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Ecclesia: onde não há homem ou mulher...

 

Logo depois disso, andava Jesus de cidade em cidade, e de aldeia em aldeia, pregando e anunciando o evangelho do reino de Deus; e iam com ele os doze, bem como algumas mulheres que haviam sido curadas de espíritos malignos e de enfermidades: Maria, chamada Madalena, da qual tinham saído sete demônios. Joana, mulher de Cuza, procurador de Herodes, Susana, e muitas outras que os serviam com os seus bens. Lucas 8: 1 a 3

 

Há um pensamento que emerge em nós a partir da reflexão sobre as palavras de Martin Heidegger, que desejamos salientar, o qual nos impulsiona ao pensar, sem que, contudo, cheguemos a um beco sem saída, mas, antes, a uma desembocadura como num delta. Faz-nos amar o que é antigo sem o desejo de seu retorno anacrônico, isto é, o amor como o que torna presente a possibilidade de tradução, mas não sua re-presentificação. Mormente, que o antigo amado faz, como possibilidade em nós, odioso o velho organismo que a tudo traga, como um imenso anti-Cristo que se ergue sobre o Cristo: o velho que sufoca o antigo, como um Caim homicida.

Voltemos ao pensador antes de pensarmos sobre as imposturas. Heidegger disse que “o pensamento romano recebe os nomes gregos sem a correspondente experiência original do que eles dizem, sem a palavra grega. O desenraizamento do pensamento ocidental começa com esta tradução.” (Heidegger, 2004, 16) A questão que, aparentemente, coloca-nos esse pensamento não é a de qualquer tradução do grego para o latin, mas com uma certa utilidade que se dá à palavra traduzida. Ainda que mantenhamos o nome no original, mesmo a transliteração ou a evocação do nome, sempre invocaremos no homem de nosso tempo a tradução de um outro tempo, ou entre falantes quaisquer num mesmo tempo ou distantes. Por certo que tangenciamos, assim, uma tradução impossível.

Então, é no desenraizamento promovido pelo esquecimento da experiência original que se dá a passagem com ocultamento e que está a questão por ele pensada como uma específica tradução. Pensamento que nos faz pensar nas palavras arrancadas de seu solo e postas em vazos a fim de enfeitarem, ou enfeitiçarem, ou tão somente desviarem os que a ela atentam. Palavras usadas sem referência alguma às experiências das quais elas foram tomadas, tornando má tradução sobre valores desertificadores, isto é, pelo esquecimento da experiência original. As experiências originais esquecidas ou ocultadas por este recebimento latino do grego como traduções desenraizantes, em outras palavras, estas palavras ficam como que suspensas, como folhas arrancadas de suas árvores e que flutuam no rio. A palavra grega latinizada seria útil como referência primária à sabedoria que é esquecida, ocultada. Contudo, ainda cabe uma tradução como memória da experiência original em presença do homem contemporâneo, cabendo desocultar a palavra.

Ir em busca do antigo como quem cava um tesouro arqueológico, retirando de sobre ele os séculos de depósitos, construções e tradições que soterram no tempo. Encontrarmo-nos com o soterrado afim de depararmo-nos com o estranho que exigue a pergunta grega: o que é isto? Negarmo-nos à resposta artificial que já esta aqui antes de escavarmos lá: isso corrobora com o que previamente dissemos. A linguagem do presente que impõe à palavra antiga sua prévia tradução já acabada antes mesmo de encontrada, envelhecendo-a. Pensamos assim que a linguagem presente é um edifício velho, com rigidas e sólidas estruturas postas no lugar do campo aberto e depositário da expeirência original.

Os rastros nestes campos abertos das exepriências originais foram paulatinamente ocultados pelas sapatas, pisos e colunas destes monumentos desenraizados e desenraizantes de uma tradução sem a vinculação com a experiência original à qual a palavra estava vinculada. Ainda que os verbetes, as falas e os discursos possam ser olhados, as palavras virginais já foram há muito violentadas e prostituídas, reincorporadas servilmente pelos novos senhores deste começo da Verdade. Conforme nos fala o filósofo alemão, as palavras antigas são recebidas, contudo delas lhes sacam as suas raizes e, pensamos, serem elas expostas como aparelhos decorativos nos vitrais, como peças coloridas e encaixadas arbitrariamente nos mosaicos bi-dimensinoais. Rochas lapidadas, interpostas e encaixadas tecnicamente e artesanalmente, subtraídas de suas origens, das experiências originais que elas fomentavam. Todo este tratamento de transposição como recebimento e desenraizamento como esquecimento apenas oculta o que mantém um rastro ancestral, mas que permanece.

As palavras gregas, marcos próprios de um cultura, que foram lapidadas por seus próprios artífices, são re-trabalhadas agora por novos artesãos que as tomam como matéria bruta. Recebe-se a palavra grega como matéria-prima incompleta que deve ser polida, preparada para usos absolutamente divergentes. A palavra é recebida na nova linguagem não como tradução que atribui a elas a possibilidade de experiências novas, mas, desenraizam-nas e lançam-nas em novos solos.

Assim, a experiência original, a ancestralidade da palavra é pelo que desejamos perguntar. Não pela produção arquitetural e estrutural que majestosamente se coloca e que podemos entender podem ser removidas diante desse projeto. Perguntamos por meio dessas amostras e partes que sacamos aqui e ali, esses fragmentos e vestígios de uma palavra que reclama sua logoparusia, isto é, o retorno da palavra original com sua possibilidade de experiência ancestral, tanspassando o latin e o grego pagão, perguntando pelo grego cristão original. Aqui cabe uma fenda própria de um grego não pagão, ou, um paradoxo por nós pensado: não há grego cristão! Chegamos ao sítio arqueológico sem saber onde começar e estranhando cada pequeno artefato ou vestígio que nos possa apontar para o campo e seus caminhantes.

Deparamo-nos, nesse sitio, com uma citação cristão e grega e alí buscamos esta palavra grega e cristã na citação feita por Étienne Gilson, em nota de rodapé, de uma carta de uma mulher do final do segundo século de nossa era: “Ora, visto que ele [Cornélios, o pagão] não pode admitir que gente iletrada e pobres ignorantes, como ele nos chama, discutam de coisas divinas, ele precisa saber que todos os homens nasceram racionais, sem distinção de idade, de qualidade, nem de sexo, e que eles não devem sua sabedoria à sua fortuna, mas à natureza[...]” (Gilson,2006 ,40). Esta carta do final do século II já nos mostra quão longe de seus contemporâneos estavam aqueles iletrados, antes, aquelas iletradas. Nosso olhar do século XXI, hiper-movimentado e cheio de “ismos” como nos feminismos, quase que não nos deixa perceber o radical movimento que ocorre nesta carta. Primeiramente ela é escrita por uma mulher cristã e ignorante em oposição a um filósofo pagão. Uma mulher se coloca na sena política, cabendo perguntar: a partir de qual prerrogativa? Quem a permitiu sair de seu lar e tomar a palavra públicamente?

O próprio texto já nos fornece algumas pistas do pensamento que permeia aquele cristianismo grego: todos nasceram iguais, “[...] todos os homens nasceram racionais, sem distinção [...] nem de sexo [...]”. O ‘homem’ aqui pode ser tomado como ‘ser humano’, ou a humanidade, e todos são igualmente racionais sem distinção do sexo, devendo sua sabedoria à natureza, isto é, todos os indivíduos tem igualmnente o acesso à sabedoria sem a distinção sexual. Este é um discurso que se aproxima mais de Protágoras do que de Sócrates, de Platão, ou de Aristóteles; aproxima-se mais de Jesus do que de nossos apósotolos, pastores, bispos contemporâneos. Esta é um carta democrática mais próxima do discurso da sofística protagórica do que da linha aristocrática neoplatônica. Esse estrato nega que a sabedoria seja proveniente quer da riqueza, quer de uma dotação extraordinária recebida por alguns mais excelentes. Para esta cristã é natural que todos sejam dotados de igual porção da sabedoria. Estranhamos, sobretudo que embora esta seja uma carta cristã, não há nada de sobrenatural nestas palavras.

Outro detalhe neste fragmento, e podemos pensar com Goethe que toda literatura é fragmetária e fragmento, é que há uma discussão, ou diálogo interno entre os iletrados cristãos sobre a divindade. Ora, podemos pensar que não apenas há um diálogo em torno de Deus, mas há diálogo e não discurso ou monólogos de pregadores. Aquelas comunidades tinham a cultura eclesiástica dialógica e não a impostura monológica dogmática. A palavra permeava e frutificava em todo e a partir de toda a assembléia cristã.

Cabe o estranhamento, em virtude desde desvio da tradução, à dinâmica ecclesiástica. Há neste cristianismo grego uma ecclésia que assume em igualdade, antes mesmo de todos os “ismos” modernos como o humanismo e o feminismo, todos os que a ele se chegam. A ecclésia grega é a assembléia dos homens livres e cidadãos potencializados para a guerra, mas no grego cristão, a ecclésia é a assembléia de todos, não havendo homem ou mulher, escravo ou livre, judeu ou grego, rompendo pela universalidade da igualdade os limites raciais, sociais e de gènero.

Esta democracia - e vale a pena pensar na ecclésia cristã como um espaço no qual o poder se faz em meio do povo reunido, contudo o poder está em xeque na presença do esvaziamento do próprio Deus cristão - é o poder de um povo que questiona o poder. A supressão radical das diferenças e a propagação da liberdade com justiça, palavras destacadas no texto cristão, coloca na parede as estruturas de poder monárquico e hierarquizado dos regimes políticos das cidades contemporâneas.

A tradução, sempre impossível e requerida, oculta por trás da palavra igreja a reunião cristão que se fazia naquele primeiro século da era cristã. A Igreja, organização piramidal que, como um Caim, derrama o sangue da igreja, reunião democrática de pessoas livres que buscavam a justiça relacional. Dois milênios fizeram com que uma utopia política, isto é, um desejo de que todos fossem igualmente percebidos na cidade e dela participassem, a despeito de raça, gênero, classe social, fosse ocultada e esquecida por debaixo deste edifício teológico que são as Igrejas cristãs. Tal é o peso deste organismo institucional que não se pode mais falar nele sem que se pense em patrimônios, cargos, funções, planejamentos, doutrinas, dogmas, ortodoxias, e, sobretudo, um conjunto de discurso que valide e suporte este Leviatã.

É esta tradução de ecclésia para Igreja que nos separa do espírito cristão original. É o cristianismo latino, o qual ainda perdura não apenas no cristianismo romano, mas, ainda mais, no luterano, calvinista, pentecostal e, sobretudo no neopentecostal. Cristianismo latino que garante ao poder seu espaço de ação e eco preciso para uma sociedade laica que necessita de indivíduos adequados à produção de suas riquezas. O cristianismo latino, ainda que pregue contra um modelo econômico, é ele mesmo agente colaborador deste modelo, ao sacralizar as relações do poder.

O cristianismo grego, em sua democracia universal, era o mais pernicioso elemento de questionamento do poder, devendo, portanto ser negado e perseguido. É esta experiência original destes assembleiados pela igualdade radical que buscava a justiça social é que reclama sua ressureição. Igualdade radical que não impõe ausência radical de diferenças, mas, confere igualmente a todos a possibilidade de justiça que entremeando indivíduo e comunidade, se oferece a todos.  Pensar a igreja não mais como organismo, mas como an-arkê-ia, é a implicação de olharmos para as palavras originais.

Bibliografia

Gilson, Étienne; Espírito da Filosofia Medieval, O; São Paulo; Martins Fontes, 2006.

Heidegger, Martin; Origem da Obra de Arte, A; Lisboa; Edições 70; 2004.