Chama de Amigo!
Não me chame (,) amigo!
Nunca caminhamos, jamais nos connhecemos,
sequer visitamos um ao outro.
Não sabemos o que um e outro pensa.
Que chama de felicidade?
Por vezes tenho a chance de vê-lo e ouví-lo;
Também você pode o mesmo em relação a mim.
Mas, como chamar de amigo alguém com quem não
se pode conversar, discutrir, desentender, aborrecer-se, até magoar-se, amar.
Nossos pseudos-diálogos não passam de
monólogos.
Enquartelados em exposições monolineares,
como nos discursos de palanques eleitorais.
Ouvimos ou falamos, excludentemente, nossas
mentiras.
Temos sido como ilhas próximas entre as quais
não há pontes, botes ou balões.
Ou andamos os nossos caminhos e disfarcemos aos
comuns que não percebemos de quem se fala;
Ou, deixemos que os arquivos
e diários de nossas memórias compartilhadas nos incomodem e nos estimulem.
Você, por vezes, me chama
(,) amigo.
Mas não sou teu amigo, nem inimigo.
Somos um nada fenomenal.
De fato, se falharmos em nos dirigirmos a
atenção, chamemo-nos pelo nome.
Antes, não caiamos na tentação, deixemo-nos
quietos, distantes, esqueçamo-nos.
Siga para Babel-ônia e eu siga para meu
deserto horizontal.
Que o vento nos seja transversal em nosso
distanciamento.
Que há distância e não seja real, pois que
não se dista daquilo que não dá conta.
Esquecimento e desmemorização.
Tornar-nos independente de nossas insinuações
de amizade;
Tornar-nos-emos livres desta
sedução também.
Pensei em chamá-lo (,)
amigo.
Na amizade nossas lágrimas não caem ao chão
sozinhas.
Choramos e enxugamo-nos juntamente.
Contudo, desejamos como um Grande Sol fazer o
outro, chamando de amigo, revolucionar eternamente em torno de nossa gravidade.
Pôr uma ordem enfadonha, queremos seduzir,
imputando esta maquinação repetitiva e contínua.
Percebo no sim um não; ofereçemos no não, um
sim.
A liberdade orbital, como a de um cometa,
oferece ao outro a passagem esporádica e incerta;
Um brilho menor;
A ousadia de caminhar pelo infinito sem os
grilhões de uma atração minorante.
Não estamos, cada qual, imersos entre tantos
planetas e satélites que nos rodeiam, esperando de nós a luz e calor?
Porque nos chamamos de amigo
apenas quando nossa vontade é ordenar a passagem alheia como uma Lua sem escolha?
Chame-me, antes, de comum!
Nossas fronteiras sempre expandindo,
Nossa influência constantemente mais ampla,
Nossos negócios tentaculares,
Nosso poder de conduzir as coisas em
conformidade ao nosso desejo!
Não somos coisa, nem recurso, ou riqueza;
Não somos número, estatística, ou um ponto;
Não somos massa, mão-de-obra, ou consumidor;
Não somos máquina, instrumento, ou
engrenagem!
Nem na morte percebemos
nossa comunidade.
Não chame (,) desconhecido!
Quando cruzarmos à rua, não nos cumprimentemos,
Passemos como se fossemos o próximo apenas a
passar.
Quando ouvirmos alguém falar de nós, não
perguntemos, ou demonstremos qualquer curiosidade;
Continuemos apenas a falar, como se mais uma
palavra houvesse sido dita.
Talvez um dia, talvez quem sabe, talvez
talvez,
Nos odiemos ou nos amemos,
E, então, poderemos ver como chama o amigo que nunca
nasceu!