Outro dia pesquisando um pouco sobre livros apócrifos e principalmente evangelhos apócrifos, obtive uma informação, não confirmada, muito interessante: estes evangelhos foram em sua maioria, escritos entre o ano 210 d.C. e o ano 270 d.C. Em vista disto, de que os homens naquela época tinham uma expectativa de vida de 30 anos, que João foi, daqueles que andaram com Jesus, o último a morrer, dentre os primeiros apóstolos e isto se deu por volta do ano 95 d.C., então, não foram os discípulos dos apóstolos, nem os discípulos dos discípulos e nem tão pouco os discípulos dos discípulos dos discípulos, mas foi a partir da quarta geração que começaram a escrever estes livros, contos, idéias, interpretações, alucinações e alguma coisa de verdade, aqui e ali (?).
O que isto tem a haver com nosso dialogismo?
Por volta do ano 313 d.C. o imperador romano Constantino adotou o cristianismo como religião oficial do estado, do império romano, que neste tempo teve sua capital transferida para a cidade de Constantinopla, hoje Istambul, na Turquia e o império romano passou a ser chamado de bizantino. O cristianismo, que até então era um “grupelho” de renegados, perseguidos pelo estado organizado, pelos pagãos e mesmo, até o ano 70 d.C., pelos judeus, passam a figurar diante do estado e do povo, como a única religião oficial.
Os cristãos, até então, reuniam-se escondidos nas residências, nas catacumbas, esconderijos. No entanto, ainda estavam vivas as palavras de Jesus, em suas mentes e espírito, quando disse: “quando dois ou três de vós vos reunirdes, eu estarei em meio de vós”.
Como exemplo podemos citar a Igreja em Éfeso, que era composta inicialmente por cerca de cinco pessoas. Veja que interessante: Paulo escreve para a Igreja em Éfeso, que tinha cinco membros e diz que Cristo ungiu a Igreja com cinco ministérios!
Um segundo aspecto relevante no entendimento da forma de ser da Igreja no primeiro século, está no fato de que a de Jerusalém tinha um “templo”, mas as demais, não tinham. Somado a isto, Deus em pessoa destruiu o único “templo” que existia. Foi Deus quem destruiu o Templo de Jerusalém, no ano de 70 d.C., conforme profetiza Daniel, declara Jesus Cristo e descreve o historiador judeu Flávius Josefo; a partir do ano 70 d.C. nenhuma Igreja tinha um “templo” e toda a Igreja era perseguida pelo estado romano. Isto até o ano 313 d.C.
Outra questão a se abordar (terceiro aspecto) sobre o tema, é que Igreja era organizada numa estrutura mista, ou seja, havia pelo menos os apóstolos que acessavam a todas as comunidades (veja como Paulo inicia a carta de I Coríntios: “eu sou de Pedro, eu sou de Apolo, eu sou de Paulo...”. Três homens com unção apostólica tocando a Igreja em Corinto. João em Apocalipse escreve às sete Igrejas na Ásia, inclusive Éfeso, que foi destinatária da carta de Paulo). Localmente, na condução das coisas da Igreja, havia os Bispos e Presbíteros (ancião), assim como os diáconos; o interessante é que não era 1 Bispo, ou 1 Presbítero, nem mesmo 1 diácono como norma de liderança, mas uma junta de Bispos/Presbíteros.
Temos então, no Novo Testamento, os cinco ministérios apresentados em Efésios 4, os Bispos/Presbíteros e diáconos, definidos como tais em vários livros do Novo Testamento e os dons de Romanos 12, onde inclui: profecia, ministério, ensino, exortação, contribuição, governo e misericórdia. Somamos a isto, os dons de Deus na Igreja (I Corínetios 12: 28 e 29): Apóstolos, profetas, mestres, operadores de milagres, curar, socorrer, governar, línguas. Por fim, tínhamos os dons e manifestações do Espírito (I Coríntios 12: 8 a 10).
A Igreja local convivia com todo este arranjo e mescla de unções, dons, responsabilidades, funções, mas em nenhum local, que eu conheça, há a definição de UM líder, UM chefe, UM responsável.
Caminhando um pouco mais para traçar um perfil da comunidade da Igreja no primeiro século, devemos fazer uma arqueologia de palavras e entender o que se queria dizer, ou o que se entendia por “IGREJA” (quaro aspecto), dentro do contexto cultural grego-romano e judáico.
Há um estudo que foi desenvolvido pelo Pr Marcus van der Neut, com o título de: O que era igreja no 1o Século, e sobre suas reflexões, vamos apresentar alguns detalhes e expandir o tema.
A palavra “igreja” vem do grego “ekklésia”, que somente se pode ter um entendimento de fato do seu significado, dentro de um panorama histórico e político. A Grécia tinha sido organizada em cidade-estados (“polis”), com autonomia plena, mas agregadas por alianças sob a égide da confederação, onde a língua, a cultura, a religião, a gênesis, a organização eram similares. Todos os homens maiores de idade se reuniam em um local público, não específico, para deliberar, legislar, debater idéias, decidir sobre guerras, etc. Em fim, “ekklésia” era uma assembléia geral de todos os cidadãos daquela “polis”.
“Ekklésia” era um sair para fora do cotidiano, para olhar para dentro da “polis”. “Polis” é a palavra ‘cidade’, a dimensão compartilhada e comum do estado grego. Os cidadãos da cidade faziam um exercício de “cosmologia”, quando participavam da “ekklésia” e debatiam idéias e problemas, propondo soluções e entendimentos. Onde “cosmos” significa o mundo ordenado e organizado, e “logia” é conhecimento, pensamento racional, discurso racional, ou seja, um exercício de debate, busca de entendimento, desenvolver saberes, sobre a estrutura organizada da “polis”. Assim, a “ekklésia” não se organizava e reunia para melhorar a si mesma e aperfeiçoar esta atividade meio, antes, reunia-se para projetar a “polis”, via “cosmologia”. A “ekklésia” era a dimensão do exercício de cidadania da “polis”. A “cosmologia” evoluiu para “filosofia” (amor ao “logos”), que por fim culminou nas ciências.
Podemos entender então que a “ekklésia” era um instrumento, uma tecnologia que o cidadão grego possuía, para consenso de uma “cosmologia” sobre a “polis”, com a finalidade de buscar a verdade deste “cosmos” que possibilitaria o desenvolvimento de uma qualidade de vida comum.
Quais seriam as diferenças, então, entre a “ekklésia” grega e a “ekklésia” cristã?
Em primeiro lugar a “cosmologia”, que era a ferramenta do ser humano, que lhe conferia uma crença sobre ser ele mesmo, suficiente para discernir e entender a verdade, projetando-se na história, podendo decidir, por si entre o bem e o mal; os cristãos buscam na revelação da Palavra, sendo guiados pelo Espírito, a verdade que está em Deus, e sobre este fundamento estabelecer suas vidas.
Em segundo lugar a “ekklésia” grega projetava a “polis” (cultura, religião, estado, etc) grega e a cristã projeta a Cristo e Seu Reino (“Basiléia”).
Em terceiro lugar, a “ekklésia” grega congregava os cidadãos, sendo excluídas as mulheres, as crianças, os escravos, os estrangeiros; na “ekklésia” cristã não havia acepção de pessoas, como fala Paulo: “...não pode haver judeu nem grego; nem escravo nem liberto; nem homem nem mulher; porque todos vós sois um em Cristo Jesus.” (Gálatas 3: 28).
Quando Jesus nos fala que “sobre esta pedra edificarei a minha Igreja”, devemos imaginar a mentalidade dos ouvintes e a projeção que o Senhor queria dar para aqueles interlocutores, os quais tinham clara a organização da “polis” grega e o real significado da “ekklésia” grega. O significado de “ekklésia” de 2.000 anos atrás era o que Jesus estava se apropriando para falar àqueles homens e mulheres e não o que hoje pervertemos e adotamos.
Quando Paulo escreve aos Coríntios e aos de Tessalônica, cidades eminentemente gregas, dizendo: “...à igreja de Deus que está em...”, está trazendo à memória daquelas pessoas, a espiritualidade contextualizada na “Basiléia”. Em I Coríntios 14 e 15 nos é apresentado um panorama de como se dava a reunião da “ekklésia” cristã, onde as línguas estranhas, suas interpretações, salmos, doutrinas, revelações, profecias estavam presentes com naturalidade e democraticamente. Estas manifestações não estavam reclusas a uma ou duas pessoas, mas dispersa na “ekklésia”, à várias pessoas, demandando para isto ordem.
“Basiléia” é a dimensão Reino, que define a área de influência de Cristo: Cristo como Rei, Sua Palavra como Lei, a Criação como jurisdição espacial e a eternidade com a legalidade atemporal.
Podemos ter um entendimento mais amiúde da “ekklésia” com espiritualidade contextualizada na “Basiléia”, quando Jesus diz: “...faça a Tua vontade, na terra como ela é feita no céu...”. Mais tarde orando revela: “...não Vos peço que os tirei do mundo (cosmos), mas os livrai do mal...”. E Ele dirigindo-se aos discípulos declara: “Pois também eu te digo que tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha ekklésia, e as portas do inferno não prevalecerão contra ela; dar-te-ei as chaves do reino dos céus; o que ligares, pois, na terra será ligado nos céus, e o que desligares na terra será desligado nos céus.”
Assim, Jesus está delegando autoridade à “ekklésia” e desfazendo a dicotomia entre o céu e a terra, definindo os limites de Sua “Basiléia”.
Por conta desta mentalidade eclesiástica primitiva é que não havia UM ANCIÃO LÍDER, mas um estado democrático espiritual, onde se cria, não baseado em castas de unção, que o Espírito de Deus estava sobre toda a carne e todos estavam revestidos de capacitações, aptidões, dons, recursos espirituais complementares que eram, além de válidos, necessários ao crescimento do Corpo. Cria-se também que não havia espaços supra-santos, templos feitos por mãos humanas no qual Deus habitaria, mas uma dimensão de estar em Deus (céu) que demandaria um cotidiano (terra, “polis”) relevante, estabelecendo a “Basiléia”.
As primeiras gerações de cristãos morreram e novas gerações vieram e em meio a elas alguns apareceram que assumiam mitos e desenvolviam lendas, criando contos, fazendo um sincretismo de idéias próprias, lendas pagãs, defesas de partidos, associando estes pensamentos transfigurados às figuras cristãs, surgindo grande parte dos apócrifos e os fantasmas. Até que Constantino adotou o cristianismo.
O retrato que podemos conceber da Roma Cristã, nos dias de Constantino, era de um pequeno grupo de cristãos que tinham a incumbência de receber e educar todos os cidadãos romanos que agora estavam, por conta de estímulos sócio-políticos, se cristianizando. Neste momento a Igreja estava com dois problemas básicos: as catacumbas e casas simples de pessoas sem recursos financeiros, devido ao longo período de perseguição religiosa até o quarto século, comportavam cinco, dez pessoas, mas não uma cidade inteira e muito menos os “nobres da corte” de Constantino, agora cristãos; não havia lugar suficientemente grande para abrigar todos os “convertidos” e nem lugares que pudessem receber o rei e sua “corte”. O primeiro problema era logístico.
A Igreja era um ambiente homogêneo, onde havia diferença nas funções e capacitações, mas certa homogeneidade no conhecimento, experiência e pensamento, formado principalmente de pessoas que eram cristãs a despeito de segurança e status, ou seja, gente profundamente convicta de sua fé, dispostas a morrer por ela. Agora havia uma multidão de “convertidos” sem o mínimo conhecimento das Escrituras, sem experiência cristã, carregando todo um ranço pagão e abraçando a nova religião estatal por conveniências, contrastando com o pequeno grupo de doutos no cristianismo. O segundo problema era de recursos humanos e repasse de conhecimento.
Há cerca de um século a Igreja já vinha convivendo com uma literatura não confiável, agora, de perseguida a centro das atenções e com o peso da demanda e urgência real, ela passa a aceitar as influências externas, visando adaptar-se às circunstâncias e necessidades da “polis” romana.
Roma não tinha “ekklésia”, tinha senado. O senado não era um lugar de todos os cidadãos romanos, mas de alguns eleitos, que se encontravam num espaço físico destinado para tal. Roma era hierarquizada, baseada na organização militar: Roma era um estado bélico. Roma era um estado pagão, de muitos deuses, sacerdotes e seus templos, e sincretismo religioso. Agora, o chefe de Roma é o chefe da igreja.
Por mera conjectura, podemos propor o seguinte movimento lógico.
Os pagãos tinham templos suntuosos, como o de Diana em Éfeso; no Velho Testamento o Senhor aprovou a construção do suntuoso Templo de Salomão. Pouco esforço deve ter sido feito para fazer um sincretismo entre a Bíblia e a cultura local, reforçado pela exigência real: construamos Templos (basílicas) ao Senhor, que possam ser lugares comuns e públicos, onde todos os cristãos possam ir, inclusive o rei e sua “corte”.
No mesmo esteio de pensamento, podemos supor que a idéia básica era de que os pagãos tinham sacerdotes e sacerdotisas; na Velha Aliança havia os sacerdotes levitas, que eram os únicos que tinham acesso a Deus e ao entendimento de seus oráculos; podemos extrapolar entendendo que imaginaram um paralelo para com o cristianismo, onde aqueles que tem mais intimidade com o divino possam ensinar a multidão: vamos ungir sacerdotes cristãos, um clero que ensine os leigos.
Tendo resolvido o problema logístico e de recursos humanos, rapidamente surgiu o problema organizacional, ou seja, como organizar o clero recém empoçado, para que possam gerir o patrimônio e garantir execução das atribuições. A organização veio pela romanização do clero, ou seja, hierarquia militar, donde surgiu: Papa, Bispo, Arcebispo, Padre. E hoje: Apóstolo, Bispo, Pastor, Presbítero e Diácono.
Com a romanização e o clericalismo, o estado democrático espiritual passou a não mais existir e passando a imperar a “teocracia travestida”, onde o “teo” passou a ser um sinônimo da instituição, seus interesses e política interna. A espiritualidade contextualizada na “Basiléia”, foi substituída pela excelência do culto voltado para si mesmo, o aperfeiçoamento da máquina litúrgica, ou seja, o melhor pregador, o melhor coral, a mais bela nave (basílica), a organização mais eficiente, com a firme intenção de estabelecer o padrão de cultura e excelência da cristandade, diante do mundo pagão.
Enquanto a pregação de Jesus Cristo e dos primeiros discípulos era para redenção do ser humano pela fé, a ministração de Constantino e seu clero era para a edificação de uma religião estatal, que assegurasse a continuidade do império. Enquanto o ideário de Jesus Cristo era a utopia de Deus habitando e sendo visto nos seres humanos, a pragmática romana era chamar os fiéis à “casa de Deus”: o Templo, as Basílicas. Enquanto os nossos irmãos do primeiro século se reuniam numa democracia espiritual, buscando recursos divinos para exercer a espiritualidade contextualizada na “Basiléia”, a religião nos afastou em castas de santidade e acesso a Deus: clero e leigos.
Cabe à Igreja, no contexto da “ekklésia” dos apóstolos, redesenhar o entendimento mental sobre o que de fato é a organização da comunidade cristã, possibilitando um ideal onde a preservação institucional dê lugar ao propósito divino. Onde a tirania clerical que afasta o homem de seu Criador seja extirpada, possibilitando uma real democracia espiritual.
Cabe-nos buscar uma profunda revelação de Deus e um entendimento racional sobre a real intenção de Deus no ser humano e projetarmos nossas alianças, acordos e comunidades com vista a esta utopia, tal que esta projete a “ekklésia” na espiritualidade contextualizada na “Basiléia”, tendo como fundamento de desenvolvimento de tecnologias, os fundamentos e princípios extraídos da revelação de Deus.
Cristãos comprometidos com a expansão e avanço do Reino, haveremos de ver não somente uma arqueologia de palavras, mas de motivações, relações e propósito de existência, não mais institucional: corporativa. Corpo de Cristo.