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III Congresso Internacional de Ética e Cidadania: Religião e Ciência

GT 9:                          Ética, religião e política

Coordenador:             Breno Martins Campos

Autor:                         Marcos Henrique de Oliveira Nicolini

Titulação:                    Mestre em Ciências da Religião

Instituição:                 Universidade Presbiteriana Mackenzie

 

Título:                         Ética como tradução?

 

Resumo:

Tomar como metáforas a construção de dois edifícios e seus respectivos elementos construtivos, que ali se empregaram. O projeto de Babel, sua técnica de produção padrão de tijolos e betume, materiais de soerguimento e ajuntamento da Torre, os quais podem ser identificados com a única língua e a forma de falar. O plano babélico e o desejo de seus construtores em se projetarem sobre e além do solo comum, para perpetuarem o nome. Como tensão política, visar o edifício possível de antever no Pentecostes bíblico. Sua poética presente como tradução no mundo das relações horizontais, marcada pelas diferenças étnicas, culturais, sociais e religiosas, fundada na aceitação e reforço da alteridade. A experiência como um ajuntamento em tradução; a universalidade implicando no ajuste de pedras vivas que se inter-moldam. Referenciando em Jacques Derrida, Haroldo de Campos, Olgária Mattos, a Bíblia e outros, pensar a ética entre a tirania de uma linguagem hierárquica e de um trabalho inesgotável de tradução.

Palavras-chave:           monolingüísmo, pentecostalismo, alteridade

 

A Torre de Babel segundo o texto bíblico, cidade e edifício erigido pelos homens a partir de técnicas específicas, com o desejo de impedir a dispersão humana e garantir a perpetuação do nome. A Torre de Babel como metáfora da re-ligação da terra e do céu pela via única da monolíngua. Há, neste mito, ou relato, a idéia de pessoas que transitavam, caminhavam, mas que se deparando com certo lugar, que a Bíblia nomeia “terra de Shinnar”, abandonam o movimento em prol da edificação de uma cidade e um edifício. Dois aspectos se cruzam naquele momento: tinham eles a mesma linguagem, ou língua-lábio, e as mesmas palavras, também tinham uma única técnica construtiva e partilhada, baseada na confecção de tijolos e uso de argamassa. Ademais, com tal mega-constructo baseado na terra, tinha-se o propósito de alcançar o céu através de uma ordem arquitetônica.

Não apenas os aspectos logísticos e tecnológicos desta obra, mas a dimensão genética de seu construtor. É por esta genealogia construtiva que, talvez, a marcação de uma pretensão de soerguimento de uma ética monolingüística. Uma pretensa ética edificada ao custo da ausência do outro. Uma ética indiferenciada.

Babel, princípio do reino de Ninrode, filho de Cuxe, filho de Cão, filho de Noé. Cão, o filho que viu a nudez proibida de seu pai e incitou seus irmãos a acompanhá-lo. Objetividade maldita e amaldiçoada daquele que visando o pai nu, o expõe a uma realidade degradada. A nudez, que pela perspectiva do poder é o despoderamento degradante daquele que é posto como por objeto à vista e nesta visada objetiva apreende o nu como realidade dominada: dominação da realidade pela visão do objeto nu. O nu da degradação, o nu do torturado, o nu da coisificação do homem, o nu da dominação. Ninrode, poderoso caçador na terra, diferentemente de seu ancestral lavrador. O caçador que difere do agricultor. O caçador é o que antevê, persegue, mira e abate aquilo que caça. A ética do caçador é a da morte eficaz da caça. Em última análise, o resultado de tal ação de caça, que ao ser predatória é a desertificação da realidade intra-fronteiriça.

Ninrode, homem poderoso diante do Senhor. Mesmo que seu poder não seja uma dotação divina, é possível prever uma divinização pretendida. Ninrode, duas vezes poderoso: na terra e diante do céu. Pela perspectiva do poder do Um-Ninrode, podemos concordar com Haroldo de Campos quando diz que o “episódio bíblico da ‘torre de Babel’ [...] pode ser interpretado como uma tentativa ‘humana, demasiadamente humana’, de reconquistar o Éden perdido, sem o concurso da graça divina e, mesmo, em desafio aberto à punição imposta por YHWH.” (Campos, 1998, p. 161) É sob a égide do poder de Ninrode que Babel é edificada. É por uma provável crença, sempre revigorada, do retorno ao Éden e sua língua uma que re-liga o homem a Deus, que Babel avança o projeto edificativo. O homem que se re-liga a Deus é o homem Uno. Este Uno que faz descender a sua língua-lábio e palavras, do topo à base, numa cadeia infinitesimal, mas finita, de sua presença unificadora.

Talvez se encontre nesta construção, desta cidade e desta torre, o próprio rastro deste poder a que se refere o texto. Ora, tal poder é monolíngüe, entendendo que todos tinham a mesma língua e as mesmas palavras, assim, não há estrangeiros, bárbaros, nem dialetos, ou sentidos e semânticas que não sejam previamente ordenados e normalizados e tornados público e universal: não há diálogos, apenas monólogos técnicos. Como lembra Olgária Matos as palavras de M. Mauss, “Babel perfigura o universo concentracionário do qual se expulsa toda alteridade e toda singularidade [...] O texto bíblico está encarregado de instruir um processo histórico. Ele denuncia um mundo do qual estariam expurgadas a diferença e a irremediável pluralidade em benefício de uma reabsorvição violenta na unidade e na igualdade.” (Matos, 2006, p. 174)

A ética do poderoso caçador ao abater a caça, extirpa a diferença e fomenta a re-produção identitária e, assim, as perdas de diferenciais que posicionam o homem. Um homem sem diferença sempre estará correto naquilo que faz. Na completa ausência de paisagem todos os caminhos estão certos, todos os caminhos estão errados. A ética monolíngüe sujeita e domina a terra pela de forma predatória, eliminando tudo que não é espelho de si. Não há variações, alternativas, vias e caminhos para as palavras que não àquelas tradicionais e herdadas, como se ouvíssemos o eco do que diz: “todos os caminhos levam a Babel”. Mas, sabemos hoje, Babel ao pretender chegar ao céu não chega a lugar algum. Há uma ordem para as palavras, elas têm significados e estes são aqueles que garantam a uniformidade da língua, a concentração social e a edificação da cidade e da torre singular. Babel é uma ordem civilizatória total, a qual opera contra as liberdades individuais em favor da grande máquina: a sólida verdade babélica caça a liberdade. Parar o movimento e enraizar-se na terra de Shinnar não apenas reflete a ausência do nomadismo, como enseja o enclausuramento da língua, a circunscrição das palavras no interior de significados imutáveis, incorruptíveis, imperecíveis.

Toda divergência, toda dispersão, toda possibilidade espectral de dissonância é caçada. O poder da unidade da língua se dá nos sentidos prescritos e universalizados para as palavras. A língua já não descreve as novas paisagens que se abrem, pois que não caminham, não saem do lugar. As palavras tratam de manter o edifício e garantir a perpetuação daqueles que sempre estão diante da mesma geografia e inscritos nos mesmos horizontes. Duplo teor teleológico para as palavras: circular com variações sobre velhos museus temáticos, limpando e polindo seus significados, e garantir a eternidade do museu. Imobilidade que intenta para que o edifício permaneça único e incorruptível. Parece ser esta a singular confiança na “língua-lábio una e palavra una” (Campos, 1998, p. 165) que funda o trabalho dos arquitetos e operários para levantar uma torre que se lançando da terra alcance o céu. O edifício Uno que certifica a todos que dele participem e por ele galguem, o único portal de saída da terra e o meio ascendente de retorno ao céu. Por este ângulo Babel é o edifício que promete ao homem o retorno de sua alma ao Éden fundado na língua perfeita, aquela que genealogicamente remonta a Noé e Adão.

            Ora, lembra-nos Derrida que na ‘torre de Babel’ está em jogo o próprio nome de Deus. Rememora-nos que no Dictionnarie philosophique, Voltarie diz que Babel pode ser traduzido como nome de Deus, antes, Babel é a cidade de Deus, a cidade santa (Derrida, 2003, p. 13). A confusão está presente em Babel por se confundir o nome da cidade, com o nome de Deus (“Bel”) e “a cidade carregaria o nome de Deus o pai e do pai da cidade que se chama confusão.” (Derrida, 2002, p. 13). O lugar da edificação da cidade de Deus, daquela que é o edifício de ligação da terra com o céu, que é monolíngüe e única, faz cessar a diferença pela imobilidade absoluta entre o divino e o humano. Confunde-se o nome de Deus com o nome do que é imóvel. O nome de Deus se confunde com o nome dos construtores e se solidifica.

            Mas aquele cujo tetragrama permite uma teofania lingüísitca e que se expressa como YHWH, descendo, e tal qual seu nome, confunde Babel. Teofania como dom absoluto de uma hospitalidade divina ao humano, uma ética teofânica do acolhimento da alteridade, que nos acostumamos chamar revelação. A hospitalidade teofânica daquele que imaterial vem a ser matéria, acolhe o outro que não o acolherá. Em primeiro momento o nome próprio, como diz Derrida, intraduzível de Babel é desconstruído e traduzido por ‘confusão’. O que era um edifício sólido monolíngüe, agora se interrompe pela presença do plurilingüísmo. Mas quem desce e presentifica-se é YHWH, e nesta presença faz confundir o que era monolítico, Uno. A unidade da língua e das palavras se desfaz na teofania daquele cuja tradução do nome se procura em: Javé, Jeová, Deus, Senhor, Eter-no, Ele-O Nome, etc. Ou, por outra via, Deus é YHWH, Adonai, El Shadai, Elohym, etc, tão somente no próprio texto vetero-testamentário.

            Duas coisas incitam o pensamento a partir desta metáfora de Babel. Primeiramente que nesta cidade há a ausência absoluta do outro, restando apenas a presença do mesmo duplicado indefinidamente por meio desta técnica de produção de pequenos monólitos que são agregados por uma cola social. Regime a-ético de uma lei que suprime a identidade, pela caça ao diferente. Neste imenso e vertical monólito composto pela sobreposição hierarquizada de micro-monólitos produzidos por uma mesma forma e agregados violentamente pelo poder que perpassa de cima a baixo a estrutura, confunde-se Deus com o monolingüismo. A ruína da torre está nesta fenda paradoxal em que o pretenso sentido único e intraduzível do nome da cidade é transversalmente atingido pelos nomes teofânicos de Deus.

            Daí advém o segundo pensamento. Deus ao confundir não o faz como maldição ou desvio daquele projeto de retorno edênico, mas o faz pelo seu próprio nome próprio. A presença multilíngüe e a dispersão expondo o homem ao seu próximo, impõe a tradução perpétua e imperfeita. Como salienta Derrida:

Ele impõe e interdiz ao mesmo tempo a tradução. Ele impõe e interdiz, constrange a isso, mas como em situação de xeque, filhos que doravante portarão seu nome. A partir de um nome próprio de Deus, vindo de Deus, descendente de Deus ou do pai (e está bem dito que YHWH, nome impronunciável, descende em direção à torre), a partir dessa marca, as línguas se dispersam, se confundem ou se multiplica, segundo uma descendência que na sua dispersão mesma permanece selada do único nome que terá sido o mais forte, do único idioma que terá predominado. Ora, esse idioma carrega nele mesmo a marca da confusão; ele quer impropriamente o impróprio, a saber, a Babel, confusão. (Derrida, 2002, p. 18)

            O Impronunciável impondo a interdição da construção deste monólito lingüístico, confundido as línguas e dispersando seus trabalhadores, os coloca novamente em meio ao caminho e desenraiza-os em perpétuo. Agora se abrem à vista a paisagem àquele que era re-produção de si e a si como identidade no outro. O Indizível quebra o espelho de Narciso com uma pequena pedra tirada da terra. A amizade como identitária e ausente de diferença, a partir daquele cujo nome é confuso, inapreensível, intraduzível, há de, perpetuamente, se dar como alteridade. A igualdade se torna estranha na diferença e na distância aberta por Ele, entre as línguas que se multiplicam. A ética ocorre como tradução de línguas e palavras que se encontram, defrontam, confrontam. Em tudo isto tem a marca e a presença teofânica daquele cuja tradução se dá em muitos e em nenhum nome.

            Deste lugar em diante podemos atentar e nos deixar conduzir à outra cidade e outro edifício que se ergue. Na cidade em que se guardam a lei e a língua herdade em antigas tradições, também Deus desce, confunde e derriça ali esta arquitetônica. Em meio à praça de Jerusalém, cidade milenar dos Hebreus, dominada pelos romanos de língua latina, arquiva-se em grego a passagem do Espírito que traduz o nome de Deus em dezenas de línguas. Arquivamento que é marco referencial de uma teofania sempre plurilingüística, que impõe ao homem a presença do outro. Não importando em que língua falavam aqueles homens, cada qual ouviu em seu próprio idioma. Movimento dispersante que fere a Torá monolingüísitca, com o dom absoluto da alteridade pentecostal. Diáspora da fé que impõe traduções intermináveis de um movimento ético que interdita o universalismo monolítico.

            O Novo Testamento é            por excelência a presença intra-histórica como tradução de uma teofania ética, daquele que não mais pode ser contido por um nome próprio e nem por uma língua ancestral, cuidadosamente guardada pela tradição. Língua que, querem alguns, traça a genealogia de Moisés, Levi, Israel, Abraão, Sem, Noé, Adão. Os primeiros do “caminho” movem-se para fora do templo do pensamento em hebreu, falado pelo povo através do aramaico, traduzido para o grego, depois para o latim e mais recentemente para as centenas de línguas modernas. Não apenas o movimento idiomático, mas o descritivo que ressoa com as palavras de Jesus: “ouvistes o que foi dito aos antigos [...] eu, porém, vos digo [...]”. Peregrinação e diáspora arruinadora do Templo – em três dias – que implode o edifício milenar impondo ao caminho os que viriam ser chamados de cristãos. O caminhar é qualificativo, nome próprio e história do cristão.

            Aqueles que estando no caminho, caminham o fazem por não mais encontrarem na terra lugar de enraizamento e ressonância de uma fala, de palavras una que já estão confundidas pela teofania. Invertendo a seqüência, procurando não alterar o sentido das palavras de Olgária Matos, podemos pensar que Pentencoste é heterofilia e por isso defesa da língua, em sentido preciso é política, ou seja, literatura (Matos, 2006, p.174). Pentecostes não é apenas amizade pelo outro, mas amizade pela diferença do diferente que é outro, pelas inumeráveis biografias, pelos livros orgânicos como literatura infinita, inaugurada pela própria teofania do Pai que se torna matéria na pessoa do filho, na teofania filial. Pentecostes, lugar originário da ruína do edifício religioso monolíngüe de onde se dispersam aqueles que passam a falar e a ouvir em línguas estranhas: multilingüísmo babélico. Pentecostes, metáfora de uma ética divina que se dá pelo dom absoluto da tradução. Pentecostes é ocupar a praça como tradução literária, poética, existencial, histórica. Tradução que “pertence à ordem do ‘dom absoluto’: perturba as fronteiras, cria hetero-identidades cujo caráter não é homogêneo, mas necessariamente compositório” (Matos, 2006, p. 174). Perturbação da fronteira que expõe e impõe à peregrinação da linguagem, o caminhar perene como acolhimento por tradução.

            Pentecostalização da linguagem que agora somente encontra morada na tradução. Tradução que não é a imposição da língua do mais forte, portanto não é tolerância, isto é, não participa da ética do caçador. A metáfora do Emanuel que não tem o sentido de uma tolerância divina: Ele não tolera o homem. Como lembra-nos Olgária as palavras de Derrida:

a tolerância encontra-se do lado da ‘razão do mais forte’, que é uma marca suplementar de soberania – é sua boa face que, do alto, significa ao outro: eu te deixo viver, não me és insuportável, eu te ofereço um lugar em minha casa, mas não te esqueças, estou em minha casa: eu te acolho com a condição que te adaptes as leis e normas de meu território, segundo minha língua, minha tradição e memória. (Matos, 2006, p. 173)

            Pentecostes é emanuelização kerigmática e hospitalidade. É interditar e abandonar a obra monolingüística do poderoso caçador na terra e diante de Deus, pela fé dos primeiros caminhantes que compassaram no caminhar como peregrino e forasteiro, sempre, desenraizados. É acolher o outro não como bom senhor ao servo trabalhador, não como legislador civilizado ao inculto patriota. O Pentecostes é a possibilidade genética de certo pensamento ético como hospitalidade, onde esta é “antecipadamente aberta a quem não é esperado nem convidado, a todo aquele que chega como visitante absolutamente estrangeiro, alguém que chega e que não é identificável nem previsível.” (Matos, 2006, p. 173) É abertura incondicional para um “vinde a mim todos” aos que falam todas as línguas que encontrarão hospedagem em mim e acolherei tuas palavras. É ressonância a um “ide a todo o mundo” e falai com todos os bárbaros segundo suas falas e dialogai com todos os estrangeiros de acordo com sua estrangeirice. Vinde os que querem estar juntos e ide os que querem ajuntar. Ajuntamento plural e eclesiástico, democrático, isonômico.

            Diante disto, Pentecostes não é um abrir-se ao outro com a finalidade de... Não há previamente um telos, um simular o ‘dom absoluto’ da tradução, da hospitalidade a fim de convertê-lo à imagem de valores prévios do mais forte, mas é uma ética do enfrentamento da diferença pela premissa da equidade kerigmática. Há nas palavras de Lucas, o médico grego, marcadas no livro de Atos dos Apóstolos, esta violenta teofania que paralisa e põe abaixo aquele edifício religioso dos hebreus que com sua pretensão monolíngüísitca de pontificar a terra e o céu, e inaugura uma dispersão sobre a terra daqueles cuja fé funda-se nesta doação tradutiva incondicional como ética.

 

Referências Bibliográficas:

BÍBLIA VIDA NOVA. Traduzida em Português por João Ferreira de Almeida. Edição Revista e Atualizada no Brasil. 3ª edição: 1980.

CAMPOS, Haroldo. Babel & Desbabel. In: FABRINI, Regina; OLIVEIRA, Sergio Lopes (ORG). Interpretação. São Paulo: Editora Lovise, 1998.

DERRIDA, Jacques. Torres de Babel. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2002.

MATOS, Olgária. Babel e Pentecostes: heterofilia e hospitalidade. In: Discretas Esperanças: Reflexões filosóficas sobre o mundo contemporâneo. São Paulo: Nova Alexandria, 2006.