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Dia 01 de janeiro

 

Hoje meu amigo me ligou!

Eu disse: alô!

Antes de terminar minha fala ele falou meu nome: senti saudades de você. Acordei pensando em falar-lhe. Conhecendo-me sei que você esta feliz.

(Ainda ouvindo sua voz caminhei, aos passos daquele que procura um lugar para se esconder.)

-  Quanto tempo! Não precisamos da presença para sentirmos esta proximidade que apenas o espírito mais ingênuo revela necessitar.

(Fiquei ali degustando da vida enquanto jorravam as novas deste dia inaugural. Senti o peso que somente aqueles que têm sua existência partilhada e extendida para fora de seu corpo podem ter.)

- Tantas coisas temos feito, mais barulho do que ser, contudo penso em poder ver você. Pode ser na próxima  semana?

(Na amizade estamos sempre em débito.)

- Ouço falar de você. Leio coisas que me lembram de você. Trago de memória nossas conversas e como nossas visões diferentes fitavam as mesmas coisas. Que momento de uma ceia que se eterniza pelo compartilhar de uma amizade!

(Minha dívida sempre vem ao meu encontro quando recuso ao amigo partilhar-me! Ela, ferozmente e inflexivelmente, cobra-me e me lança na masmorra individualizada de meu narcisismo.)

- Ademais, quero te agradecer pelo cuidado. Quando tive fome, deste-me de comer; quando sede, deste-me de beber.

- Perdão, amigo, pois comendo e bebendo, não reservei teu lugar próprio à mesa.

- Sabemos estar em silêncio; sabemos estar distantes. Mas conhecemos nossos endereços.

(Nossa dívida sempre aumenta quando cultivamos nossa comunhão! Os sulcos gravados na lembrança das lágrimas, do sal e das festas; da noite e da esperança; da dor e do consolo; do ouvir e do silêncio; do gol e do nascimento; do plano e da semente; do trabalho e do suor. Quanto mais cultivamos nossa amizade, mais a ela somos devedores. Na maior medida de nossa amizade eternizamos nossa existência e na identificação de nosso amigo transcendemos nossa breve finitude. De nossa entrega fazemos nossa receita)

- Corro e canso por não poder parar. Porém, espero me aquietar numa longa conversa com você, na qual possamos falar sem ser ouvidos e guardar como segredo o que todos vivem.

(Um covarde nunca diz não. O amigo diz sim e não. Como negar ao amigo a amizade sem me esconder covardemente por trás do útil e do prazer? O amigo diz sim à amizade.)

- Devo me ausentar, mas retornando ligo para buscarmos um lugar propício para celebrarmos!

- Não! Informe-me. Estou lá aguardando você.