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Diálogo

E disse-lhes: Ide por todo o mundo, e pregai o evangelho a toda criatura. Marcos 16: 15

Algumas pessoas acreditam que o mundo seria melhor casso todos falássemos a mesma língua. Tanto alguns homens da ciência quanto outros da religião, por diversos caminhos se esforçaram e se esforçam para que as palavras tenham significados bem definidos e, por todos, conhecidas e utilizadas. Pelo lado da ciência este trabalho se funda na crença de uma língua única para todos, como um esperanto, um inglês, etc., ou mesmo de uma língua lapidada de “coisas sem sentido”. Esta língua abriria o caminho para o entendimento e a unidade em prol de um único objetivo humano. As relações comerciais, culturais, sociais, políticas e outras se tornariam mais desimpedidas e facilitadas. Haveria um trabalho positivo sobre as palavras conduzindo a língua a se expressar quase que como teoremas matemáticos. Esta pureza lingüística seria, por esta via, a condição para a felicidade universal.

Pelo lado da religião a busca desta língua única e de palavras únicas é concomitante à busca por uma linguagem que reate a comunicação perdida com Deus. O retorno à presença de Deus como caminho único da felicidade. Um projeto que visa encontrar e retomar aquela língua falada por Adão antes da queda. Similarmente, mas em direção oposta, tal linguagem adâmica conferindo esta comunicação direta com Deus, se daria pela apreensão das palavras em círculos de significados bem restritos e que apontem a esta espiritualidade. Haveria na Bíblia um código secreto que deveria ser decodificado e dicionarizado. De igual forma, mas por meios diametralmente opostos, também o projeto da ressurreição da linguagem adâmica pretende a felicidade do homem.

Entretanto o mundo das relações humanas conspira contra estes dois projetos. Há um sem número de línguas hoje faladas sobre a face da terra e as palavras ganham sentidos novos a cada instante. Há os idiomas, os dialetos, as gírias, as linguagens técnicas. Enquanto uns poucos limpam as sujeiras e lapidam as palavras e seus significados, motivados por aquelas crenças na língua-una imutável que promete felicidade produzida quer pelo homem ou quer no encontro com Deus, há, sem esforço ou projeto algum, todo o resto do mundo produzindo sentidos novos para as palavras, que requerem meios criativos diante de novas e inusitadas situações que se apresentam ao homem. As palavras surgem, desaparecem, são redescritas sem controle.

Esta conspiração democrática fluídica desafia a cada um que percebe este movimento e que está neste movimento a um diálogo contínuo e incansável. Um bom exemplo, ainda que envelhecido, é o da linguagem transversal que os adolescentes e jovens utilizam quando teclam no MSN. Jovens de classe média e alta, submetidos aos rigores das escolas tradicionais e da educação familiar elitizada, mas que trocam mensagens numa escrita que não se prende às regras do português curricular, da língua oficial. De maneira similar aqueles jovens de classe baixa e média que não são submetidos àqueles rígidos modelos de ensino, também são criativos na linguagem. Em certo sentido poderíamos dizer que há uma tensão entre determinada forma aristocrática de representar o mundo e meios democráticos de redescrever novas experiências que se dão nos mundos falados por estas novas formas de falar. Pensaríamos, então, num conservadorismo sobre a língua que tem a pretensão de, por meio de velhos significados cristalizados, manter as coisas mais ou menos como elas sempre foram.

Estes novos aristocratas vêem escapar entre os dedos aquilo que seguram com tanta força e violência. A língua é viva e traduz o próprio movimento das relações que nós, chamados humanos, temos com o lugar e o tempo em constante mutação. Condições religiosas, morais, políticas, culturais, sociais, econômicas são alteradas exigindo novas palavras ainda não inventadas ou novos sentidos inusitados às velhas palavras que envelheceram. Assim, há de se buscar tradução entre estas novas condições e os velhos vocabulários, num esforço que está mais próximo dos poetas e dos adolescentes do que dos conservadores. Tradução que é trabalho infindável em prol do diálogo necessário.

Caso achemos que a melhor opção está com os poetas e jovens, resta-nos o diálogo num mundo com muitas línguas e que são irredutíveis a uma única forma de falar. Dialogar com novas experiências exige novas formas de falar, isto é, novas traduções. Novas experiências ocorrem quando cruzamos com a diferença e esta nos incita a achar novos caminhos, alternativas criativas para situações e experiências que ainda não havíamos nos deparado. Um mundo no qual há a mudança e a transformação exige de nós que ouçamos suas vozes e não fiquemos na busca de uma segurança inexistente. Num ambiente com muitas línguas, cada um deve ser poliglota.

Podemos encontrar um excelente exemplo desta imposição de tradução, ou diálogo como tradução em tempos onde velhos modelos estão sucumbindo. Modelos novos que não existem ainda, mesmo que as vozes proféticas já os anteveja e os proponha, apresentam-se nas praças como esperanças jovens demais. Não apenas um tempo de sucumbência, mas também num lugar de encontro de diferenças. A profecia e a esperança, como a poesia e a adolescência, são rasgos impetuosos num tempo envelhecido onde vozes se encontram. Um maravilhoso exemplo disto está no livro de Atos dos Apóstolos e a descrição do Pentecostes.

No Pentecostes homens que falam por meio da língua sagrada, o hebreu, na praça, movidos por este espírito dialógico e tradutor, e homens de fala estrangeira ouvem segundo suas línguas. Há uma tradução original neste movimento da religião judaica para a cristã que pode nos inspirar numa redescrição para o Pentecostes no século XXI.

O Pentecostes do século XXI não seria uma disputa no campo teológico da possibilidade de uma re-experimentação de línguas espirituais intraduzíveis, mas pensamos na possibilidade de re-interpretá-lo como o diálogo com aqueles que falando uma língua distinta da nossa não nos compreende. O Pentecostes do século XXI não é chamar a todos a entenderem o que eu falo em meu idioma, uma conversão às minhas crenças prévias e inegociáveis. Mas é um espírito pioneiro de ser entendido pelo outro em seu próprio modo de falar. Pentecostes é diálogo como tradução. Diálogo que nunca se completa, nunca se realiza plenamente, mas que é esforço frente às mudanças intermináveis. Diálogo proposto e posto por quem tem o espírito pentecostal, o qual busca nas alternativas poéticas e adolescentes novos sentidos para novos dilemas humanos.