Título:
Synkrasis: tradução e hospitalidade como
atualização do espírito de um cristianismo pentecostal
Autor: Marcos Henrique de Oliveira Nicolini
Títularidade: Mestre
em Ciências da Religião
Instituição: Universidade
Presbiteriana Mackenzie – São Paulo – SP
Simpósio: 23-. Novas perspectivas ao estudo do sincretismo religioso.
Coordenadores: Josué
Sérgio
. Brasil
Evento: ALER - XII CONGRESO LATINOAMERICANO SOBRE RELIGIÓN Y ETNICIDAD. CAMBIOS CULTURALES, CONFLICTO Y TRASFORMACIONES RELIGIOSAS
Data: 7 al 11 de julio del 2008
Resumo:
Nossa comunicação toma o Pentecoste
bíblico neotestamentário como espírito fundante para um cristianismo que visa
firmar-se como contra-ponto de Babel. Babel como a torre que se ergue
monolinguísticamente e o cristianismo que se apresenta na praça
multilinguísticamente. O cristianismo nascente coloca-se no espaço público, na
praça, na “ágora” como tradução, vindo de encontro com as tradições religiosas
de seu tempo, presente em diversos povos, as quais tinham na religião o cimento
que enrijecia as fronteiras étnicas: o grego e o bárbaro separados pela
línguagem. O espírito dialógico e tradutor do cristianismo emerge em
Pentecostes, mas está presente nas traduções ao transcrever do aramáico para o
grego e traduzir do grego para o latim e, mais modernamente, do latim para uma
miríade de línguas modernas. Partimos da hipótese que o espírito do
cristianismo é tradução e, pasando por Jaeger, pensamos que esta tradução se dá,
inauguralmente, como “synkrasis” entre cristianismo e a paidéia grega.
Parece-nos que o cristianismo distancia-se deste espírito sincrético e torna-se
tradição hegemônica, adotando ele mesmo uma única língua babelizante. No século
XX e XXI o cristianismo volta às praças como um jogo de linguagem entre tantos.
Com isto o espírito de tradução e “synkresis” pode ser inspirador. Nossa
intensão neste trabalho é dialogar com o texto de Olgária Matos – “Entre Babel
e Pentecostes” – para pensarmos nas posibilidades tradutoras e hospitaleiras
presentes no espírito do cristianismo e se este é passível de atualização.
Synkrasis:
tradução e hospitalidade como atualização do espírito de um cristianismo
pentecostal
Podemos pensar em um
cristianismo, ou em suas diversas matizes contemporâneas, ainda que em
aparente paradoxo, como uma fixação em determinada tradição construtiva, a qual
pretende erguer seu edifício religioso sobre a pedra fundamental do monolingüísmo e da barbarização do outro?
Em contra-partida, haveria algum rastro de possibilidade para uma inspiração
remanecente, proveniente de um cristianismo histórico, que partilhasse de um
diálogo plurilingüístico como tradução? Devemos compreender o cristianismo como
uma reprodução técnica, ou nos encantarmos como que diante de uma poesia
original, e como tal única em atualizações como traduções? As palavras cristão,
cristianismo, cristandade são apenas ecos distantes provindos de um mausoléu ao
deus morto, ou ainda nos podem instigar e inspirar a uma auteridade
hospitaleira? Então, pensarmos se o sopro inspirativo do cristianismo tem seu
fundamento no monolingüísmo de um edifício babélico, ou no plurilingüismo
pentecostal, a qual se apresenta em meio à contigência comunicativa histórica que
se ouve nas praças? O que os relatos de Babel e de Pentecostes bíblico nos
podem servir de crítica e sentido de uma solidariedade histórica?
Tomemos,
a giza de introdução diante das questões propostas acima, sem a pretensão de
esgotamento, estes dois relatos e suas possíveis metáforas. Permitamo-nos
pensar, assim, em Babel e a partir de Pentecostes, nos projetos de edificação
religiosos monolíngues e nos caminhos e trilhas demandantes de tradução. Detenhamo-nos
diante da Torre e seus fundamentos imutáveis e atemporais, e caminhemos em meio
a nossa história e suas múltiplas linguagens. Sobretudo, partamos já seguindo o
sopro de um movimento cuja originalidade foi a da synkasis como tradução.
Pensamos
que a synkrasis pode ser entendida
como a mantenção do diálogo
constantemente, presente no meio do cristianismo, com o pensamento corrente num
lugar histórico. Para tanto buscamos certa originalidade e sua interpretação. Como
nos fala Werner Jaeger, o
processo de cristianização do mundo de língua grega dentro do Império
Romano não foi de forma nenhuma unilateral, pois significou ao mesmo tempo a
helenização da religião cristã [...] Na época apostólica, observamos o primeiro
estádio do Helenismo cristão no uso da língua grega [...] A questão da língua
não era de modo algum uma matéria irrelevante. Com a língua grega, todo um
mundo de conceitos, categorias de pensamento, metáforas herdadas e subtis
conotações de sentido entra no pensamento cristão. (Jaeger, 2002, pg. 16-17)
É
plausível assumir que falar grego é pensar filosoficamente, segundo a tradição
ocidental. O mesmo Jaeger nos apresenta a potencialidade desta palavra, a qual
porcuramos fixar por repetição: synkrasis.
Segundo ele “a palavra grega que traduzimos por ‘mistura adequada’ é um tipo
especial de mistura, que a língua grega denomina krasis e distingue assim de uma mera justaposição de elementos
mistos, sem a sua penetração mútua (no grego mixis) [...] synkrasis
[...] acentua a idéia de penetração mútua” (Jaeger, 2002, pg. 35). Umberto Eco
oferece para a synkrasis o sentido de “tolerância niveladora” (Eco, 2002,
pg.32) ),
mas que haveremos de deslizar este conceito para uma hospitalidade niveladora,
quando dialogarmos com Olgária Matos e Jacques Derridá, pensando que a
tolerância hierarquiza as relações quando o mais forte apenas tolera a presença
do mais fraco, desde que este não perturbe a lei. Desta forma,
aquele movimento originário da palestina caminha por um caminho desde a língua
de seus antepassados, o hebraico e aramaico, para uma nova possibilidade
descritiva do mundo, o grego.
Aquele
cristianismo, referenciando-nos aqui pelo trabalho de Leo Strauss (1953), traz
uma tensão ao Ocidente, pela polarização entre Atenas e Jerusalém. Aqueles
judeus, primeiros seguidores de Jesus, falavam o grego e cristianizam o mundo
helenizado. Contudo este cristianismo grego não se detém no grego.
Posteriormente passaram a falar o latin e com este idioma ergueram seu edifício
mais sólido. Aqui nos permitimos reverberar as palavras de Heidegger: “O
pensamento romano recebe os nomes gregos sem a correspondente experiência
original do que eles dizem, sem a palavra grega. O desenraizamento do
pensamento ocidental começa com esta tradução.” (Heidegger, 2004, pg. 16)
Em
latin YHWH, o Jeová da tradução
cristã, dirigindo-se a Moisés diz: “Eu Sou o que Sou”. E esta tradução das
palavras de Jeová, encontrando no Ser seu fundamento imutável e atemporal, faz
calar a possibilidade de contingentes e históricas traduções do “Ehyeh-Asher-Ehyeh!”, ou, como
nos propõe Leo Strauss, “Eu serei o que eu for [...]” (Strauss, 1953, pg. 15). Por
aquela via de tradução o cristianismo que se latiniza diz que Jeová é o “Esse”. E neste crepúsculo synkrático, como tradução definitiva, há
o encontro não apenas de uma limgua comum, mas, sobretudo, o lugar no qual o
pensamento em latin pode fundar o grande edificio de um monolingüismo ocidental.
As
tensões iniciais de um movimento surgido das palavras de um homem que falava provavelmente
o aramaico, e como movimento este se torna migrante, caminhante e tradução no
evento de Pentecoste, vê emudecida todas as vozes diferentes a partir do latin.
Como nos salienta Umberto Eco:
Nesse meio tempo o cristianismo se tornou religião de
Estado [...] no ocidente fala o latin. Aliás, fala somente o latin. Embora São
Jerônimo, ainda no século IV, conseguisse traduzir o Antigo Testamento do
hebráico, o conhecimento desta língua sagrada enfraquecia-se cada vez mais,
semelhantemente ao grego. Basta pensar que Santo Agostinho, um homem de cultura
amplíssima e representante máximo do pensamento cristão [...] testemunha uma
situação lingüística paradoxal. O pensamento cristão baseia-se no Antigo
Testamento, escrito em hebraico, e no Novo Testamento, escrito na sua maior
parte em grego. Santo Agostinho não conhece o hebraico e tem conhecimento um
tanto vago do grego. (Eco, 2002, pg. 33)
Parece-nos
possível pensar que palavras bloqueadas em traduções dogmáticas de significados,
serviram de elementos construtivos para uma torre sagrada, cuja promessa é,
sendo a Cidade de Deus
(Derrida, 2002, pg. 13), poder levar a alma do homem de volta a Jeová. Aqueles
homens que na praça de Jerusalém ouviram e falaram em suas próprias línguas,
como participantes da gênesis da tradução simultânea, tendo passado por Atenas
encontraram em Roma o lugar da Torre. E este edifício bem fundado não se move.
Poderíamos, contudo,
precipitarmo-nos em pensar que a Reforma e o Protestantismo Luterano retomariam
a gênese do Pentecostes ao descontinuarem o uso do latin como língua sagrada, e
introduzirem as inúmeras linguas modernas - alemão, francês, inglês, etc – no
culto cristão. Mas, esta revolução, perfazendo o giro completo sobre o eixo
central, assume a mesma posição monolíngue da religião que a procedeu: ser o
único edifício pelo qual a alma do homem pode retornar a Jeová. Embora Babel
seja única, possui muitos portões de acesso.
O mesmo, pretendemos, pode ser
pensado sobre as presentes religiões advindas deste cristianismo, as quais
apregoam e afirmam ser a voz verdadeira de Deus para o mundo. Todos estes ao
assumirem ter encontrado e serem os porta-vozes da declaração verdadeira da
revelação de Deus, chamam para si a todos os que desejam encontrar a porta de
entrada para a Casa de Deus e retornarem a Jeová. Como traduz Haroldo de Campos
o texto do Gênesis 10, todos eles tem a “língua-lábio una” e são
“filhos-constructos” (Campos, 1988, pg. 162-163) de um mesmo edifício. Todos
podem ser pensados como “filhos-constructos” de um edifício erguido sobre uma “língua-lábio
una”, o qual, imutável e atemporalmente, nega o pluralismo, fundamentando-se
tão somente sobre sua própria verdade tradicional.
No entanto, Pentecostes pode ser tomada como a
sublevação do monolingüísmo babélico por parte de Deus. Como nos fala Olgária
Matos sobre este relato, “se Deus destinou o homem à tradução, necessária e
sempre ‘imperfeita’, Pentecostes consistiria no momento em que o impossível de
tradução se torna possível, em uma espécie de tradução simultânea plenamente
realizada.” (Matos, 2006, pg. 174) Se,
já em Babel, Deus paralisa a obra de edificação da Casa de Deus, lançando o
homem à confusão das línguas, agora em Pentecostes Deus não traz todos à sombra
do monolingüísmo hebraico. Antes, o homem está diante do homem sem a premissa
hierárquica de uma língua materna. Em Pentecostes o plurilingüismo hospitaleiro
desfaz a possibilidade de uma busca pelo Éden da linguagem, destacando que para
Olgária Matos, “Haroldo de Campos associa a tradução à hospitalidade.” (Matos,
2006, pg. 174)
Ora, cabe-nos ainda uma aproximação
mímina ao sentido desta hospitalidade, para onde nos aponta e como podemos
sentí-la. A hospitalidade tem o sentido do estrangeiro, ou seja, do bárbaro, e
neste sentido percebe o bárbaro como próximo que é o outro, desfazendo a
própria barbárie da exclusão. Sabemos que o bárbaro é aquele que não fala a
nossa língua, não se expressa pela “língua-lábio una”. De acordo com Olgária,
“quanto à hospitalidade, ela diz respeito ao estrangeiro que chega sem aviso
prévio [...] é ordem do puro dom, um ‘salto absoluto’ para além da retribuição,
ou da ‘norma’ ou da ‘regra’” (Matos, 2006, pg. 173). Pentecoste é, assim,
auteridade hospitaleira que confunde os fundamentos babélicos, pois que toma o
diferente como o lugar possível e previlegiado da comunicação.
Tal Pentecostes, nenos levaria nossa
alma de volta a Deus, e mais nos lançaria na praça, e por meio da conversação,
colocar-nos-ia à caminho da hospitalidade. A hospitalidade seria a inspiração de
uma synkrasis solidária. A inspiração
remanescente para um neo-pentecostalismo seria, assim, a comunicação solidária
e synkrática. E como comunicação
solidária, synkrática e hospitaleira, o caminho de tradução não encontra falas
plenas de significação e acabamento. Sobretudo, as palavras são prenhes da
paisagem e do mundo que se move. Tal neo-pentecostalismo sempre procura em tais
palavras o encontro, e neste encontro traduzir e retraduzir poeticamente o
sentido do que YHWH diz de si mesmo: “Eu serei o que eu for [...]” (Strauss, 1953, pg. 15).
Referências:
CAMPOS, Haroldo. Babel & Desbabel.
In: FABRINI, Regina; OLIVEIRA, Sergio Lopes (ORG). Interpretação. São Paulo:
Editora Lovise, 1998.
DERRIDA, Jacques. Torres de Babel;
Belo Horizonte; UFMG, 2002.
ECO, Umberto. Busca da Língua
Perfeita, A. 2ª ed.; Bauru, SP.; EDUSC, 2002.
HEIDEGGER,
Martin. Origem da
Obra de Arte, A; Ed 70; Lisboa, 2004.
MATOS, Olgária. Babel e Pentecostes:
heterofilia e hospitalidade, (In) Discretas Esperanças; São Paulo: Editora Nova
Alexandria, 2006.
STRAUSS, Leo. Jerusalém e Atenas:
algumas reflexões preliminares. In Natural Right and History.
Chicago: Chicago University, 1953.