Evento: VI Seminário de Psicologia e Senso Religioso.
Título: Metáfora metamórfica:
parada narcisista em marcha.
Autor: Marcos Nicolini
Titulação: Mestre em Ciências da
Religião – Mackenzie - São Paulo
GT: 7 Práticas Religiosas e Corporeidade
Coorden.: José Franciscom Henriques Bairrão
Ninguém pode ter deixado de observar, em primeiro lugar, que tomei como
base de toda minha posição a existência de uma mente coletiva, em que ocorrem
processos mentais exatamente como acontece na mente de um indivíduo.(Freud,2005, p. 160)
Como trabalhar um acontecimento como metáfora quando este já se
envelheceu? A questão do envelhecimento como feiúra poderia nos permitir
simular novas metáforas, mas fica apenas, por hora, o desfio de re-novar um acontecimento que já nos parece ter ocorrido há
décadas, ainda que tenha se dado poucos meses atrás. Este envelhecimento
metafórico específico a que nos referiremos, talvez possa ser pensado a partir
da Sociedade do Espetáculo, proposto por Guy Debord e
mais tarde trabalhado por Jean Baudrillard como Simulacro. Pela via destes
pensadores tudo é produzido já como espetáculo e para ser espetacular. E como tal
já não tem como referência a verdade, mas o próprio
espetáculo, portanto um simulacro.
Já desde a República de Platão que o simulacro pertence à ordem da
poesia, isto é, a poesia trata de imitar a imitação das idéias. A Idéia como
aquilo que é, a técnica como imitação da Idéia e a
poesia como imitação da técnica. Como um pintor que pinta uma mesa, esta que
surge em seus traços apenas reproduz a mesa feita pelo artífice, o qual imita, por meio da técnica a Idéia de mesa.
Mas segundo Baudrillard, já não se tem mais a Idéia por trás da imitação,
assim, o simulacro espetacular é a imitação da imitação, da imitação. Numa
cadeia infinita de produção de imitações como numa metástase. Em outras
palavras, como células cancerígenas que se reproduzem indefinidamente
esquecendo-se de morrer; como linhas produção. Nossa civilização que perdeu sua
crença nas idéias, segundo Baudrilard, agora está no
estado de pós-orgia, onde a “orgia é o momento explosivo da modernidade, o da
liberação em todos os domínios [...] Total orgia de real, de racional, de
sexual [...]” (Baudrillard, 1990, p. 9).
Espetáculo orgiástico que nos libera para a
simulação, e nos coloca no vácuo de finalidade, assim, “as coisas continuam a
funcionar ao passo que a idéia delas já desapareceu há muito.” (Baudrillard,
1990, p. 12) O espetáculo deve continuar talvez porque nele repousa a própria
sedução que vincula e mantém o espetáculo: tautologia orgiástica.
No dizer do mesmo Baudrillard, há uma proliferação do espetáculo e da estética,
sobretudo “a estética tornada transestética, o sexo
tornado transexual convergem todos para um processo transversal e universal em
que nenhum discurso mais pode ser a metáfora do outro, já que, para que haja
metáfora, é preciso que haja campos diferenciais e objetos distintos.” (Baudrillar, 1990, p. 14)
Parece-nos, desta forma, que perdemos nosso ponto referencial. Propomos
um trabalho em que se pense na metáfora de uma parada narcisista em marcha.
Aferramo-nos, contudo, naquela tautologia orgiástica
de um simulacro espetacular, onde cessa a diferença. Mas no próprio Narciso já
encontramos esta indiferenciação que nos permite
marchar e participar de uma parada. Mormente quando diz Baudrillard, “tudo tornou-se sexual, tudo é objeto de desejo [...] ao mesmo
tempo, tudo se estetiza [...]” (Baudrillard, 1990, p. 15) No entanto, onde tudo
é sexual, nada é sexual. De igual forma onde tudo é espetáculo, nada é
espetáculo. Tudo é exposto ao sexual e ao espetacular, fazendo, por esta via,
cessar a diferença que outrora separava.
As próprias diferenças sexuais marcadas, quer
por uma essência quer por uma natureza agora expostas ao espetáculo, se
desfazem. Os conflitos se tornam estéticos, sem referência à verdade mesma das
coisas, tornando as distâncias confusas, como um grande corpo de Marilyn
Maison. Os movimentos espetaculares apenas são partes deste “puzzel” estranho que se complementam, marcando seu espaço
enquanto ajuntam-se como o próprio espetáculo. Corpo indefinido totalmente
sexual e, portanto, assexuado. Um corpo narcisista que ama a imagem do outro, ao
amar a si mesmo. Narciso trans-sexual que ama o homem como mulher, ama como
homem e ama como bela imagem. Sedução espetacular transversal. Sedução
narcisista que marca a fronteira e se diferencia sem dar conta de que não há
diferença alguma no espetáculo. Diferença simulada.
Assim, pensamos se não poderia haver a possibilidade de que, como num
círculo de raio que, reduzindo seu módulo, desloca-se do infinito para o infinitésimo,
ou seja, se não poderíamos pensar num deslocamento pela própria orgia
espetacular daquilo que outrora separado e distanciado infinitamente pelos
valores de uma ética passada, vir a se dar ainda numa circularidade narcísica
onde as distâncias se perpetuassem por simulação. Pudéssemos, portanto, vir a pensar,
devendo fazer remanescer a tênue membrana fronteiriça, na homo-generidade
de caminhos que historicamente separados se encontram? Em outras palavras,
poder pensar que as peças do quebra-cabeças se encontram,
mas mantém o rasgo diferencial microscópico e a perda da diferença
macroscópica.
Estas peças outrora essenciamente separadas, marcadas
por força da distinção sexual, agora se encontram pela própria elasticidade do
espetáculo que se desenrola, que toma as ruas e se dá
num contínuo. Nas ruas os caminhos se encontram fazendo afluir uma metáfora
narcisista da hiper-sexualidade e da ausência do sexual. Tanto quanto por
contigüidade, proximidade infinitesimal cronologia e contingencial, que nos
reporta à própria imagem refletida em espelho de um narcisismo em sua
auto-sedução. Entrelaçamento do ágape cristão e do éros carnal matizando espetáculos identitários
e polêmica.
Assim que neste espetáculo narcisista de diferenças e proximidades, sejamos
permitidos visar por espelho. Mas neste olhar e ser olhado no espelho, vendo e
sendo visto por reflexo, negamos e odiamos aquilo que por proximidade absoluta
aparece em imagem concorrendo com a nossa. Nesta perspectiva que se dá pelo
olhar no espelho que olhando-me, amo-me, amo num amor homosexuado. Neste amor por vezes troco de sexo para amar o
sexo oposto que ali está refletido. O espelho invertendo a imagem faz
desaparecer a distância e confunde-se amante e amado,
refletido e reflexo. Ao amar a imagem de mesmo sexo que vemos ali, trocamos de
sexo para simular a diferença. Diferença percorrida e que se encontra na rua.
Rua que é o espaço que expõe todos às imagens espetaculares, em que a metáfora
da parada narcisista em marcha se torna presente e se desfaz.
A sedução é feminina. O poder que é masculino, o qual seduzido pelo
espetáculo se dissolve no espelho. Estranha hermenêutica que interpreta a
igreja como corpo do Cristo e noiva de Cristo. Em um mesmo Corpus comunga o
masculino e o feminino. Corpus este que marca a metáfora da marcha da Noiva de
Cristo que em seu
Corpus Cristi, numa sexta-feira
apaixonada, antevê o renascer no domingo de aleluia sua ressurgência
como parada gay.
Este corpo do Narciso que se olhando no espelho, ama-se – ágape - como
igreja crida como absolutamente feminina, deixa-se seduzir por uma espiritualmente homo-sexuada,
num caminhar espetacular marginal erotizado. Homens e
mulheres caminham numa marcha que marca a presença política, isto é, como
intenção de marcar a presença e o espaço no cenário masculino do poder, como
Noiva de Cristo. Homens e mulheres que cantam, dançam, pulam, emocionam-se,
seduzem espetacularmente como Corpo de Cristo. Corpo que alegremente e
ordenadamente marcham espetacularmente como poder político, com expressões
poéticas e gritos de: “São Paulo pertence ao Senhor Jesus”.
A cidade se silencia por um dia, mas no outro e nas ruas, que ainda que
não sejam as mesmas pertencem à mesma cidade, ressurge a multidão não mais como
marcha. A parada do corpo desnudo que tomando de assalto o espaço público e
central, reclama a visibilidade do olhar masculino. Contudo reclama o olhar
masculino como violenta imagem que interdita a diferença natural. A presença
como corpo de Narciso indiferenciado apaga a crença natural e essencial na
própria diferença. Seduções mútuas de Narcisos apaixonados por si mesmo que
reivindicam sua aparição espetacular. Narcisos e Narcisas
que fazem e desfazem a diferença, tanto como espetáculo de caminhantes que
ocupam as ruas, como do simulacro da desreferenciação.
Narcisas, assim as chamaremos temporariamente, que
auto-seduzidas reclamam a beleza de si, sempre negando a outra, sempre opondo-se à outra imagem similar.
Contudo, ainda que a marcha e a parada reivindiquem espaço público
singular, e, aparentemente tenham agendas próprias, suas presenças
espetaculares nos permite pensar que elas perfazem uma única caminhada elástica
e contígua. Não apenas como presença como espetáculo, mas, além disto, como movimentos espelhados quer na permutação da sexualidade,
quer na ambivalência entre refletido e reflexo, entre marcha e parada. A
presença como espetáculo que se dá por meio do corpo. O narcisismo
preponderante de caminhos que demandam visibilidade e espaço político marca a
proximidade, ainda que sejam mantidos liames separatórios.
Ademias e por esta via, a proposição desta metáfora metamórfica tem como
referência não apenas o encadeamento cronológico, a espetacularidade,
a grandeza quantitativa, a proximidade semântica entre paradas e marchas, mas,
e, sobretudo, a transmutação do ágape em Eros. Um Eros
civilizado que originando-se como desejo desenfreado
por felicidade, expressa-se em ordenada caminhada política. O deslocamento de
uma espiritualidade voltada para a comunidade em que seus indivíduos
compartilhavam dores, necessidade, alegrias e prazeres, para uma experiência
grupal demandatória de poder político e acesso aos
bens sociais, onde a massa de transeuntes desloca-se pelo espaço público sem
que haja no interior deste rebanho necessários entrelaçamentos. Tal movimento que
se percebe como metanóia espelhada, ou seja, uma mudança de
direção do sentido religioso, no qual o amor como amor ao próximo, amando a sua
própria imagem, perpassa não apenas a multidão, mas incide sobre o indivíduo.
Este indivíduo que acata uma crença homo-sexuada
que o expõe e lhe impõe expressar-se por vezes como Noiva de Cristo e por vezes
como Corpo do Cristo, o qual oscila entre a masculinidade e a feminilidade em
vista de uma doutrina. Sedutora e seduzida, Narcisa
de sua crença auto-centrada em sua subjetividade, reivindica
soberanamente sua presentificação política e ao
consumo: sua marca soteriológica. Sua presença
política civilizada é expressão do desejo de participação no consumo de bens, como
felicidade. Assim, podemos entender que este espetáculo anual, pretensamente
movido pela fé, tanto pode ser traduzido como mais uma expressão da Industria Cultural e da Sociedade do Espetáculo, como de
fato é marcado por uma sociedade desreferenciada e
que tem nestas expressões, quer na marcha, quer na parada, manifestar sua
necessidade de visibilidade e inclusão no consumo através do corpo.