O que dizemos enquanto estamos diante
dos outros...
Um
grande amigo meu vendo algumas filmagens de encontros que participamos em casa
de outros amigos, perguntou-me sobre a opinião que temos sobre os homosexuais.
Uma parte dos evangélicos e católicos assume para si a consciência moral de
seu tempo. Acho até que isto tem seu lado positivo. Contudo, este compromisso
traz seus problemas, primcipalmente quando se torna sedutoramente soberbo, ou
hipocritamente excludente. O fato é que não vejo em Jesus esta postura mais
elevada ou apartada de um compromisso maior. Assim, coloquei com breviedade
algumas considerações sobre o tema e que seguem.
O
que pensamos sobre o homosexulismo, esta parece ser a pergunta. A partir desta
questão procuraro expor a minha perspectiva, mais do que responder o que o
grupo pensa. Devemos refletir, inicialmente, sobre uma sutil diferença entre o
“nós” daquele grupo e o “eu” naquele grupo. É preciso entender que em tal grupo
não se busca estar junto pela unanimidade - o que chamaremos de ajuntamento – e
ausência de diferenças, mas, estarmos reunidos motivados pela possibilidade de
um mesmo pensamento. Entendemos que a unanimidade é a concordância restrita em
todos os temas sem a presença da diferença, mas ter o mesmo pensamento é o
trabalho pacificador das diferenças, ainda na permanência destas diferenças. Porque
entendemos que é nestas diferenças que se pode dar o crescimento. A paz não é a
extinção das diferenças, mas a potencialização destas diante dAquele que não
cabe em ninguém em particular. Como sabemos o céu dos céus não pode retê-Lo,
quanto menos um de nós em particular.
As
diferenças se fazem, pois entendemos que o conhecimento de Deus, o qual está presente
em cada um ainda que parcialmente, é uma mistura de trigo e joio. Cada qual
individualmente não sabe separar um do outro, isto é, diferenciar o que é trigo
e o que é joio. Contudo cremos que a exposição das opiniões de cada um, feita
de maneira sincera e autêntica, pode nos socorrer, sendo este o meio eficaz de
uma experiência no corpo. A intensão ao expor livremente a própria
interpretação particular do texto é comunicar suas razões, ao ser questionado
rever ou fundamentar suas razões, e auxiliar o outro a encontrar razões,
fundamentar as já existentes, ou revê-las. Não há, ao fim, um encontro com a
unanimidade, mas com a lapidação do conhecimento de Deus em cada qual. Lapidar
é um projeto longo, doloroso e individual, não feito na igualdade unificadora,
como que houvesse a intensão de conformidade. Não somos uma fábrica de produtos
em série. Cada diamante será único em sua lapidação! Ou, em palavras paulinas,
a exeriência eclesiástica é uma purificação do ouro pelo fogo.
Tendo
dito isto podemos passar à questão. Não pensamos sobre o homosexualismo como um
pensamento que se uniformiza e únfica, o qual se obterá ao fim das falas de
cada um. Mas cada qual pensa e diz o que pensa sem o receio da reprimenda ou
exclusão, tendo como elo comum um mesmo pensamento de gravitação e
intensificação sobre este tema. Ou seja, no atrito das opiniões divergentes
lapidar a sua própria opinião, como quem escuta: “como o ferro se afia com o
ferro, assim também cada qual com o seu próximo.” Cada qual fala respeitando a
liberdade alheia de discordar, concordar, perguntar, sem que ao fim chegemos a
uma expressão únificadora. Tão importante é o debate eclesiástico (em
assembléia, em igreja) que nos leva a percebermos a nós mesmos como carentes da
Graça. Este é o pensamento fundante: a carência da Graça.
Aqui
entra o meu pensamento individual que subjaz às minhas palavras e que me
orienta nas discussões sobre este tema: a Graça. É a Graça que carecemos, e não
o ato moral. A carência humana é o cerne das razões de Jesus. Jesus tem razão
quando diz: não vim para julgar, mas para salvar. Jesus tem razão quando diz:
vinde a mim vós que estais cansados e sobrecarregados, e eu vos aliviarei.
Jesus tem razão quando diz: Pai perdoa-lhes porque não sabem o que fazem. Jesus
é o Logos, a Razão, o Verbo que se fez carne. A Graça de Cristo é o Logos que
se faz carne. Como sabemos o Espírito é quem diz que Cristo veio em carne e o
que nega é o antiCristo. A Graça amorosa transmuta todos os nossos valores,
impedindo-nos, como no início do livro de Atos, de olhar para o céu,
constrangendo-nos a fixarmos nosso olhar
na terra, no mundo. A Graça nos coloca na horizontalidade de relações humanas,
nas quais o mais santo é o que olhando para si não se vê superior a ninguém.
Encontrar-se
com a Graça é olhar para o horizonte e sair ao encontro do outro. Vir a Cristo
é um ide ao mundo como um tornar-se emanuel e dispersar-se num pentecoste, como
quem dá crédito ao que disse: o reino de Deus está em vós. Cristo está no mundo
e somente lá o encontraremos, pois que o Logos se fez carne e habitou entre
nós, no mundo. Veja, encontramos Jesus na praça, nas ruas, nas casas com os
publicanos, com as prostitutas, com os leprosos, com os marginais, com os
excluídos, mas não o encontramos no sinédrio (a não ser no dia de seu vil
julgamento), e raramente na sinagoga e no Templo. Não encontramos Jesus na
Igreja, mas no mundo em sua eclésia (assembléia, igreja) de dois ou três. Encontramos
o Jesus encarnado quando o vemos nos pequeninos que tiveram fome e demos de
beber, com sede e demos de comer, nus e os vestimos, e não quando profetizamos.
A minha pergunta é: quem são estes que são vistos por Cristo como Jesus?
A
perversidade da Graça é que ela cancela a lei, pois que essa nos conduz à
morte, enquanto aquela à vida. Não é possível ser corpo de Cristo enquanto
ajuizamos o próximo, pois Cristo não veio para trazer juízo, mas Graça. O juízo
sobre o próximo nos coloca no pedestal do juiz que compara o padrão ao ato e
promulga o veredito. A Graça é perversa pois uma vez cancelando a lei retira de
nós, humanos, as condições de valores de julgamento do próximo. Assim sem lei
não podemos dizer: este é um pecador, colocando-nos no chão das relações
horizontais. Ninguém que se diz cristão pode julgar o próximo e dizer: este é
homosexual, portanto não é salvo. Com isto entramos num terreno pantanoso e
sombrio do texto vesus interpretação fundada. A primeira carta de Paulo aos
Coríntios lemos algo do tipo: ...os efeminados...não herdarão o reino...
Para
pensarmos no “herdar o reino” precisamos dar alguns passos atrás. Primeiro
pensar que há uma semeadura e um edifício, conforme o início da primeira carta
aos coríntios. A semeadura fala-me de uma semente (a palavra de salvação) que
não é controlável pelo homem e não depende de nosso esforço e trabalho.
Jurisdição exclusiva de Deus. Porém no edifício somos chamados a sermos
cooperadores da obra, sabendo que o fundamento é Cristo. O fundamento é o Deus
que se fez carne, o fundamento é a Graça amorosa daquele que se esvazia e não
buscando serviço para si, serve ao próximo, isto é, olha-nos e ama-nos
servindo-nos com a sua vida e não apenas com sua morte. Este é o fundamento do
edifício: o Emanuel. Agora, somos chamados a emanuelizar, isto é, lavar os pés
do próximo, tomar a cruz, ser testemunhas, ou seja, ‘marthuros’.
Em
segundo lugar, pensar que Paulo escrevendo aos de Corinto diz que há entre eles
“imoralidade tal que o filho mantém relações com a esposa do próprio pai”. Caso
olharmos a imoralidade como o ato sexual fora da relação
monogâmica-heterosexual, erramos o alvo, isto é, pecamos. Devemos pensar a
imoralidade como a mercantilização dos corpos, ainda mais, o olhar para o corpo
do outro como coisa obtível por dinheiro, ainda mais, olhar o próximo como
coisa que se pode apoderar. A imoralidade é anticristã à medida em que se
estabelece fora do fundamento do edifício, isto é, a imoralidade é o olhar para
o próximo como um objeto de consumo e uso, no qual me imponho como poder sobre
seu corpo. Contudo, o edifício cristão é esvaziamento ao o limite do servir,
diminuindo para que o outro cresça até a minha própria estatura. O discípulo
não pode ser superior ao seu mestre. Negar que Jesus veio em carne é negar o
esvaziamento e desejar o poder, a hierarquia, a liderança, o mando, a imposição
de uma verdade sobre o outro. Revelar Cristo é esvaziar-se tendo vergonha do
poder, solapando a hierarquia, pregar contra as lideranças e libertar-se do
julgo da lei que diz: guardarás o dia do sábado. Transmutamos os valores.
Em
terceiro lugar o reino em grego é ‘basiléia’. A ‘basiléia’ grega clássica era um
conjunto de ‘oikos’, de casas de famílias que se reuniam autonomamente para
buscar o bem-estar, por meio de assembléias (eclésias), destes congregados. Não
havia, nas mais de 3000 ‘basiléias’ da Hélade Clássica, uma lei única e comum
entre elas, mas um pensamento similar, ou seja, a busca pelo viver bem. Este
viver bem era buscado por meio das assembléias (eclésias, igrejas) nas quais
todo cidadão era igual em direitos e deveres. A ‘basiléia’, o edifício do reino
era construído por todos e por cada um igualmente, diferenciando-se nas funções
horizontais e não no poder vertical (hierarquia e liderança). Herdar o reino é
crer nesta igualdade cooperativa horizontal que nos permite participar na
construção do edifício. A família que nos faz habitar neste ‘oikos’ e nesta
‘basiléia’ tem como Pai a Deus. Somos, assim, como quem tem uma família. Nossa
herança é Deus que nos faz co-herdeiros com Cristo. Mas, por herdarmos a
filiação e presença de Deus em nós, esvaziamo-nos e servimos aos iguais,
levando o fardo uns dos outros. Os herdeiros agraciam com a Graça que foram
agraciados. Contudo, enquanto nas eclésias gregas somente participavam os
homens adultos, livres e nascidos naquela ‘basiléia’, na igreja cristã todos
(homens e mulheres, livres e escravos, judeus, gregos e bárbaros) são cidadãos
igualmente.
Em
quarto lugar a homosexualidade em muitos casos estava ligada à imoralidade no
sentido acima apresentado. Desta forma, alguns estudiosos (aqui podemos citar
Pierre Bourdieu em seu texto: Dominação Masculina) argumentam que a
homosexualidade está presente quando o rei penetrava o súdito, o homem livre
penetrava o escravo, o adulto penetrava o adolescente, o forte penetrava o
fraco. Neste sentido, clássico, a homosexualidade pode ser entendida como um ato
de poder que subjugando o penetrado, impondo-lhe a desigualdade, a
hierarquização das relações. Segundo este entendimento não pode herdar o reino
(basiléia) o que olha o próximo como desigual, quer seja inferior, quer
superior. Assim, retomando, Paulo fala: “Não sabeis que os injustos não
herdarão o reino de Deus? Não vos enganeis: nem os devassos, nem os idólatras,
nem os adúlteros, nem os efeminados, nem os sodomitas, nem os ladrões, nem os
avarentos, nem os bêbedos, nem os maldizentes, nem os roubadores herdarão o
reino de Deus.” (1 Coríntios 6: 9 e 10) A injustiça está em tornar o próximo
como coisa a ser consumida, como copro dócil a ser subjugado pelo poder do mais
forte.
Em
quinto lugar devemos pensar na justiça. Ela pode ser entendida como dar a cada
um segundo a sua parte, ou seja, ao homem bom dar coisas boas e ao homem mal
dar coisas más, ao rico laborioso a riqueza e ao pobre e vagaroso a miséria.
Contudo podemos entender a justiça como equidade, assim assumimos um fundamento
único para a justiça sobre o qual todos são igualmente tratados. Não importa se
uma determinada pessoa é homem ou mulher, rico ou pobre, a cor da pele, o grau
de escolaridade, etc, todos poderão co-participar da obra igualmente segundo
suas habilidades (esta é uma discussão mais complexa e que estou procurando
simplificar, sumarizando idéias do filósofo John Rawls). Em Cristo Jesus apenas
podemos pensar em justiça como equidade, portanto, a injustiça é a
diferenciação pela hierarquização oligárquica ou aristocrática. O injusto não
herda o reino pois ele se diferencia do seu próximo enquanto a ‘basiléia’ cristã
acontece em meio à eclésia de iguais. Paulo no texto acima apresentado diz que
o que se pensa superior ou inferior não herda, pois para todos os exemplos
citados (devassos, idólatras, adúlteros, efeminados, sodomitas, ladrões,
avarentos, bêbados, maldizentes, roubadores) sempre há a presença desta
distorção em que alguém pensa de si além (ou aquém) do que deve pensar.
Por
este viés a injustiça não é a inadequação a um código de condutas (não serás
homosexual, não jogarás na loteria esportiva, não fumarás, não falarás
palavrão, etc), mas o olhar para o próximo como objeto inferior, e este próximo
pode ser o próprio que olha. A injustiça é a imoralidade, segundo o registro
que fizemos acima. A imoralidade é esta diferenciação hierárquica em que o juiz
desqualifica o pecador, desde uma posição de santidade, ateé uma posição de
perdição. A imoralidade pode se dar numa relação monogâmica-heterosexual dentro
do casamento quando o homem se julga superior à mulher, subjulgando-a,
submetendo-a e vice-versa. Toda vez que um marido/esposa não olha para a sua
esposa/marido como coparticipe da edificação deste edifício que é o Corpo de
Cristo, ele/ela praticou um ato imoral. O marido deve amar a sua esposa como
Cristo amou a eclésia. Como ele a amou? Esvaziando-se, servindo-a, morrendo por
ela e elevando-a a uma posição de co-herdeira, igual. A mulher deve se submeter
ao marido como a assembléia a Cristo. Como ela se submete a Cristo? Tendo o
mesmo pensamento: justiça como equidade!
Então
retomo à Graça. A Graça é esta justiça de Deus que nos faz um com Cristo,
conforme Cristo a despeito da lei, do mérito, como diferentes em seu galardão.
Neste sentido a homosexualidade como diferença é tão pecaminosa como o
casamento imoral. Quanto a mim, particularmente, sou heterosexual-monogâmico e
casado.