www. marcosnicolini .com.br
Home
Biografia
Bibliografia
Textos
Vídeos
Agenda
Contato

Neopentecostalismo: magia, mídia e consumo

 

Resumo:

A pretensão deste trabalho é tornar razoável uma descrição do neopentecostalismo brasileiro a partir da perspectiva de uma synkrasis entre religião e cultura, passado e presente, alegoria e realidade, mítica e mercado, magia e tecnologia. Este movimento de encontro que produz um conjunto de ações publicitárias de difussão de promessas de certeza de acesso ao consumo como meta, tornada crível e certa pelo uso reprodutivo massivo de magia e representação. A magia como técnica que garante a amarração dos deuses malígnos e a dessamarração das bênçãos a partir do conhecimento verdadeiro das almas que povoam o mundo. Este neopentecostalismo, o qual parece fazer convergir uma atualização das obscuras artes renascentistas de manipulação das almas do mundo, com toda a tecnologia contemporânea de difusão de imagens como experiências, visando apenas a resposta aos desejos individuais de consumo de bens, quer tangíveis, quer intangíveis. As almas do mundo, que para os neoplatônicos renascentistas representavam a presença da Inteligência divina nas coisas animadas, são, agora na verdade neopentecostal a certeza de um mundo que jaz sob o domínio demoníaco. A magia e o neopentecostalismo se sincretizam neste necessário conhecimento do mundo espiritual, assim como a tecnologia e o neopentecostalismo se sincretizam nesta necessária publicidade proselitista que visa confirmar o domínio dos deuses na profusão dos milagres e na multiplicação dos relatos. Tomando como referência primária a definição de pós-modernidade, apresentada por Maffezoli, temos a intensão de retomar brevemente às obras dos alquimistas renascentistas, mormente Agrippa e Della Porta, e sincretizá-los, na perspectiva de Guy Debord e Jean Baudrillar, aos pensamentos e ações midiáticas produzidas em meio à religiosidade neopentecostal brasileira. Assim, triangular técnicas mágicas de controle dos deuses, teleologia como consumo de bens para a satisfação dos desejos individuais e ações de difusão pública.

 

 

  1. Introdução

Tratar menos da querela (ou seria quimera?) representada pela questão da morte de Deus versus sua ressurreição, e mais da transcendência de certa presença de um deus movediço-revolucionário no interior daquilo que nos habituamos a chamar de “religião”, assim poderíamos esboçar as primeiras palavras deste trabalho. O nome “religião” já é um problema que deixamos escapar e que nos absteremos de uma significação acabada ou universal, falando dela sempre entre aspas, mesmo quando não as usarmos, por economia. Falar não de toda “religião” e tampouco de qualquer tempo e lugar, mas uma que participe, antes, seja possível perceber sua emergência na “religiosidade” ocidental, mormente em sua ebulição midiática no Brasil contemporâneo. Contudo, e ademais, não somente não nos interessa o embate, neste momento, entre morte e ressurreição de Deus, como, também, os produtos fragmentados dos “ismos religiosos”, os quais cunham distâncias entre o católico, o protestante, o pentecostal, o neopentecostal e os sem “religião”, precisas para determinadas abordagens, mas não em nossa interpretação.

Assumindo estes contornos, então, diríamos que nosso ensaio intenciona apresentar uma interpretação que seja plausível, mormente, introdutória, no tempo e espaço possível deste encontro, de um fundamento aparentado, o qual sugere a fusão do arcaico, aqui por nós tomado do Renascimento, e o contemporâneo, aqui nomeado, por força de um diálogo pretendido, de pós-moderno. Perguntamo-nos, então, se não estaríamos diante de uma trilha deixada pelo Motor Imóvel, o qual se moveu desde o passado para salvar um fenômeno de nosso presente? Deslocamento astral e perfeitamente circular que rapta uma cosmovisão passada pelo imperativo de crenças, retomando-a como fundamento invisível deste “iceberg religioso”, pleno da misteriosa alma de um mundo encantado.

Portanto, nosso caminho interpretativo intenta o dialogo sobre a exeqüibilidade de encontrar alguns fundamentos teóricos para um encantamento presente na “religiosidade” pós-moderna, isto é, aquela que se realiza por meio de uma synkrasis entre a “religião” e o tempo, ou uma sinergia entre certa técnica mágica (aqui pensada pela magia) renascentista e simulacros técnicos contemporâneos. Sobretudo, estaremos, por este ponto de vista, interpretando uma possibilidade “religiosa-transcendente”, que pela via da sinergia, oculta seus fundamentos abissais e simula uma dada presença.

 

  1. Pós-Modernidade como Sinergia.

Nosso trabalho, então, encontra-se tensionado entre a certeza do Ser, certificado pela filosofia da “religião”, e as mudanças próprias do devir, advindas do tempo. Ou estaria melhor localizado entre as mudanças próprias do Ser e a certeza do devir, representado pela religião? O fato é que referenciamos nossa interpretação na definição de pós-modernidade como “a sinergia de fenômenos arcaicos com o desenvolvimento tecnológico” (Maffesoli, 2004, pg.22), como quer Maffezoli. Ao partirmos daí, percebemos que esta referência primária não justifica uma perspectiva synkrática (uma transliteração apotuguesada). Tomando a synkrasis, aqui, como uma interpenetração mútua de antigo e contemporâneo, que mantém o caráter próprio das partes enquanto se deixa penetrar pelo outro, como seria pensável na primeira tensão de nosso trabalho. Esta referenciação, antes, determina uma tensão pela renúnica de um pretendido núcleo central das características próprias das partes, em prol de uma acomodação contextual e fluídica, ou seja, um Ser movente e um devir certo. É a certeza do novo, da mutação, do trânsito, do contigente que traz a dúvida sobre a segurança e que faz necessário determinado deus que opere sinergicamente como movimento: mover de Deus. Temos, nesta perspectiva, uma sinergia operante de um deus que se move para promover a salvação como possibilidade de acesso ao bem-estar contigencial.

 

  1. O Encantamento do Mundo.

Antes de pensarmos nos possíveis modos de produção de tal salvação, atenhamo-nos ao antigo, nas técnicas mágicas e as verdades cósmológicas que as sustentavam, visitando, com a breviedade exigida, dois autores renascentistas. Para Henrique Cornélio Agrippa, autor da “Filosofia oculta e Magia natural”, de 1533, o “Universo é triplo: elemental, celeste e intelectual, o inferior governado pelo superior, que lhe transmite o influxo de suas virtudes [...]” (Agrippa, 1992, pg. 41). Há, para aqueles filósofos-crentes-magos uma ordem cósmica por meio da qual o “Criador nos transmite sua onipotência, através dos anjos, céus, as estrelas, os elementos [...] e tudo o que foi criado para nós” (Agrippa, 1992, pg. 41). A criação, ou a natureza, é dada ao homem para que ele exerça e manifeste, por meio de um conhecimento tal, a potência divina. Há nas coisas certas virtudes que devem e podem ser conhecidas e ao serem “manipuladas”, o homem pode obter os benefícios nelas existentes. O Criador transmite ao homem uma potência para conhecer nas coisas suas virtudes, que Agrippa chama de Magia culta, a qual “abarca desde a contemplação do oculto [...] até o conhecimento de toda a natureza [...]” (Agrippa, 1992, pg. 43). Ele apresenta três ciências: “A física ensina a natureza do que há no mundo e investiga e explora suas causas, seus efeitos, os tempos, lugares, modos, acontecimentos, em seu conjunto e partes” (Agrippa, 1992, pg. 43); “a matemática nos ensina a conhecer a natureza plana e a que se extende em três dimensões, e a observar o movimento e evolução dos corpos celestes.” (Agrippa, 1992, pg. 44); “a Teologia ensina que é Deus, que é a mente, a inteligência, o anjo, o espírito, a alma, a religião, as cerimônias sagradas, os ritos, os templos, as obrigações e os mistérios sagrados[...] acerca da fé, dos milagre, do valor das palavras e das figuras [...] a dominar as leis das cerimônias [...]” (Agrippa, 1992, pg. 45). Assim, “a Magia abarca estas três ciências e nos ensina como se relacionam entre si” (Agrippa, 1992, pg. 45). Para ele saber sobre a física, a matemática e a Teologia capacita ao homem um conhecimento tal sobre as coisas que, dominando-as, podemos obter resultados profícuos.

Mais adiante Cornélio nos diz que “os Platônicos sutentam que todas as coisas do mundo inferior foram criadas a partir das idéias do mundo superior. Definem as idéias como a forma que está por cima dos corpos, almas e montes [...] Afirmam que na segunda noção inteligível, a dizer, a alma do mundo, as idéias estão em formas diferentes daquelas que pertencem ao mundo superiro [...] Sustentam igualmente que as idéias transmitem uma espécie de semente muito pequenas, que estão na matéria como se fossem sombra.” (Agrippa, 1992, pg. 74) Há, nas coisas naturais, uma semente da Alma do Mundo, a qual é algo como uma irradiação de Deus, que informa a matéria com uma determinada essência. Daí podemos deduzir que as coisas naturais são o que são por uma presença de uma semente espiritual. A existência delas representa uma virtude obtida pelo influxo celeste, ou, “a matéria segue os movimentos das almas celestes, em suas diversas formas” (Agrippa, 1992, pg. 76) pois, “as coisas mostram seus efeitos, inclinações e formas variadas não porque a matéria as disponha de modo distinto, mas como resultado de um influxo diferente.” (Agrippa, 1992, pg. 77)

Certo que, para Henrique Cornélio, é Deus quem, por influxo, transmite a forma à matéria mediante a Alma do Mundo. Há um Motor Imóvel (aristotélico, portanto e que pela alma move as coisas), Uno e Inteligente (neoplatônico, mas que tanto é responsável pelo movimento, quanto pela irradiação das idéias à matéria), que realiza este ato puro desde o Ser até o não-Ser, por trazer ordenadamente à existência o ser nas coisas, por meio da Alma do Mundo. Embora distante da tradição agostiniana, numa questão ele é fiel a Agostinho: não há possibilidade maniqueísta em sua teoria, não concebe a possibilidade do Ser digladiar com o não-Ser. Assim, diz ele, “está claro que as propriedades ocultas existentes nas coisas não foram introduzidas pela natureza dos elementos, senão através do céu, e, ocultas a nossos sentidos, dificilmente podem ser conhecidas pela razão [...] somente podemos estudá-las pela experiência e a hipótese.” (Agrippa, 1992, pg. 85) Contudo, nos diz que “as coisas guardam entre si uma relação de simpatia e antipatia. Tudo tem um contrário e temível inimigo [...]” (Agrippa, 1992, pg. 90). Estes contrários, para Henrique, se encontram nos próprios elementos e nos astros, como forma de balancear o cosmos.

No entanto, encontramos em João Batista Della Porta, de 1584, a existência de “duas sortes de Mágica; uma que é infame, infeliz, pois isto trata com maus Espíritos [...] chamada de Bruxaria [...] A outra Mágica é natural; na qual todo excelente homem sábio admite e se envolve e glorifica com grande aplauso[...]” (Della Porta, 2005, pg. 13) Também ele admite que há nas coisas a “Simpatia e a Antipatia; e que por elas podemos conhecer e encontrar as Virtudes das coisas.” (Della Porta, 2005, pg. 17) De fato o que desejamos pontuar não é o uso que estes homens pretendiam dar à Magia, mas, sobre a crença de então sobre a existência de um mundo espiritual, caso possamos chamar assim, que regia o mundo natural pela presença de uma Alma do Mundo doadora de Virtudes, e no caso da Bruxaria, de Não-Virtudes. A manipulação, ou, experimentações com as coisas naturais visavam controlar estas sementes da Alma do Mundo a fim de obter o resultado profícuo de suas Virtudes. Um saber experimental das coisas, afim de conhecer a alma que a movimenta, visando controlá-la para obter algo vantajoso. Como sujere Ersnt Cassirer, há uma ciência e uma técnica embrionária presente nestes pensadores. Ambos os textos são receitas de controle das coisas naturais que representam coisas espirituais, isto é, conhecimento sobre o controle das almas do mundo a fim de produzir um bem-estar ao homem. Este neo-platonismo renascentista, ainda que não maniqueísta, encanta o mundo com miríades de almas e por certa técnica pretende obter delas suas Virtudes.

A Reforma Protestante, numa leitura webberiana rápida, embora seja um contra-ponto a este pensamento Renascentista e promova certo desencantamento do mundo, também mantém, por uma revisão e atualização dos temas agostinianos, um diálogo estreito com o neo-platonismo: aquele que está sincretizado aos textos de Santo Agostinho, quando trata do retorno da alma a Deus, isto é, a salvação. Contudo, na Reforma Protestante havia uma desassociação entre salvação e trabalho. Enquanto aquela se dava por alguma fé salvícola, este impunha uma ascética intra-mundana visando a máxima glória de Deus. Tanto em Agostinho quanto na Reforma Protestante podemos encontrar um vetor de desencantamento, que numa intrincação complexa com a filosofia moderna (e, talvez, podemos dizer com a teologia liberal que neste diálogo emerge), redundará, na virada do século XIX para o XX, pelo menos, tanto no pensamento abissal de Nietzsche, quanto no fundamentalismo evangélico. De um dada perspectiva poderíamos dizer que a Modernidade destrinçará este organismo Renascentista, deixando apenas sua roupagem exterior, antes, seu fantasma, ou holograma para sermos mais atuais.

 

  1. Sociedade de Consumo Espetacular

Permitamo-nos, então, perfazer, em um único movimento como nos sugere Maffezoli, o trânsito do arcaico ao novo: do Renascimento à Sociedade do Consumo e do Espetáculo. Ainda na presença de Agrippa e Della Porta, ajuntemo-nos a Baudrillard e Debord. Para Jean Baudrillar a Sociedade de Consumo não se caracteriza pela suficiência, mas pela excedência, pois, “no amontoamento, há algo mais que a soma dos produtos: a evidência do excedente, a negação mágica e definitiva da rareza, a presunção materna e luxuosa da terra da promissão.” (Baudrillard, 2003, pg. 16) Para este autor nossa sociedade se encontra num ponto “em que o consumo invade toda a vida” (Baudrillard, 2003, pg 19), e os espaços de compra podem ser pensados metaforicamente como templos da vida contemporânea, entendendo que no “Super-Shopping Center, que é nosso Panteão e Pandemónio, vêm congregar-se todos os deuses ou demónios do consumo.” (Baudrillard, 2003, pg 21). Nesta metáfora religiosa do consumo, acrescenta que “também o miraculoso do consumo serve de todo um dispositivo de objetos simulacros e de sinais característicos da felicidade, esperando em seguida [...] que a felicidade ali venha poisar-se.” (Baudrillard, 2003, 21) Ademais, e isto nos parece sugestivo e cruel, “é o pensamento mágico que governa o consumo, é uma mentalidade sensível ao miraculoso que rege a vida cotidiana, é a mentalidade primitiva, no sentido em que foi definida como baseada na crença na ominipotência dos pensamentos.” (Baudrillard, 2003, pg 21).

Nesta casa mágica da qual foi espulso o espírito do sacerdote, vindo ser habitada por sete espíritos mercadológicos, é possível que estejamos diante da manutenção da estrutura encantada, ainda que nos seja vedada a sensação material: organismo holográfico. Toda uma absorção por resignificação de um edifício de representações imaginativas, ou ainda, adotando a perspectiva baudrillardiana, “a sociedade de consumo pretende ser uma Jerusalém rodeada de muralhas, rica e ameaçada – eis sua ideologia.” Mais, como salienta em nota de rodapé: “[...] uma Grande Cidade nacional e ‘afluente’, ameaçada de destruição por qualquer força hostil poderosa, do exterior ou do interior” (Baudrillard, 2003, pg. 27), ou seja, há um medo e insegurança intrínseca pela sociedade de consumo face a possibilidade de um inimigo oculto, mas real, quer como joio se mistura ao trigal, quer como bárbaros ameaçam as fronteiras da Cidade de Deus. Nesta visada diríamos que a sociedade de consumo poderia ser pensada a partir da resignificação da sociedade mágica, ou encantada, movendo-se do conceito de desencantamento para um de resignificação do encantamento.

Não apenas a resignificação da magia, como um batismo no qual o homem moderno se vê imergerso no conhecimento científico e tecnológico e que emerge para uma sociedade de consumo e espetacular. Nesta nova vida, contudo, este homem há de pagar o “preço mais elevado da sociedade de consumo” que “é o sentimento de insegurança generalizada que ela engendra.” (Baudrillard, 2003, pg 35). Em tal sociedade há a produção desenfreada promotora da redução da insegurança, a qual sugere a entrega da felicidade, mas, “em toda a parte se toca num ponto em que a dinâmica do crescimento e da abundância se mostra circular e começa a girar sobre si mesma e em que o sistema se esgota [...]” (Baudrillard, 2003, 35). Esta lógica da produção pela produção nos permite duas situações: primeira de uma escatologia resignificada em uma erótica masoquista, na qual a postergação do prazer prometido como utopia da entrega negativada; segundo, a transcendência de todo transcendente, redundando numa gravidade niilista: simulacro baudrillardiano de terceira ordem. Procuraremos abordar mais adiante estas duas situações possíveis.

Uma vez que o ponto de vista fixado por nós nos permitiu a interpretação da sociedade de consumo como um edifício holográfico mágico ocupado por espíritos resignificados, podemos, agora, procurar um ângulo complementar que nos permita observar as luzes, os holofotes, a iluminação espetacular nesta morada. Guy Debord diz que “toda a vida das sociedades nas quais reinam as modernas condições de produção se apresenta como uma imensa acumulação de espetáculos. Tudo o que era vivido diretamente tornou-se uma representação.” (Debord, 1997, 13) A representação deslizada por Debord deixa de ser um “tornar presente” aquilo que era verdadeiro, vindo ser uma técnica sênica: representação como ensenação em que ator e autor intercambiam os papéis. A própria representação é esvaziada de sua essência cósmica, tornando-se mímese sem autoria, pois, “o espetáculo não é um conjunto de imagens, mas uma relação social entre pessoas, mediada por imagens” em que “o espetáculo constitui o  modelo atual da vida dominate na sociedade.” (Debord, 1997, pg 14) Mas, tal espetáculo sem a hierarquia autor-ator, cuja representação generalizada não funda-se em uma existência verdadeira, implica numa produção do real cuja finalidade é a prórpia produção do real. Em outros termos, “a linguagem do espetáculo é constituída de sinais da produção reinante, que são ao mesmo tempo a finalidade última dessa produção” e “a realidade surge no espetéculo, e o espetáculo é o real.” (Debord, 1997, pg. 15) Por esta via podemos imaginar uma aproximação entre o espetáculo e o simulacro.

Antes, contudo, é preciso perceber a sinergia do espetáculo com o “religioso”. Assim, nos diz Debord que “o espetáculo é a reconstrução material da ilusão religiosa. A técnica espetacular não dissipou as nuvens religiosas em que os homens haviam colocado suas potencialidades, desligadas deles: ela apenas os ligou a uma base terrestre [...] O espetáculo é a realização técnica do exílio, do além, das potencialidades do homem.” (Debord, 1997, pg. 19) Tendo em vista nosso diálogo previlegiado com Agrippa e Della Porta, cabe resaltar que para Debord “o sagrado justificou o ordenamento cósmico e ontológico que correspondia aos interesses dos senhores, explicou e embelezou o que a sociedade não podia fazer. Todo poder separado foi, portanto espetacular [...] O espetáculo é um pseudo-sagrado.”  (Debord, 1997, pg 21) Portanto, podemos pensar num intercambiamento entre o “religioso” e o espetacular, e nesta sinergia pós-moderna, “pós-religiosa”, numa representação sênica espetacular do sagrado, em que a separação é simulada por uma técnica própria e propagada pelos meios próprios.

Cabe nesta passagem rápida por Debord lembrar que “o espetáculo nada mais seria que o exagero da mídia, cuja natureza, indiscutivelmente boa, visto que serve para comunicar, pode às vezes chegar a excessos.” (Debord, 197, pg. 171) E, por fim, salientar que uma dos aspectos principais da sociedade do espetáculo é o segredo generalizado, o qual “mantém-se por trás do espetáculo como complemento decisivo daquilo que mostra e, se formos ao fundo das coisas, como sua mais importante operação.” No entanto, uma vez que o fundamento da magia espetacular de consumo é uma cosmologia arcaica desenraizada pelo batismo na modernidade, o fundo da coisa “religiosa” pode ser um sem fundo abissal, do qual não se pode fixar verdades representáveis. Neste ponto podemos antever uma passagem para uma interpretação plausível da sinergia entre magia, mídia e consumo, pela via dos simulacros “religiosos”.

 

  1. Simulacro: sinergia entre cosmovisão renascentista e produção espetacular para o consumo.

Jean Baudrillard em seu Simulacro e Simulação (1991) diz que “o simulacro nunca é o que oculta a verdade – é a verdade que oculta que não existe. O simulacro é verdadeiro.” (Baudrillard, 1991, pg. 7). As categorias tradicionais de verdadeiro e falso já não se aplicam quando nossa perspectiva é a dos simulacros. O simulacro é verdadeiro à medida que não mais podemos nos referenciar no par falso-verdadeiro: quando tudo é verdadeiro, nada é verdadeiro. O simulacro é a própria transcendência, ou seja, ultrapassamento da verdade: ela já não mais se encontra ao final do caminho para certificar e justificar uma crença. O edifício de crenças não é mais sustentado por uma estrutura sólida, concreta, material, verdadeira, como aquele monumento neoplatônico Renascentista, embora ele seja preciso, pois “precisamos de um passado visível, um continuum visível, um mito de origem, que nos tranquilize sobre nossos fins” (Baudrillard, 1991, pg 18); agora, porém, este edifício é holográfico, embora verdadeiro: cremos na Alma do Mundo, cremos na matéria informada, cremos no ser, cremos nos milagres, cremos na força de vida e morte que há nas palavras.

No diapasão do consumo por excedência e no espetáculo universal, o simulacro opera na orgia, ou, “total orgia de real, de racional, de sexual, de crítica e de anticrítica, de crescimento e de crise de crescimento” (Baudrillard, 1990, pg. 9), e, porque não dizer, orgia do religioso. Uma orgia tal que ela é escatológica, nos termos interpretados acima, isto é, “só podemos agora simular a orgia da libertação [...] Isto é o estado de simulação, aquele em que só podemos repetir todas as cenas porque elas já aconteceram – real ou virtualmente [...] já que não podemos ter a esperança de realizá-las, só nos resta hiper-realizá-las numa simulação indefinida.” (Baudrillard, 1990, pg 10)

O verdadeiro é produzido e consumido espetacularmente e orgiasticamente, sem que se tenha alguma sorte de referencial quer na origem, quer no fim. Nem as ordens cósmicas que fundamentam o real, nem as teleologias escatológicas que remetem a um fim certo, são falsas; antes, não sendo verdadeiras elas representam Verdade. O “religioso” produz orgiasticamente os signos da “religião” pois estes verificam Deus. Assim, deparamo-nos com a questão: “Mas se o próprio Deus pode ser simulado, isto é, reduzir-se aos signos que o provam? Então todo o sistema perde a força de gravidade, ele próprio não é mais que um gigantesco simulacro – não irreal, nas simulacro [...]” (Baudrillard, 1991, pg. 13) Estaríamos, então, num cosmos ordenado em que Deus é produto de uma técnica espetacular, cuja salvação se daria como acesso aos bens de consumo. A produção de Deus é orgiástica pois a sociedade é de consumo, isto é, aquela que produz excedência: muitos milagres, muita prosperidade, muito show. Contudo, apenas podemos verificar Deus, ou provar Deus de modo espetacular e massivo: midiático e por proliferação, pois o mito desaparecido, as cosmologias arcáicas, são, agora, absorvidas pela mídia, pensando que “o mito, expulso do real pela violència da história, encontra refúgio no cinema.” (Baudrillard, 1991, pg. 59)

O refúgio midiático da ordem cósmica arcáica dá, entretanto, por esvaziamento, isto é, ela é dessossada, desmembrada, restando uma tênue aparência exterior holográfica que referencia sem sua essência. O pirata que varreu os mares do Caribe, agora é Jack Sparrow! A cosmologia que ordenou o mundo teológico-científico Renascentista, agora é fundamentalismo! “Nunca ficou tão claro que o conteúdo [...] é apenas o suporte fantasma da operação do próprio medium, cuja função é sempre induzir massas, produzir um fluxo humano e mental homogênio [...] Para isso é preciso que a massa dos consumidores seja equivalente ou holóloga da massa dos produtos.” (Baudrillard, 1991, pg. 89)

Assim, podemos pensar nas três categorias do simulacro: a primeira que corresponde ao imaginário da utopia, é o simulacro que visa “a restituição ou instituição ideal de uma natureza à imagem de Deus”; a segunda que corresponde a ficção científica, é o simulacro que se baseia na energia, na força e na máquina e no sistema de produção; a terceira, que já correponde ao uma transcendência do transcendente, é o simulacro da “hiper-realidade, objetivo de controle total.” (Baudrillard, 1991, pg. 151) Estas categorias, no entanto, não são excludentes ou cronológicas, mas associativas e cumulativas. Agora, da maneira como passamos pelo Renascimento, devemos pensar na produção e no marketing.

 

  1. Técnica: ... e o homem produziu Deus e difundiu sua salvação.

Enquanto o discurso mítico opera na primeira categoria dos simulacros, a técnica opera na segunda categoria dos simulacros, conforme nos propõe Baudrillard. Não há mais um Logos Verdadeiro que organiza conceitos sobre o ser a partir do Uno, apenas uma fala desreferenciada que toma o relato arcaico, em nosso caso uma cosmologia Renascentista, esquece-a mantendo apenas seu fantasma holográfica. Todo novo Apóstolo é a Verdade de Deus que representa a unção real. Esta fala é posta no palco das representações espetaculares como promessa de salvação: acesso aos bens de consumo excedentes. A passagem da marginalidade para a inclusão deve operar suportada por uma lógica maniqueísta-maquinal.

A produção da salvação requer apenas de um lado insumos da produção, uma maquinária eficiente e perfeitamente ajustada, para se produzir exatamente aquilo que se espera. Ora, a máquina é Deus, o qual sendo fiel não pode deixar de cumprir suas promessas, suas especificações técnicas. Os insumos são as disposições de obediência e submissão, e os corpos obedientes e entregues como dízimos, ofertas, trabalho voluntário, jejuns, orações, vigílias, etc. Os produtos são a inclusão no espetáculo, como se os fiéis fossem protagonistas – shows da fé - e o acesso aos bens de consumo: prosperidade, saúde, restauração, etc. Enquanto os insumos e o equipamento são praticamente standartizados, os produtos são mercadologicamente diferenciados marcados pela unicidade verdadeira e potente o suficiente para desfazer o Mal Radical: a exclusão do consumo e do espetáculo.

 

  1. O fundamento maniqueísta: entre as trevas e a luz

No quarto século da era cristã santo Agostinho não apenas deixa o maniqueísmo que por tanto tempo esteve envolvido, como torna-se um ferrenho confrontador desta crença cósmica. Nas Confissões do Bispo de Hipona podemos obter algumas informações não somente de algumas das crenças básicas dos Maniqueus, como as refutações que, aquele que viria ser um dos mais célebres pensadores cristãos de todos os tempos, apresenta. Basicamente a filosofia cristã em Agostinho e a partir de Agostinho entende um Deus Uno, que gerou Seu Filho e criou as coisas trazendo à existência o ser na matéria. O homem, como ser intermediário, existe como animal racional, trazendo em si a matéria e a razão. Esta criatura tem na vontade a possibilidade de conhecer o ser das coisas e este conhecimento absoluto, cósmico, é o conhecimento de Deus. Em contra-partida, o pecado é a inclinação da vontade para o não-ser, opondo-se à possibilidade do conhecimento do Ser. Não há neste desenho básico nenhuma condição de haver um embate cósmico entre o Bem e o Mal, entre o Ser e o não-Ser. Antes, um ascetismo para o Ser ou uma volúpia para o não-Ser. O Mal radical é uma inclinação absoluta do animal racional ao não-Ser; nem mesmo o mundo ou a carne são maus, mas apenas há uma vontade má.

Ainda que nos primeiros séculos da igreja, os deuses pagãos tenham sido tomados por demônios, estava na vontade humana inclinada para estes deuses que nada-são o problema segundo a perspectiva agostiniana. Os deuses não digladiavam para obter a alma humana, como num Fausto, antes, a inclinação a eles era uma inclinação da vontade ao não-Ser. Sabemos que o grande pecado de Agostinho foi o roubo de uma pêra!

A grande criatividade dos fundamentos religiosos espetaculares em meados do século XX foi a ressurreição dos demônios: mortos e sepultados na modernidade. A partir de uma vasta publicação de livros, revistas e apostilas, através do uso de mídia e da organização em ministérios especícicos, o tema da batalha espiritual ganha preeminência. Livros como Satanás está vivo e ativo no planeta Terra, e Porcos na sala tornam-se “best sellers”.

Contudo, este tema precisou ser ajustado a outros temas complementares a fim de dar um “corpo doutrinário” ou “teológico” auto-sustentado. Tal Verdade na pós-modernidade não mais se enraiza, ou se fundamenta, mas se sustenta organicamente. Entretanto, antes, foi necessário resignificar o maniqueísmo. É por meio do confronto entre o reino das trevas e o Reino da Luz e da possibilidade de trânsito da impiedade para a santidade que podemos perceber o ajuste entre a doutrina da batalha espiritual e da prosperidade. Duas das doutrinas-chave sobre as quais ergue-se o edifício holográfico “pós-religioso”. De um lado há um mundo pleno de almas demoníacas, que promovem o caos humano por meio de uma ordem infernal, encontrando em seu príncipe a Satanás, cuja função é matar, roubar e destruir, manifesto na pobreza, doença e vícios. De outro há o reino do Filho, princípio de toda prosperidade, saúde e restauração física, mental, sociel e financeira.

A moral e a ética, diferentemente daquela da Reforma Protestante, não mais visa a máxima glória de Deus, ou um testemunho proselitista evangelical diante dos homens, mas “não dar brechas ao diabo”. Isto é, a moral pode ser entendida como um sub-produto do maniqueísmo e da inserção do indivíduo como soldado numa batalha espiritual. Certo ascetismo, não diante dos homens, mas, diante do mundo espiritual (que como um “Big Brother” sempre a todos vê), que tanto (negativamente) impeça a ação malévola do império do Mal, quanto fidelize (positivamente) Deus aos nossos desejos.

O cosmos que outrora era habitado pelas almas do mundo, que traziam à existência o ser das coisas, agora está preenchido por demônios e toda sorte de seres das trevas. A passagem do mundo das trevas para o reino de Deus é representado espetacularmente pelo milagre de acesso ao consumo de bem-estar, cujo agente é um novo corpo sacerdotal . A certeza do favorecimento divino e do seu mover a favor do indivíduo é certificado pela presença de bens de consumo apresentado espetacularmente nos testemunhos veiculados nas igrejas. A certeza promovida pelos bens de consumo, certifica ao crente que Deus, outrora Motor Imóvel, se moveu a seu favor! Este crente que foi favorecido por Deus com o acesso à extravagância e excedência de bens, agora é exposto midiaticamente a fim de representar o favor divino a todos os demais que estão buscando esta experiência absoluta. A experiência absoluta não mais se dá com o Ser, mas com os bens. Este crente que foi fiel nos dízimos, ofertas, obediência, submissão pastoral, presença cultica, etc, é apresentado como a garantia de que o equipamento divino funciona conforme as especificações. Este crente que conduziu-se moralmente mesmo em secreto e triubfou sobre as hostes espirituais do mal. A Bíblia é o manual de Deus, o manual sobre Deus.

 

  1. Apoteose “Pós-Religião”

Enquanto a Renascença trouxe a possibilidade de um determninado conhecimento cósmico, ou cosmológico em que uma dada cosmovisão era uma experiência mística com o Absoluto, parece que a experiência possível promovida nesta configuração pós-religiosa contemporânea apenas implica num entronamento de um indivíduo religiosos exposto ao consumo espetacular. Para aqueles pensadores do século XVI as técnicas elaboradas sobre as crenças neoplatônicas de uma Alma do Mundo e suas sementes, era tanto um conhecimento sobre a infinita Virtude divina, quanto uma possibilidade de participar como agente do domínio do mundo, produzindo por inserção, o bem estar do homem em meio as coisas. É possível que o Medievo e a Renascença tenham erguido e legado ao homem um edifício que continua no presente. Mas, a imagem holográfica que remanesce deste edifício, antes de compelir o homem religioso a um estar no mundo como agente diante dos novos desafios planetários, mais produz uma realidade exclusora e excêntrica que o aparta da Terra. Este homem religioso não se vê e nem é instado ao questionamento desta ordem, mas, inclina-se voluntariamente a uma escatologia do consumo, que menos quer garantir a entrega da felicidade e mais quer garantir o funcionamento estravagante deste grande equipamento cósmico.

 

 

 

 

Bibliografia

AGRIPPA, Henrique Cornélio; Filosofia oculta, Magia natural; Madrid, Es; Aliança Editorial; 1992;

BAUDRILLARD, Jean; Transparência do Mal; Campinas, SP; Papirus, 1990;

__________________; Simulações e Simulacro; Lisboa; Relógio D’Água, 1991;

__________________; Sociedade de Consumo, A; Lisboa; Edições 70, 2003;

DEBORD, Guy; Sociedade do Espetáculo; Sociedade de Consumo, A; Rio de Janeiro; Contraponto, 1997;

DELLA PORTA, John Baptist; Natural Magic; New York, USA; Nu Vision Publications Inc., 2005

MAFFEZOLI, Michel; Notas sobre a pós-modernidade: O lugar faz o elo; Rio de Janeiro; Ed. Atlântica, 2004;