Ainda converso com meus três amigos.
22/07/08 17:00
De: Marcos Nicolini
Para: AARTHUR
@@rthur
Quanto tempo. Ficamos de tomar um
café...nunca realizamos...passaram feriados, fins-de-semana, oportunidades
e...nihil.
Contudo, não esqueci do seu pedido:
"minha conversão", ou seria "conversação"?
Tenho um outro texto que procurei
conversar com meus fantasmas, mas decidi escrever este novo tendo como
background você. Caso não seja bem este tipo de diálogo que você tenha e mente,
fale-me e daqui uns 33 anos eu escrevo outro para você. Caso esse dê para o
gasto, agradeço.
Tenho saudade dos meus amigos.
Marcos
33 anos em 3,3 páginas.
Quando
o ser na história de um indivíduo é a memória de eventos interligados
causalmente narrados como presente sempre na primeira pessoa do singular. Mas, esta
seqüência causal histórica guardada como memória, que chamamos de ser,
distancia o que é lembrado e o que se dá como presente, de tal maneira que já
não se é um, antes, neste caso, dois. Sobretudo, mais propriamente, muitos. A
memória é no presente a atualização como presente de toda a experiência vivida
por um eu, mas que guarda aquilo que não mais é, a não ser como memória. É como
uma seqüência de cores degradê, em que cada cor ganha novas tonalidades,
transmutando-se numa nova cor sem uma passagem clara, distinta, nítida, mas que
ao longo deste colorido, cada ponto é único e singular, distante e unido a cada
ponto da seqüência, em que todas as cores são nubladas pelo excesso da cor
presente e esta, por sua vez, tem nuances e lembranças da cor que já foi. No
entanto, a lembrança é atualização da memória como tradução prometida por um
intelocutor no presente, falando o presente e a memória presente.
Talvez,
assim, devemos iniciar esta recordação, a qual deve ser atualizada como diálogo
entre a primeira e a terceira pessoa: eu e ele. Distinções muito fortes entre
um homem de 48 anos e um menino de 15 anos que não é reconhecido facilmente por
aquele como um mesmo eu. Desta maneira, buscar na memória o menino é ato interpretativo
de um homem cujas crenças suportam uma perspectiva singular em relação ao
relato que se ouviria, caso o menino mesmo falasse. Mas o menino não fala, a
não ser pela memória e esta como interpretação anacrônica. Mas que
interpretação rememorativa tem o homem daquele menino?
Hoje,
algum dia entre maio e junho de 1975. Estou no corredor da escola, em frente à
sala de aula, aguardando o professor chegar e trocando palavrões e gírias com
outros colegas, no que chamamos de conversa amistosa. Neste momento passa por
mim um rapaz, seu braço esbarra o meu, fazendo com que seu cigarro caia ao
chão. Frente a frente, eu com meus 15 anos, 1,75 metro de altura, uns 60 Kg,
tímido e de paz; ele com os mesmos 15 anos, 1,6 metro, uns 90 Kg de banha e
músculos, pronto para o confronto, para a briga. Falando alguns palavrões
disse-me: pegue o cigarro que você derrubou! Não por covardia, mas por um
ímpeto de não entrar em confusão, dobrei-me ao chão, peguei aquilo e
entreguei-o. Nunca havia reparado naquele rapaz, pois embora fosse um dos
alunos com menor nota na escola, sempre sentava nas primeiras filas, ele
sentava nas últimas filas da mesma sala de aula. Foi a primeira vez que falei
com aquele menino. Logo chegaria as férias de julho.
Minha
irmã, um ano mais velha que eu, vem se envolvendo com um pessoal que lê a
Bíblia. No recreio ela se reune com outras pessoas de nossa idade e passam
aquela meia-hora falando sobre coisas de Deus e Jesus. Nunca fui e, embora ela
me convide, não quero ir, pois desejo ficar conversando com os amigos e olhando
as meninas. Contudo, nas sextas-feiras à noite ela tem pedido ao nosso pai para
deixá-la ir a uma reunião na casa de alguém, onde vão ler mais a Bíblia. A
ordem é que ela somente pode ir se for acompanhada, isto é, por mim. Querer eu
não quero, mas eu e ela somos amigos e, além do mais, ela me ensina matemática
e inglês.
Já
não bastava a minha mãe, filha de um homem que participou do início de igrejas
metodistas no interior de São Paulo, no Vale do Paraía e ela mesma professora de
Bíblia nestas igrejas, que me obrigava ir na igreja todo domingo pela manhã,
desde que eu me lembro da vida, agora, também, tinha que acompanhar minha irmã
nestes eventos de igreja. Na igreja Metodista o culto era sempre a mesma coisa:
todos sentávamos em bancos voltados para frente, alguém diz falar com Deus em oração, cantamos umas
músicas velhas num ritmo cansativo ao som de um órgão, outra pessoa lê e
explicava um texto tirado da Bíblia e há, ao final, o que chamam de escola dominical,
quando nós nos dividimos e juntos com outros da mesma idade, numa sala
específica, lemos a Bíblia e alguém explica aquelas histórias antigas, conforme
foi lida, numa linguagem menos sonolenta.
Nas
reuniões de sexta-feira é diferente, é sempre diferente: feita num apartamento
em Brasília, não sei de quem; todos sentamos no chão, alguém dentre aqueles,
cerca de 50 meninos e meninas, toca um violão e todo mundo canta como se todos
formassem um coral. Um rapaz de uns 35 anos, de cabelo grisalho, lê a Bíblia e
explica coisas novas que nunca havia escutado. Não me lembro bem de todas as
leituras e suas explicações, apenas sei que é divertido, engraçado e bem atual.
Ao final todos conversam com todos e alguns falam comigo. É bom e tenho vontade
de voltar.
Passo
as férias de julho, todas no apartamento em que moramos no Plano Piloto de
Brasília. Não gosto de lugares com muitas pessoas, por isso esta cidade é
especial para mim. Não jogo futebol, fico no meu quarto tocando violão,
pensando na vida, dormindo e vejo televisão. Minha casa é muito silenciosa.
Meus pais não discutem ou brigam diante dos filhos, nem sequer ficamos sabendo
de suas desavenças. Não falta dinheiro para o básico, para os presentes de
natal, páscoa e aniversário, e muito menos para educação: escola, línguas, música
e esportes. Saímos sempre de férias de janeiro para um lugar legal e para a
casa dos avós. Vez por outra vamos a um restaurante qualquer. Não me lembro da
última vez que alguém esteve com uma doença grave: minha mãe teve um problema
cardíaco há uns três anos e meu irmão mais novo teve nefrite há uns sete anos
atrás. Minha mãe é amorosa, protetora e falante; meu pai duro, porém não
violento, e quase nunca ouço sua voz. Tenho três irmãos, dois meninos e uma
irmã: a irmã está sempre estudando, o irmão mais novo jogando bola com amigos e
o mais velho se envolvendo em encrencas típicas dos jovens. Não tenho amigos e
restrinjo minha companhia a dois ou três colegas ao máximo com quem converso na
escola. Penso em ser engenheiro, ou, quem sabe, estudar história.
As
férias acabaram. É agosto de 1975, estou no mesmo corredor com os mesmos
colegas, trocando palavrões e gírias em meio às risadas. Lá vem aquele
encrenqueiro em minha direção. Como não tenho medo, fico no mesmo lugar com
meus colegas. Desta vez ele vem para conversar e perguntar sobre minhas férias.
O que que houve? Entre meus palavrões e gírias ele conta que nas férias foi a
um “acampamento” da igreja, à convite de um outro amigo. Conta-me que largou a
maconha e que encontrou com Jesus; que vai à igreja Memorial Batista e que está
aprendendo a tocar violão e a ler a Bíblia. Digo a ele que vou aos domingos de
manhã à igreja Metodista na Asa Sul. Ele me pergunta: mas você sendo cristão
não deveria dar um melhor testemunho? Pensei comigo: o que é testemunho? O
professor chegou!
Continuei
a ir todas a sextas-feiras às reuniões do Clubão (é assim que chamamos estas
reuniões) da Mocidade para Cristo. No entanto, agora, vou com vontade de ouvir
o Abraão Soares da Silva falar e desejo aprender a cantar e tocar ao violão
aquelas músicas. Vez ou outra vou também na reunião do recreio, que chamamos de
Clubinho. Aprendi que o Clubão é a reunião dos Clubinhos e que há Clubinhos em
várias escolas de Brasília, não apenas a que eu vou. O Murilo, o menino do
cigarro, não freqüenta o Clubinhos e nem o Clubão, contudo ele mudou muito. Ele
anda com a Bíblia debaixo do braço, parou de fumar, não fala palavrão e está
ficando meu amigo. Minha vida simples está ficando confusa.
Já
havia visto, há uns seis meses atrás, minha irmã mudar e começar a ler a
Bìblia, ir a igreja, orar, cantar em corais, etc. Mas ela sempre foi uma pessoa
especial. Agora me pergunto como uma pessoa má pode ficar tão boa? Como alguém
que nunca foi à igreja, gostar tanto destas reuniões? Porque ele está tão
mudado? O que tem nesse negócio de igreja, e Bíblia, e Jesus, que faz um
viciado, encrenqueiro, ser uma pessoa alegre, simpática e amigável? Porque
espero a sexta-feira chegar só para ir ao Clubão? A minha vida não falta nada!
O que falta à minha vida? Como diz o locutor esportivo que narra os jogos do
Palmeiras: “o tempo passa...”
Estamos
na primeira quinzena de outubro de 1975. O Abraão convida-convoca-nos a
auxiliá-lo na organização e divulgação de um evento que a Mocidade para Cristo
em Brasília vai realizar para evangelizar as pessoas, chamado Geração 75. Minha
função é a de colar cartazes pela cidade, anunciando o evento. Um menino e eu
colamos cartazes nas escolas, nos clubes, nos pontos de ônibus, nos ônibus,
etc, durante uma semana. Numa destas noites que antecederam ao evento, fui
dormir tarde e deitado em minha cama, sem saber porque, entre lágrimas e
ansiedades juvenis disse: Deus, se você existe e realmente me ama como dizem,
salva-me. Não estava dizendo um salvar teológico de quem deseja ir para o céu,
mas algo com o sentido de enche-me deste amor e desta existência. Mas, dormi.
No
outro dia entreguei folhetos, colei cartazes, sem que isto fizesse algum
sentido, ou que representasse algo importante para mim. Até que no dia do
evento fui encarregado de conduzir as pessoas desde a entrada do local, até o
auditório. No último dia, já quase ao final do evento, vi chegarem uns quatro
ou cinco moços e moças, vestidos com hyppies, perguntando sobre o evento.
Conduzi-os até o local, em que naquele exato momento o Abraão estava chamando a
todos os que queriam “entregar a vida a Cristo”. Surpreendi-me ao ver um
aqueles meninos correr até a frente e de joelhos aceitar ao convite. Não
entendi o que ocorreu, mas fiquei maravilhado. Cerca de quinze dias mais tarde o
vi na TV. Era uma reportagem sobre casa de recuperação de drogados em Brasília
e ele estava falando de sua experiência e do que ele estava fazendo ali.
Eu
continuava a ser um dos piores alunos da escola, falava em gírias, vestia-me da
mesma forma e meu corpo era o mesmo. Algumas coisas tinham mudado: não falava
palavrões, gostava de ir aos Clubões e Clubinhos, estudava a Bíblia e decorava
pequenos trechos, lia livros escritos por pastores, tocava violão e falava com
Deus em oração. Não sei se sou convertido ou não, mas sei que Deus me ama.
Minha
vida se tornou um pouco mais complicada, pois se interiormente havia em mim uma
paz e tranquilidade que não havia experimentado antes, como se algo que
faltasse e que eu não sabia, tivesse
sido achado e impedido o escape de uma vitalidade necessária. De outro lado o
mundo cristão exigia um ascetismo que meus hormônios não diziam amém e também
este mesmo mundo cristão demandava uma publicidade precoce que minha timidez se
negava a aceitar. Face a radicalidade da mudança comportamental, eu era
constantemente acediado a expor publicamente minha “vida espiritual” ou a
liderar grupos de adolescentes na leitura da Bíblia. Um sentimento de pecado e
uma rejeição à exposição pública digladiavam com a paz e harmonia interior
promovida pela experiência com Deus.
Hoje
o homem de 48 anos relembra, sem saudades, aqueles dias do ano de 1975. Rememoração
crítica de quem passou a entender que a conversão não é um momento, mas um
continuum. Não se é convertido, mas deixa-se nascer uma predisposição para ver
suas falhas, limitações, frustrações, angústias, desarmonias, etc e escolhe-se
caminhos novos e inusitados, interessantes e surpreendentes, crendo apenas no
amor, na amizade como esperança de uma vida mais plena. Esta esperança amorosa
e amistosa chamamos de Deus e o signo desta possibilidade porta o nomem de
Jesus.
Em
julho de 1976 nossa família se mudou de Brasília para Belém do Pará. Minha
última visão daquela cidade foi meu grande amigo Murilo no parapeito do
aeroporto, olhando para o avião em que eu estava com aparente tristeza por
minha partida, enquanto eu, como que, antevia uma distância que se abria para
nunca mais se fechar. Sobre a imagem de Murilo coloquei, por muito tempo, o
peso de uma conversão que nunca existiu. Hoje sei, que aquele amigo significou
e significa a possibilidade degradê de nosso ser como amizade esperançosa
sempre significada a partir de um homem.
Marcos
Nicolini
23/07/08 02:07 URGENTE!
De: AARTHUR
Para: Marcos Nicolini
Uma pergunta seguida de um comentário...
Parou por que? Este texto quer continuar, mesmo sem vc! De a ele o que
pede...
...continuo, agora no comentário...
Sua mais profunda e própria filosofia está envolta num cotidiano que
inexplicavelmente
vc rejeita por crer despossuído de mistério, mas que é repleto da mais
pura e autêntica poesia!
Seu texto quer continuar. Parece um prenúncio de resposta que está lá;
você é que não deseja buscar!
Seu texto quer continuar. Dê a ele o que ele quer!
Se me permitir uma única e solitária violência...
sua fé não merece ser explicada, ela deve ser sentida, por que é
simplesmente íntima! Fale do que sente, fale sentindo. Afinal, falará não para
si, mas para muitos outros.
Sempre soube que vc era especial!
Do seu amigo que jamais te esquece... AArthur
24/07/08 11:33
De:
Marcos Nicolini
Para:
AARTHUR
@@RTHUR,
De fato o texto quer falar. Mas não sei se quero
ouvir, não sei se quero descer do avião: ou desço e fico em Brasília,
ruminando um Éden que já está fechado atrás de mim, ou desço em Belém e
enfrento alguns fantasmas. Todos temos fantasmas! Belém foi um tempo bom, no
entanto sair foi um desarranjo... Parece que até hoje não resolvi Belém. Estou
com vontade de pegar um avião e ir até lá. O fato é que foi fácil dizer "alô"
para o menino de Brasília. Ele estava lá, no corredor, em frente à sala de
aula. Em Belém eu não sei onde procurar o rapaz: na escola, na igreja, em casa,
com a namorada, no "Ver-o-Peso", nas avenidas com suas mangueiras,
etc.
Parece que a passagem de uma cidade planejada,
demarcada, de clima seco e de temperatura previsivelmente entre 12 a 25 graus,
no cerrado brasileiro, para uma cidade aportuguesada que foi crescendo
como outras tantas no Brasil, syncretizada com a floresta amazônica que a
permeia e rodeia, de clima únido (95% em média) e quente (temperatura de 30 a
36 graus), afetou. A passagem da adolescência para a juventude, dos 15 aos 17
anos, afetou. A primeira namorada, afetou. As diferenças lingüísticas e
etnicas, afetou.
Por outro lado, tudo que tenho escrito desde 2004
tem sido marcado, temporalizado por esta mudança e reencontro. Não com Brasília,
nem Belém, ou São Paulo, Salvador, São Carlos e São Paulo, novamente. Nunca
haverá São Paulo, antes, Sãos Paulos...ou Sampas. Mas reencontro com a
possibilidade de encontrar mais ali, adiante, com uma vitalidade amistosa.
Este texto que escrevi em resposta a um pedido de
um amigo, foi terapeutico, libertário, mas nunca saudosista. Amo intensamente e
apaixonadamente cada idade que tenho, mas não as troco pelo que vivo de hoje em
diante.
O texto quer falar, mas a fala deve emergir desta
fé amorosa que nega o mistério em prol da intimidade, como você salientou. De
fato, quero conversar com um amigo mais jovem que morou em Belém. Mas não
consigo encontrar os amigos de meu amigo. Por exemplo, posso falar dos anos de
mestrado, pois eles começarão na lanchonete do Sesc, diante dos três
mosqueteiros. Mas em Belém, a meus amigos "matei-os por inanição e meus
inimigos estão no poder", como quase disse Cazusa.
Abraços,
Marcos Nicolini.