Cheiros
E,
posto em agonia, orava mais intensamente; e o seu suor tornou-se como grandes
gotas de sangue, que caíam sobre o chão.
Lucas 22: 44
Dizem
que um dos sentidos que mais marcam a memória é o olfato. Perfumes, odores,
cheiros re-conduzem à presença de momentos, lugares, pessoas, situações por um
tipo de conexão entre a sensação presente, a sensação passada e a lembrança
de outros fatos. Somos o que somos por esta história peculiar e singular que
apenas nós somos os guardiões. Somente nós temos em memória este rastro de elos
vivenciais, esta rede que nos prende e nos arremessa. Não sendo vítimas nem
prisioneiros, somos artesões da história, ainda que não possamos arrogar uma
plena liberdade. Mas, enfim, há no cheiro uma renovação, pela memória, de uma
vivência, havendo nesta um sentido de unidade do que chamamos ser. Claro que
não é o cheiro que nos oferece esta totalidade unificada, mas é ele quem
colabora eficientemente em tal tarefa, ele é este nó mais forte que configura
a rede. O passado e o presente se unem pela memória, a qual é eficientemente
presentificada pelo olfato.
Entretanto podemos dizer que há cheiros e cheiros. Não apenas há perfumes e
odores captados do exterior pelas terminações nervosas em nossos narizes e
decodificados em nosso cérebro, como também podemos certamente diferenciá-los
face, inclusive, à nossa cultura, história, gostos. Mais do que a sensação
produzida pelo contato de partículas químicas e pelos nervos de nossa própria
biologia (e certamente pela física), há um cheiro que está apenas na linguagem
e no espírito. Apoiado no olfato como possibilidade metafórica, o apóstolo
Paulo disse que “porque para Deus somos um aroma de Cristo, nos que se
salvam e nos que se perdem. Para uns, na verdade, cheiro de morte para morte;
mas para outros cheiro de vida para vida. E para estas coisas quem é idôneo?
Porque nós não somos falsificadores da palavra de Deus, como tantos outros;
mas é com sinceridade, é da parte de Deus e na presença do próprio Deus que,
em Cristo, falamos.” (2 Coríntios 2: 15 – 17). O aroma, ou aquilo que nosso
olfato pode perceber e tornar presente o que está guardado em memória, é posto
como a qualidade do que se fala. É a fala, a linguagem quem qualifica o aroma:
se cheiro de morte ou de vida.
O odor
podre de morte pode ser exalado de uma linguagem que ainda teima em estar
presente. O odor podre da linguagem que morta mantém-se como um fantasma que
ronda e povoa o mundo dos viventes. Este aroma fúnebre insiste, como um
morto-vivo, re-memorar crenças e valores que estão espiritualmente mortos.
Coisas como “há um padrão de perfeição na mente de Deus e este deve ser buscado,
conhecido, imitado e realizado como verdade” - entendendo a perfeição como
completude, finalidade e plenitude -, sopram em nossas narinas o odor
insuportável de uma linguagem putrefata que insiste em perambular por ai. É
como se ousássemos perguntar para os mortos como deveríamos viver o presente,
caindo, assim, na tentação da necromancia, tão negada numa lei museificada. Um
museu a céu aberto que abriga zumbis.
Zumbis,
que pôr meio de suas linguagens mortas, tecem teias de aranha a fim de aprisionar
a tantos, intentando tirar-lhes o suco vital, o espírito, ratificando a
representação da fala sobre o pecado, da culpa, do juízo e do inferno. Segundo
sua linguagem, peca-se por não corresponder em suas vidas ao padrão de perfeição,
portanto somos mentirosos. A mentira é esta distância entre os valores que se
diz crer e as realizações efetivas. Ao mentir, pois dizem crer em Deus e em suas
palavras eternas, mas não vivem segundo aquilo que dizem crer, são culpados. A
culpa provém do dever conformar-se ao padrão e não realizá-lo em suas vidas,
recaindo sobre si um sentimento de falta de esforço e vigor, fragmentação,
dualidade, apego ao transitório e imperfeito face ao dever pelo perfeito e
eterno. Diante de seus pecados e por meio de sua culpa individual, são ajuizados
e condenados, irremediavelmente. Face ao pecado, culpa e condenação, são lançados
no mais sombrio e mortal inferno espiritual. O deus aranha tem como finalidade
sugar-lhes vida e aprisioná-los como bagaço lançado no inferno.
O deus
aranha fede morte! O deus aranha prega o não pecarás. Sua linguagem é plena de
negação e negatividade. A linguagem é sua teia. Esta teia grudenta, translúcida
e inquebrável aprisiona aqueles que não encontram forças para dali escapar. Suas
garras sugam o espírito vital que há naqueles que livremente se envolveram com
esta armadilha. O abismo infinito interior desta viúva negra, não sendo
preenchível pela seiva dos viventes, requer sempre a caça de novas vítimas, as
quais serão esbagaçadas. Por vezes, como virgens que abrindo a janela para a
visita dos vampiros que lhes sugam o sangue e, assim, vêm tornarem-se sedenta,
igualmente, por sangue alheio. Aqueles que se conformam, vagam como vampiros
noturnos. Quanto mais vampiros, zumbis e aranhas, mas, exponencialmente, são as
presas e as virgens que se entregam, que devem se entregar.
Mas o
odor de morte cresce como sedução mútua. Vampiros e virgens seduzem-se
mutuamente sem culpa e sem pecado, antes, num prazer erótico-espiritual-orgásmico.
O paradoxo extremo está na linguagem sedutora que seduz um e outro pelas palavras
de pecado, culpa, juízo e inferno, mas que escapa da própria culpa e do pecado na
sedução. Pelas velhas e míticas palavras envolvem seus corpos entregues à sedução,
gozando em solidão pela imaginação da entrega. A sedução desfaz a hierarquia deste
fluxo de vida fundado na própria diferença entre virgem e vampiro. O que está em
jogo é o desejo e a entrega infinitas, abissias e impossíveis.
Mas a
ausência de um espírito nesta espiral abissal remete toda vida para o buraco negro
da existência sem presença, repica como cheiro insuportável que se levanta e
alastra para fora da morada dos fantasmas. Do grande e suntuoso castelo de Drácula
escapa o aroma da mortalha que ali se esconde. Deste edifício majestoso erigido em
nome do deus aranha, escapam funestas fragrâncias. Estes gases mortuários aspirados
por não mais poderem ser contidos no interior daquela negra estrela morta que está
prestes a explodir. Ainda que os sentidos quantifiquem a grandeza e a exuberância
da construção, o espírito já sente o cheiro de ruína e morte, como que em ressonância
com o profeta que disse: “caiu a grande Babilônia!”
No entanto
há um aroma que se exala da pretensão de negação desta ou daquela linguagem, a qual
diz deixar a fala de morte. Mantém-se seduzido e seduzindo neste novo jogo de desejo
e entrega sem, contudo, afirmar-lhe. A linguagem proposta sendo negação antes de ser
posição, apenas assinala um viés sedutor pela oposição. Um novo arranjo para uma
velha música fúnebre. Negando o discurso sedutor, mantendo a magia da sedução presente
na língua, assegura-se da manutenção da relação mórbida de entrega e diluição no nada.
Nega-o para afirmá-lo. Diz sim a Nosferatu e diz não ao Conde. Muda-se o odor, mas não
a morte. A linguagem toda está putrefata e significa a inveja para com aquele que já
seduziu, afirmando a nova possibilidade de sedução. A inveja do sedutor seduz para uma
nova sedução. Um abismo chama outro abismo.
Mas há um
aroma que pode inspirar e que exala da própria finitude da linguagem. Aquele que
afirma que na rede de valores singulares que o individuo tece e que compartilha
não como dogmas, monólitos e caminhos universais, pode se aceitar o outro como
próximo e a linguagem do outro como portadora de experiências verdadeiras. Uma
linguagem sem perfeição, sem padrão, sem eternidade, não tribal, não universal,
não monopolista, mas que se presta à experiência de traduções infinitas para
tantos aqueles quanto se colocarem em assembléia, em diálogo. O diálogo em meio
a alteridade que se fala em sinceridade, e não em perfeita verdade. Sinceridade
daquele que fala a partir da vida e para a vida. A vida que é o próprio sentido
de existência daquele que é humano e como tal está na vida. Fala-se porque é
vivente e fala para aqueles que vivem. O aroma suave é o cheiro do sangue daquele
que suando sangue na terra diante da morte desejava a vida. O cheiro suave do
sangue de morte que ao ser vertido converte-se em vida. O cheiro do sangue, que
vertido na terra e que não subiu para o céu, que re-memora a vida.
O cheiro
da vida que desfaz o pecado, a culpa, o juízo da lei e o inferno, pela justiça.
O aroma de vida que suplanta o odor de morte desfazendo a morte pela entrega da
vida. A entrega da vida que sonega o poder, retira da morte seu aguilhão. O poder
que é sonegado por aquele que pedindo perdão àqueles que não sabem o que fazem,
embora estes saibam que a lei lhes outorga o poder de morte. O poder da lei é
sonegado pela linguagem da vida no dizer do perdão ao que peca. O pecado é
tratado pelo perdão, que fazendo justiça desfaz o juízo, abrindo as portas do
inferno. Ora, na linguagem daquele que desfaz o poder pelo perdão, chama para
próximo de si aquele que estando distante por outra linguagem espera por
tradução. O aroma suave de vida se faz sentir pela linguagem daquele que
sonegando a lei, traduz. E em traduzir chama para perto de si o que fala
diferente e negando sua linguagem original fala a língua do outro. Põe-se
próximo ao inimigo, tão próximo quanto da sua morte. Sua proximidade que pode
ser morte, não cala sua linguagem que remanesce como cheiro de vida na lembrança
dos que vivem. As valores que tecem sua linguagem são aqueles que o conduzem a
volatização da dogmática em prol da proximidade.
Assim,
o aroma de vida está na linguagem daquele que se movendo para o outro,
esvazia-se de suas certezas, visando a justiça que está na linguagem de tradução.
Apenas o que se abstém do poder legal que lhe confere a tradição mortal, poderá
ouvir a tradução de Deus na vida com o próximo. Permitir-se como Paulo, ainda
que o espelho seja Cristo, que deixando Jerusalém dirigi-se a Roma, que
abdicando falar a língua dos Hebreus falou o grego e deixando a tradição
farisaica da Lei sucumbiu à Graça. Espelhando-se em Cristo que deixando sua
condição divina, esvaziando torna-se homem, servo e entregue à cruz. Homens que
deixando seus lugares de origem, de perfeição colocaram-se ao lado do outro e
com este promoveram o diálogo aromático da tradução de Deus.