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O Amor é forte como a Morte

O amor romântico é monótono! Temo dever concordar com esta afirmação. Concordo com ela quando nos remete aos filmes românticos e neles a ação está em procurar o encontro e em encontrar meios de achar-se com alguém. As dificuldades de ‘azeitar’ uma relação que se mostra impossível, impossibilitada ou, dificultada por fatores outros que não o do amor, fornecem aos filmes o movimento, a ação. Devem, aqueles que se amam, mostrar empenho em tornar viável aquela junção, aquele aparte que reclama por complementariedade. Temo que enfim, ao se acharem juntos, o filme tem seu acabamento pelo término daquele movimento próprio do drama, restando ao amor o estar diante de si mesmo, desfeita a distância e a diferença. É como A Bela Adormecida em seu ‘gran finale’: e viveram felizes para sempre. Ninguém quer, realmente, saber como o dia-a-dia estável e rotineiro dos amantes se desenrola, nem mesmo os que amam, antes, muito menos aqueles que amam. A relação feliz e romanticamente estável é monótona. O desejo de estar junto e as lutas para obter esta proximidade é excitante.

Gostamos de movimento. Desejamos algo que ainda não temos e empenhamo-nos, esforçamo-nos, sonhamos e até nos desiludimos ao não conseguir o objeto de nosso desejo. Estamos entregues ao movimento, à ação, à incompletude. O ainda-não-é é mais poderoso como meio de felicidade do que o já-é. O ainda-não-é estressa, motiva, projeta, esperança, enquanto que o já-é interrompe toda esta possibilidade de futuro,de movimento. O ter, como objeto possuído é ao mesmo tempo prazer instantâneo e frustração imediata pela cessação do desejo, do olhar, do objetivar. O amor, não restrito à inclinação do espírito, mas aquele que é desejo e entrega, impulso e oferta, é mais saboroso enquanto perseguição e mais entediante enquanto posse. Assim, amamos a potencialidade que advém do amor e não seu alcance, amando sempre a felicidade por-vir. Sempre amaremos o objeto distante e nos entediaremos com a posse do que foi amado. Somos servos do desejo de amor não realizado.

Quando o amor se realiza e estamos diante daquele ou da coisa amada, apenas temos a dizer que a amamos e ouvimos, quando o amor chega ao encontro, dela sobre o mesmo amor. O amor fala do amor, num encontro sem distância. No amor correspondido apenas há a sublimação da presença recíproca, do amor a ti que está em mim e que é igual ao amor por mim que está em ti; para lá do amor nada mais há, portanto, diante e a partir dele não há movimento. Toda a adrenalina amendrontada que flui nos amantes que desejam a plenitude do desenlace é substituída pela inércia da reciprocidade estável que se alcança. Uma eternidade imóvel de um espírito que fecha-se neste dois-um. O perfeito amor é, no sentido mais tradicional, a ausência divina de movimento que nada mais quer, ainda que irradie misticamente sua magia. Vencer os impedimentos e estar próximo do objeto amado, da pessoa amada é harmoniosa plenitude da perfeição. Amar, neste momento é ser.

Como escapar desta brutalidade, desta violência? Como fugir deste estado ideal mas impossível? Como prevalecer sobre esta violência desmedida de uma eternidade pontuada num instante sem movimento? Um momento eternizado por esta ausência de separação? Como escapar do que seria a não violência do amor que se vivencia como violência da imobilidade? O amor, este amor se nos apresenta como que um pequeno caixote no interior do qual não há luz nem trevas, som ou silencio, dor ou prazer, sensação ou insensibilidade, gemidos ou mudez, tempo ou espaço. Apenas o nada travestido de tudo. Como sobreviver a isto, além da morte?

O amor romântico é a porta da morte. Portal escancarado e luxuriante que seduz e traga por hipnose aqueles que sedentos de sentido se deixam introduzir por ela. Morre-se em vida exigindo que nossa mortalha seja sorridente. Como o escravo que assovia enquanto submete-se sem obediência à voz imperativa de seu amo. Assim amamos aos deuses, aos Estados, às ideologias, ao trabalho, às tecnologias, ao consumo e às mulheres. Morremos e matamos por nosso amor maior.