VIX Jornadas Sobre Alternativas Religiosas
na América Latina
Local: UNSAM – Universidade San Martin - Buenos
Aires – Argentina
Grupo de
Trabalho: 9 – Religiões, Poder, Política
Coordenadores:
Verónica Giménez Beliveau, Emerson
Giumbelli, Ana Teresa Martinez
Título: De Babel e entre Pentecostes: a linguagem
religiosa pelo edifício do poder e nas vozes na praça.
Resumo:
Babel - Jacques Derrida reapresenta como “a
casa de Deus” - o edifício construído pelos descendentes de Cão - Ninrode homem
poderoso e caçador - cuja intenção era estabelecer uma ponte entre a terra e o
céu perpetuando o nome. Deste edifício, fundado sobre o poder da língua única
com pretensões de universalidade, emanava a ordem sob a técnica de tijolos e
betume que o ergue. A linguagem do poder sob a técnica marca a convergência da
experiência sagrada na cidade-edifício, contraposta à suposta maldição da
multiplicidade das línguas dispersantes: Deus desce e multiplica ali as
línguas. No dizer de Umberto Eco o Ocidente e a sua religião, judaico-critã,
são marcados pela busca desta língua perfeita, língua que re-congregue todos os
povos a si. Uma língua pré-noética preservada pelos hebreus. Mas, a vivência da
multiplicidade das línguas já está presente nos descendentes de Jafé, que
dispersos entre e as ilhas não são tomados por maldição. Todavia, é em pentecostes
que a língua dos hebreus deixa de ser a linguagem do sagrado, a arca que retém
a língua adâmica preservada por um povo singular, quando o Espírito derramado
sobre todos oferece a todos na praça ouvir em seu próprio idioma, pensando com
Olgária Matos e Humberto de Campos. Em Pentecoste a língua se torna
hospitaleira, acolhendo a multiplicidade num exercício de tradução perpétuo,
desfazendo o poder de uma. O Espírito presentifica-se como tradução entre os
idiomas de homens ilhados, ao soprar a vida onde o texto original requer eterno
retorno edêmico.
O relato ou mito da Torre de Babel tomado por determinado
discurso como a gênese da multiplicidade das línguas. A multiplicidade de
línguas lida com a expressão do poder religioso. Lugar da intervenção daquele
que é o “Muitos-(não)-Nome”
que babelizou o poder
monolinguístico, o qual se dava ao trabalho de erguer um edifício em direção ao
céu, pela diferenciação das línguas faz interromper a ação construtiva. Esta
babelização das línguas que tem sido entendida, pelo ilhamento textual, como
uma intervenção amaldiçoadora do “Muitos-(não)-Nome” pela pluralidade das falas.
O pluralismo entendido como maldição, ou desgraça, funda certa intenção de re-encontrar
a língua original bendita, adâmica, esta que potencializava o homem a ouvir
diretamente o “Muitos-(não)-Nome” e nomear as coisas.
Há a Torre de Babel do Gênesis 11 e há a ‘Des tours de Babel’, escrito por
Derrida, e que, como nos lembra Junia Barreto, traz as dificuldades da
intradutibilidade, visto que ‘tours’ no francês comporta uma “multiplicidade de
sentidos e de associações possíveis. Torres, giros, voltas, circunlocuções,
viagens, passeios, vias, peças, vezes, turnos, truques, e até mesmo desvios se
confundem na confusão de Babel.”
Mas deveremos mover nossa leitura um pouco para trás, ainda que por passagem,
pelas muitas terras e ilhas circunvizinhas, a fim de evitar a precipitação que
nos conduza a um deslocamento ligeiro para aquela cidade onde levantam a torre,
e, enraizando-nos ali virmos a nos deter por todo o tempo. Sincronicamente
importa, quase que por necessidade, caminhar muito a frente e, num anacronismo
metódico, ouvir as vozes que se dão entre encontros na praça.
Entendemos que ainda que não façamos distinção prévia entre os
atalhos e às trilhas que tomemos, sempre estaremos produzindo alguma forma de
edifício em meio a uma cidade, geograficamente determinada ou não. Mas é inerente
à escolha a implicação da possibilidade de movimento deste constructo: os graus
de liberdade conferidos à fluidez e à mobilidade do produzido. Ademais, as
distâncias se abrirão e se fecharão mediante o arbítrio sobre as técnicas e os
materiais utilizados. E há, sob-tudo, a crença fundamental, antes, fundante da
edificação da casa de Deus, ou da cooperação inter-humana como edifício
sagrado.
Nestas idas e vindas estaremos dialogando com os descendentes
de Noé: Jafé, Ninrode e Abraão. Por estas vias trabalharemos com a pretensão de
uma abertura ao diálogo com as alternativas de expressões religiosas, passíveis
de serem pensadas a partir da metáfora do monolinguísmo e plurilinguísmo que
encontramos intermetidas às palavras do Livro. Antes, uma possibilidade plural dos
sentidos para as palavras que fluem no horizonte das inter-relações humanas
naturalizadas, mas que vemo-las cunhadas com significados cristalizados
instituidamente por um poder de uma língua que pretende erguer um único edifício
monolítico espiritualizante. A tensão entre uma religião da “ágora”, do diálogo eclesiástico, que
intenta a democratização libertária daqueles que comungam com o poder, mas que é
sulcada, ferida, lancetada por um poder central cuja razão se auto-proclama verdadeira
e divina, pois que provem do Uno, portanto apresenta-se concentrador,
hierárquico e fundamental.
Podemos começar dialogando com Umberto Eco e ouvi-lo dizer
que “nossa história [...] tem a vantagem de poder começar desde o Início.” E
neste gênese disse “Muitos-(não)-Nome...” É menos importante o que disse,
diante do fato de que a palavra estava presente no Gênesis. Parece-nos que esta
palavra encontra-se prenhe de diferença, suscitando e impregnando a distância
que reconhece e acolhe o diferente, mormente quando também diz: “viu
‘Muitos-(não)-Nome’ que tudo o que havia feito era muito bom”.
Nesta perspectiva a criação é menos uma disputa entre ciência e religião e mais
uma fé no encontro com o outro, com a alteridade.
Lembra-nos também, aquele autor, que não sabemos qual língua
divina era esta, mas que é apresentada no texto como uma que é entendida por Adão.
Ao marcar as palavras do “Muitos-(não)-Nome” que “de todo o fruto comerás,
menos o fruto da árvore o conhecimento do bem e do mal”,
as Escrituras não oferecem espaço para a não compreensão destas pelo homem. Eco
nos diz que embora não saibamos nada sobre tal língua, há a “possibilidade de
uma língua que, embora não seja possível traduzir com termos de idiomas conhecidos,
é, porém, entendida por quem ouve, em virtude de um dom ou do estado de graça
particular.”
Precisamos pontuar a inauguração que se dá com o diálogo “Muitos-(não)Nome” e Adão,
em que a virtude particular deste que ainda não conhecera o pecado, dota-o da
capacidade auditiva e compreensiva das primeiras palavras divinas, contudo a graça
virá mais tarde.
Certo é que uma vez tendo ouvido as palavras de “Muitos-(não)-Nome”
e estando à só, Adão nomeia os animais. O homem fala após ter ouvido, apesar de
que não nos certifiquemos se tal nomeação seja representativa ou convencional,
arbitrária, e
nem mesmo se suas palavras são da mesma língua que ouvira antes. Este homem que
fala, também dialoga. Então, seguem os tensos diálogos entre a serpente, a
mulher, o homem e “Muitos-(não)-Nome”, em meio aos quais o casal come do fruto
do conhecimento do bem e do mal. Até este momento, contudo, a mulher é, segundo
Eco, “ishshà, feminino de ish, ‘homem’”,
não havendo nestas palavras o significado explícito ou implícito de uma hierarquia,
ou gradação, apenas o feminino e o masculino.
Entretanto, após terem se deixado convencer pelas palavras de
cobiça que os projetavam como semelhantes ao “Muitos-(não)-Nome”,
o homem nomeia a ‘ishshà’ de Eva
(vida). Adão o faz pela expansão de seu ato anterior de nomear as coisas, os
animais, dando o nome àquela que antes estava diante de si, a qual era consigo
não como igual, mas como outra. Agora ela é coisa passível de receber um nome e
é nomeada, não apenas ratificando a distância e diferença, mas, sobretudo, a gradação,
a hierarquia. A outra que estava diante de si, mas que não era nem indiferente
nem igual, agora é posta objetivamente por uma palavra, submissa a ele. Na
narrativa do Gênesis a palavra adâmica se converte na palavra de onde se exerce
o poder sobre as coisas objetivadas, de onde se exerce o domínio sobre o mundo,
a falo poder que desequilibra a diferença e subordina as coisas ao homem. O
domínio hierarquizado sobre as coisas vistas diante de si. A palavra do homem
torna-se o influxo do poder, lei que a tudo domina e traz para si todas as
coisas como o real apreendido e representado.
Devemos, seguindo um pouco mais de perto a Umberto Eco,
saltar para os eventos pós-diluvianos. Ora, Noé teve três filhos: Sem, Cão e
Jafé. Da descendência de Cão vem Ninrode, do qual falaremos mais tarde, e este
edifica Babel. Da descendência de Sem conhecemos o hebreu Abraão e no futuro as
festas que seus descendentes viriam fazer, entre elas a de Pentecostes. Mas a
descendência de Jafé se espalha pelas ilhas e terras como nos lembra Eco:
“Gênesis 10 quando, na narração da difusão dos filhos de Noé depois o Dilúvio,
refere-se à estirpe de Jafé, diz-se o seguinte: ‘Desses derivam as ações
disseminadas pelos litorais nas próprias regiões, cada um com a própria língua,
e as tribos entre as nações.’(10,5)[...]”.
Daqui segue que de um único patriarca, Jafé, surgem línguas,
destas se diferenciam as famílias e advêm nações, num fluxo, que poderíamos
dizer, natural; antes, sem nenhuma intervenção externa que seja explicitada no
texto e que faça-se representar nas difrenças. Devemos retornar um pouco e
rememorar que Jafé fora abençoado por seu pai, Noé, diferentemente de seu irmão
Cão que, por desonrar o mesmo pai, fora amaldiçoado. A linguagem bíblica, sobretudo
a vetero-testamentária, é marcada pela diferenciação benditos e malditos. Contudo
a diferenciação de línguas entre os descendentes de Jafé, que ocorre sem a
marca da intervenção divina e que acentua a identidade familiar e nacional, e,
no entanto, entre co-irmãos, ocorre sob a égide da bênção patriarcal.
Embora, como acena Umberto Eco, a diferenciação das línguas
entre descendentes de Jafé possa ser entendida como diversificação de dialetos,
é plausível pensarmos que tal diferenciação se refere a um fluxo incontrolável,
que marcando fronteiras aponta para exigências de traduções. Resta, então, por
esta breve passagem pelo Gênesis 10 a questão levantada pelo próprio Umberto:
“Se as línguas não se diferenciaram por castigo, mas por tendência natural, por
que entender a confusão como uma desgraça?”
A naturalidade
da multiplicidade de línguas a partir da diferenciação de dialetos ou não, como
nos permite pensamento sobre o Gênesis 10, abre-nos uma trilha diferencial para
a leitura do Gênesis 11. Ora, Babel era o princípio do reino de Ninrode, filho
de Cuxe, filho de Cão, o filho maldito, desgraçado de Noé. Segundo o Gênesis,
Ninrode era poderoso caçador na terra e diante de Deus. A monolíngua de Babel
por certo trazia a marca do reino de Ninrode, isto é, a maldição herdada,
segundo linguagem das Escrituras. Pôr-nos em caminho por esta trilha
diferencial é permitirmo-nos pensar que “o episódio da ‘torre de Babel’ [...]
pode ser interpretado como uma tentativa ‘humana, demasiadamente humana’, de
reconquistar o Éden perdido, sem o concurso da graça divina e, mesmo, em
desafio aberto à punição imposta por YHWH (Deus, Há-Shem, Adonai, Ele-O Nome)”. Sob
a batuta do poderoso caçador na terra e diante de Deus, Babel é erguida.
Perguntamos, então com Derrida, “em qual língua a torre de
Babel foi construída e desconstruída?” Ademais,
perguntamo-nos, neste momento, se a monolíngua que perpassando as gerações e
unindo Adão a Ninrode, não seria a língua do poder na qual o homem se vê na
possibilidade de ser deus? A língua de um tipo de poder que age sobre a
diferença e o diferente visando submetê-los à representação única deste poder,
para a satisfação da busca de bem-estar da torre?
Inquieta-nos a possibilidade que a “língua-lábio una e as
palavras una” que estava
presente naquela cidade perpassando de cima a baixo a Torre, predestinando
todos às técnicas de edificação que garanta o próprio edifício. A “língua-lábio
una e as palavras unas”, ou, como traduz Chumash “uma única língua e [de]
mesmas palavras”, pode
não apenas ser a tradução de uma linguagem única entre os edificadores da
torre, como também traduzir a ausência diferencial e alternativa. Isto é, a
eficácia máxima daqueles que olhando para si vêem-se a si mesmos e reconhecem
em si um nome que deva ser preservado. A possibilidade de uma língua-lábio una
e palavras unas, permite-nos pensar na ausência absoluta do outro e a presença
sempre constante da identidade, ainda que não do indivíduo, mas a do poder. A
Torre de Babel como edifício que liga a terra ao céu que nega qualquer outra
presença que não seja a sua própria, a cidade que se volta apenas para si como
um grande corpo narcisista.
Após estas questões, é certo que, segundo Jacques Derrida,
Babel nos expõe sempre às traduções: descosntruções e construções. Babel que é
traduzida como confusão, pois ali as línguas foram confundidas. Contudo nos lembra
este autor que Voltaire diz no Dictionnarie
philosophique que Babel deva ser traduzido por “cidade de Deus, a cidade
santa”. Ora,
a confusão não está apenas nas inumeráveis línguas que ali passaram a se falar,
e nem mesmo diante dos arquitetos que viram a interrupção de sua obra, mas,
entendemos, sobretudo, a confusão que é pelo e no “Muitos-(não)-Nome”. Deus, ou
YHWH, vê o que os homens fazem, como
quem vê exteriormente, mas Deus, ou “Bel”
segundo Voltaire, está na cidade, pois que é a sua cidade, é a cidade projetada
para ser sagrada e eterna: incorruptível e imutável. Derrida, a respeito desta
observação de Voltaire, diz que “a cidade carregaria o nome de Deus o pai e do
pai da cidade que se chama confusão.”
Há, neste jogo bivalente, uma confusão entre Bel e YHWH.
O próprio nome de Deus, pelas vias derrideanas e em Haroldo
de Campos, já nos parece confuso, extravagante, fluídico. Apenas pela porta do
nome próprio original de Deus que é YHWH
e é Bel, exige-se tradução. Exemplarmente
citamos as traduções àquele nome – YHWH
-, ou, à palavra que se deseja ter o sentido do seu nome, apresentadas por
Haroldo de Campos ao Gênesis 11. Ele mesmo, Haroldo nomeia-o de Ele-O Nome e
Deus, Há Shem, Adonai, João Ferreira D’Almeida chama-o Senhor e
Chumash diz Eter-no, todos se referindo ao tetragrama que se traduz YHWH, ou, Jeová. Muitos nomes e
concomitantemente nome algum, por isso nos referimos ao “Muitos-(não)-Nome”.
Deus é em Ba-Bel, confundido na cidade com a própria torre, a qual interliga
re-liga a terra e o céu. A cidade é de Deus, a torre é santa e Bel confunde-se
com a própria re-ligação entre terra e céu. Mas “Muitos-(não)-Nome” que não sabemos
se tem lábios e nem palavras unas, de fora vê e interfere.
Tudo é sólido, construído para perdurar, imperecível, que vai
de encontro com a condição transitória e mutável de um homem não deve se
dispersar e de um nomadismo que deve se enraizar. Tudo naquela cidade conspira
contra a diferença, a alteridade, o fluxo e a tradução, “deste modo ‘Babel
perfigura o universo concentracionário do qual se expulsa toda alteridade e
toda singularidade [...] O texto bíblico está encarregado de instruir um
processo histórico. Ele denuncia um mundo do qual estariam expurgadas a
diferença e a irremediável pluralidade em benefício de uma reabsorvição
violenta na unidade e na igualdade.’” A
cidade de Deus não sofre com o tempo e assegura um nome não apenas a Bel, mas aos seus construtores.
Além disso, o Deus que está confundido com a Torre confunde-se
neste lugar como uma antecipação sonora anti-profética que viria traduzir o Ser
com o Eu Sou o que Sou, conferindo-o identidade com o Uno. Mas o
“Muitos-(não)-Nome” ao confundir a língua dos construtores e fazê-los dispersar
pelas terras com as suas multi-línguas, tais quais os filhos de Jafé,
desconstrói seu próprio nome nomeando-se mais tarde, aos ex-escravos que
libertos do poder egípcio, de “Ehyeh-Asher-Ehyeh [...] Eu serei o que eu for
[...]”.
O próprio “Muitos-(não)-Nome” historiciza-se e contingencia-se. Aquele que desde
então, entre os filhos de Abraão, não pode mais ser apreendido e nem contido por
nenhuma força de lei, nenhuma linguagem plenas de significações, em meio a
nenhum dogma e desconstrói qualquer pretensão exclusiva de uma linhagem
lingüística.
Não mais um “Bel”
que flui como que numa grande cadeia do Ser dogmática, do topo para a base, do
Ser para o não-ser, do Uno para o múltiplo, numa ligação céu-terra por uma
única religião sem alternativas que se funda no conhecimento dos mistérios de
uma língua genética, ancestral, obtida por uma elite clériga. Mas um
“Muitos-(não)-Nome” que se dispersa na praça, em meio as muitas línguas,
famílias e nações, cada qual falando de seu próprio modo e demandando tradução
mútua. Ou ainda, mantendo o diálogo com Derrida, “a multiplicidade dos idiomas,
a tarefa necessária e impossível da tradução, sua necessidade como
impossibilidade”. A
tarefa da tradução daquele que vê a presença do estrangeiro, do bárbaro, daquele
que fala uma outra língua e usa outras palavras, do outro com dialetos
distintos já nos lança à frente, para a festa do Pentecostes.
O Pentecostes, “mirada anti-narcisista, transcultural, que
busca no mesmo (no universal) a diferença [...]” A
festa de Pentecostes em que se desconstrói, como que num eco às palavras de
Jesus que prometera em três dias fazer ruir o templo de Jerusalém e erguer um
novo templo também em três dias, a religião que falava apenas a língua dos
Hebreus. O novo movimento que surge no meio dos hebreus, expande-se no interior
do Império que fala o latim e escreve suas cartas e livros em grego. Aqueles
que eram chamados de “o caminho”, palavra feita nome próprio que aponta e
significa aqueles que não encontram lugar, gente peregrina que não constrói
edifícios, tem seu marco originário com o movimento do Espírito no meio da
praça, onde um homem lembrando e desconstruindo as palavras do profeta diz:
“[...] e acontecerá nos últimos dias que derramarei do meu Espírito sobre toda
a carne.”
Mas Pedro falando em sua língua natal se faz ouvir por
centenas de homens cada qual em sua própria língua, como nos lembra Olgária,
“com efeito, se Deus destinou o homem à tradução, necessária e sempre
‘imperfeita’, Pentecostes consistiria no momento em que o impossível de
tradução torna-se possível, em uma espécie de tradução simultânea plenamente
realizada [...]” Se a
naturalidade multilinguísitca dos descendentes de Jafé foi negada e obstruída
pelos reinos e impérios monolingüísticos, então, esta segunda intervenção do
“Muitos-(não)-Nome” trás a marca de uma confusão necessária. A confusão
necessária marca o movimento do monolingüísmo templário e sacerdotal, para o
plurilingüísmo eclesiástico e isonômico. Marca o movimento da lei para a graça,
do templo para a ‘ágora’ e da casta
para o ‘demos’.
Movimento de hospitalidade do “Muitos-(não)-Nome” que se
derrama como chuva sobre bons e maus, concedendo o mesmo espírito de
hospitalidade ao homem. Como nos lembra Olgária, hospitalidade que não é
tolerância, ou seja, “a tolerância [...] encontra-se do lado da ‘razão do mais
forte’, que é uma marca suplementar da soberania – é sua boa face que, do alto,
significa ao outro: eu te deixo viver, não me és insuportável, eu te ofereço um
lugar em minha casa, mas não te esqueças, estou em minha casa; eu te acolho com
a condição que te adaptes as leis e normas de meu território, segundo minha
língua, minha tradição e memória.” No
‘caminho’ não há fronteiras, nem tradição (posto que é um movimento
originário), nem memória, nem leis e nem normas, e as línguas foram necessariamente
confundidas por Deus.
Os caminhos alternativos daqueles peregrinos e forasteiros
que posteriormente seriam chamados de cristãos abriram-se a partir da
possibilidade da hospitalidade, onde “a hospitalidade como ‘dom absoluto’ é
‘autêntico’, não espera nada em troca, é um ‘esquecimento absoluto’ do dar.” E
como tal, aquele movimento estava entregue permanentemente à tradução, portanto
às assembléias democráticas, entendendo que “a tradução pertence à ordem do
‘dom absoluto’: perturba as fronteiras, cria hetero-identidades cujo caráter
não é homogêneo mas necessariamente compositório.” Assim,
o desafio de um cristianismo pentecostal, não como presença de tribos “bunkerizadas” e hierarquizadas em cujo
cume estão seus apóstolo, que se negam ao diálogo e à tradução. Mas um
pentecostalismo posto na praça. Portanto, um pentecostalismo que desafia a fé a
retomar o caminho e abandonar os edifícios e quartéis e desnudar-se pelo dom
absoluto da hospitalidade.
A experiência original dos caminhantes que se reúnem em
assembléia, partem da praça e seguem em peregrinação. Assembléia hospitaleira
que pela tradução ajunta-se com todos, ou, como nos diz Paulo, “onde não há
grego nem judeu, circuncisão nem incircuncisão, bárbaro, cita, escravo ou livre[...]”. Pensar
as alternativas de experiência com o “Muitos-(não)-Nome” não pelo edifício do
poder de uma cidade santa monolingüísta, mas nos nomes de Deus que se ouve nas ágoras pelos muitos lábios e línguas, e
nas muitas palavras. Ver a presença de YHWH
na hospitalidade e a alternativa cristã contemporânea como tradução.