais do que simplesmente um dos doze discípulos de Jesus, era um dos três discípulos que compunham o núcleo de intimidade de Jesus. Era com Tiago, João e Pedro que o Senhor ia orar; eles subiram ao monte da transfiguração e viram aquela operação divina; Jesus disse a Pedro: “você é uma alegoria da igreja que estou edificando” (Mateus 16: 18); foi Pedro que declarou a Jesus: “para onde iremos se somente o Senhor tem as palavras de vida eterna?” (João 6: 68); foi Pedro que tentando impedir que levassem Jesus à julgamento, arremeteu-se contra os guardas armados e feriu a um deles; enfim, foi Pedro quem traiu a Jesus, negando por três vezes conhece-lo.

Imaginemos estar por três anos e meio com Jesus, ver suas obras, seus milagres, ouvir seus ensinos, andar com ele, comer com ele, abdicar de tudo para segui-lo exclusivamente, crer ser ele o Messias, Deus entre os homens, a expressão de todo código de conduta divina, não um mito, mas uma realidade tangível e acessível. Por três anos e meio fazer parte do rol de amigos íntimos do Senhor Jesus; entre milhões de homens judeus, você ser o escolhido para andar com o ícone da perfeição divina. Numa noite de conflitos internos e pressões externas você, que já estava previamente avisado do fato, é argüido por alguém se caso você conhece a Jesus (valores morais internos de compromisso, fidelidade, amizade, verdade, heroísmo) e por três vezes responde não (desejo ardente de preservação da integridade social, física e psíquica)!

Neste instante o código moral, baseado no homem Jesus e o ideário que Pedro estabeleceu em sua mente distanciam-se da sua atitude de preservação da integridade, gerando um abismo de culpa!

Pedro um homem que carregava a culpa de traição, agora se aproxima dele Jesus e inicia um diálogo, não baseado na lembrança de atos passados, mas sob uma nova égide, baseado na graça/perdão, amor e propósito.

Enquanto o pecado tem base na perfeição intransigente, o perdão aponta para a liberdade para crescer. O perdão gracioso de Jesus a Pedro não tomou como pré-requisito uma confissão de pecados, nem um pedido de desculpas: foi incondicional e arbitrado de Jesus para Pedro. A culpa perde seu potencial destruidor, quando percebemos que já temos o perdão gracioso de Deus e que agora somente necessitamos compartilhar deste perdão, nos auto-perdoando.

A segunda migração de valores que Jesus está edificando, refere-se ao esvaziamento do superego inflado. O código moral idealizado por Pedro, para si, criou um padrão mítico inexeqüível, enquanto Jesus suplanta o superego de Pedro e apresenta o amor de Deus como referencial de relacionamento e padrão de conduta. Este amor divino referencial e padrão, é um código ético que deve nortear nossa existência e relacionamento com Deus, conosco e com o próximo, que expurga juízos comportamentais e adota referenciais de suporte mútuo.

A dubiedade entre o prazer desejado (que é o retrato do mal) e dever obrigatório (que é o retrato do bem) nada mais é do que o maniqueísmo da alma, a luta do bem e do mal. Jesus vai a Pedro e não lhe oferece uma explicação maniqueísta que lhe poria no suposto conhecimento das causas e efeitos de seus atos, mas altera o foco e lhe propõe um propósito; “apascenta minhas ovelhas”. Este propósito apresentado por Jesus, procura resgatar em Pedro o princípio de movimento essencial (“tu me amas?”) e a tecnologia divina para a execução do propósito (Jesus estava lembrando o compromisso que fizera a Pedro, em Mateus 16: 18, de edificar Sua Igreja a partir da tipologia que carregava em seu próprio nome, Pedro: Petra em grego é uma grande rocha que é Cristo e petrus é uma pequena pedra que é Pedro. Por isto Jesus fala: “tu és petrus, e sobre esta Petra edificarei minha igreja).

Em fim, Jesus oferece a graça/perdão, o amor e o propósito, removendo as bases de sustentação da culpa.

Para que possamos remover sem provocar vácuos interpretativos, devemos ressaltar que a culpa ela realiza a paralisia operacional da vida, impede a manifestação do potencial do destino profético, oprime nossa criatividade produtiva e deprime nossa motivação e vontade, entretanto ela deve ser substituída pelo senso de responsabilidade, que por sua vez é agente que mobiliza, estimula a realização e a execução, motiva os ideais factíveis e potencializa a migração, o conhecimento e aperfeiçoamento.

Enquanto a culpa está atrelada à imobilidade, a responsabilidade está conectada ao arrependimento. Arrependimento é a noção pró-ativa do erro, que produz aprendizado, transformação, reordenação e prosseguimento processual. Arrepender no grego é metanoeo que significa “pensar diferente”, que vem da palavra nieo, que significa “exercitar a mente, compreender, considerar, pensar, entender” e da palavra meta, que significa “no meio de, com a qual está junto”. Assim o arrependimento não está atrelado a processos internos de culpa e penalidades, cobranças insanas de resultados, mas o arrependimento está atrelado à compreensão das ações feitas que não promovem o propósito ou que não são coerentes com a lei do Amor, demandando alteração das motivações e atitudes, gerando um peso de experiência e aprendizado.

Nós não somos elefantes condicionados pelas correntes de culpa, somos seres humanos que podem, a todo instante rever sua fonte de vida, seus códigos de valores e até mesmo ver, ou rever, o propósito de sua existência. Ninguém pode tirar de nós a liberdade que alcançamos em Cristo, o acesso a um Deus, que sendo santo, amou-nos na qualidade que estamos e não na que idealizamos em nossa mística religiosa. Embora estejamos, muitas vezes, aprisionados por culpas falaciosas, alimentadas por nosso superego, podemos nos despir deste peso e apascentar o rebanho do Senhor.