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VIX Jornadas Sobre Alternativas Religiosas na América Latina

Local: UNSAM – Universidade San Martin - Buenos Aires – Argentina

Grupo de Trabalho: 9 – Religiões, Poder, Política

Coordenadores: Verónica Giménez Beliveau, Emerson Giumbelli, Ana Teresa Martinez

Título: De Babel e entre Pentecostes: a linguagem religiosa pelo edifício do poder e nas vozes na praça.

Resumo:

Babel - Jacques Derrida reapresenta como “a casa de Deus” - o edifício construído pelos descendentes de Cão - Ninrode homem poderoso e caçador - cuja intenção era estabelecer uma ponte entre a terra e o céu perpetuando o nome. Deste edifício, fundado sobre o poder da língua única com pretensões de universalidade, emanava a ordem sob a técnica de tijolos e betume que o ergue. A linguagem do poder sob a técnica marca a convergência da experiência sagrada na cidade-edifício, contraposta à suposta maldição da multiplicidade das línguas dispersantes: Deus desce e multiplica ali as línguas. No dizer de Umberto Eco o Ocidente e a sua religião, judaico-critã, são marcados pela busca desta língua perfeita, língua que re-congregue todos os povos a si. Uma língua pré-noética preservada pelos hebreus. Mas, a vivência da multiplicidade das línguas já está presente nos descendentes de Jafé, que dispersos entre e as ilhas não são tomados por maldição. Todavia, é em pentecostes que a língua dos hebreus deixa de ser a linguagem do sagrado, a arca que retém a língua adâmica preservada por um povo singular, quando o Espírito derramado sobre todos oferece a todos na praça ouvir em seu próprio idioma, pensando com Olgária Matos e Humberto de Campos. Em Pentecoste a língua se torna hospitaleira, acolhendo a multiplicidade num exercício de tradução perpétuo, desfazendo o poder de uma. O Espírito presentifica-se como tradução entre os idiomas de homens ilhados, ao soprar a vida onde o texto original requer eterno retorno edêmico.

 

O relato ou mito da Torre de Babel tomado por determinado discurso como a gênese da multiplicidade das línguas. A multiplicidade de línguas lida com a expressão do poder religioso. Lugar da intervenção daquele que é o “Muitos-(não)-Nome”[1] que babelizou[2] o poder monolinguístico, o qual se dava ao trabalho de erguer um edifício em direção ao céu, pela diferenciação das línguas faz  interromper a ação construtiva. Esta babelização das línguas que tem sido entendida, pelo ilhamento textual, como uma intervenção amaldiçoadora do “Muitos-(não)-Nome” pela pluralidade das falas. O pluralismo entendido como maldição, ou desgraça, funda certa intenção de re-encontrar a língua original bendita, adâmica, esta que potencializava o homem a ouvir diretamente o “Muitos-(não)-Nome” e nomear as coisas[3].

Há a Torre de Babel do Gênesis 11 e há a ‘Des tours de Babel’, escrito por Derrida, e que, como nos lembra Junia Barreto, traz as dificuldades da intradutibilidade, visto que ‘tours’ no francês comporta uma “multiplicidade de sentidos e de associações possíveis. Torres, giros, voltas, circunlocuções, viagens, passeios, vias, peças, vezes, turnos, truques, e até mesmo desvios se confundem na confusão de Babel.”[4] Mas deveremos mover nossa leitura um pouco para trás, ainda que por passagem, pelas muitas terras e ilhas circunvizinhas, a fim de evitar a precipitação que nos conduza a um deslocamento ligeiro para aquela cidade onde levantam a torre, e, enraizando-nos ali virmos a nos deter por todo o tempo. Sincronicamente importa, quase que por necessidade, caminhar muito a frente e, num anacronismo metódico, ouvir as vozes que se dão entre encontros na praça.

Entendemos que ainda que não façamos distinção prévia entre os atalhos e às trilhas que tomemos, sempre estaremos produzindo alguma forma de edifício em meio a uma cidade, geograficamente determinada ou não. Mas é inerente à escolha a implicação da possibilidade de movimento deste constructo: os graus de liberdade conferidos à fluidez e à mobilidade do produzido. Ademais, as distâncias se abrirão e se fecharão mediante o arbítrio sobre as técnicas e os materiais utilizados. E há, sob-tudo, a crença fundamental, antes, fundante da edificação da casa de Deus, ou da cooperação inter-humana como edifício sagrado.

Nestas idas e vindas estaremos dialogando com os descendentes de Noé: Jafé, Ninrode e Abraão. Por estas vias trabalharemos com a pretensão de uma abertura ao diálogo com as alternativas de expressões religiosas, passíveis de serem pensadas a partir da metáfora do monolinguísmo e plurilinguísmo que encontramos intermetidas às palavras do Livro. Antes, uma possibilidade plural dos sentidos para as palavras que fluem no horizonte das inter-relações humanas naturalizadas, mas que vemo-las cunhadas com significados cristalizados instituidamente por um poder de uma língua que pretende erguer um único edifício monolítico espiritualizante. A tensão entre uma religião da “ágora”, do diálogo eclesiástico, que intenta a democratização libertária daqueles que comungam com o poder, mas que é sulcada, ferida, lancetada por um poder central cuja razão se auto-proclama verdadeira e divina, pois que provem do Uno, portanto apresenta-se concentrador, hierárquico e fundamental.

Podemos começar dialogando com Umberto Eco e ouvi-lo dizer que “nossa história [...] tem a vantagem de poder começar desde o Início.”[5] E neste gênese disse “Muitos-(não)-Nome...” É menos importante o que disse, diante do fato de que a palavra estava presente no Gênesis. Parece-nos que esta palavra encontra-se prenhe de diferença, suscitando e impregnando a distância que reconhece e acolhe o diferente, mormente quando também diz: “viu ‘Muitos-(não)-Nome’ que tudo o que havia feito era muito bom”[6]. Nesta perspectiva a criação é menos uma disputa entre ciência e religião e mais uma fé no encontro com o outro, com a alteridade.

Lembra-nos também, aquele autor, que não sabemos qual língua divina era esta, mas que é apresentada no texto como uma que é entendida por Adão. Ao marcar as palavras do “Muitos-(não)-Nome” que “de todo o fruto comerás, menos o fruto da árvore o conhecimento do bem e do mal”[7], as Escrituras não oferecem espaço para a não compreensão destas pelo homem. Eco nos diz que embora não saibamos nada sobre tal língua, há a “possibilidade de uma língua que, embora não seja possível traduzir com termos de idiomas conhecidos, é, porém, entendida por quem ouve, em virtude de um dom ou do estado de graça particular.”[8] Precisamos pontuar a inauguração que se dá com o diálogo “Muitos-(não)Nome” e Adão, em que a virtude particular deste que ainda não conhecera o pecado, dota-o da capacidade auditiva e compreensiva das primeiras palavras divinas, contudo a graça virá mais tarde.

Certo é que uma vez tendo ouvido as palavras de “Muitos-(não)-Nome” e estando à só, Adão nomeia os animais. O homem fala após ter ouvido, apesar de que não nos certifiquemos se tal nomeação seja representativa ou convencional, arbitrária[9], e nem mesmo se suas palavras são da mesma língua que ouvira antes. Este homem que fala, também dialoga. Então, seguem os tensos diálogos entre a serpente, a mulher, o homem e “Muitos-(não)-Nome”, em meio aos quais o casal come do fruto do conhecimento do bem e do mal. Até este momento, contudo, a mulher é, segundo Eco, “ishshà, feminino de ish, ‘homem’”[10], não havendo nestas palavras o significado explícito ou implícito de uma hierarquia, ou gradação, apenas o feminino e o masculino.

Entretanto, após terem se deixado convencer pelas palavras de cobiça que os projetavam como semelhantes ao “Muitos-(não)-Nome”[11], o homem nomeia a ‘ishshà’ de Eva (vida). Adão o faz pela expansão de seu ato anterior de nomear as coisas, os animais, dando o nome àquela que antes estava diante de si, a qual era consigo não como igual, mas como outra. Agora ela é coisa passível de receber um nome e é nomeada, não apenas ratificando a distância e diferença, mas, sobretudo, a gradação, a hierarquia. A outra que estava diante de si, mas que não era nem indiferente nem igual, agora é posta objetivamente por uma palavra, submissa a ele. Na narrativa do Gênesis a palavra adâmica se converte na palavra de onde se exerce o poder sobre as coisas objetivadas, de onde se exerce o domínio sobre o mundo, a falo poder que desequilibra a diferença e subordina as coisas ao homem. O domínio hierarquizado sobre as coisas vistas diante de si. A palavra do homem torna-se o influxo do poder, lei que a tudo domina e traz para si todas as coisas como o real apreendido e representado.

Devemos, seguindo um pouco mais de perto a Umberto Eco, saltar para os eventos pós-diluvianos. Ora, Noé teve três filhos: Sem, Cão e Jafé. Da descendência de Cão vem Ninrode, do qual falaremos mais tarde, e este edifica Babel. Da descendência de Sem conhecemos o hebreu Abraão e no futuro as festas que seus descendentes viriam fazer, entre elas a de Pentecostes. Mas a descendência de Jafé se espalha pelas ilhas e terras como nos lembra Eco: “Gênesis 10 quando, na narração da difusão dos filhos de Noé depois o Dilúvio, refere-se à estirpe de Jafé, diz-se o seguinte: ‘Desses derivam as ações disseminadas pelos litorais nas próprias regiões, cada um com a própria língua, e as tribos entre as nações.’(10,5)[...]”[12].

Daqui segue que de um único patriarca, Jafé, surgem línguas, destas se diferenciam as famílias e advêm nações, num fluxo, que poderíamos dizer, natural; antes, sem nenhuma intervenção externa que seja explicitada no texto e que faça-se representar nas difrenças. Devemos retornar um pouco e rememorar que Jafé fora abençoado por seu pai, Noé, diferentemente de seu irmão Cão que, por desonrar o mesmo pai, fora amaldiçoado. A linguagem bíblica, sobretudo a vetero-testamentária, é marcada pela diferenciação benditos e malditos[13]. Contudo a diferenciação de línguas entre os descendentes de Jafé, que ocorre sem a marca da intervenção divina e que acentua a identidade familiar e nacional, e, no entanto, entre co-irmãos, ocorre sob a égide da bênção patriarcal.

Embora, como acena Umberto Eco, a diferenciação das línguas entre descendentes de Jafé possa ser entendida como diversificação de dialetos, é plausível pensarmos que tal diferenciação se refere a um fluxo incontrolável, que marcando fronteiras aponta para exigências de traduções. Resta, então, por esta breve passagem pelo Gênesis 10 a questão levantada pelo próprio Umberto: “Se as línguas não se diferenciaram por castigo, mas por tendência natural, por que entender a confusão como uma desgraça?”[14]

A naturalidade[15] da multiplicidade de línguas a partir da diferenciação de dialetos ou não, como nos permite pensamento sobre o Gênesis 10, abre-nos uma trilha diferencial para a leitura do Gênesis 11. Ora, Babel era o princípio do reino de Ninrode, filho de Cuxe, filho de Cão, o filho maldito, desgraçado de Noé. Segundo o Gênesis, Ninrode era poderoso caçador na terra e diante de Deus. A monolíngua de Babel por certo trazia a marca do reino de Ninrode, isto é, a maldição herdada, segundo linguagem das Escrituras. Pôr-nos em caminho por esta trilha diferencial é permitirmo-nos pensar que “o episódio da ‘torre de Babel’ [...] pode ser interpretado como uma tentativa ‘humana, demasiadamente humana’, de reconquistar o Éden perdido, sem o concurso da graça divina e, mesmo, em desafio aberto à punição imposta por YHWH (Deus, Há-Shem, Adonai, Ele-O Nome)”[16]. Sob a batuta do poderoso caçador na terra e diante de Deus, Babel é erguida.

Perguntamos, então com Derrida, “em qual língua a torre de Babel foi construída e desconstruída?”[17] Ademais, perguntamo-nos, neste momento, se a monolíngua que perpassando as gerações e unindo Adão a Ninrode, não seria a língua do poder na qual o homem se vê na possibilidade de ser deus? A língua de um tipo de poder que age sobre a diferença e o diferente visando submetê-los à representação única deste poder, para a satisfação da busca de bem-estar da torre?

Inquieta-nos a possibilidade que a “língua-lábio una e as palavras una”[18] que estava presente naquela cidade perpassando de cima a baixo a Torre, predestinando todos às técnicas de edificação que garanta o próprio edifício. A “língua-lábio una e as palavras unas”, ou, como traduz Chumash “uma única língua e [de] mesmas palavras”[19], pode não apenas ser a tradução de uma linguagem única entre os edificadores da torre, como também traduzir a ausência diferencial e alternativa. Isto é, a eficácia máxima daqueles que olhando para si vêem-se a si mesmos e reconhecem em si um nome que deva ser preservado. A possibilidade de uma língua-lábio una e palavras unas, permite-nos pensar na ausência absoluta do outro e a presença sempre constante da identidade, ainda que não do indivíduo, mas a do poder. A Torre de Babel como edifício que liga a terra ao céu que nega qualquer outra presença que não seja a sua própria, a cidade que se volta apenas para si como um grande corpo narcisista.

Após estas questões, é certo que, segundo Jacques Derrida, Babel nos expõe sempre às traduções: descosntruções e construções. Babel que é traduzida como confusão, pois ali as línguas foram confundidas. Contudo nos lembra este autor que Voltaire diz no Dictionnarie philosophique que Babel deva ser traduzido por “cidade de Deus, a cidade santa”[20]. Ora, a confusão não está apenas nas inumeráveis línguas que ali passaram a se falar, e nem mesmo diante dos arquitetos que viram a interrupção de sua obra, mas, entendemos, sobretudo, a confusão que é pelo e no “Muitos-(não)-Nome”. Deus, ou YHWH, vê o que os homens fazem, como quem vê exteriormente, mas Deus, ou “Bel” segundo Voltaire, está na cidade, pois que é a sua cidade, é a cidade projetada para ser sagrada e eterna: incorruptível e imutável. Derrida, a respeito desta observação de Voltaire, diz que “a cidade carregaria o nome de Deus o pai e do pai da cidade que se chama confusão.”[21] Há, neste jogo bivalente, uma confusão entre Bel e YHWH.

O próprio nome de Deus, pelas vias derrideanas e em Haroldo de Campos, já nos parece confuso, extravagante, fluídico. Apenas pela porta do nome próprio original de Deus que é YHWH e é Bel, exige-se tradução. Exemplarmente citamos as traduções àquele nome – YHWH -, ou, à palavra que se deseja ter o sentido do seu nome, apresentadas por Haroldo de Campos ao Gênesis 11. Ele mesmo, Haroldo nomeia-o de Ele-O Nome[22] e Deus, Há Shem, Adonai, João Ferreira D’Almeida chama-o Senhor[23] e Chumash diz Eter-no, todos se referindo ao tetragrama que se traduz YHWH, ou, Jeová. Muitos nomes e concomitantemente nome algum, por isso nos referimos ao “Muitos-(não)-Nome”. Deus é em Ba-Bel, confundido na cidade com a própria torre, a qual interliga re-liga a terra e o céu. A cidade é de Deus, a torre é santa e Bel confunde-se com a própria re-ligação entre terra e céu. Mas “Muitos-(não)-Nome” que não sabemos se tem lábios e nem palavras unas, de fora vê e interfere.

Tudo é sólido, construído para perdurar, imperecível, que vai de encontro com a condição transitória e mutável de um homem não deve se dispersar e de um nomadismo que deve se enraizar. Tudo naquela cidade conspira contra a diferença, a alteridade, o fluxo e a tradução, “deste modo ‘Babel perfigura o universo concentracionário do qual se expulsa toda alteridade e toda singularidade [...] O texto bíblico está encarregado de instruir um processo histórico. Ele denuncia um mundo do qual estariam expurgadas a diferença e a irremediável pluralidade em benefício de uma reabsorvição violenta na unidade e na igualdade.’”[24] A cidade de Deus não sofre com o tempo e assegura um nome não apenas a Bel, mas aos seus construtores.

Além disso, o Deus que está confundido com a Torre confunde-se neste lugar como uma antecipação sonora anti-profética que viria traduzir o Ser com o Eu Sou o que Sou, conferindo-o identidade com o Uno. Mas o “Muitos-(não)-Nome” ao confundir a língua dos construtores e fazê-los dispersar pelas terras com as suas multi-línguas, tais quais os filhos de Jafé, desconstrói seu próprio nome nomeando-se mais tarde, aos ex-escravos que libertos do poder egípcio, de “Ehyeh-Asher-Ehyeh [...] Eu serei o que eu for [...]”[25]. O próprio “Muitos-(não)-Nome” historiciza-se e contingencia-se. Aquele que desde então, entre os filhos de Abraão, não pode mais ser apreendido e nem contido por nenhuma força de lei, nenhuma linguagem plenas de significações, em meio a nenhum dogma e desconstrói qualquer pretensão exclusiva de uma linhagem lingüística.

Não mais um “Bel” que flui como que numa grande cadeia do Ser dogmática, do topo para a base, do Ser para o não-ser, do Uno para o múltiplo, numa ligação céu-terra por uma única religião sem alternativas que se funda no conhecimento dos mistérios de uma língua genética, ancestral, obtida por uma elite clériga. Mas um “Muitos-(não)-Nome” que se dispersa na praça, em meio as muitas línguas, famílias e nações, cada qual falando de seu próprio modo e demandando tradução mútua. Ou ainda, mantendo o diálogo com Derrida, “a multiplicidade dos idiomas, a tarefa necessária e impossível da tradução, sua necessidade como impossibilidade”[26]. A tarefa da tradução daquele que vê a presença do estrangeiro, do bárbaro, daquele que fala uma outra língua e usa outras palavras, do outro com dialetos distintos já nos lança à frente, para a festa do Pentecostes.

O Pentecostes, “mirada anti-narcisista, transcultural, que busca no mesmo (no universal) a diferença [...]”[27] A festa de Pentecostes em que se desconstrói, como que num eco às palavras de Jesus que prometera em três dias fazer ruir o templo de Jerusalém e erguer um novo templo também em três dias, a religião que falava apenas a língua dos Hebreus. O novo movimento que surge no meio dos hebreus, expande-se no interior do Império que fala o latim e escreve suas cartas e livros em grego. Aqueles que eram chamados de “o caminho”, palavra feita nome próprio que aponta e significa aqueles que não encontram lugar, gente peregrina que não constrói edifícios, tem seu marco originário com o movimento do Espírito no meio da praça, onde um homem lembrando e desconstruindo as palavras do profeta diz: “[...] e acontecerá nos últimos dias que derramarei do meu Espírito sobre toda a carne.”[28]

Mas Pedro falando em sua língua natal se faz ouvir por centenas de homens cada qual em sua própria língua, como nos lembra Olgária, “com efeito, se Deus destinou o homem à tradução, necessária e sempre ‘imperfeita’, Pentecostes consistiria no momento em que o impossível de tradução torna-se possível, em uma espécie de tradução simultânea plenamente realizada [...]”[29] Se a naturalidade multilinguísitca dos descendentes de Jafé foi negada e obstruída pelos reinos e impérios monolingüísticos, então, esta segunda intervenção do “Muitos-(não)-Nome” trás a marca de uma confusão necessária. A confusão necessária marca o movimento do monolingüísmo templário e sacerdotal, para o plurilingüísmo eclesiástico e isonômico. Marca o movimento da lei para a graça, do templo para a ‘ágora’ e da casta para o ‘demos’.

Movimento de hospitalidade do “Muitos-(não)-Nome” que se derrama como chuva sobre bons e maus, concedendo o mesmo espírito de hospitalidade ao homem. Como nos lembra Olgária, hospitalidade que não é tolerância, ou seja, “a tolerância [...] encontra-se do lado da ‘razão do mais forte’, que é uma marca suplementar da soberania – é sua boa face que, do alto, significa ao outro: eu te deixo viver, não me és insuportável, eu te ofereço um lugar em minha casa, mas não te esqueças, estou em minha casa; eu te acolho com a condição que te adaptes as leis e normas de meu território, segundo minha língua, minha tradição e memória.”[30] No ‘caminho’ não há fronteiras, nem tradição (posto que é um movimento originário), nem memória, nem leis e nem normas, e as línguas foram necessariamente confundidas por Deus.

Os caminhos alternativos daqueles peregrinos e forasteiros que posteriormente seriam chamados de cristãos abriram-se a partir da possibilidade da hospitalidade, onde “a hospitalidade como ‘dom absoluto’ é ‘autêntico’, não espera nada em troca, é um ‘esquecimento absoluto’ do dar.”[31] E como tal, aquele movimento estava entregue permanentemente à tradução, portanto às assembléias democráticas, entendendo que “a tradução pertence à ordem do ‘dom absoluto’: perturba as fronteiras, cria hetero-identidades cujo caráter não é homogêneo mas necessariamente compositório.”[32] Assim, o desafio de um cristianismo pentecostal, não como presença de tribos “bunkerizadas” e hierarquizadas em cujo cume estão seus apóstolo, que se negam ao diálogo e à tradução. Mas um pentecostalismo posto na praça. Portanto, um pentecostalismo que desafia a fé a retomar o caminho e abandonar os edifícios e quartéis e desnudar-se pelo dom absoluto da hospitalidade.

A experiência original dos caminhantes que se reúnem em assembléia, partem da praça e seguem em peregrinação. Assembléia hospitaleira que pela tradução ajunta-se com todos, ou, como nos diz Paulo, “onde não há grego nem judeu, circuncisão nem incircuncisão, bárbaro, cita, escravo ou livre[...]”[33]. Pensar as alternativas de experiência com o “Muitos-(não)-Nome” não pelo edifício do poder de uma cidade santa monolingüísta, mas nos nomes de Deus que se ouve nas ágoras pelos muitos lábios e línguas, e nas muitas palavras. Ver a presença de YHWH na hospitalidade e a alternativa cristã contemporânea como tradução.

 

 

 

 

 



[1] Desejamos aqui salientar a própria tensão que se apresenta nas traduções para o Nome de Deus, ao texto do Gênesis 11, introduzindo já outro verbete.

[2] Como traduz Haroldo de Campos a palavra que outros traduziram por confusão. Campos, Haroldo. Babel & Desbabel. In: Interpretação, Org Fabrinni, Regina e Oliveira, Sergio Lopes. São Paulo: Editora Lovise, 1998, pg. 163.

[3] Eco, Umberto. Busca da Língua Perfeita, A. Bauru: Edusc, 2002,pg. 25.

[4] Derrida, Jacques. Torres de Babel. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2002, pg. 7.

[5] Eco, Umberto. Busca da Língua Perfeita, A. Bauru: Edusc, 2002,pg. 25.

[6] Gênesis 1: 31.

[7] Gênesis 2: 17.

[8] Idem, pg. 26.

[9] Idem, ibidem.

[10] Idem, pg. 27.

[11] “De fato, os ‘filhos-constructos’ (bnê, do verbo baná, construir) do homem (há-‘adam), expulsos por YHWH do paraíso terrestre porque aspiravam a ser iguais aos deuses [...]” (Campos, Haroldo. Babel & Desbabel. In: Interpretação, Org Fabrinni, Regina e Oliveira, Sergio Lopes. São Paulo: Editora Lovise, 1998, pg. 161).

[12] Idem, ibidem. Em outra tradução deste texto diz: “Estes repartiram entre si as ilhas das nações nas suas terras, cada qual segundo a sua língua, segundo suas famílias, em suas nações.”

[13] “[...] Cão viu a nudez de seu pai Noé, porque Cão assim transgrediu a mais sagrada, se não-promulgada lei; a maldição de Canaã foi acompanhada pela benção a Sem e a Jafé que desviaram os olhos da nudez de seu pai; aqui temos a primeira e mais fundamental divisão da humanidade, a divisão da humanidade pós-diluviana entre a parte amaldiçoada e a abençoada.” Strauss, Leo. Jerusalém e Atenas: algumas reflexões preliminares. In Natural Right and History. Chicago: Chicago University, 1953, pg 13.

[14] Idem, pg. 28.

[15] Certamente que o texto bíblico não nos autoriza pensar em natureza, contudo nos apropriamos desta idéia grega de natureza já como diálogo e tradução para um movimento que corre entre os povos em suas terras.

[16] Campos, Haroldo. Babel & Desbabel. In: Interpretação, Org Fabrinni, Regina e Oliveira, Sergio Lopes. São Paulo: Editora Lovise, 1998, pg. 161.

[17] Derrida, Jacques. Torres de Babel. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2002, pg. 12.

[18] Campos, Haroldo. Babel & Desbabel. In: Interpretação, Org Fabbrini, Regina e Oliveira, Sergio Lopes. São Paulo: Ed. Lovise, 1988, pg. 165.

[19] Idem, pg. 170.

[20] Derrida, Jacques. Torres de Babel. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2002, pg. 13.

[21] Idem, pg

[22] Campos, Haroldo. Babel & Desbabel. In: Interpretação, Org Fabbrini, Regina e Oliveira, Sergio Lopes. São Paulo: Ed. Lovise, 1988, pg. 165.

[23] Idem, pg. 168.

[24] Matos, Olgária. Babel e Pentecostes: heterofilia e hospitalidade. In: Discretas Espernaças: Reflexões filosóficas sobre o mundo contemporâneo. São Paulo: Nova Alexandria, 2006, pg. 174.

[25] Strauss, Leo. Jerusalém e Atenas: algumas reflexões preliminares. In Natural Right and History. Chicago: Chicago University, 1953, pg 15.

[26] Derrida, Jacques. Torres de Babel. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2002, pg. 21.

[27] Campos, Haroldo. Babel & Desbabel. In: Interpretação, Org Fabbrini, Regina e Oliveira, Sergio Lopes. São Paulo: Ed. Lovise, 1988, pg. 27.

[28] Atos dos Apóstolos 2: 17.

[29] Matos, Olgária. Babel e Pentecostes: heterofilia e hospitalidade. In: Discretas Espernaças: Reflexões filosóficas sobre o mundo contemporâneo. São Paulo: Nova Alexandria, 2006, pg. 174.

[30] Idem, pg. 173.

[31] Idem, ibidem.

[32] Idem, pg. 174.

[33] Epístola de Paulo aos Colossenses, 3, 11.