Aos amantes da Grande Meretriz.
Vós
tendes por pai o Diabo, e quereis satisfazer os desejos de vosso pai; ele é
homicida desde o princípio, e nunca se firmou na verdade, porque nele não há
verdade; quando ele profere mentira, fala do que lhe é próprio; porque é
mentiroso, e pai da mentira. João 8: 44
O
diabo não esta sentado na primeira fila das Igrejas, como diriam alguns no
passado. Escutava-se frequentemente esta retórica, que o tinhoso ficava nas
primeiras filas dos assentos nos cultos cristãos, escuntando tudo o que o
pregador falava, e muitas vezes dizia: amém!. De certo que o cão não está lá,
pois está ocupado demais pregando e não tem tempo para se sentar e escutar
coisa alguma, a não ser o som de sua suave voz.
O
coisa ruim está alí falando, como no deserto: “assim está escrito...”, ou
“assim diz Deus...” Faz longas prédicas, pregações, sermões, ministrações. Diz
que Deus espera que obedeçamos às suas palavras e nos submetamos aos seus
mandamentos: não terás outros deuses, não farás imagens, guardarás o dia do sábado,
etc...não matarás, etc... O capeta comece a Bíblia, já leu as Escrituras muitas
vezes, estuda com afinco o Texto Sagrado, tem um versículo para cada pecado que
cometemos, e sempre diz que ele está perto de nós aguardando uma oportunidade
em nosso caminho.
Mas
ele nos causa um grande mal ao pretender explicar a Verdade. Distorce,
modifica, altera, impreguina, macula, sonega, engana, seduz, conduz, desde o
momento que teve a grande idéia de ser pregador. O mentiroso conhece muito bem
a Verdade e nela acredita, somente desta maneira pode mentir. De certo que está
sempre com aqueles que ouvem sua voz. Esta voz acompanha-os sempre, mesmo
quando não mais estão na casa de deus. Lá está ele dizendo: isto é bom e isto é
mal, isto é verdade e isto é mentira, isto é santo e isto é pecaminoso, isto
agrada a Deus e isto não o agrada. O sedutor põe uma canga nos que nele crêem e
está sempre próximo da árvore do bem e do mal.
Estes
malígnos seres colocam um fardo pesado sobre os ombros dos crentes: serem
perfeitos. Sua perfeição é inatingível, inalcançável, imutável e mais elevada
do que o céu. Não há meio, caminho, forma, maneira de atingí-la, mas isto eles
não dizem. Assim os humanos estão inapelavelmente prisioneiros do pecado, do
medo, do juízo e do inferno. Precisam deste ser das trevas para trazer-lhes
luz.
Estes
pregadores de ilusões, que falam de domingo a domingo, que têm fórmulas mágicas
para todos os desalentos humanos, que falseam e sonegam as palavras de Cristo,
criaram um reino para si e rotulam de heresia a todos aqueles que dizem: o
reino está em vós. Perseguem, excluem, matam, silenciam aqueles que desprovidos
da Verdade apenas ousam sentar à mesa dos que não encontram lugares nos
templos.
Ah!
Os templos. Lugares de luxuria, de mentiras, de invejas, de ódios, de
glutonarias, de cobiça e de assassinato. Templos são lugares dos bacanais de
Narcisos apaixonados. Templos são lugares em que se cantam louvores à
autosuficiência humana, dizendo adorar a Deus. Templos são lugares onde a
promessa de justiça, paz e alegria são esquecidas e colocam nas vitrines, como
os bodes de Jacó, a certeza de galgar as possições dos poderosos e ricos.
Templos são espaços onde dizem “Deus é amor”, mas planejam as batalhas espituais,
excluem os homosexuais, as prostitutas, mas acolhem os ricos que enriqueceram
com tramóias e crimes do colarinho branco. Templos são banquetes onde os que
estão fartos buscam transbordar e garantir a ordem do vinde a mim e os famintos
entregam suas posses na esperança de sobrevida. Templos são lugares onde os
reinos deste mundo são contemplados e desejados nas correntes de jejum e por
meio de dízimos e ofertas. Templos são os gólgotas contemporâneos, lugares onde
matam todos os dias o nosso Senhor, como nos fala João: Sodoma e Egito.
As
Igrejas são lugares de violência contra o próximo, em que o abatido não pode
ser socorrido, pois o envolvimento com os negócios do mundo retira a santidade
do que é espiritual. As Igrejas são os baluartes da espera pela volta de Cristo,
da manutenção da moral, na intransigência da presença da ordem. As Igrejas
pregam o trabalho incanssável para a glória de Deus, a obediência irrestrita ao
Estado como ordenança divina e a certeza cósmica de um texto teológico,
científico, histórico. Igrejas são os espaços onde os irmãos pecadores são
expostos diante da turba que lhes apedreja na exemplificação aos afoitos.
Contudo,
há uma voz que clama do deserto que nos fala sobre o dever de um olhar
profético, tal qual o de Jesus, e, assim, ver nas Igrejas o que ele viu no
Templo de Jerusalém: sua ruina iminente. Devemos sentir o cheiro podre que se
levanta deste leviatã, com muitos nomes mas partícipes da mesma essência:
separar o homem de Deus. Os profetas devem ir ao deserto e de lá conclamar as
pessoas a deixarem esta Babilônia aos seus demônios. Saiam de Jerusalém, saiam
das Igrejas, tampem seus ouvidos e não olhem para trás, como fez a mulher de Ló.
Longe
do poder atrativo desta simulação sedutora, sintam o perfume suave que há no que
está ao teu lado. Experimente Deus no ócio, perceba o divino na desobediência
civil, ouça Sua voz na poesia. Pise a terra com os pés descalços, caminhe à luz
do Sol, permita o vento ser teu companheiro. Atente e deseje a vida suando
sangue por ela, não aceitando seu fim, o fim de toda vida. Lute contra os
conspiradores que trabalham contra ela, na ruina da Terra, na desumanização das
relações. Peque para poder humanizar-se e peça perdão para se despoderar, para
depender do outro. Não aceite nenhuma norma, nenhuma ordem, nenhuma lei que não
tenha uma razão, uma explicação saudável e que esta não repose no “assim ordena
Deus”. Deixe-se apenas ser conduzido pelo amor, pela graça, pela esperança e
pela fé.
25.11.2007